ENTREVISTA A JORGE ROLDAN *
Julho 18, 2008
O capitalismo em sua vertente mais atual, o liberalismo econômico e globalizado, é apresentado pela grande maioria dos meios de comunicação do mundo, como algo inexorável e insubstituível. Você concorda com essa premissa, ou um outro mundo é possível?
Não. O Capitalismo neoliberal não é nem insubstituível nem inexorável. O Terceiro Reich dizia que ia durar mil anos. Durou apenas doze (1933-1945). Quero acreditar que um outro mundo mais humano e mais justo é possível.
Os setores socialmente marginalizados da sociedade devem aceitar passivamente sua situação como uma designação divina, ou têm o direito de se rebelaram inclusive com o emprego de formas violentas de protesto.
Deus não designa nenhum tipo de governo. Isso é charlatanismo, oportunismo para continuar oprimindo os pobres ignorantes. Mugabe, ditador do Zimbábue, por exemplo, diz que foi Deus que lhe outorgou o poder. E os antigos reis da Europa se diziam reis pela graça de Deus. Sim, os setores socialmente marginalizados não só têm o direito de sublevar-se como têm o dever moral e cívico de dizer não e protestar, mesmo de formas violentas.
As religiões foram muitas vezes, ao longo da História, o componente principal da discórdia entre povos e das guerras entre nações. Na atualidade, os dogmas e as pregações religiosas (particularmente das religiões monoteístas, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo) contribuem para a paz mundial e a tolerância entre os homens?
As religiões nunca, ao longo da História, contribuíram para a paz. Muito pelo contrário, estimularam quando não provocaram guerras, massacres e todo tipo de atrocidades. Estou falando de fatos, que é o que me interessa. Basta folhar a História mundial. Atualmente 75% dos conflitos do Planeta são causados pelas religiões. Portanto, as religiões são sinônimo de sectarismo, intolerância, fanatismo, violência, beligerância. Como instituições visam unicamente o poder e o dinheiro. Logo, deveriam ser erradicadas com educação e cultura. Cada um que reze em sua casa e siga a sua consciência sem prender-se à ditadura dos dogmas – alguns deles abomináveis. O Estado deve ser absolutamente laico e deveria taxar, em nome da justiça e da igualdade, todas as instituições religiosas que, no fundo, não passam de corporações. É inconcebível que ainda existam Estados teocráticos como acontece em alguns paises islâmicos. A verdadeira espiritualidade não precisa em absoluto da religião. Aliás, não tem nada a ver com religião. Mesmo porque, em determinados casos, a religião se opõe à espiritualidade e à grandeza de espírito. O que deveria ser promovido, estimulado, cultuado e ensinado é a ética, a honra e a dignidade. E isso desde a escola maternal.
Os partidos chamados de esquerda (por exemplo, o Labour Party na Grã-Bretanha, o Parti Socialiste Français, o Partido Socialista Obrero Español, o Partido dos Trabalhadores, no Brasil), quando alcançam o poder político de Estado, aplicam a política social redistributiva que defendem em seus programas políticos ou desenvolvem um programa conservador com uma nova roupagem?
Hoje em dia não existe esquerda no sentido próprio da palavra. Esses partidos que você menciona estão a serviço do capitalismo neoliberal globalizado e em termos de política social redistributiva não fazem praticamente nada. Ou o que fazem é tão ínfimo que não altera o estado de injustiça social reinante. Pelo menos no caso especifico do PT brasileiro. Na prática são partidos tão conservadores quanto a direita moderada com a qual se confundem.
O Estado, nos mais diversos setores que o compõem, é uma instituição que paira acima do interesses de classe, ou está a serviço dos interesses de uma classe determinada?
O Estado é uma marionete nas mãos das grandes corporações. E segue, para manter-se, as diretrizes dessas grandes corporações. Portanto não existe Estado, mas grupos corporativos que manipulam o poder que supostamente deveria estar nas mãos do Estado. Não existem mais nações no sentido tradicional do termo. Conseqüentemente o Estado só pode estar a serviço da classe dominante. É mais do que óbvio.
A Justiça, nos mais diferentes níveis, é uma instituição que paira acima dos interesses de classe?
A Justiça, no Brasil, é como o Estado. Está a serviço dos interesses das elites. Basta abrir o jornal para confirmá-lo. Só é preso pé-de- chinelo. Os grandes bandidos respeitáveis – entenda-se os integrados na sociedade, como políticos e empresários ladrões, nunca são condenados. Além disso, a Justiça é uma instituição corrupta, caduca e decadente.
O tráfico internacional de drogas é um setor econômico que movimenta centenas de bilhões de dólares e sua atividade provoca dezenas, ou centenas de milhares de mortos anualmente. É amplamente sabido, o próprio FBI – o mais poderoso e eficiente corpo policial do mundo – reconhece que a luta contra o tráfico de drogas é uma guerra perdida. Há um setor minoritário da sociedade que defende que essa atividade seja legalizada em todas as suas fases, desde o plantio, passando pelo processamento, pela distribuição até a comercialização, o que levaria ao desaparecimento de todo o seu entorno criminoso e se tornaria uma atividade econômica como outra qualquer. Em sua opinião, isso não ocorre pela visão moralista que a sociedade confere a questão do consumo de drogas, ou porque com a legalização das drogas desapareceria toda a cadeia de corrupção policial e institucional que cerca o mundo das drogas?
A sociedade e o poder estabelecido são hipócritas, o que é normal. As drogas não são legalizadas simplesmente porque todas as instituições, incluindo políticos e governo, têm interesse em continuar ganhando bilhões com as drogas na clandestinidade. Estão todos com o rabo preso. Ou seja, em última instância, as instituições, o governo e a sociedade fomentam o crime organizado. Quanto à visão moralista, é mero pretexto, descaradamente cínico, para que a situação não seja alterada.
No filme Tempo da Inocência, de Denys Arcand, uma contundente e sarcástica crítica a sociedade moderna, há uma seqüência onde três personagens se escondem para fumar, pois se forem descobertos pela patrulha antitabagista estarão sujeitos a perder o emprego. Essa onda surgida nos Estados Unidos e que se espalha pelo mundo globalizado de restringir cada vez mais o uso do cigarro, parte de uma genuína campanha de defesa da saúde pública, ou seria uma manifestação moralista e discriminatória de restrição do direito individual do cidadão?
Essa onda de antitabagismo importada do EUA, tão na moda, é, além de ridícula, hipócrita (com perdão pela repetição da palavra) – e quero deixar claro que eu não sou fumante. É tapar o sol com a peneira. O usuário de carro polui infinitamente mais do que o fumante. Por que os EUA não se preocupam um pouco mais com a poluição ambiental diminuindo a emissão de gazes? Por que não assinam o Tratado de Kyoto? Mas isso não interessa ao lucro das grandes corporações, claro.
A influência da cultura norte-americana é cada vez mais presente e notória na cultura brasileira. Isso se reflete nos mais diferentes aspectos, na forma de se vestir, na moda e no comportamento feminino, na música, no cinema, no linguajar, na adoção de termos e expressões lingüísticas e um longo etcétera. Reagir contra essa avassaladora tendência não seria uma posição conservadora, e, portanto, reacionária?
Reagir contra uma imposição fascista não é uma atitude conservadora ou reacionária. Muito pelo contrário: é uma posição de recusa à alienação. Nós não somos macacos para viver imitando o que vem dos EUA. Essa influência norte-americana descaracteriza a cultura brasileira e dilui a sua identidade. Além do mais, essa cultura de massa que nos é imposta é grotesca, vulgar, de um mau gosto insuportável. É coisa de débil mental. Um verdadeiro lixo. Uma merda.
A criação artística em suas mais diferentes formas deve imiscuir-se nas questões políticas e sociais que afligem o ser humano, ou ao contrário, deve manter-se isenta dessas questões?
A arte é, antes de tudo, livre. E, como arte, pode se dar ao luxo de pairar acima de absolutamente tudo, incluindo o Bem e o Mal – quando se trata da grande Arte. Mas eu, pessoalmente, não consigo conceber um artista, principalmente um escritor, alienado política e socialmente falando. O artista engajado pode não refletir a sua consciência político-social em sua obra – embora isso me pareça um tanto improvável –, mas tem de ter na vida um posicionamento definido a favor da integração e da justiça sociais. Esse papo de ser apolítico se não é tendencioso é francamente imbecil. Pois todo ato é político. Logo, o ato de se dizer apolítico já é em si um ato eminentemente político.
Os filmes sociais de Ken Loach, irmãos Dardenne, Robert Guédiguian, Michael Moore, não seriam um cinema démodé, ultrapassado?
Loach, Guédiguian, os irmãos Dardenne e Michael Moore fazem um trabalho consciente, de denúncia e vão ficar na história do Cinema. Denunciar jamais será um ato ultrapassado. O que vai ser logo esquecido é o lixinho consumível que vem de Hollywood. E é evidente que quando digo Hollywood não me refiro ao bom cinema independente norte-americano que admiro muito e que, salvo raras exceções, concorre ao Oscar. É o caso de importantes diretores que começaram – ou que só fizeram – cinema independente como John Cassavetes, Abel Ferrara, John Thomas Anderson, Hal Hartley, Todd Solondz, os irmãos Coen, Tamara Jenkins (com seu ótimo A Família Savage).
Existe uma tendência, particularmente no cinema brasileiro, de realizar filmes que apresentam uma visão extremamente negativa da sociedade. Filmes como Cidade de Deus, Cidade dos Homens, Contra Todos, Tropa de Elite têm em comum apresentarem uma situação social explosiva e insustentável e personagens nada afirmativos. Isso não seria o reverso dos filmes cor-de-rosa, “happy end” hollywoodianos. Ou seja, não seria a outra face de uma visão humana e social maniqueísta?
Sim. De certo modo esses filmes brasileiros se opõem aos filmes hollywoodianos e não só aos happy end, mas a todos aqueles que dão tudo devidamente mastigado ao espectador para que ele não tenha que fazer o mínimo esforço para pensar. Em suma, cheios de clichês e concessões comerciais. Ou seja, caro público consuma e esqueça. Ou, em termos mais prosaicos, coma e cague. No entanto, no caso de Tropa de Elite, obra superestimada e comercial que não justifica em absoluto o Urso de Ouro do Festival de Berlim, trata-se de um filme totalmente hollywoodiano, tanto em sua concepção e condução da narrativa como na apologia da violência gratuita que tanto se critica no cinema de Hollywood. E um bom diretor não tem necessidade de apelar para a violência visual quando quer denunciar a violência, o que é uma forma de concessão ao gosto do público. Aí entra uma questão de talento. Se for para opor uma visão diferente à vertente do cinema main stream norte-americano, eu prefiro filmes como Amarelo Manga, O Cheiro do Ralo, O Céu de Suely, A Casa de Alice e O Ano em Que meus Pais Saíram de Férias ou os últimos trabalhos de Bressane.
* Jorge Roldan é curador e produtor de mostras cinematográficas
05-07-08
ENTREVISTA AO JORNALISTA RODRIGO DE MORAES
Julho 18, 2008
O que é viver?
Escrever.
E morrer?
Não escrever.
Qual é seu conceito de viver e existir?
Todos existem. Poucos vivem.
O que é então viver, além de escrever?
Ir aos extremos.
O que você admira no ser humano?
A generosidade. O desprendimento. A nobreza. A dignidade. A magnanimidade. O cosmopolitismo. A ousadia. A capacidade que ele tem de se reerguer depois da derrota.
O que você não suporta no ser humano?
A cobiça. A avareza. A mesquinhez. A hipocrisia. A mentira. O provincianismo. O conservadorismo. O chauvinismo. E o fanatismo decorrente da ignorância.
Você, cético, ainda acredita em algo?
Se continuo escrevendo é porque acredito em algo. Escrever é um ato de fé e de resistência.
O que é essencial para ser escritor?
Perseverança e disciplina. E entrega absoluta.
Mesmo para um libertário instintivo como você?
Sem dúvida.
Em que você deixou de acreditar?
Nunca acreditei nas instituições.
David Haize, seu alter ego, personagem de todos os seus romances, é um escritor sempre viajando. A viagem, claro, como metáfora da busca. Aonde leva essa busca?
A lugar nenhum.
É o absurdo então?
Não totalmente. A própria busca em si já é uma meta. A dinâmica da busca gera uma razão de viver.
Mas David Haize não parece procurar algo superior à vida?
David Haize talvez. Não eu. Às vezes os leitores me confundem com ele.
Você já afirmou que a arte é superior à vida. Em que sentido?
Na medida em que a arte transfigura e eleva a vida. E eu me transformo em um homem melhor graças a esses escritores, cineastas, músicos e pintores que tornam a minha vida mais rica, intensa e bela.
E a eternidade, que você nega?
Não sei o que é a eternidade. Eu não a sinto. Somos muito ínfimos para termos uma noção do que é eternidade. Além do mais o Planeta pode acabar, de um modo ou de outro, e aí adeus eternidade. Posso, eventualmente, encará-la como uma sucessão de imutáveis (sob o ponto de vista humano), de ciclos. Ou seja, o acumulo constante de perenidades.
E o mito?
É necessário. Mesmo que seja um objeto. Ainda mais agora que o Homem sente a falta de Deus.
E Deus?
Está fora de moda. Pelo menos no Ocidente, onde foi substituído pelo pragmatismo neoliberal.
Há um termo que está sempre presente em seus poemas: o silêncio. O que seria esse silêncio tão crucial para você?
É o estagio de limpidez, transparência e abstração que antecede o patamar mais elevado, o absoluto, com o qual se conecta pelo elo selvagem (no sentido de estado bruto, puro) perdido.
E o que seria o absoluto ao qual, aliás, você também se refere constantemente em sua poesia?
Uma alta dimensão que eventualmente pode ser atingida pelo homem superior por meio do culto da ética, do discernimento, do despojamento total e do não-querer na sua acepção mais profunda. Uma maneira de elevar-se ao mais alto grau ao qual pode aspirar o ser humano. É o ápice da integração com o Todo.
Isso não seria a busca de Deus?
Não sei o que é Deus. O que posso afirmar é que a espiritualidade não está necessariamente relacionada com Deus. E menos ainda com a religião que é uma codificação ou mero compêndio de preceitos, alguns dos quais absolutamente questionáveis, como qualquer pessoa lúcida pode constatar lendo a Bíblia ou o Alcorão, por exemplo.
Há algo de Nietsche e de budismo no que você está expondo?
Pode ser. Mas é algo intrinsecamente meu. Algo que brota naturalmente.
E do misticismo selvagem de Rimbaud?
Sim, é provável. No sentido de reintegração ancestral.
Além de suas “obsessões” como a busca, o absoluto, o sexo, a solidão e o exílio do qual você já falou tanto) existe um aspecto comum em todos os seus romances. Por que sempre encontramos personagens deficientes físicos ou mentais?
Porque sinto uma profunda compaixão pelos deficientes físicos e mentais e pelos pais que cuidam deles. Assim como tenho o mesmo sentimento pelos imigrantes, pelos perdedores, pelos excluídos de uma forma ou de outra.
Você parece afirmar que o diferente é superior. Por quê?
Por uma questão de lógica: a sobrevivência do diferente.
E os não-diferentes, ou seja, a maioria?
A maioria é burra, grossa e vulgar.
Qual é o significado do não-querer que também está presente com assiduidade em suas obras?
Há o não-querer metafísico que procuro para me desintegrar e reintegrar novamente com o Todo. E há o direito que tenho como cidadão e como ser humano de não querer nada. Mesmo que essa atitude ofenda os outros. Por que deveria eu estar sempre querendo o que os outros querem, se os valores dos outros me deixam absolutamente indiferente? É um direito que me assiste de não querer seguir o rebanho. Eu escolhi um caminho: aquele que se coaduna com o meu modo de pensar e sentir. E deixo claro que não tenho nenhuma vocação messiânica. Sou um animal solitário.
Isso teria algo a ver com a sociedade de consumo?
Sem dúvida. E com a ditadura da globalização. E com a competição que é algo perverso e degradante.
Por que a competição é algo perverso e degradante?
Porque estimula e promove a cobiça que é uma aberração.
Se você tivesse tido que escolher outra profissão, qual seria?
Talvez a de cineasta. Mas fico com a de escritor. Por um motivo muito simples: sou arredio e não gosto de trabalhar em equipe. Se fosse cineasta seria um “ditador” como Visconti, Fellini, Kubrick ou Lars von Trier. Eu gosto de trabalhar sozinho sem ter que me preocupar com outra coisa a não ser o meu trabalho. Nesse sentido não gosto de depender de ninguém e não quero que ninguém dependa da criação de minha obra. Posso me dar ao luxo de não fazer absolutamente nenhuma concessão quando escrevo. Essa liberdade de criação sem limites me deixa muito feliz. Sou, por exemplo, o dono absoluto do destino dos meus personagens. Sinto muito orgulho de ser um profissional das letras. O que não significa que esteja satisfeito com a minha literatura.
Como se faz um escritor?
Certamente não na faculdade – a faculdade só forma técnicos em literatura. E nem na vida – uma vida rica e intensa não transforma em escritor. O escritor já nasce feito. Como qualquer outro verdadeiro artista. Claro que sem garra, trabalho, disciplina, persistência e, sobretudo, paixão o escritor nunca será capaz de desenvolver o seu talento nato. Isso implica ler e estudar um livro para cada página escrita. E reescrever essa página cem vezes se for necessário. Além de livros, a leitura de boas críticas literárias é imprescindível. E, como dizia Rilke em relação à poesia, estar disposto a morrer pela literatura. Morrer mesmo. Como quem morre pela Revolução ou por Deus. O ser tomado pelo êxtase da Arte entende que a Arte é mais importante do que a sua própria vida. No caso, os extremos são necessários. Mesmo que seja obrigatório atravessar o inferno para atingir o paraíso da criação literária. A Arte não conhece a ponderação. A Arte não é moderada. A Arte não é prudente. A Arte é um impulso selvagem que deve ser intelectualmente domando. Artisticamente, os empreendimentos mornos não levam a lugar nenhum.
21-06-08
Cinco poemas sem titulo de As Horas Ancestrais
Maio 17, 2008
(do livro O Deslizar das Horas)
Talvez antes do Tempo
nos porões dos séculos
ou nos subterrâneos dos milênios
onde o sonho precede o sono uterino
ali onde a audácia gera a pergunta
refazer o caminho nunca percorrido
para desembocar no anterior
que sucede antes mesmo de anteceder
e voltar à plenitude do Nada
na serenidade placentária das centúrias
*
Palavra ferida que corta
navalha cega que sujo fere
o existir
quando o falo suplanta o verbo
na urgência do mutismo
da vida
longe da supremacia do silêncio
de amar
*
Submersa memória
posterior e anterior
tal o mito
consciência vagando
em espaços inominados do Tempo
em espaços mentais que des-situam o Tempo
entre o sopro do fato
e a lenda do reflexo
*
Ousar subverter o inominável
entre a memória do vento e a prece da terra
filtrando a impermanência
pelas frestas do silêncio
ferido
de tanto ecoar o insustentável impermanente
fugaz intrepidez do não-dito
envergando a palavra galharda
que decepa a hidra das convenções
e fulmina a impostura das verdades eternas
antes de elas emascularem a vertigem
de ser
*
Com a alma lívida
recolher os escombros do dia
e sobre o fragor da paixão
assentar o silêncio da poesia
e sem um pio
nem desvio
libertar o perdão
A Solidão da Liberdade
Novembro 21, 2007
E um dia de tão livre
desejarás a morte
para iludir o não-pertencer
e na suprema arrogância do não-querer
ouvirás o silvo distante do trem do adeus
ecoando gestos de ternura omitidos
no quarto de despejo das ausências
e de desejo se gretará a carne
à espera das chuvas de antanho
nos ocos sem fundo do não-dito
e como quem dobra os sinos
dobrarás as asas
de seda e violência
tal mortalha usada
voltando ao baú das ilusões mutiladas
e ainda estremecido pelo rufar do furor ferido de existir
fragor
ardor antes do bolor
colocarás a lápide do mutismo
sobre o estrebuchar da existência
já cacos de aspirações
girando no sideral da incompletude
folhas de outono sob o mistral da finitude
as lâminas do silêncio
ungindo as fissuras da alma
recolhida como feto entre deuses destronados
no deserto do verbo
exílio no tempo
na desolação de seu próprio infinito
alma desterrada
sem destino
sem a luz do sangue
sem redenção
sedenta da prisão do amor
do amor não tido
do amor não sido
do amor não exaurido
do amor não vivido
R.Roldan-Roldan 13-04-06
SOLIDÃO
Novembro 21, 2007
Solidão
incisivos cravados na fome de ser amado
sorriso aguado e olhos de peru degolado
shador branco
e unhas negras de terra cavada
para a fossa dos mal-amados
lábios vermelhos de sangue sugado
puta sacana que me engana
nas miragens do deserto do amor
inútil clamor de virtual ternura
Solidão
carente de imaginação
ensaiando farsas periódicas
de sonhos erigidos com os tijolos do querer
tolos milagres da paixão em noites de exaustão
no lusco-fusco do quero-não-quero
das relações voltadas para o leito light
do não compromisso
manipulando a fragilidade do animal apaixonado
e transformando o desejo em pequenas transgressões
com gosto ilusório de vida
Solidão
tetas e bunda de silicone
boceta portátil ou pinto de borracha
e sentimentos de PVC
fodendo sem deixar foder aqueles que de ti fogem
em busca de uma pobre foda
foda virtual de patético Peter Pan maduro
travestida de amor
estética chula e gestos bastardos
grotesca Soledade de olhos inchados de insônia
bafo de jacaré empachado
e lassidão amanhecida de bêbado mijado
Solidão
cocaína crack maconha fumo álcool
e noites encharcadas de nadas cintilando no vazio
o amor entre pele e cueca
num sonho daliano
de punhetas espremidas pelos filmes pornôs
derramadas em virtuais crateras lunares
de ausência e mutismo
nos dédalos do não-ser
corpo tocado por outro corpo
olhos que não refletem o mar
de amar do outro
mal-amado
Solidão
asas amputas
vôo suspenso
sonho castrado
vastidão extirpada
Solitude cunhada nos limites
flutuando nos estilhaços da fragmentação
tão indolente que não consegue ser uma
em permanente apenas estar
sem ser da origem ao destino
do equilíbrio ao extremo
um ser
de amém e revolta
entre o silêncio e o estrondo
de viver
O Amor Partido
Agosto 13, 2007
E partes amor
e parte-se o amar
metade vagando pelo sem-destino infinito
à deriva preenchendo o vazio com palavras
imaginárias não-ditas imaginadas
apenas escritas
e entrincheirado na medina do meu alvor
entre séculos de pedra onde a luz mal alumia
os meandros dos meus sentimentos
indago
que viste em meus extremos
para ousar acariciá-los
e logo deixá-los à beira da falésia
o gláuco tentando atraindo
como bálsamo da solidão
lá embaixo
onde jazem as panóplias enferrujadas da paixão?
que vislumbraste no gladiador da identidade?
no paladino dos mal-amados?
no peregrino sem hadj?
o tropel de existir
entre o furor da carne e o perdão do silêncio?
ah obsolescência da ternura embargada
paludes submergindo o sublime
ah gândaras implorando o galopar do sangue
anoitecido quando a lua uiva sua solitude lupina
nos ergs hamadas regs da soledade maghrebina
estiam-se meus impulsos
calcinados pelo harmattan
quando rufa o tantã do meu coração
poderosa bateria anunciando tua deserção
para lurar-te nas casernas protetoras das convenções
e vais-te embora amor
claudicante amém
violando a liturgia do desejo
na contenção segura de estar antes de ser
longe dos arames farpados das fronteiras
inseguras distantes perigosas fronteiras dos extremos
ali onde explode a dinamite do existir
ali onde as vísceras dialogam com as sílfides
ali onde o toque abissal se faz pureza
e o tocar que me justifica
o tocar razão de ser
bálano em estado de graça
se faz urgência urro clemência
de morte redimida
nos interstícios das galas lúbricas da paixão
onde meu corpo
que o silêncio torna impermeável à vaidade
aguarda a mão
a sagrada mão que afasta a desolação da orfandade
R.Roldan-Roldan
27/04/06
CONSCIÊNCIA
Agosto 13, 2007
Porque não sou puta fascista lacaio
omisso bípede orgasmado pelo consumo e amo o Planeta
revolto-me e digo
NÃO à globalização
venha
veja o condor nas alturas desenhar a liberdade
e trançar os raios de
sol faço a minha prece
acaricie o clitóris da Terra que dilata suas rugas
de argila alguém me fez
pois o Silêncio me chama
Porque não sou filho da puta mercenário
imediatista oportunista nem sórdido
levanto-me e digo
NÃO à globalização
venha
escute o bambu confidenciar seu segredo ao
remanso deixo o arrepio da água me saber ser
e transmigro a fome ancestral pelas sendas do não-querer
estar sem ser
pois do Silêncio de origem sou
Porque cabal múltiplo diverso plural Homem sou livre e democrático
e de irmandade e não putandade teço a minha relação
insurjo-me e digo
NÃO à globalização
venha
sinta os passos descalços rastreando o diálogo das carmelitas
no ocaso chovido da praia nua
onde a vaga na areia branca deposita
a ondulante alma milenar do pescador
pois do Silêncio venho
Porque brasileiro sou consciente e íntegro e
há cinco séculos espero a independência soberania e dignidade do País
rebelo-me e digo
NÃO à globalização
venha
ouça o atávico fragor dos séculos rolando entre cacos de trovão
o nome que não tenho
e a dama-da-noite cravar a fragrância metálica dos
milênios trago o faro de pertencer
pois ao Silêncio me encaminho
Porque poeta sou da alma aos colhões em perene estado de prenhez
e não cevado frango corporativo ou anho do diabo
sublevo-me e digo
NÃO à globalização
venha
deguste o sabor telúrico das visões colorindo a mente
prados celestes a generosar ser antes de ter
eiras de lua derramando sua sinfonia pastoral
pelas trilhas litúrgicas do perceber
pois Silêncio volto a ser
Porque com altivez e furor escritor sou
e não fantoche padronizado massificado imbecilizado e putificado
radicalizo e digo
NÃO à globalização
venha
de pólvora e pregos é feito meu poema
de Vento e Fogo meu vôo-paixão
crie vergonha leitor
abrace-o
e na falta de poema uma granada é mais eficaz
pois Silêncio já sou
15-12-2005
Desencanto
Outubro 8, 2006
Clique abaixo para ouvir a leitura de David Haize.
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Desencanto (do livro Matriochka)
Tão fundo azul
profundo Silêncio
frescor
avesso do presente silêncio
sujo de calor
de hóstia e foice
de perdão perdido
quando o existir agride o viver
inerte entre as pregas da solidão
como inseto aguardando a morte
madrugada adentro
sob o piscar publicitário do néon
do nada
noite tesa de nadas mergulhados em nadas
o estigma do vôo
sangrando
incandescência fulgor flamância
de antiga magnificência
dor langor
como se os deuses tivessem permitido
sangrar o mutismo de um deus rebelde
exilado
até locupletar o tacho de ciscos de palavras
resquícios da longa jornada
o coração endurecido
o pó cobrindo a pele
a lágrima secando
nos subúrbios da melancolia
onde deságuam as cavalgadas da mente
tísicas
no xadrez do dia-a-dia
e o amém
resignação ou prostituição
é pura hipocrisia
bajulando o Tempo que fia
fia guirlandas de esperança surrada
entre partida e chegada
onde jaz o sonho
amorfo flácido envelhecido
no sofá
sem função
frente à televisão
arrotando o asco mal digerido
sonho obeso de fumo e álcool
para amenizar a queda do
absoluto
e a máscara incolor da inapetência
transpirando morte em pingos domésticos
ali onde o âmago empilha os frutos azedos da
indecisão
e as epifanias liquefeitas escorrem pelos buracos da
prudência
e os ímpetos castrados pela
razão
noite suja de imagens pardas
calar cavar calor
o ventilador
espalhando odor de ranço suor e morte
a varrer a sucata
dos vértices cumes ápices píncaros
orgasmos
ressecados no olvido
ou enferrujados pela maresia do cotidiano
falos jamais lambidos pelo oceano
recolhidos no prepúcio da (falsa) humildade
entre vestes de furor e desejo
celebrando no sótão o festim das traças
túnica austera do não-viver
equivocada
como prece encomendada
implorando gaivotas fincadas em prados
ou papoulas sobrevoando o mar
de amar
no exílio
entre brumas lassas
e paisagens ébrias
de ser o não-ser
palavras caladas
matadas
sem memória
dependuradas nos arames farpados das fronteiras
como pedaços de pele de evadidos
arrancados na fuga
deixando no outro lado da divisa
o alforje da alma
com seu feto fardo fetiche ou fé
apodrecer
sem virar o diamante da ira
sem luz de ser
o verso que contém
ontológico
o ser
no claustro
entre pedra e vento
nas desoladas salinas do despojamento
quando até a verdade soa vaidade
viagem dos que ousam
voar
malditos
sedentos de elos perdidos
famintos de graças ancestrais
em resplandecências submersos
tornados essência
ricos enfim do grande Nada
esplendor da reintegração
absoluto branco no branco
do vasto Silêncio
tão longe
(ou tão perto) de Jerusalém
Carta de um Admirador
Outubro 8, 2006
Clique abaixo para ouvir a leitura de David Haize.
Carta de um Admirador (do livro Matriochka)
Escritor eu não estou disposto a ponderar pois não tenho nada a perder e vomito o que penso que é o que sinto certo p é isso aí comemos merda pela santa graça do capitalismo fast food universal e enfiem no cu a ditadura da cultura de massa ou monocultura da alienação seus reaças isso é coisa de fascistas ou de imbecis aliás uma coisa está sempre atrelada à outra eliminar o pluralismo cultural é um atentado contra as leis da natureza e contra essa padronização cultural tem de se apelar para tudo até para a violência e eu em princípio sou contra a violência a padronização é um crime cultural contra a humanidade e a mídia honrada puta do sistema atrofia a mente da juventude a famigerada Globo que o diga a Globo além de tendenciosa é macarthista e fascista e sonega informações mas as outras emissoras também são iguais portanto bombas na mídia Escritor bombas na mídia sabe Escritor eu fico muito excitado quando estou bravo há pouco mencionei o Congresso ah não dá para permanecer quieto calmo mas que pouca vergonha este País onde os parlamentares se auto-aumentam os salários a bel-prazer que cinismo que obscenidade que descaro que falta de ética que banditismo que esculhambação que putaria que putice que aberração manada de porcos vigaristas e chamam essa merda de democracia p que porra de democracia filha da puta é essa p a democracia da máfia parlamentar p a democracia da perversão social p a Revolução Francesa de 1789 ainda não chegou ao Brasil perdão a Usabrás isso é algo que deve ser atacado e destruído algo que deve ser sistematicamente eliminado para o bem de todos a Nação não precisa desse tipo de escroques sanguessugas parasitas e esses ladrões ainda por cima se consideram cidadãos acima de qualquer suspeita bombas neles bombas nesse lixo social aliás os parlamentares são tão úteis que ficam falando do exame de próstata durante as reuniões isso sem tocar na imunidade desses pilantras que deve ser totalmente erradicada pronto já estou com a macaca e agora não escapa nada nada mesmo nenhuma instituição está imune a minha ira como por exemplo as religiões que nojo de religiões que chute no saco esses neguinhos que teimam em socar impertinentemente um sentido entre aspas à vida caralho a vida é o que é vida ou seja existência logo é absurda sim mas merece a pena ser vivida como dizia Camus e eu acho que comer e trepar é uma glória e quando a coisa acaba é uma merda portanto enfiem os deuses e seus milagres e a pós-vida no cu eu acredito mesmo é na existência que mania de querer recompensa em tudo isso é típico de um estágio muito primário é a mesma coisa que o pragmatismo que é pura boçalidade de quem está num nível mental e espiritual muito baixo a vida em si já é uma recompensa um milagre e é por isso que amo tanto meus pais mesmo depois de mortos simplesmente porque eles foderam e me deram a vida quer coisa mais bela do que isso p que caralhice de recompensa sempre recompensa como na putaria do capitalismo sempre recompensa neste ou no outro mundo que outro mundo p sim parece coisa de neoliberalismo famigerado pela santa buceta e quero que conste que não digo boceta pela santa buceta de Afrodite em honra a você gostou p essa história de recompensa é coisa de gentinha muito baixa Nietzsche que o diga coisa fominha miserável mesquinha de gente que não evoluiu cobiça do capitalismo a verdadeira superioridade consiste em amar a vida sem acreditar em nada e sem esperar nada você não acha Escritor p aliás gostou deste fragmento de discurso do teu imitador admirador p fala que sim Escritor seja generoso comigo pois ser generoso para com os outros é a coisa mais bonita que o ser humano pode dar ao seu semelhante Madre Teresa de Calcutá era generosa essa sim é que era generosa caralho beijaria o chão que ela pisou neste caso até aceito a religião nada contra a religião em si eu acho que Buda Zoroastro Maomé Cristo e Confúcio foram grandes homens mas esses fundamentalistas filhos da puta lazarentos sejam muçulmanos judeus ou cristãos deus que me perdoe em particular os fundamentalistas islâmicos que regrediram à barbárie e ao obscurantismo medieval e os babacas-bomba pensam que depois de mortos vão direitinho para o paraíso à beira do rio Khantar não longe da fonte Selsebil com uma porrada de virgens para meter sem parar como se o paraíso existisse cambada de ignorantes tá louco eu hein os fundamentalistas são nazistas em potencial e devem ser postos fora da lei odeio religião embora nada tenha contra qualquer religião pois eu leio o Alcorão e a Bíblia e o Torá e o Dhammapada e o Avesta na verdade abomino as instituições que acho que devem ser destruídas sistematicamente vejam esses salafrários dos ministros das seitas pentecostais ladrões filhos da puta escoria da sociedade que se aproveitam da boa fé do povo para explorá-lo sim ladrões descarados mas o culpado é o governo retrógrada e mais realista que o rei o governo que só sabe criar impostos para os assalariados e que não taxa esses canalhas o governo conivente que não cobra impostos da industria da religião odeio religião mas não tenho a priori nada contra as religiões sabe Escritor por falar em islamitas religião e o caralho a quatro me lembrei do nosso verdadeiro presidente o cretino megalomaníaco do Bush e sabe de uma coisa p é o filho da puta do Bush que está incentivando e espalhando o terrorismo pelo mundo todo pois depois da invasão do Iraque a coisa piorou aliás o atentado do 11 de setembro caiu do céu para o presidente ianque que também é fundamentalista era justamente o pretexto que ele tanto esperava e olha lá eu não ficaria surpreso se se descobrisse que seus capangas estavam por trás do ataque ao WTC e assim ele mergulhou um país na guerra civil depois de tê-lo destruído sim Bush invadiu e arrasou o Iraque e provocou uma guerra civil Saddam Hussein é um filho da puta como todo ditador aliás todo ditador deveria ser literalmente castrado mas Saddam Hussein não fez nada contra os EUA logo Bush deve ser julgado como criminoso de guerra e os servos da UE Blair Berlusconi e o franquista Aznar lambendo o cu do grande cacique do império norte-americano que é o maior perigo para a paz mundial vão chupar fridósia de égua sifilítica ou rimbósio de garanhão aidético e agora engulam os atentados na Europa como conseqüência e por falar de ataques e das torres gêmeas destruídas me diga Escritor que importância pode ter o atentado do 11 de setembro perante a dimensão da tragédia de Hiroshima e Nagasaki p o que são 3.000 mortes comparadas com as 237.062 mortes causadas pelas bombas atômicas p os Estados Unidos são o país que mais seres humanos assassinou em apenas segundos 90.000 vítimas sim 90.000 mortos em apenas segundos e qual é a diferença entre esse ato atroz e aqueles cometidos por Hitler Stalin ou Pol Pot p nenhuma diferença nenhuma shame on you USA os Estados Unidos não têm absolutamente nenhuma autoridade moral para julgar qualquer povo ou governo seja qual for pois os Estados Unidos além de roubarem descaradamente assassinam abertamente que moral têm os EUA para impedir que o Irã e a Coréia do Norte tenham armas nucleares p nenhuma os EUA são um arsenal os EUA nem assinaram o tratado de Kyoto porque são eles que mais poluem o Planeta nem o tratado de Haia o que significa dois pesos e duas medidas portanto os EUA não merecem nenhum respeito e ainda se outorgam o pretensioso título de paladinos da liberdade e da democracia que porra de liberdade p que porra de democracia p bombas nos pretensos salvadores do Planeta sim Escritor 60 anos já se passaram do ataque a Hiroshima e Nagasaki 6 de agosto de 1945 e ainda por cima os EUA têm a indecência de não admitir a culpa do holocausto cometido no Japão rezem pois por nós deuses perdidos rezem por nós miseráveis humanos mas chega Escritor chega
Máximas (do livro “Matriochka”)
Outubro 4, 2006
Clique abaixo para ouvir a leitura de David Haize.
Máximas (do livro “Matriochka”)
A alma alcança o absoluto quando se torna silêncio.
A alma não existiria sem o corpo.
Absolutamente nenhuma ideologia justifica a fome de um ser humano.
A consciência está acima da lei.
A essência cessa de sê-lo quando é exteriorizada.
A ética em si solapa o poder.
A grandeza inicia-se pelo despojamento material.
A hipocrisia e os eufemismos compartilham cama e mesa.
A humildade só se justifica perante os grandes de alma.
A liberdade não existe com o ventre vazio.
A política enobrece a arte quando esta é política contra a política vigente.
A ponderação não existe na arte.
A preservação da identidade é o princípio fundamental da dignidade.
A raiz isenta o princípio de qualquer imposto.
A rebeldia é sempre mais nobre que a aceitação.
Capital à ética: perdão.
De concessão em concessão chegamos à abjeção.
Deus é abstração como qualquer paixão.
Deus só pode existir no silêncio absoluto
O absoluto requer paixão e desprezo.
O amor translúcido dura mais que o transparente.
O artista só é artista quando se torna absolutamente livre.
O escolher é superior à escolha.
O espírito elevado não se atém ao pragmatismo.
O homem com fome tem direitos que aquele que come não tem.
O infinito cabe num segundo de amor.
O pragmatismo é a característica predominante do ser inferior.
O nada pode conter o todo.
O ser superior escolhe, não é escolhido.
O ser superior não se macula com as convenções.
O silêncio deixa de existir quando é explicado.
O silêncio se confunde com a identidade da essência.
Ousar é ser, o resto é apenas estar.
Ouse despir a sua alma antes que ela se vista de meretriz.
Pouco resta ao livre-arbítrio, descontados circunstâncias e genes.
Não existe liberdade sem pluralidade.
Não macule o silêncio com a palavra inútil.
Não macule os seus impulsos com a maquiagem vulgar das convenções.
Não negue pão ao mesquinho, mas não espere amor dele.
Não se pode estar ao mesmo tempo nas duas margens do rio.
Reserve o furor da verdade para silêncios nobres.
Só é digno aquele que preserva a identidade.
Somos apenas quando nos concedemos a liberdade de ser.