FRAUDE NA BIBLIOTECA NACIONAL
janeiro 7, 2012
Fraude na Biblioteca Nacional
Existe ainda algo honesto e confiável no Brasil? Existe algum político, empresário, alguma fundação, instituição ou ONG pelos quais possamos por a mão no fogo? Digamos que, como não se deve generalizar, seja um tanto provável que ainda haja algo não contaminado e digno de respeito no País. O complexo de trapaça (ou fraude) não está no DNA do brasileiro, como se costuma dizer. Está numa instituição corrupta e falida (em todos os sentidos) como a Justiça. Ou seja, é a impunidade que gera e amplia a trapaça, quer dizer a fraude, a corrupção.
A trapaça que vou expor não tem, a bem da verdade, uma dimensão político-social de amplitude considerável. Mas, obviamente, não deixa de ser significativa. Trata-se da fraude do concurso Prêmios Literários da Fundação Biblioteca Nacional do Rio. Fraude que depõe contra a dignidade de tal fundação. E que leva qualquer cidadão honesto a constatar que a Fundação Biblioteca Nacional é mais um lixo dos inúmeros que proliferam no País. E ninguém protesta. Ninguém faz nada. Ou seja, novamente a inércia, a frouxidão, a alienação típicas nossas. Com a agravante que nem sequer os prejudicados pela fraude se manifestam.
O concurso, do qual podiam participar livros publicados de 01/09/10 a 31/08/11, escolheu uma comissão julgadora composta de três membros para cada categoria (romance, contos, poesia, infanto-juvenil, ensaio literário, ensaio social, tradução e projeto gráfico). Esses jurados, selecionados entre críticos literários, professores de literatura e (pasmem, não é piada, não!) profissionais do mercado editorial – eufemismo empregado no edital para designar os editores. Pergunta pertinente: o que tem a fazer um editor num concurso literário senão puxar a brasa para a sua sardinha? Esses carinhas da Fundação Biblioteca Nacional, esses picaretas, corruptos, que com certeza devem ter levado propina, pesam o quê? Que m… eles pensam que são?… Calma, meu caro fucking angry man, calma. Vamos por etapas.
Expliquemos. E provemos por números. Que os números não mentem. A Fundação deu o prazo de avaliação e seleção de um mês: de 04/11/11 a 05/12/11. Um mês para julgar 547 livros participantes do concurso! É mole? Peguemos, como demonstração, a categoria romance. Havia 80 romances inscritos no certame. Se dividirmos 80 livros por 30 dias, chegaremos a 2,66 livros por dia, que é o que cada membro do júri teria de ler. O que é praticamente impossível. Conclusão: marmelada. Pura marmelada. Ou seja, cartas marcadas. Ou seja, os resultados eram conhecidos de antemão. Em suma, trapaça. Ou, em outra palavra, fraude. Imoralidade. E a Fundação Biblioteca Nacional teve o topete, o cinismo de editar em seu site a relação completa dos participantes.
É extremamente sintomático que, além dos editores fazerem parte do jurado, as obras vencedoras, em sua grande maioria, foram publicadas por grandes ou importantes editoras que detêm o monopólio – por assim dizer – do mercado editorial. E é extremamente lamentável que, numa falta total de respeito e consideração, centenas, repito centenas, de escritores participantes tenham incauta e ingenuamente se inscrito no certame na esperança de, pelo menos, serem lidos, o que não ocorreu. Todo escritor, a menos que fosse conhecido ou recomendado, foi sistematicamente excluído. Uma palhaçada. Sim, esses salafrários fizeram de palhaços centenas de escritores. Salafrários ainda é assaz lenitivo para esses corruptos. E ladrões, pois, dependendo de onde provem o dinheiro pago aos “vencedores”, pode ser também um ato ilegal. Não teria sido mais honesto, mais transparente, menos sórdido, menos atrasado e fascista (toda fraude é fascista), “escolher” (mesmo considerando que a escolha fosse tendenciosa no sentido de favorecer determinados interesses) os “livros do ano” em vez de montar essa farsa, esse engodo de “concurso” para enganar centenas de participantes? Mas, claro que não, a honradez não rende. A honestidade não faz parte do sistema. E menos ainda no inefável paraíso moral em que vivemos.
Bravo Fundação Biblioteca Nacional pela sua proeza! Parabéns pela sua prova de honestidade e probidade. E pelo belo caminho da corrupção escolhido por tão insigne instituição.
15-12-2011
R.Roldan-Roldan é escritor
Publicado pelo jornal Correio Popular de Campinas no dia 3 de janeiro de 2012
ESCRITOR? O QUE É ISSO?
dezembro 15, 2011
Escritor? O Que É Isso?
A maioria dos jovens que aspira à carreira literária não lê – pelo menos o que deveria. Aconselho-os a lerem um livro por cada página escrita. E, claro, cito Rilke em Carta a um Jovem Poeta, dizendo-lhes que podem ir em frente se são capazes de morrer pela poesia, ou pela literatura de modo geral. Obviamente, nestes tempos pragmáticos, as pessoas têm dificuldade de assimilar a extensão do sentido de morrer por algo. Ou, em outras palavras, o significado da entrega absoluta. Para aqueles que estiverem interessados, esse conceito de entrega total está explícito em Os Dez Mandamentos do Escritor que é completada por Os Sete Pecados Capitais do Escritor, manifestos que podem ser lidos no site http://roldan.vila.bol.com.br. Esses manifestos, longe de serem deterministas, exaltam uma atitude de preservação da identidade do escritor acompanhada de ação permanente.
No entanto, se sempre ressalto a importância da disciplina, da persistência e do rigor, não posso deixar de admitir – sem querer ser fatalista nem místico – que um escritor já nasce escritor. Exatamente como um tenor já nasce tenor. Mas, evidentemente, o dom natural não basta. Ou seja, é necessário muito trabalho, garra e fé em si próprio para chegar aonde se pretende. Como de nada serve esforço, dedicação e perseverança se não se tem talento inato. Isso me leva a abordar a formação do escritor.
Uma faculdade de Letras não forma escritores. Uma faculdade de Letras com mestrado e doutorado, forma um técnico (por assim dizer) em literatura. Ou seja, um professor ou crítico literário. E não um escritor na acepção mais profunda da palavra. Um professor de literatura expõe o que aprendeu. Exatamente como um crítico literário. Um escritor (e por extensão qualquer artista) expõe o que cria. Quanto a esses cursos tipo “torne-se escritor”, isso é pura picaretagem. Uma coisa é técnica e outra talento. Claro, nada contra esses cursos de fim de semana. Afinal de contas acrescentam cultura.
Outro aspecto que o candidato à carreira de escritor deve levar em conta é o inefável mercado editorial. A prioridade das editoras, claro, é lucro. E elas não hesitam em publicar lixo desde que esse lixo dê lucro. Lixo que vem de fora, já promovido, rende. E lixo doméstico proveniente, por exemplo, de celebridades, também rende. Se um jogador de futebol ignorante, uma apresentadora de televisão burra, uma parceira de cama de um esportista célebre, uma vendedora de sexo famosa, ou qualquer cretino ou cretina em voga, bajulado(a) pela mídia rasteira, publicar sua biografia, é lucro garantido para a editora. E é bom frisar que isso não ocorre só no Brasil. Mas então? Como fazer para publicar um livro? Insistir – quando se tem consciência de que o livro é bom. Embora as chances sejam poucas. Ter peito para receber um não após o outro. Estar ciente de que a primeira triagem numa editora é feita por (pasmem!) estagiários. Estar ciente de que a grande maioria das editoras não só não acusa recebimento dos originais como não dá nenhuma resposta sobre a não aceitação do original. E aceitar que a maior parte das vezes a resposta – quando vem – é negativa. Desestimulante? Sim. Desesperador? Não. Resta ao escritor, como último recurso, publicar seu livro por uma das chamadas editoras alternativas, bancando a impressão. A desvantagem de publicar por essas editoras é que a divulgação é nula. Sem contar que, no caso de um bom escritor, o fato de publicar por esse tipo de editora depõe contra ele. Como assim? Bem, o leitor tende a raciocinar deste modo: se esse autor publicou por uma alternativa, é porque nenhuma editora conceituada o aceitou; logo, é porque é ruim. E não é bem assim, não. Nem tudo o que é marginal é ruim. Inúmeros grandes escritores “marginais” tiveram que bancar seus livros para depois alcançarem a consagração. Rimbaud, Lautréamont, Proust, Gide e o nosso Samuel Rawet (que teve de vender seu apartamento para financiar a edição de seus livros) são alguns exemplos entre muitos outros. Mas então, para onde se virar? Para as grandes universidades tipo USP e Unicamp? É uma alternativa. Essas universidades se relacionam com as grandes editoras. Mas é preciso fazer parte dessas instituições e, como tudo neste mundo mercenário, ter QI (quem indique com se diz popularmente). Essas instituições se fecham para aqueles que não fazem parte do meio acadêmico.
Quanto aos grandes concursos literários nacionais, funcionam como qualquer negócio. Repito: negócio. São cartas marcadas por assim dizer. Em outras palavras, salvo raras exceções, só ganha quem publica por uma grande editora ou, se não for grande, conceituada. E quem publica por uma grande editora é aquele que tem o citado QI. E quem indica é porque, de um modo ou de outro, está relacionado com o meio editorial. E mesmo assim os abutres editoriais têm que farejar lucro no original submetido para avaliação. Não existem editores no sentido genuíno da palavra. O que há são meros empresários, com cultura que deixa muito a desejar, que se dedicam a ganhar dinheiro com a publicação de livros. Em suma, homens de negócios que mexem com literatura. Ou pseudoliteratura.
Quem ainda não desistiu…
29-11-2011
R.Roldan-Roldan é escritor
Publicado pelo jornal Correio Popular de Campinas no dia 6 de dezembro de 2011.
Violência? Não, Defesa
novembro 5, 2011
Violência? Não, Defesa
A nossa inércia, a nossa apatia, a nossa passividade, a nossa indolência, a nossa alienação ovina chegam a ser revoltantes. Tudo é frouxo no Brasil. Menos a corrupção, hereditária, vitalícia, que continua robusta, dinâmica, saudável, corada, enfim em plena forma e digna do melhor pedigree das famílias mais nobres do País. Massa de palhaços, sabemos imitar como macacos a imbecilidade do politicamente correto (como a neurose contra o cigarro) diretamente importado de um país tão atrasado política e socialmente quanto os EUA, agora em decadência, como, aliás, o famigerado neoliberalismo e a globalização. Mas certamente não importamos salutares protestos – a nível nacional – como os de Wall Street, os da Grécia, os da Espanha ou de outros países. Importamos, sim, diariamente, de modo jacu, brega, cafona, grotesco e vulgar vocábulos norte-americanos que desfiguram a nossa língua. Sabemos embarcar no fanatismo das torcidas de futebol. Ou na alienação carnavalesca. Sabemos organizar marchas de demonstração de força, absolutamente inúteis, para enaltecer a fé evangélica ou católica, marchas dignas de países atrasados que em nada contribuem para o progresso político-social do Brasil. Mesmo porque o Brasil certamente não precisa dessas manadas bovinas que contribuem para facilitar o jogo sujo dos salafrários, dos corruptos, dos sem-vergonhas que estão no poder. Esses respeitáveis ladrões que detêm o poder com certeza ficam mais do que satisfeitos ao ver o gado bípede manifestando pacificamente sua fé e devem pensar: deixem o rebanho ocupar-se com a religião, pois enquanto fazem isso não reclamam da podridão oficial e não exigem seus direitos. E assim os f.d.p. da classe política deitam e rolam e enchem os bolsos com o dinheiro da Nação, ou seja, com o dinheiro extorquido do cidadão honesto. Marx tinha razão: a religião é o ópio do povo. Os povos mais atrasados da Terra são aqueles onde a religião tem mais poder. País culto e avançado é totalmente laico. Marchas como as dos evangélicos, católicos ou do Orgulho Gay só se justificam se reivindicaram reformas político-sociais. O resto é carnaval.
Mas abordemos outro aspecto coberto pela nossa indiferença (ou alienação, para repetir o termo). Perante o despotismo do sistema financeiro, perante o absolutismo do mundo corporativo e a crescente falta de empregos no mundo, perante o aumento constante das pessoas que morrem de fome no Planeta, perante a corrupção da classe política, seria de se esperar, num país como o Brasil onde os parlamentares são os mais bem pagos do mundo, onde ainda existe a ignomínia medieval da imunidade (algo absolutamente perverso, inconcebível: onde já se viu um cidadão ter privilégios que o outro não tem?), onde a impunidade é lei, e onde a corrupção é uma das maiores do mundo, seria de se esperar, pelo menos, que as propriedades dos políticos corruptos fossem depredadas, incendiadas, destruídas e que esses políticos fossem cassados pelo resto da vida – mesmo tendo renunciado ao cargo; seria de se esperar atos de violência contra bancos e grandes corporações que detêm um poder antidemocrático, totalitário que torna as nações meros títeres do sistema financeiro e corporativo; seria de se esperar que os especuladores, esses sanguessugas, esses improdutivos, esses vagabundos, esses cancros da sociedade que só servem para tirar proveito e semear o caos financeiro fossem condenados a pesadas penas de prisão; e seria de se esperar a paralisação do País para exigir reformas políticas e sociais. Essa é a demonstração de força que o povo brasileiro necessita. Questão de dignidade. Calar é ser conivente. Calar é ser cúmplice. Mesmo porque a violência é a única linguagem que esses abutres do sistema financeiro e corporativo, e da classe política, esses escorpiões da ganância desenfreada, do abuso do poder e do imediatismo são capazes de entender. Portanto, se não cedem, é guerra declarada. Talvez assim entendam. E não se trata de pregar a violência, não. E uma questão de defesa. De legítima defesa. Tolerância zero. É para ser radical em relação a esse estado de coisas vergonhoso, ofensivo, ultrajante. Se a sociedade não fizer pressão, o círculo vicioso continuará o mesmo e nunca haverá mudanças.
20-10-2011
R.Roldan-Roldan é escritor
Publicado dia 2 de novembro de 2011 no jornal Correio Popular de Campinas/SP
ABL, Lixo Comercial?
outubro 12, 2011
ABL, Lixo Comercial?
A Academia Brasileira de Letras virou lixinho comercial? Ou é melhor dizer televisivo? Ou talvez escória intelectualóide? A coroação de uma série de “proezas”, nada literárias, áulicas, culminou com a entrega da medalha Machado de Assis a Ronaldinho Gaúcho. Ridículo. Nada, evidentemente, contra o jogador. Mas é necessário acrescentar algo? Como se não bastasse ter entre seus membros gente como Paulo Coelho, Sarney e Pitanguy (com todo o respeito devido por este último). A ABL deveria – peço desculpas pela minha arrogância – ler meus manifestos Os Dez Mandamentos do Escritor e Os Sete Pecados Capitais do Escritor que se encontram em meu site. Mas tudo isso fica ofuscado pelo brilho de uma das maiores “façanhas” da ABL. Refiro-me a uma mancha moral indelével: durante os anos de chumbo da ditadura, a Academia Brasileira de Letras, que deveria ser um baluarte da consciência do País, se omitiu – e omissão é conivência – e não foi nem sequer capaz de emitir um manifesto contra a violação dos direitos humanos pelos militares no poder. Pois é, a ABL, vergonhosamente, silenciou. Omitiu-se. Isso é uma mácula. Aí já não se trata mais de lixinho. Mas de lixão. Sim, claro, isso ocorreu há mais de quatro décadas. Mas a coisa não mudou muito. Para que servem essas múmias alienadas, reacionárias, retrógradas, cercadas pelo bolor nauseabundo do conservadorismo? Para que serve essa instituição? Para esclarecer se determinada palavra perdeu ou não o hífen que determinados acadêmicos mercenários resolveram estupidamente suprimir? Melhor fechá-la. Ou terceirizá-la. Como se faz com tudo hoje em dia no paraíso neoliberal.
Mas já que tocamos na ABL, falemos um pouco dos escritores, esses estranhos animais, quando são de fato escritores — e eu sou um deles. No maravilhoso mundo pós-pensante ou pós-ideias – hoje em dia as supostas ideias disseminadas pela mediocridade da mídia são engolidas sem um mínimo de processamento crítico –, no admirável mundo novo da imbecilidade oficializada, da burrice endeusada, há escritores consagrados que escrevem tão bem quanto os ditadores Kim Jong-il, da Coreia, Kadafi, da Líbia ou Saddam Hussein, do Iraque que, como todos sabem, são, ou eram, “escritores” (entre aspas mesmo). Sim, ideias. Faltam ideias. E passo a transcrever parte de um texto meu sobre o assunto.
“Porque hoje em dia o anti-intelectualismo está em voga. O anti-intelectualismo que mal dissimula a mediocridade, a ignorância e a burrice. Enfim uma distorção da inaptidão que se coaduna com a famigerada cultura de massa. Essa praga pegajosa que nos impinge a merda cultural oficial. Bem, além de alienados do doer, esses escritores de pacotilha que não têm ideias, tampouco possuem cultura. E um bom escritor se caracteriza pelas suas ideias e pela sua visão de mundo que o distingue dos outros escritores. E pela sua cultura, claro. Porém, não vemos nada disso. Esses escritorezinhos, quando retocados de um verniz acadêmico, escrevem umas bostinhas de contos, romances e poemas, mais frios do que lagartos no inverno, que não passam de meros exercícios literários absolutamente áridos, vazios, inócuos, chochos. E tomando-se por Joyce, Guimarães Rosa ou Clarice Lispector, mal disfarçam a falta total de imaginação – e um escritor que se preze tem que ter imaginação – com maçantes malabarismos estilísticos que lembram a leveza da dança de um paquiderme. É sempre a mesmice. E o pior é que, se às vezes há certas mediocridades divertidas, nesse caso, nem isso. É puro tédio. Enfim, descartável.”
O exposto inclui a ficção acadêmica (de universidade, não de academia). Embora aí não se veja o anti-intelectualismo, o panorama não muda muito. E encontramos ficcionistas ostensivamente estilosos, modernosos que fazem girar o mundo em torno do umbigo e que amiúde se tomam, como acima mencionado, por Joyce, Guimarães Rosa ou Lispector. Com maneirosos exercícios de estética que não levam senão à aridez da falta de talento. Exímios técnicos literários – há alguns elegantemente picaretas – “uspianos” ou “unicampianos”, sem absolutamente nenhuma originalidade. Totalmente ocos. E que nunca são capazes de ir além da linguagem, do aprendido e da moda. E, sobretudo, que certamente carecem de ideias em seus emaranhados malabarismos formais. Sim, ideias. Pois um escritor tem de ter ideias. Já que um escritor também é um pensador. Um escritor tem de ter também imaginação e, sem fazer concessões, o poder de enfeitiçar o leitor. E, para finalizar, repito o que disse e escrevi muitas vezes: um escritor não é apenas um homem (ou uma mulher) que escreve, um escritor é um posicionamento. Uma atitude perante a vida. Uma ação constante. Uma transgressão. Um desafio. Enfim, um escritor é um modo de viver.
20-09-2011
R.Roldan-Roldan é escritor
Publicado dia 5 de outubro de 2011 no jornal “Correio Popular” de Campinas.
A Angústia Segundo Lars von Trier
setembro 26, 2011
A Angústia Segundo Lars von Trier
As declarações bombásticas do diretor dinamarquês Lars von Trier no último festival de cinema de Cannes – onde apresentou Melancolia em competição – afirmando sentir admiração pela estética nazista – até aí tudo bem, qualquer cinéfilo pode condenar o nazismo e, no entanto, pode admirar, por exemplo, a estética de Leni Riefenstahl, cineasta nazista. O pior foi von Trier acrescentar que entendia Hitler e que o ditador não deixava de ter um lado positivo. Resultado: von Trier foi banido do festival, embora ele pedisse desculpas. Uma pena, pois ele não precisava dessa promoção de escândalo. Ele é grande demais para apelar para esse tipo de publicidade de gosto duvidoso. Mesmo porque o efeito do escândalo foi o inverso do que costuma ocorrer nesses casos. Um escândalo geralmente promove e projeta para o grande público uma obra cinematográfica, teatral, literária ou plástica. Mas no caso de von Trier, o resultado foi o oposto. Ou seja, a polêmica das declarações ofuscou o brilho de Melancolia e desviou a atenção do valor intrínseco do filme. Que é ótimo e que merecia um prêmio mais importante do que o de melhor atriz – para Kirsten Dunst.
Demolidor. Provocador. Corrosivo. Apocalíptico. Lars von Trier se insere na tradição do pessimismo, ou melhor, niilismo nórdico. Como seu compatriota Carl Dreyer. Como seu colega escandinavo Bergman. E como o filósofo Kierkegaard. O silêncio de Deus de Bergman é substituído pela ausência de Deus de von Trier. Pior: a eternidade deixa de existir para dar lugar ao nada. Não há redenção no diretor de Ondas do Destino. Não há esperança. O seu niilismo apocalíptico provoca uma angústia sem par na sétima arte. Em Dogville, obra-prima, talvez o maior filme da década de 2000, além de uma estética absolutamente revolucionária em seu despojamento, ele anula o conceito cristão de bondade e nos diz implacavelmente: seja bom e os outros te devoram. Não há generosidade em von Trier. Seus personagens (os protagonistas são sempre mulheres, como em Bergman) certamente não conhecem a magnanimidade. Ainda em Dogville, ele denuncia o sistema neoliberal e nos exemplifica: peça emprestado e você será escravo, do seu credor, para o resto da vida. Que é nem mais nem menos o fundamento da exploração do capitalismo neoliberal. O que nos leva à famosa sentença de Sartre, na peça O Diabo e o Bom Deus: Mas àquele que dá sem que você possa devolver, ofereça todo o ódio do seu coração. Não há desprendimento. Nada se faz por generosidade. O mal inerente ao Homem se acentua com o fascismo neoliberal. Deus está morto. Assim como o sagrado. Assim como a ética. Assim como a eternidade. Só resta a cobiça. O imediatismo. O lucro. A morte.
Se com Anticristo o cineasta fez seu filme de terror, com Melancolia ele fez seu filme de ficção científica, que tem alguns pontos em comum com O Sacrifício, de Tarkovki. Claro que, em ambos os casos, estamos longe dos padrões estereotipados e digestivos de Hollywood. Von Trier tem muito talento e originalidade para seguir estereótipos ou cânones comerciais. Com imagens suntuosas, deslumbrantes – algumas parecem recriar quadros do surrealista Delvaux – ele nos mostra o fim próximo do planeta Terra em meio à cegueira de uma instituição falida como o casamento e, por extensão, a família. O mundo vai acabar, mas a família, alienada, hipocritamente (ou estupidamente como o avestruz) ignora a iminência da catástrofe. Só que, mesmo que essa instituição deixasse sua alienação, já seria muito tarde. Lars von Trier usa muitas metáforas e alusões (a pintura Caçadores na Neve, de Brueghel, embora criada no começo da Renascença, parece fazer uma alusão ao terror medieval do fim do mundo, tão bem exposto pelo também flamengo Bosch) que têm a força e a pujança de um registro realista. Ele não faz concessões. Ele não perdoa. E ninguém fica imune ao impacto de sua devastação. E essa visão desesperançada, sem a menor brecha que deixe penetrar um pouco de luz, por menor que seja, sempre é apresentada por uma estética que veste a morte de luxo cerimonial.
Lars von Trier está, junto com o grego Angelopoulos, o português Manoel de Oliveira e o norte-americano Terrence Malick – cujo A Árvore da Vida é um espanto de plasticidade e de indagação metafísica – entre os maiores cineastas vivos do mundo. E, por sinal, todos eles são humanistas.
20-08-2011
R.Roldan-Roldan é escritor
Publicado dia 7 de setembro de 2011 no “Correio Popular” de Campinas
O Paraíso Neoliberal
setembro 17, 2011
O Paraíso Neoliberal
É surpreendente como o ser humano é conservador. Em todas as latitudes e épocas. Basta folhar a História para constatá-lo. O ser humano, como qualquer animal, tem medo. Medo irracional do novo. Do desconhecido. Daquilo que pode vir a alterar a rotina que lhe dá segurança. Mas, ao mesmo tempo, o Homem tem coragem. Tem a ânsia do conhecimento e da experimentação necessárias a toda renovação. O Homem sonha. Porque quer mais. E não me refiro a acumular riquezas. Não. Ele quer ampliar seus horizontes. Ir além do conhecido. E o sonho está intimamente ligado ao prazer. E, obviamente, é o prazer que nos impulsiona. Seja qual for. E que movimenta o mundo. Mas, voltando ao nosso espantoso Homem, ao nosso belo Animal, ou ao ser humano (como preferem os cretinos do politicamente correto), poderíamos afirmar que, se a grande maioria é acomodada, há os grandes inquietos que vêm a este mundo para transformá-lo.
Sim. Desafiar. Transformar. Tudo pode ser transformado. Basta querer. O pessimismo da inteligência e o otimismo da força de vontade, dizia Gramsci. Posto isto, não posso deixar de rebater aqueles deterministas que afirmam que a globalização, e o neoliberalismo especificamente, vieram para ficar e são irreversíveis. Os nazistas também diziam que o Terceiro Reich duraria um milênio. Durou apenas 12 anos. Não existe nada irreversível. Salvo a História. Ou a morte. Mesmo porque o capitalismo neoliberal está doente. E os sinais dessa doença são visíveis. A crise econômica da União Europeia e dos Estados Unidos são sintomas muito evidentes de um sistema decadente. Econômica, política e eticamente. Corroído internamente.
É uma incongruência que um sistema que tanto alardeia os direitos humanos e a liberdade – dos quais tanto se vangloria – os elimine ou os restrinja – como é o caso da invasão da privacidade. O sistema capitalista neoliberal tende cada vez mais ao fascismo, burlando de modo camuflado esses direitos humanos e essa liberdade que seriam a essência da democracia. Como não considerar fascismo o poder quase absoluto que detêm as grandes corporações, incluindo os bancos? Como não considerar totalitarismo a fusão dessas grandes empresas que provoca desemprego e obriga o consumidor a ter de engolir o que a empresa compradora produz, eliminando qualquer opção? Exemplo: numa cidade há cinco supermercados. Esses supermercados vão abocanhando um ao outro até restar um só. E o consumidor é obrigado a comprar o que esse supermercado “vencedor” vende e aos preços que ele quer. Onde está a opção? A tão decantada opção de consumo capitalista? A fabulosa opção do que se costumava chamar de mundo livre? O capitalismo sempre criticou a falta de opção do comunismo, onde o consumidor era obrigado a comprar nas empresas estatais. Muito bem. Agora o neoliberalismo incorre, por vias diferentes, na mesma arbitrariedade, na mesma falta de opção. Ou, em outras palavras, na falta de liberdade. Ou, melhor ainda, liberdade para os grandes agirem. Em detrimento dos pequenos. E quando o Estado tenta controlar (ou regular) esses abusos, a primeira coisa que os grandes grupos invocam é a liberdade do sistema democrático. É preciso ser muito burro, ou cínico, para achar que esse faço-o-que-quero-porque-sou-dono-do dinheiro é democrático. Ou seja, um peso e duas medidas. Qualquer limite aos ganhos astronômicos e às especulações desses bancos (ou de qualquer corporação) para, em parte, evitar as crises econômicas e o aumento consequente de miséria no mundo é tachado de atentado à liberdade democrática. Mas que engodo! Que distorção! Parece piada, mas não é. E há gente que acha que está tudo muito bem. Claro, para os que mamam dos resultados dessas injustiças, o sistema é ideal. Ou para os pobres alienados que têm teto e que comem todos os dias. E esses alienados, via de regra, são fatalistas e dizem: não tem jeito, é assim mesmo e não vai mudar. Pode mudar, sim. O Homem tem garra. O Homem é criativo. O Homem ainda é capaz de sonhar. A revolta dos países árabes é um belo exemplo. E os protestos na Espanha não eram dirigidos exatamente contra governo de Zapatero, mas contra um sistema que provoca desemprego e pobreza e que não oferece nenhuma garantia ao cidadão. Um sistema que, para apertar o cinto, a primeira coisa que faz é cortar ou restringir os benefícios sociais do cidadão, como a idade para aposentadoria (o que ocorreu na França) entre outros. E certamente ninguém está preconizando um sistema stalinista. Não. Mas existem opções. Basta ter boa vontade, consciência e peito para derrubar o que é injusto. Portanto, cidadãos, não sejam frouxos. Comecem a dizer chega.
21-07-2011
R.Roldan-Roldan é escritor
Publicado dia 3 de agosto de 2011 pelo jornal “Correio Popular” de Campinas
LA BALLADE DE DAVID HAIZE
agosto 16, 2011
LA BALLADE DE DAVID HAIZE
R.Roldan-Roldan
LA BALLADE DE DAVID HAIZE
Poésie
Un couchant des Cosmogonies !
Ah ! que la vie est quotidienne…
Jules Laforgue (in Complainte sur certains ennuis)
L´être impossible
Tu es devenu tout mon être, ainsi tu es tout moi.
Moi je suis devenu rien en toi, ainsi je suis tout toi.
Djalal ud-Din Rûmî (in Rubâ´iyât)
I
Quand le verbe
intransitif comme aimer
décalé comme un étranger
égotiste par nature
se blesse le gland en se conjuguant
et que brisé et perfectif par répression
sombre finalement
dans sa solitude d´être défectif
et que les auxiliaires
impersonnels
putains hors d´usage
lui font défaut
alors
Je suis l´éternel voyage
tu es le havre qui me dévisage
à travers les siècles
ancre-moi donc l´âme
fais-la tienne
en la ramenant à moi
dissous-la dans son vrai repère
je deviens oubli
pour reparaître en toi
et me livrer comme jamais auparavant
humble au point de bannir le doute
jusqu´à mêler notre sang
comme la voix enlace le mot
je me fais désert
pour renaître en toi
vert
propre
sans peur sans reproche
chaste comme la passion
ô inconcevable être à aimer
entends-tu le bruissement des roseaux
caressant la peau brune de la nuit
le souvenir du début vaguant
immense
serein
parmi les ombres écumantes de la nostalgie
II
Quand les consonnes
borgnes boiteuses et livides
dégoûtées de l´imbécillité triomphaliste
vomissent des préceptes lyriques en plastique
et que les voyelles
le clitoris amputé
gorgées de fast-food
ridées sous la poudre des camélias fanés
toussent
crachent des caillots de songe
et défont leur couleur
sur les pages de l´inaction
alors
Semence hasardeuse des mots
qu´en reste-t-il
les pas affranchis du temps révolu
mais il y a
toi
dont la parole devient chair
chair que je pétris malaxe triture
et pénètre
dans la sombre splendeur du silence
pour en extraire l´esprit
dense
limpide
intense
enivrant ô éblouissement
en épuisant mon souffle dans ta bouche
au-delà des lèvres
de la salive
de la langue
des mots
au-delà de la stupeur de se savoir seul
à jamais
oh aime-moi
du fond du temps retrouve-moi
pur comme au début
donc inachevé
complète-moi
je veux m´émerveiller encore
de me savoir être
III
Quand les barbelés de l´exil
déchirure des frontières
écorchent le pénis de l´identité
et que le cri incompris insoumis
vogue parmi les larves officielles
de la misère intellectuelle
et que le sang dépaysé
épars et sans sens le temps d´une vie
coule sous le masque permis de la médiocrité
en murmurant amen
au lieu de hurler non
alors
Entrer en toi
me dissoudre en toi
être toi
n´être que toi
t´être sans klaxon ni garniture
sans dédoublement
sans masque
sans déraillement
être le but de la quête
sans tambour ni trompette
être le sax qui répond au violoncelle
être au-delà du corps
au-delà de la réalité
ta pensée
brut comme l´essence
te dire au-delà du tangible
je te suis
être impossible
sans pompe ni répit
mais hélas tu es si loin
comment pourrais-tu m´aimer
toi fait d´esprit et de rêve
être de ce pays sans frontières
où nulle eau peut assouvir ta soif
je suis donc l´excédent
qui te restera
sensation
intact
IV
Quand la sainte verge
dure gaillarde tendue
vénusté de l´ombre
grosse d´attente
et vide de raison
se soûle du breuvage masturbatoire de la finitude
et que les élans en habit du dimanche
mélancoliques has been
roulent leur carcasse
tout le long de la rigole
avant de se précipiter dans l´égout
alors
Tu es comme l´Art
solitude
oh mon amour toi qui me sacre
printemps du silence
prince
couronne du non-dit
je te veux voyage comme moi
pas but
pour te deviner toujours insatiable
pour me comprendre inassouvi
voyageur sans bagage
partance sans départ
je suis en toi le rivage
qui fuit
étranger comme moi
nous sommes seuls
aimons-nous sur le sommet
de l´urgence
dans le lit de la rage de vivre
du désespoir
sous le dôme de se savoir élu
élu par ce temps qui n´existe plus
dans l´empire de la fusion
sois le mot amour que je t´offre
je me donne au tien
seul comme la mort
pur comme le fou
solide comme le silence
V
Quand le cœur du poète
explosion surannée
pauvre pot
dans un monde gangrené par la loi termite
hurle sa foi à rebours
et que le souffle fétide des sentiments clos
s´évade par les fentes rouillées de la colère
pour s´engouffrer dans le néant
sans rédemption
et que se pose sur les livres en deçà des lèvres
le vol d´une prière oubliée
oiseau brisé par l´errance
surgi d´un pli de l´inconnu
alors
Suis-je la somme des mots vécus
des mots empruntés
des mots hérités
des mots tus
où retrouver la source de mon essence
oh l´amour comme la mort est au bout
d´un tout d´un rien sans but
il ne me reste que toi
où je plonge cœur ouvert
corps nu
comme le glaive de la liberté
finitude
tant pis
nous irons aux confins de nos désirs
volant sur les plumes des mots
oiseaux du hasard
splendides de se sentir être
aime-moi donc au-delà de ma chair
de mon esprit
de mon existence
comme je t´aime
toi mystère et extase sans nom
fondre en toi
comme la mort dans l´Absolu
à travers toi je me nomme
me cueille
me recueille
enfin pour la fête de l´existence
VI
Quand la solitude
comme la vieille Camarde
en habit d´absence
fouille les tripes des sentiments
et expose les viscères meurtries
hurlant l´irréversible temps écoulé
et que la main décharnée
imite la caverne ancestrale
à la recherche d´un plaisir qui grince des dents
et que les éjaculations
successives éjaculades éjaculées
s´avèrent incapables de drainer le désespoir
alors
Car toute chair mène à l´esprit
et on nous a menti
je vais donc hurler mon poème
de fureur et d´urgence
sans fausse pudeur
aux quatre coins de ta chair
et racheter ton plaisir oublié
naturel
ton plaisir bâti de muscles et de sang
et comme un dieu affranchi de son mythe
un dieu vorace et impatient
foncer la fureur d´être dans ton corps
pour distiller le clair de lune de ta pensée
allons donc
crie mon nom
de sable qui blesse
mirage de la langue qui caresse
et je deviendrai ton silence
soumis comme Dieu à l´Absolu
comme l´arrogance à l´humilité
comme la raison à la foi
et je me tapirai comme un animal docile
et je serai ton maître esclave
j´aurai déjà chassé l´autre
le prude pédant prudent
pour n´être en toi qu´extrême
ou néant
VII
Quand l´illusion
blême sous le fard
fellinienne quittant alhambras et taj mahals
pour les bistrots mal famés
offre sa fente pissée
en échange d´un petit verre d´espoir
et que le bitard fantasme sa proie
pris soudain de velléité de chevalier errant
et gaillard se lance à sa conquête
avant de cracher son excédent blanchâtre
et plonger dans le gouffre de la solitude
alors
Ma liberté commence par Non
tends-moi la main
je suis membre feu et matrice eau
chair en état de grâce
pour t´anéantir
me dissoudre
jouir
et mourir en toi
buvant avec ivresse le Mot
te tien devenu mien
le mien devenu tien
Mot sacré qui deviendra
la parole du Silence
sonnant le gond de l´extase
remplissant de nos excédents
la grandeur qui se vide
amour d´un autre âge
les grands ne sont pas sages
je bondis d´abîme en cime
pour te reconnaître
et sentir la vie enceinte de mon plaisir
et la penser en évènement
et sombrer en toi
dans la légèreté de la densité
embrasse-moi
la vie ne me suffit plus
elle est bien trop petite
intense je deviens légende
Décembre 2001/Juin 2005
La grâce d´antan
Ah ! Que le temps vienne
Où les cœurs s´éprennent.
Rimbaud (in Chanson de la plus haute tour)
Entre l´absurde et le néant
prouesse
retrouver l´élan
la foi du début
et la grâce d´antan
vider le sourire de son ironie blasée
accorder la lenteur au regard
se revoir le cœur en liesse
retrouver les mots de l´enfance
parmi la cupidité adulte
ravauder la prière déchirée
et le rêve mal cousu
renoncer au bruit
à la vitesse
et plonger dans l´espérance muette
du vol interne
initial
soif profonde du retour
contempler la vastitude intime
les portes du destin ont été longtemps ouvertes
grand temps de se recueillir
oh que me viennent
la foi du début
et la grâce d´antan
et voguer voyageur
sans rage ni excès
sans urgence
quêtant la marée de l´âme
enceinte d´éternité
mot français du printemps
enfin sans hâte
signé par la mémoire de ce thé vert
mémoire qui me nomme homme
embaumant la contemplation du jardin de sable
au bout de la quête
humble tel celui qui sait
et passe le vent
et passe la grêle
et gire la Terre
quand l´harmonie se pare de silence
être peut-être ce pas-être
non-être qui conquiert son être
d´immensité blanche
d´absence pleine
oh que me viennent
la foi du début
et la grâce d´antan
il n´y a plus de larves autour de moi
suçant mon énergie
et si Dieu me déserte
mon hurlement retentit dans son vide
sauvage je me lave dans les eaux de la Poésie
qui m´oint d´Absolu
libre dans la mesure où je crée
glissant sur les pentes de la réflexion
avalant ce silence qui ne piétine plus
silence des astres
ne brillant qu´à l´ombre
de la pensée
pliée
qui se déploie
vaste comme la faim
d´un univers sans fin
où la loi supérieure est naturelle
comme la vie
et accepter que les autres
ne puissent comprendre et s´ouvrir
à l´infini infime
où s´abreuve l´âme
eau des vastitudes au coin des lèvres
mystérieux sourire de la perception
sourire à l´instant qui se tisse
lentement
en songe pérenne
oh que me viennent
la foi du début
et la grâce d´antan
oui retrouver cette grâce primitive
ancestrale
de blé et de sueur
de riz et de reconnaissance
du beau intègre
de la ferveur
du contact permanent
au cœur des Eléments
et cet orgueil fidèle
au souffle de la terre
balayant le superflu
ô grâce de jadis
de noblesse et de pain
d´eau et de rigueur
de hauteur et de passion
je nordis mes élans
loin de ce faux bourdonnement
de vivre
mal
de vivre
de démence en démence
pour en oublier le mensonge
pour se sentir vivant
le mal d´aimer
l´impossible
pour se sentir humain
naïvement supérieur
et la cohue des illusions mortes
traînant la patte lourde du passé
bouchant l´entrée
de ses haillons de désir
oh que de fleurs inconnues
à présent envolées
sur les routes célestes
sans retour
sans la gloire d´être nées
et la lassitude égouttant ses joies surannées
à l´affût d´une nouvelle illusion
espoir d´automne
emporté par des chuchotements
qui n´ont plus de secret
où puis-je rencontrer quelqu´un
qui puisse me battre en amour
ah l´absence de sacré
est pire que la mort de Dieu
hélas je n´ai plus de mystère
ô que me viennent
la foi du début
et la grâce d´antan
Octobre 2001/Novembre 2004
A l´ombre du Silence
Un pagne, une gourde
Comblent mon corps.
Le vent compte mes heures.
Toukârâm (in Psaumes du pèlerin)
Chair du Silence
que tu possèdes
quand le clair de lune
bruit dans ton corps
*
Le Hasard est irrésistible
nul ne le possède
le Poète couche avec lui
sans le dévoiler
*
Tu couches toujours avec
la Liberté
à coups de pertes
*
Tu te mires
dans la goutte de pluie
qui voyage
de la feuille au sol
*
Le Poète est cerclé d´aveugles
Soleil
Aide-les
*
Quand l`ascète
fait l´amour
la terre tremble
*
Poète
arrivée et départ
accordez-lui un regard
*
Entre pierre et mousse
l´eau du Silence
engendre l´âme
*
Si l´Homme
était poète
le Poète n´existerait pas
*
L´âme jouit
lorsque la chair
se réjouit
*
La pensée tarit
quand elle ne prend pas
le détour de la source
du cœur
*
L´Art est un reflet
de l´Absolu
qui éblouit
*
La raison
poussée au bout
rejoint le cœur
*
L´éternité serait insupportable
sans la conscience
de la mort
*
Dieu est un songe
la Poésie remplace son
vertige
*
Clair
est le retour
comme le Néant
*
La volupté d´être soi-même
se nomme
Liberté
*
La joie féroce de vivre
fait bander ton esprit
*
L´éternel retour
l´Eau
*
Tu oscilles
entre le désir d´un dieu
et la nausée de l´Homme
*
Ile d´Ethique
maigre chair de tes baisers
ton sang avide d´amour
distille l´océan
*
Le Temps hurle
dans le gîte de l´existence
l´âme y cherche
le nid du Silence
*
L´ange manqué
a toujours rendez-vous
avec ses ailes
*
Le désir rêve
sur la corde raide
entre deux seins
tel un funambule
*
Les grands cœurs
comme l´Art
ne tiennent pas dans la boîte de la raison
*
Le mutisme de Dieu
rend la prière
orpheline
*
Fils du Rêve
l´Univers t´accouche sans te nommer
on t´appelle Poésie
*
Le Temps s´en souvient
tousse sous la brume
frissonne
le Mot revient
*
Les sentiments contradictoires
font jaillir l´étincelle
qui enflamme ton vers
*
Le cœur des fous
est trop sage
pour se nourrir de raison
*
Les grandes âmes se foutent
des canons et des canons
elles sont en soi Révolution
*
Le bâillon
rend puissant
sans permission
*
Mondialisation
ses menottes emprisonnent
l´universalité
*
Désir
foi
partir
loi
*
Un être est né
écoutez le sourire du Silence
il en est comblé
*
Grâce au
NON
tu as conquis ton
NOM
*
Tu as la peau tannée
par les frontières
et l´âme enceinte
de l´Univers
*
L´oiseau coud son nid
la cruche cherche l´eau
le sentier ne connaît guère l´ennui
*
Indolente
la Mémoire se farde d´oubli
pour tromper le Temps
*
L´Incommunicabilité
t´épargne
tu dialogues
avec le Silence
*
L´exil te file
d´acier et de soie
le cœur sans ville
*
Laissez-lui le mythe
ce n´est qu´un homme
ça le rassure
*
L´amour
te joue des tours
mais il revient toujours
*
Ecoute ce regard
il cherche ton âme
dans les sillons du Silence
*
Ils ont cinquante ans
le sourire le regard des adolescents
ils ont déchaussé l´âge
l´Amour les a surpris
*
L´onde caresse le gland du Soleil
les vertiges se condensent
le Silence bande
le Verbe éjacule
*
A rebours
à l´envers
nuit et jour
ne jamais se taire
*
La mondialisation
ouvre les frontières
pour vous mettre en prison
*
Seul
dans son île éthique
le Poète se pardonne
*
Brûlez les bornes
la finitude vous rend libres
*
Ne ressemblant à rien
tu ressembles à l´essence
du Tout
*
Elle cueille tes visions
et assise sur le Silence
en fait des tapisseries
avec des fils de lune
*
Laver les passions
et attendre le beau temps
du Silence
pour les faire sécher
*
Dans les jardins de ton père
les lilas lascifs et pieux
sombrent dans ta chair
pour oublier l´amour d´un dieu
*
Poète
prête-lui ton clair de lune
pour écrire le Silence
sur la dune
*
Sur le pont d´Avignon
vitesse et fragmentation
bordel de la civilisation
dansent en rond
*
L´omission
ferme les yeux
et encaisse son pognon
*
Le courage
oser vivre l´extrême
du soi-même
*
L´ombre du Silence
dorlote les élans
en aiguisant leurs antennes
*
Tel un jeune dieu
libre à en mourir
le Poète recommence
*
Immense tendresse
éjaculée à tort et à travers
sperme en détresse
l´amour à l´envers
*
Quand les cils du papillon
chatouillent le clitoris de l´âme
les couleurs frissonnent
et le Silence ondoie
*
Tu surmontes l´exil
clopin-clopant
avec les béquilles du songe
*
Tu écris comme tu éjacules
sans loi ni raison
tu en fais une foi
avec passion
*
Tu es l´Univers
cherchant le revers
ontologique du Vers
*
Bambou
filtre la clarté doucement
elle a deux trous rouges au côté gauche
l´Identité
*
Le Poète n´existe plus
la Poésie prend la relève
*
Homme
vide provisoire dans l´espace
où en es-tu
*
La brindille
suspendue au bec
berce le Silence
*
La vie est une sculpture
de Silence
où tu éjacules du sang
*
Entre le cynisme du mensonge
et la vanité de la vérité
tu choisis le Silence
*
Jusqu´au bout du Temps
le Verbe se nommera
Croire
L´Homme
Dire
*
Tu t´égouttes
par les trous du Silence
creusés par le bruit des autres
*
Les images sales
blessent
le Verbe
*
Se taire
nu
devant le Silence
*
Décembre 2000/Novembre 2004
Tanjah 79 retour
Rien n´est aussi long
que la traversée des sources
Jean-Louis Bernard
(in Grimoire des effacements)
I
la partance des mots amène la décadence oui revenir goût de semence rue Murillo maintenant c´est un autre nom première femme pauvre putain espagnole bon marché qui disait aimer les bonbons remonter la rue d´Italie et lâcher une larme nostalgique pour le Marshan
BBA le silence des lenteurs s´évapore se condense devient rosée qui s´égoutte sur le sentier du retour MA des chevaux rouges sortant des Grottes d´Hercule galopent sur l´écume de la Méditerranée UMM
ZAKIL latence qui explose brutale sensation de te savoir cet instant de plaisir ce cylindre bourru baroque indomptable animal qui veut encore et encore et qui tient la mort à distance cette chair tendue dans ta main vers les hauts innommables et qui te grise de fierté virile toi enfant qui se réveille dans les trous épineux de la solitude ESKUZ
les lunettes dissimulent l´émotion c´était rue de la Falaise qui menait en cachette aux escarpes de Zola et Maupassant rue de la Marine ouvrait tes narines antique frisson qu´emporte le vent rue du Détroit les enfants jouent toujours dans la rue et mystérieusement sans logique ni explication tout le long du voyage ces étranges mots étrangers venus de loin s´élèvent VIOT FLIN DAST
II
rendez-vous avec le cœur dans la poche arrière du jeans avoir dix-huit ans l´espoir en bandoulière vieux films de James Dean essayer de comprendre si le goût est toujours le même vingt ans après
BBA et glisser dans l´ombre comme une miette de silence cherchant le tout quand le mot n´est que souffle presque prière ARD des rouges apocalyptiques enflamment les remparts et la fureur des vagues roule des corps en extase UMM
ZAKIL la pensée revient sans cesse à ta chair cette chair en main comme seule réalité aussi vraie que la mort ce bout de chair dans la paume de ta main que tu caresses parcourant le chemin qui mène de la nonchalance à la violence pour clore la constatation en un souffle de doux mourir ESKUZ
quand un vieil homme vous salue cordialement en arabe quartier du Marshan près d´une petite fontaine ou quand tu revois le lycée Henri Regnault dont le phantasme te hanta douloureusement pendant des années et revenir tout bas vers les mots simples et profonds qui ramènent Tagore Tanger Tarkovski et balbutier ces mots mystérieux qui se disent loques d´antique sonorité DASNIET ZABRIK TIASS
III
ton hôtel roule le monde ouvrir le balcon et avaler mer plage port casbah tout blanc tout bleu tambour du souvenir et s´asseoir sur le lit et sangloter comme un gosse l´angoisse du non-retour
BBA le silence embaumé sent les siècles et pénètre les os en leur racontant leur légende REH les remparts fument la grande porte s´ouvre et la pensée s´évade enlevée par son guerrier le souvenir UMM
ZAKIL ta chair qui coule gronde hurle sa gloire de devenir chair de mâle adulte et tu lui donnes le plaisir dû à cette chair qui se concentre en ce pays sans frontières de ta main quand l´isolement propice se fait gras de désirs inassouvis et de liberté sauvage ESKUZ
au clair de la lune mon ami Pierrot dans les jardins de mon père les lilas sont fleuris sur le pont d´Avignon on y danse on y danse tu étais petit et limpide l´écran de ton front t´offrait l´univers mais aride est le dehors ne te laissant que la mémoire fatiguée de l´Homme les mots s´effacent et la civilisation recule et ton cœur sans héritier entend ces mots que tu ne comprends pas NIT PLUSHKO NIT DANSKAYA ELDOS VRITAS KSYLIOS
IV
pourquoi cette obsession pourquoi cette fuite à la recherche du temps perdu pourquoi dénicher avec acharnement ce qui a déjà été violé par l`âge oh la roue tourne sans cesse et les saisons ne se comptent plus et la vitesse s´affiche avec l´inidentité et une toile d´araignée voile le soupirail de la cave aux souvenirs
BBA un chant antique berce le silence pour lui rappeler son identité en rehaussant les cris de l´amour EAFYA et la panoplie traverse la nef et les mains jointes imitent les ogives suspendues par des fils de silence UMM
ZAKIL non tu ne sais pas encore et pourtant déjà tu devines qu´il n´y a que sexe et mort et tu te livres à cœur ouvert à corps perdu à cette chair qui brûle du sens sauvage d´être et il y a déjà les mots enivrante abstraction qui sent ce sexe et cette mort à rebours chaque fois que gicle la vie ESKUZ
et parfois tu songes à cet enfant à ce fils quelque part en France et que tu ne connaîtras jamais et tu ignores le sens de ces mots qui abandonnent le chemin connu tu es désormais une île de références perdues et tu ne peux communiquer NADOT DONAT PIATROS EVDO TAARS DIVAD
V
ton regard se perd ni l´Espagne ni la France ni le Brésil tu fixes l´instant de l´opuntia dans son rêve toscan point de repère visuel et tu songes au soupir dérobé par le départ proche quand reverras-tu Tanger peut-être t´enfouir dans une nouvelle peau
BBA les puits de l´enfance ne contiennent désormais que du sable le silence les ayant vidés de leurs douleurs SHTA la pierre impériale contemple l´aumône de celui dont le geste rend l´action à la prière UMM
ZAKIL douloureuse solitude effroyable solitude d´être toi-même entier toi à peine sorti de l´enfance et déjà plongé dans cette chair qui ne t´offre que la tienne cette chair charnue grasse grappue qui mugit dans ton corps maigre et que tu fais couler cette chair si proche si lointaine vastes rêves dense terre ESKUZ
et te clore à toutes les frontières en un élan gothique qui peut-être te nie oh par la joie sacrée du Soleil tu aimes l´univers même si l´intelligence comblée a pris le doute pour mari et l´insatisfaction pour amant même si aimer au-delà de tout espoir dans la douleur de la négation ne produit que des mots des mots qui salissent le silence même si tu ne déchiffres pas ces mots DANKEVIK JOHAS PLANTELL NAHUM SATTIOS
VI
vert est ce bon thé marocain vert comme la menthe et la vieille table ronde de tes cousins autour de laquelle tournent les vieilles histoires de la Guerre Civile l´unicité déchirée s´effilochant par les canaux de l´errance
BBA et le silence lui-même découvre des fragments vétustes de sous-silence d´un grand silence antérieur où les cathédrales étaient construites au fond de l´océan silence des mémoires initiales TELJ et les muscles affranchis se mêlent aux nuages sous les couleurs magiques de l´ ascension UMM
ZAKIL chair que tu jouis goûtes et égouttes caché sur un arbre ou dans une citerne vide ou dans le W.-C. d´une usine abandonnée où l´isolement respire sexe sans bornes ou derrière les rochers de cette plage déserte où les vagues vont et viennent comme les mouettes comme ta main écartant entre deux coulées l´atroce solitude la chienne solitude de ne pas te sentir aimé de ne pas être comme les autres ESKUZ
haine et passion ibériques dans ce petit salon d´avril comme si tu eusses tout vécu comme si la mitraille eût troué tes entrailles mais même si la douleur se souvient de l´inexistant que dire alors de l´héritage du sang oh connaître la Pasionaria ou ne plus pouvoir connaître Rosa Luxemburg ni Olga Benario et demeurer circoncentriquement Mai 68 dans la hautaine magnificence de sa jeunesse et ces mots défient la raison TRANTIOS NIT LIMS FYLIS
VII
quelques vieux amis de ton père quelques soirées et faire inopinément des découvertes une femme qui a certainement aimé ton père chose banale et cependant si étrange pour toi souvenance d´une aile qui n´a pas encore quitté son nid
BBA et déferlent sur les plages assoupies des mémoires en loques où des pagodes de silence les ramassent et une houle de solitude se déplace tout le long des remparts de la nuit EUD du désert surgit cette femme rouge flamme bleue nom incolore âme suspendue au gré de l´exil implorant la pierre ou le bois du temple UMM
ZAKIL les yeux cernés d´amour non vécu d´amour adolescent d´amour solitaire de forçat rageur d´amour infini coulant sans cesse entre tes mains au creux des rendez-vous buissonniers ou sablonneux où les cinq doigts s´en donnent à cœur joie au rythme des vagues qui vont et qui viennent des goélands qui vont et qui viennent rythme ancestral des siècles endormis ESKUZ
oui ce père anarchiste austère et machiniste et si lointain si inaccessible qui a peut-être lui aussi aimé cette femme puis doucement un sourire candide effleure tes lèvres en y pensant le tiroir de l´amour se vide celui de la mémoire se remplit et les mots du songe rêvent aux possibilités du si et aux possibilités de ces mots qui déraillent OINLES NAQ VRIMPHOS OINLES NIT
VIII
il t´a fallu mâcher les orties de la désespérance pour en extraire la lueur des mots les voiles sont tombés et Mitra connaît à présent la saveur des visages frais la beauté éthique en soi demeure les moineaux piaillent rue de Fès vers le crépuscule avant de rentrer dans leur nid et quelques gouttes de consommation sautillent pittoresquement de temps en temps comme des consonnes frites
BBA le souvenir creuse la mémoire à la recherche incertaine d´une source peut-être tarie et tu reviens à l´aube cette aube qui se veut silence SHEMSH la pureté arrache son péplum et monte les marches de son apostolat poésie ou Bouddha UMM
ZAKIL chair eau chair n´est-elle pas l´opposé de la misère l´égalité naturelle et c´est cette chair que tu veux tellement partager avec une autre chair c´est cette chair qui reflète la profondeur des abysses où loge ton âme orpheline de chair de mystère ESKUZ
et l´espace te rend les senteurs épicées qui grisaient ton enfance peux-tu être ce que tu n´es plus Café de Paris place de France un thé à la menthe et une cigarette brésilienne et ces mots qui quittent l´ornière TAK POT YIHOM SLAVERT HAJAT
IX
tu traînes ton étiquette d´étranger dans tes propres pays car tu ne peux en faire partie intégralement d´un seul et tu suis la trace de pierre et poussière dans l´éternel pèlerinage du chat qui retourne et les Parques laissent leurs décisions au sablier et jouent aux cartes en buvant de la cachaça
BBA la douleur des frontières n´existe plus le silence l´efface et apaise la révolte des mauvais souvenirs de son baume automnal GEMRA et les visages aimés s´allongent modiglianiment se mirent s´oublient dans le miroir mélancolique de la spiritualité dont les yeux fixent un au-delà humain UMM
ZAKIL soif de chair ton inconcevable soif de transformer toute pensée en chair de transformer le non vécu en existence pleine de transformer l´univers senti en matière pensée en matière vive métamorphoser l´inanimé en sang et prière chair transmise par l´aube de la Terre ESKUZ
ainsi les reflets se cachent comme si tu étais trop beau ou trop laid pour être défini oui on n´oublie pas le premier amour ni une ville qui s´accroche à la peau tique temps tac et qui ne t´appartient plus comme ces mots SOILAM CZINSKIAT LAHAM VRAZ
X
dattes harira chuparkia figues de Barbarie amandes raisins secs couscous bonjour salive le goût te ramène à l´esprit pur Proust en est témoin et ton corps s´avère la communion ancestrale de la terre
BBA les absences dessinent des vols circulaires avant de plonger à pic dans les gouffres du silence que l´onde de la brume humecte et épaissit HOBZ et Zeus soulève le voile pudique et contemple le désir d´antan et sa virilité se hérisse UMM
ZAKIL et puis ô chair c´est l´atroce solitude depuis l´enfance la solitude des bouts impensables des insupportables bas quotidiens des buts inaccessibles ou brisés et le gouffre entre chair et mots rempli d´eau car la pensée est encore trop jeune pour devenir matière ESKUZ
des violettes souterraines quittant l´âme du phallus de saint Genet s´évadent de son tombeau tangérois traversent l´arôme de la menthe tourbillonnent et s´envolent vers un soleil inouï oh pourquoi aller si loin pourquoi tellement penser pourquoi une si persistante attente s´il suffit d´accepter la musique de la pluie ou les paroles de la mer quand l´ombre asperge la poussière du jour ou que ces sons au-delà de leur sens se donnent la main sur les sentiers du crépuscule PLISHKE PLISHKYA PLISHKYET CHTOZ LLIR LANSKA
XI
triste chambre d´hôtel après la poursuite d´un air ou de plusieurs visages dans cette cité bâtie à coups d´inidentité et qui t´ignore toi son fils quelques cartes postales Tanger Tangeri Tangier Tanjah avril 79 consolent les paroles que tu aurais pu dire et que des amis lointains essayeront peut-être de sentir
BBA les désirs se confondent avec les rites ou les mythes et perdent leur contour tellurien devant le rythme du silence NHAR sous un ciel orageux du Nord ce Nord que tu portes presque inexplicablement en toi sous un ciel orageux les corbeaux survolent le roux médiéval qui précipite les horreurs de l´Homme dans les fentes béantes du silence UMM
ZAKIL chair aussi claire que l´eau aussi dense que la terre aussi mystérieuse qu´une genèse d´étoile aussi déchaînée et sauvage que l´ouragan et l´étourdissement d´être le maître absolu de ce plaisir solitaire sans égal aussi enivrant que celui d´écrire et pourtant pourquoi pourquoi après le saut c´est toujours l´exil à mi-chemin entre mots et chair ESKUZ
et de l´autre côté de l´Atlantique une autre racine te cligne de l´œil te rappelant la couleur du présent ta femme tes enfants et ta nouvelle langue qui pourtant ne peuvent te soustraire à ta non identité ou à l´identité du no-land-man ni à ces mots bizarres TRAMS RETT YAAK
XII
et tu murmures comme si elle était présente femme si tu savais cette avalanche d´enfance et d´adolescence qui me monte à la gorge qui me plonge dans le temps écoulé qui me submerge je voudrais poser ma tête sur tes seins et pleurer le chagrin d´une ville retrouvée et perdue femme tu n´as jamais connu le cri de l´exil ni le grondement de la faim sois donc indulgente mais cette femme à toi est si loin si loin de l´autre côté de l´Atlantique
BBA l´eau emporte le nom de l´âme qui se laisse aller vagabonde et insouciante au cœur de l´univers LIL et les allégories des mers du Sud mêlent yeux bridés et liberté sous un firmament où Gauguin trempe son pinceau UMM
ZAKIL chair que de frissons médiévaux retournant les tripes montent au cerveau pour lui donner la chair de poule alors que Dame M ou Chevalier O étale ses fastes renaissants ses fastes interdits de rouge et de bronze de muscles tendus et de glissances sous la clarté printanière de l´initiation ESKUZ
tes larmes ne sont certainement pas frivoles oh une liberté absolue et une chaîne en même temps une langue au goût de sang et d´Histoire du commencement à la fin n´être qu´un seul être où tu puisses te lâcher immense et sans divisions oblation et enfin comprendre ces mots énigmatiques LLIOM HILTOS LLIOM
XIII
en quête d´un tiède arôme de bouffe tu as rencontré ta vieille fontaine oh quand tu étais petit pauvre maison sans robinet tu y allais chercher l´eau pour ta mère souvenance non-stop tristesse oh mère quel fardeau à perpétuité la pauvreté
BBA la patience de la quenouille drapée de safran file le coton des instants qui tisseront des pans de temps pour vêtir le silence WOQT et le blé vient de la mer et les remparts ouvrent leur porte et trois enfants sauvés attendent et le naufrage n´aura pas lieu on l´appelait Nicolas si loin maintenant de Bouddha UMM
ZAKIL le jus de la terre te pénètre traînant ses siècles de hantise stupeur émerveillement passion et douleur ce flux qui monte en toi du fond des abîmes du temps cette essence des âges perdus de l´Homme pour déferler sur tes lèvres et s´engouffrer dans le vide d´une convulsion liquide avant d´exhaler le soupir du regorgement ESKUZ
et tu as étanché ta soif tangéroise de paysan sans pays et les privilèges de la liberté s´avèrent inutiles devant l´angoisse de n´appartenir à rien oh que de vols en friche ont déçu ton lot de rêves que d´amours déglutis avant d´être vécus pourquoi ce retour pourquoi la senteur de l´enfance s´agrippe-t-elle à la mémoire comme une tique à la chair pourquoi reviennent-elles ces articulations ATQUIS MALY VANIS ZLAT AQ EYHIM
XIV
comprendre la forme mais sentir le contenu jusqu´où ira-t-elle ta jeunesse sans racines si l´horizon dépasse la vieillesse tu as cherché le jasmin à minuit rue Ferdinand de Portugal mais il s´était déjà envolé vers la montagne de l´oubli et une larme nocturne tu as repris
BBA certes les visages n´ont plus la couleur d´antan quand cœur et esprit se drapent de la soie du silence et ces oiseaux migrateurs que girent les saisons et qui planent majestueusement dont l´aile frôle l´écume des souvenirs épars sur les champs de l´azur sont peut-être le frisson de la mort que le silence pressent en transformant les élans en marbre JBEL et un ballet en habit gris dépouille le rêve et en fait des cubes UMM
ZAKIL firmaments solitaires des dieux sans repère des dieux exilés où débouche cette soif de chair que ta main trompe sous les mirages de la pensée et qui quitte le bas pour rejoindre le vol mythique de ces cygnes en flammes inflammation spontanée qui décollent vers les cieux de la solitude au-dessus des océans oubliés ESKUZ
et tu te replies humble cherchant la rédemption de la poésie de ne plus rien vouloir de ne désirer que le silence verre silence du début vert comme le vol lointain des sternes vers des hirondelles du glauque et oublier ces mots au-delà de la compréhension TOT NOUIK TOT PLUÇOSS MLINT
XV
le sens de l´éternité humecte naïvement la peau lézardée de l´âme mais le fondak Chijra est toujours là ainsi que la rue de la Tannerie ainsi que l´Emsallah de ton enfance et tu les as cherchés avec vénération comme un Bouarakia sondant le silence de la sagesse
BBA l´invisible l´indicible l´inaudible deviennent visible dicible audible dans les profondeurs du silence et ainsi tous les voyages toutes les fuites tous les exils toutes les attentes toutes les passions aboutissent à la mer du silence FSUL et la mort chevauche son coursier à travers les champs brûlés et la foi en friche où des pendus balancent une rêverie vétuste de vie où des chiens dévorent des cadavres où les arbres sonnent le glas UMM
ZAKIL eau-d´envie cette chair qui retourne une terre vierge sauvage avec l´ardeur de la découverte chair de soleil et de lune qui coule entre les muscles des eaux sacrées du cycle eaux vibrantes qui caressent ton corps assoiffé de tempêtes dans les piscines des rêveries ESKUZ
tombes romaines ou phéniciennes l´Histoire ment la légende confirme et le sol raconte une autre vérité voilée qui ressemble au songe de ces mots qui rêvent de communiquer de transmettre de communier LANSKA TAARS LANSKA KSYLIOS EVDO NAHUR TAARS
XVI
mais qui t´aimera quand ta chair sera devenue nuage qui donc oui découvrir soudain que tu as vécu une vie qui ignorait le sens Orient Proche et Extrême et tu as tout à coup voulu descendre palper un pays boire une culture et embrasser l´Islam
BBA le fleuve chavire les légendes que le poète parfois pêche en son insomnie pour les réveiller de leur sommeil séculaire au fond du lit du temps KELMA et le jour s´écroule tu ramasses ses vestiges pour recomposer son essence lentement un sens peut-être sur les bancs à l´ombre du silence UMM
ZAKIL sous le toucher les viscères se hérissent comme des queues de chats en colère quand elles devinent le recueillement du site solitaire qui ouvrira l´écluse des sens épanchement des eaux turbulentes d´où s´envolent des grues montées sur des castagnettes qu´elles font claquer de leurs pattes au rythme de l´écoulement tandis qu´elles foncent vers l´azur impeccable l´azur acier de la solitude ESKUZ
et dissiper les frontières et t´élever au-delà de la pensée pour te défaire en silence toi pupille de la Poésie rejeton du bruit et de la fureur enfin creusant le secret de la terre nu comme la pierre prière vaste et frêle comme le temps inexistant temps père espace père silence du sablier repère et la vitesse te fige tandis que sonnent ces paroles RVAT LLEURS RVAT VASTOSS LANSKA NIHYLOS
XVII
place de France James Joyce e Angel Vázquez prennent un café crème tandis que Juanita Narboni traînant sa chienne de vie et Marion Bloom liées par Gibraltar où ta mère se réfugia descendent la rue de la Plage bras dessus bras dessous se racontant leur solitude avant de manger des churros avenue d´Espagne après s´être gavées de gâteaux chez Porte
BBA diaphane avant-midi dans un square rêvant des grasses après-midi farcies d´amours clandestines sur un lit d´osier orné de strelitzias bercées par Billie Holiday KTAB et les sylphides dépaysées brodent des songes borgnes avec des aiguilles sèches de sapin UMM
ZAKIL chair longue montée des effluves du nife vers la chair réveillée par le flair d´exister lente montée de la lave vers le cycle séculaire d´être en ce flux reflux d´être le non-être qu´une main nomme et éclaire secouant la houle des sens avant qu´ils ne déferlent sur le sable des plages en blanc de l´amour ESKUZ
à rebours de la fureur de vivre les bougainvillées retiennent la célérité par ses jupons et finissent par l´étendre sur le gazon frais du silence où elle s´assoupit et tu souris au sirocco qui éparpille pervenches et potentilles d´un autre pays et puis souffler presque inconsciemment GAUTEK OFLIAM ZILL NAYROS
XVIII
angoisse ta vieille demeure s´est envolée un immeuble la remplace dans ce terrain vague une fois après l´école tu as fait caca maintenant on y vend de l´essence et dans ce rêve tu revois cette taverne où le vin de ton père s´appelait un demi-litre tu l´as cherchée mais tu n´as trouvé qu´une maison aux fenêtres closes
BBA un blanc du Nord blanc de neige s´affaisse sur les toits les arbres grelottent la pensée s´adonne aux corbeaux vision médiévale qui te hante Bruegel l´Ancien Bruegel le Jeune ou les frontières neigeuses d´Angelopoulos MA mais au loin les tours brûlent la terre se dessèche et l´aigle en fuite accroche son vol au sens tragique de l´oubli UMM
ZAKIL et c´est l´énergie de cette chair sacrée sagesse ancestrale qui explose en rolliers émeraudes et œillets propulsion olympique qui te pousse sauvage lyrique vorace vers les mots-pierre les mots-aigle ou tigre vers les mots-fleur sur ces rivages d´extase de sang et lumière où se pose mystérieusement le vol des épis mûrs ESKUZ
et le stylet de la nostalgie déchire l´image qui s´évanouit qui es-tu qui es-tu te demandes-tu en ce siècle d´excès et de déchets qui avorte ta passion pauvre siècle paré d´or virtuel et maquillé de médiocrité tu es peut-être saudade en portugais ou dor en roumain ou metoikos en grec ou l´identité du silence et ces mots vont clore ton voyage EVDO TAARS NAM
Avril 1979/Juillet 2005
La ballade de David Haize
J´ai cru connaître l´être autant que le non-être
J´ai cru percer à jour le haut comme le bas
Mais je ne connais rien si je ne puis connaître
L´au-delà de l´ivresse en l´au-delà de moi.
Omar Khayyâm (in Rubâ´iyât)
Toi David Haize
lycanthrope des versants voraces de la faim de vivre
tu n´es qu´un appel sans réponse
et tu files ton exil dans un train
et d´attendre ton cœur se cimente
faute de ne pas avoir tout bu
de ne pas avoir pu tout boire
toujours à ta recherche dans un train
l´identité en haillons
juif en autocar
chrétien en auto
musulman en avion
bouddhiste en bateau
homme en partance
et tu meurs sans Dieu
encombré de débris
las
tu as ramassé les étoiles à la pelle
espérances déchues
et de soif inassouvie
tu te tapes une solitaire
entre les interstices de la solitude
mais dans ton attente
tu entends encore la feuille frémir
quand le cœur sursaute
lors des randonnées imprévues
où les harmattans de jeunesse
brûlent ton corps insoumis
certes parfois tu te tais
regard blanc suspendu entre deux cheminées
pensée au vent
serein soudain
presque vrai tangible réel vieux
et tu gagnes le large du silence
coquelicots blessés
jouissance du retour
momentanément car
le goût aigre de la nausée
guillotine les asphodèles
et tu vois des cris
percer le limon du mystère
où nul ne se nomme
où nul ne nomme
le fond insondable du repère
car venir et aller se donnent la main
et tournent en rond
sans découvrir le sentier
sans atteindre le but
et tu murmures
il n´y a rien
à part le long chemin
le train express de la mort
drôle de voyage
jonché de mirages
jalonné des bonds du cœur
et des bornes de la solitude
tout le long des allées
bordées d´anges en fer
et de cyprès songeurs
sur la voie de la dernière demeure
livide froid étendu
sous le crachin de l´habitude
jouis donc maintenant mon pot
carpe diem
puisque le vol est court
et que l´aile qui ose
se blesse sous les balles d´autrui
ah sombre lueur des souterrains
où la liberté grince les dents
et égorge le mot dans sa propre cage
ombre lumineuse
de celui qui ne craint plus rien
lorsque la gueule de la mort célèbre le mariage
d´être et d´étant
fulgurante union de ser et estar
fastes des noces où la gloire c´est d´
être ce que l´on est ce qu´on se veut
ivresse de demeurer uniquement l´intégrité
oui David Haize
ce que tu es
un tu incertain bousculant un train
jusqu´aux confins de glace et d´acier
jusqu´à la correspondance du sang et de l´esprit
correspondances manquées
dont les transferts nocturnes s´engouffrent dans les tunnels de l´oubli
un écrivain
un écrivain de l´âme aux couilles
guindaille au cœur
amour qui s´écoule
pratiquant la latrie des Eléments
dans tes viscères
corps en état de suprême unicité
bannie la dichotomie
invoquant les succubes de l´écriture
pour avaler l´existence
fier danse feu
passionné
maître
dieu
par la grâce de ta volonté
supérieur par la conscience
affirmer ce que tu es
volonté qui se fait acte
grâce qui devient verbe
verbe qui épouse l´action de vivre
et tu dégustes les muscles de l´âme
et ainsi copules avec la chair du mot
sur la peau soyeuse du songe
songe de verdeur et de brume
lilial
comme au début
où les épanchements s´habillent de brouillard
et glissent doucement à l´heure incertaine
entre les pans brumeux des paysages assoupis
où les corbeaux dessinent leurs grises langueurs
et que le frisson du sol se faufile
entre mousse et tronc
où la tiédeur terre
où la chaleur mère
insère son soupir ancêtre
père
et tu reviens
redeviens
souffle
verbe
sans rage ni détresse
humble et simple
à l´odeur d´être
à la senteur initiale
au toucher docile du silence
et ébloui
tu renonces à ton nom
et tes mots n´ont plus la couleur de Goya
ni celle de Munch
et Nietzsche
Le plus noble n´est jamais que l´absolument dur.
ne te pose plus de questions
car tu coules
coules
serpentes
lentement
circulairement tel le paysage au gré des saisons
goutte pérenne
toujours entre mousse et bois
plus circonstance mais consistance
état
vers les racines
parmi lesquelles tu te blottis
au creux de la terre
terrier
gîte des siècles
étui de l´âme sylvestre
où tu n´es plus seul
où tu déniches ta langue animale
organique
celle du pur non dire qui précède le verbe
silence citadelle du sacré perdu
où le songe n´est plus songe
mais matière fluence univers
et dissous et entier
tu reprends la cantilène
des cycles siècles cercles
atavique printemps
du roseau de Chine
du chêne de France
et ton épiderme sent l´écureuil
et l´ours
et l´aigle
et le ver
le ver terre
pour éjecter
gicler
éjaculer
le vers
et ces infinis
malheureux limités
qui se heurtent à la douleur des frontières
qui font trembler la verge du poème
qui toussent et se cramponnent
à la queue des épiphanies
comme des lambeaux sans espoir
et pourtant
ô courts instants suprêmes
illuminations
révélations
délires
orgasmes
évanouissements
de se savoir pâtre prêtre pêcheur
des fugues cosmiques du cœur
dans les cathédrales sous-marines de l´esprit
au fond des cratères de l´âme
nife
et prendre le large
pour valser parmi les astres
en quête de l´absolu
sur un trois-mâts rouge
aux voiles bleues gonflées de désirs
glissant sur l´onde sidérale
avec Kubrick et Strauss
fougue azurée des jamais retrouvés
des toujours rencontrés
eh oui David Haize
bleu bleu l´amour est bleu
bleu comme le sang
révolution
la verge
rut jute but
en soi
explosion
le sang bleu d´une seule vie
oh de fureur tension frénésie
se fige le mot
te fait paraître éternel
comme un moineau
en ce frêle moment
sans trêve ni nom
où rugit l´éruption
que roule la lave
qui t´oppose au néant
que s´arrête le temps
et à bout portant tirer sur le désir
par les couloirs humides
fuite éperdue
fugue écarlate vers le vertige abyssal
évasion tout le long des cavités mythiques
qui remplissent
remplacent
déplacent
les vides de l´absence
absence absolue d´être
qui règne hors des spasmes
de ces fous moments
ébranlant les vérités
branlant les appétits
lourds de chair et de sang en état de grâce
sourds éclats de la rage d´aimer
de ces entrailles qui fécondent les perles
du dérèglement de l´espace et du temps
et la violence d´exister transpire
violence de l´aube
comme se tordent deux serpents amoureux
sur la terre brûlante
au-delà de la vie
au-delà de la mort
secondes où grouille l´envie
et la turbulence sue l´éthique de l´instant
brûlure des soleils en rut
morsure des anges turgis de désir
hurlement des dragons jouissant
tue-moi
sauvages
tuons-nous
sauvages
attends un peu attends
doucement maintenant
voilà comme ça
c´est si bon
prolongeons
au ralenti fleur de lys
sarabande
pavane
Rameau
tout doucement maintenant
comme si Vivaldi orchestrait notre corps
stop le temps
stop l´espace
avant le nouveau séisme
une nouvelle agression
soudons l´envie
et la graine se marie
tu me fais mal je t´aime
feule désir
sauvage
je te fais mal tu m´aimes
sauvage
rougit passion rugit
fonce
défonce
détruis
je suis ta salope
je suis ton salaud
tout
jusqu´au bout
bande l´arc
la flèche siffle
vole
la cible l´attend
t´attend
ah rude céleste sensation
d´introduction gothique
célébration
pénétrant le sens d´être
dans son élan
lueur d´août cinglant le front d´exister
la rage de connecter
orage d´été
correspondance des eaux
la marée monte
gronde
roule
tambour annonçant
griffe-moi
ah
gifle-moi
oh
la graine se dépose
rengaine
toboggan
le muscle se repose
oui
moi aussi
merci mon amour
et vous montez sur la licorne
et le coton de la tendresse dégraine un menuet
licorne correspondance Pégase
le firmament vous appartient
splendeur
vous n´êtes plus orphelins
vol majestueux du sang en liesse
au-dessus des abîmes des abysses des volcans
et l´insolente liberté se fait humble
pour retrouver le fil perdu
toison d´or des cieux
saint graal que le phallus remplit
et tu baises les pieds de cette fluctuance
bonheur qui te rend meilleur
fiat voluntas tua
sicut in caelo et in terra
car ta fonction première d´homme
a été accomplie
et déjà essence sur la houle des nuages
tu vogues la mémoire antique
de ceux qui te donnèrent le sang
et les questions s´avèrent inutiles
et vous survolez des aigles givrés
où brillent les derniers rayons du soleil couchant
et vous rencontrez des cygnes en flammes
qui reviennent des incendies d´aimer
et des statues égarées dans les cieux dansant Nijinski
et des anges byzantins jouant aux marionnettes
suspendus par des fils invisibles
et les Grâces au sourire botticellien
girent autour de Pégase que vous chevauchez
monture de démiurges
qui vole toujours en slow motion
tandis qu´au loin
sur le feston de l´horizon
se pendent les notes de l´Alléluia de Haendel
se balançant à la brise sidérale
très loin
très loin
là-bas où Ungaretti dit
lontano lontano
come un cieco
m´hanno portato per mano
puis les Grâces rompent le cercle
et se sauvent comme une étoile filante
oh oui
advenciat regnum tuum
de la gloire de la jouissance
car nul ne saurait te dire
où commence et finit l´éternité
mot étrange
sans identité
et accepter ce chemin de fer
sans les béquilles de Dieu
et vastes et sûrs comme l´océan
vous dégustez votre penser-vol
sans arrière pensée
sur les ailes de Pégase
où le désir s´étire se tend
s´allonge comme l´envie
et dépouille la dignité des servitudes du bas
non David Haize
tu n´as plus besoin de descendre
car tu n´as plus peur de voler
voler avec ta chair qui est esprit
puisqu´il n´y pas d´esprit sans chair
ni chair sans esprit
puisque l´âme est charnue comme des fesses
et le corps cadeau des dieux
diaphane comme un songe
vole donc à la vitesse de ta passion
ou de ton nom
Haize vent en basque
les Basques dix mille ans de résistance
faut bien les admirer
pas du tout bâtards comme les émules de Bush
et David vainqueur
vole sur la trace lumineuse du désir
car tout est désir
même la foi ou la poésie
vole ton vol
fierté de ceux qui t´ont transmis la joie d´exister
et Pégase vous emmène
aux contrées sans frontières
où l´absolu devient familier
quand on aime
osant se transfigurer
je suis toi
sois moi
et briser le je
évinçant ses superflus
quand Platon s´avère vrai
et que la légende est un fait
viens
empirique
pose ta tête sur ma poitrine
et voguons
voyageurs sans bagage
en quête d´essence
fauves
nus
bruts
séraphiques
interplanétaires
et pétales rouges d´une rose astrale
vous posez sur la neige
blanc et sang
après l´amour c´est le néant
oh non non
tu dégringoles
et les fades branlettes
dans les bouges de la solitude
décharnées comme la caatinga
et spirituelles comme un ordinateur
piteux branle-branle secs de mystère et d´éclat
quand ta main cherche une peau chérubine
une peau qui puisse absorber ton esprit
et l´arracher à la conne solitude du bas
une peau céleste à qui tu donnerais
ton essence déguisée en sperme
mais tu es réduit à ton pauvre cylindre
prosaïque
sans foi ni émoi
verglas
bleu bleu l´amour n´est pas bleu
il n´y a pas d´amour heureux
et les pétales fondent
se coagulent
et deviennent des tâches vermeilles
sur la blancheur de l´oubli
déchirure
l´aile de l´amour plie
ah tu l´aimais tant
ne me quitte pas
quand emportée par la brise du levant
elle s´en allait matinale et proprette
par les sentiers du printemps
pourquoi Beatles
Why she has to go
I don´t know
she wouldn´t say
oui Prévert oui Kosma
et la mer efface sur le sable
les pas des amants désunis
puis un beau jour Aznavour te dit
Et jamais plus
Le temps perdu
Ne nous fait face
Il passe
oui Buddy Guy hurler
Baby please don´t leave me
mourir d´aimer
au clair de lune
sous les peupliers
et ouïr la vie te dire
balayés les amours
avec tous leurs trémolos
et pourtant
tu ne recommences pas à zéro
puisque ton train ne s´arrête pas
ce train qui laisse tout en arrière
le passé l´illusion d´avoir vécu les pages en blanc
le futur qui devient passé
et Ulysse-Bloom-Joyce te dit
un passé qui avait peut-être cessé d´exister
en tant que présent avant que ses futurs spectateurs
fussent entrés dans la réalité de la présente existence
angoisse du transit
transitoire permanent
certitude de l´éphémère
oui mon petit David
te voilà dans ce train
qui est solitude d´origine
solitude de destination
de Léo
Je suis d´un autre pays que le vôtre,
d´un autre quartier,
d´une autre solitude.
Ferré
tu as toujours été dans un train
et tu le seras jusqu`à ta mort
le train du Barbare affranchi
celui du Bon voyage, Shéhérazade
celui de Litterata
celui des Folles mouettes meurent à la frontière
et c´est là que tu revois tes parents
même après leur mort
car ton père était machiniste
machiniste et anarchiste
et Ferré te fait pleurer
Y´en a pas un sur cent et pourtant ils existent
La plupart Espagnols allez savoir pourquoi
Faut croire qu´en Espagne on ne les comprends pas
Les anarchistes
et même si les glycines sont mortes
même si l´inappétence sonne le glas
tu tiens à voyager
encore et encore
en train
car il n´y a rien à part ce voyage
en train
convoi des mirages
même si tout est plastique virtuel antiseptique
sentiments étiques
façade apparence imitation
ordures assommantes de la consommation
empire du plat du vide de l´art
phtisie culturelle
où tout s´achète tout se vend
se prostitue
se tue
marché immense où les dieux défèquent de l´or
où les putes mâles et les putes femelles
dansent la gigue du rock de la bourse de la putaison
agitant les bannières de la vulgaire médiocrité
média masse démagogie publicité
le monde réduit à un show grotesque de crétins
l´écœurement
vomir oh sainte nausée
quand tu rentres bredouille
de la chasse au silence
la peau écorchée par le déplacement
quand l´exil de la noblesse
te fait éjaculer du sang
oui Buddy Guy oui blues
It´s a jungle out there
minorité rien à faire ou alors les bombes
et que ta candeur
pour ne pas devenir putain elle aussi
s´achète le masque des maudits
qui finit par devenir épiderme
visage acquis à perpétuité
même si les purs
Dieu délivre-nous de la tyrannie des purs
les purs hypocrites
toujours avares mesquins ignobles fanatiques
les (faux) purs méprisables
qui méconnaissent la générosité
la tolérance
qui tranchent les têtes
ou bombardent les innocents
et qui brûlent ceux qui savent
et qui perpétuent la misère
tout en détruisant la Planète
les purs assassins
ah Dieu vomit les tièdes
et toi tu dégobilles les purs
lorsque les scélérats du pouvoir châtrent l´éthique
et mercenaires pragmatiques mondialisent la faim
et déportent les pâquerettes
et exilent les muguets
et égorgent les pavots
et aveuglent les camélias
et empoisonnent les pétunias
et décapitent les pensées
même si les grands dieux
des chrétiens des juifs des musulmans
vassaux pitoyables du Dieu Suprême Argent
révèrent la puterie officielle
qui se farde d´or et de religion
fondamentalement poule
sonnant ses bijoux comme une catin
bâtarde par vocation
pour le carnaval des tricheurs
dans les bunkers néontiques des affaires
où trinquent entrepreneurs et trafiquants
à l´imbécillité des cons
consommons
soyons sages
consumons
le paradis nous attend
quand l´Indien qu´on brûle comme indigent
impunément
pleure l´Eau profanée
le Soleil en est témoin
quand la misère de ton enfance
ah non pas ça
non vraiment pas ça
ça fait trop mal
parlons olerki
poésie en euskara
Deubel prénom Léon
oui tu le connais
allez viens Léon
fais pas le con
viens prendre une bireuse
et griller une sirlingue
chez les petites sœurs de la solitude
tu veux manger d´abord
t´as faim
oui j´ai de quoi te payer un sand au Mac
t´en fais pas
tiens regarde
au coin de la rue
les chattes nocturnes
guettant les couleuvres inquiètes
en quête de nid
pour noyer le désarroi de la nuit
allez viens ça va s´arranger
à cette heure-ci les bananes électroniques
sonnent les matines
Seigneur ! je suis sans pain, sans rêve et sans demeure
Les hommes n´ont chassé parce que je suis nu.
Et ces frères en vous ne m´ont pas reconnu
Parce que je suis pâle et parce que je pleure.
oh mon cher ami
mon tendre ami
mon ami bien-aimé
ne pleure pas
tu n´es pas seul
tu peux rester chez moi
on va se débrouiller
mais d´abord on va baiser
chez les petites sœurs de la solitude
quoi
mais qu´est-ce que tu racontes
mais quelle idée saugrenue
vouloir faire ça
si jeune
ayant encore un tas de choses à écrire
ne dis pas de bêtises
mon pauvre Léon
mais ne fais pas cette tête-là
cesse de pleurer comme une Madeleine
on dirait le Jef de Brel
écoute Léon
je sais que les poètes ne sont pas sages
mais écoute-moi quand même
à trente-quatre ans
ça bande encore
on a donc la vie devant soi
tu sais qui est rentré de Montevideo
non tu ne le sais pas
ben mon vieux le grand trio uruguayen
Isidore qui vient d´épouser une punk à São Paulo
et les deux Jules
on pourrait aller les voir si tu veux
ou si tu préfères
on peut aller chez Ferré et Pepée
ou chez Brassens
non
pas chez Sá-Carneiro
ce n´est pas le moment
ni chez Espanca
non vraiment
ce n´est pas marrant
il te faut quelque chose de plus amusant
mais non
Hernández est toujours en prison
et Lorca est rentré de New York
mais on ne sait plus où il est
non surtout pas Takl
mais merde
tu ne cherches que les malheureux
il te faudrait plutôt causer avec un certain
Khayyâm Omar Khayyâm grand maître
hédoniste et métaphysique
tu sais les femmes les roses et le vin
ça fait du bien
mais il est allé à La Mecque
pour la première et dernière fois de sa vie
pour apaiser les mauvais esprits
lui qui n´est pas con
arrête de pleurer
Gospodi pomilyou
arrête Deubel
arrête mon frère
et le train roule
ne s´arrête pas
destination inconnue
sans arrêt ni mi-temps
David pourquoi tournes-tu le dos à ton enfance
les dattes ont un goût amer
mais le cherki du souvenir te ramène
rue Galilée ou rue Isaac Peral
la misère faisait la gueule
derrière le miroir du rêve
et travailler à douze ans
et vendre de vieux journaux ou de la ferraille
ça voulait dire ne pas crever de faim
oui le ragoûtard creux
le trajecteur en branle
le pompeur assoiffé
oui en exil
où se définirent les guenilles de l´identité
et continuer dans ce train
qui sait vers où
qui n´est pas le transsibérien de Cendrars
qui aimait le Brésil
non tu n´as plus le goût du voyage
ni de la vitesse
l´affreuse vitesse de nos jours
la vitesse des cons
qui t´écœure
il n´y a que la lenteur qui fait fleurir la conscience
il est trop tard pour recommencer
ton urgence exige
la lenteur
rythme du renoncement qui se nourrit de silence
et la voix clôt l´écluse
écoutant le bruissement de tes paupières
qui se referment comme un linceul de soie
sur le crépuscule d´une plage
annonçant le songe
qui te berce doucement
nid de coton suspendu à une étoile
sur la nuit béante des sensations
et de ta hauteur
tu entends le crissement soyeux du bourgeon
qui s´ouvre à la goutte de pluie
pluie
pioggia pludja ploaie
pluie
qui dévoile le songe
et tu descends
sereinement
sans hâte ni vertige
comme la feuille d´automne au gré du zéphyr
et tu planes sur les parages du songe
au-delà de toute pensée
avant d´atteindre la rizière du rêve
fertilité
où ton sang engourdi se réveille
se frotte les yeux
et frissonne d´espérance
et au cœur du bois
tu dénudes les vestiges de la raison
pour mieux percevoir le clapotis du silence
quiétude et éloignement
c´est à l´ombre du silence
que se dévoilent
à toi qui conserve ton flair
les secrets de l´essence
le songe est extase
le rêve est passion
le songe désaltère
le rêve brûle
ce rêve à la limite de la violence
de splendeur magnificence fureur
des muscles de la musique
et de la peau des couleurs
et des sons du toucher
et de l´arôme du goût
des spasmes fertilisant les idées
car avec la pierre des sensations
se construit la pensée
et à la lisière du rêve
quittant le songe
tu te mets à galoper
à travers la steppe de la création
et la Poésie bouillonne
intense
drue
grappue
déplace le couvercle de la médiocrité
et s´impatiente
tambourine sur la peau tendue de ton cœur
avant de devenir vapeur
embrun
vol clos
silence
et la fureur de la création
énergie sans pareil bondit
sexe et absolu synergie
tigre
granitant l´instant
ubiquiste et sans paradigme
incisives dans la gorge de l´existence en fleur
tigre amoureux tigre tyran tigre voyant
phallus nuptial
contre-attaquant
quand tu te remets de la torpeur
végétale torpeur de la consommation
de ces bourgeois
vides veules véreux vaches vermoulus vulgaires
qui tuent le silence à coups de pragmatisme
venin à feu lent
qui émascule l´élan
mais à cet instant créateur
tu es flamme
jet
ange
démon
mystère
lueur
ascension
et ton membre
ton Alexandre ton stoupa
ton Spartacus ton obélisque
ton Charlemagne ton mât
ton démarreur
est la torche du poème
libérateur
dur comme la vie qui s´oppose à la mort
saint révolutionnaire poète
vas-y
feu
et tu deviens l´albatros en plein vol
tu n´es plus la petite bête traquée de l´enfance
par la misère
ah pauvre et poète
lot des dieux
d´exil faim solitude et passion bâti
écrivain organique
tu te décomposes en contact avec la médiocrité
tu n´es que doutes
et c´est la puissance de l´incertitude
qui te pousse en avant
qui te rend fort
et tu écris comme tu sexes
avec tes viscères
oui le temps et le vent
emportant les certitudes
frivoles certitudes de la peur
pour te rendre lucide et serein
et d´écrire
et de vivre
tu n´es que compulsion
et tu te replies derrière les remparts du silence
si-len-ce
si-len(t)
ce
si
troublant
pour que l´innocence
les lèvres bleuies et le teint blême
ne soulève pas ses jupons
et tu flânes par les champs calcinés
du cauchemar de la consommation
du totalitarisme du fascisme de la dictature de la consommation
du cauchemar de la convoitise et de la religion
toujours en quête du duvet de ton terrier
où tu puisses cacher un reste de candeur
un ultime fragment de silence
du silence des dieux égarés
et Dieu est toujours absent
ou cruel et indifférent
serait-il petit
serait-il le Néant
Dieu inaccessible
se perdant dans les sables mouvants du temps
dont tu n´es qu´un mirage du présent
cessant d´être
à l´instant de naître
dans ce train
nain
fou convoi
sans lendemain
sans foi
oh Zeus solitude du mythe
solitude de Prométhée
solitude du Quichotte
solitude de la conscience
il sent marcher en lui d´atroces solitudes
solitudes bercées par le roulis du silence
ou fouettées par la tempête d´être
errance
et tu deviendras bleu David
bleu comme la Terre vue du ciel
bleu comme le tombeau glauque de Venturini
dans mes veines ce n´est pas du sang qui
coule, c´est de l´eau, l´eau amère des océans
houleux…
et la diaspora de ton cœur sonne la diane
et les éclats du silence se recomposent sous l´eau
tout près d´un impossible toujours
tout près du titan Rimbaud qui te souffle
Je crois en toi ! je crois en toi ! Divine mère,
Aphrodite marine !
et tu sombres
vers le début
dans ce train
qui pénètre l´eau du silence
Décembre 2004
La banlieue de la mélancolie
J´aime ceux qui ne savent pas vivre à moins de se perdre,
car ce sont eux qui passent sur l´autre rive.
Nietzsche (in Ainsi parlait Zarathoustra)
Ce fond si bleu
profond Silence
fraîcheur
revers du présent silence
sale de chaleur
de hosties et de faux
quand exister agresse vivre
inerte entre les plis de la solitude
comme un insecte attendant la mort
au fond de la nuit
sous le clignotement publicitaire du néon
du rien
nuit tendue de riens submergés dans le bas néant
stigmate du vol
saignant
lueur incandescence flamboiement
d´antique magnificence
douleur langueur
comme si les dieux eussent permis
saigner le mutisme d´un dieu rebelle
exilé
jusqu´à combler l´auge d´épluchures de mots
vestiges de la longue journée
le cœur durci
la poussière couvrant la peau
la larme tarie
dans la banlieue de la mélancolie
où s´embouchent les chevauchées de l´esprit
phtisiques
dans la prison du quotidien
et l´amen
résignation ou prostitution
pure hypocrisie
flattant le Temps qui file
file des guirlandes d´espérance battue
entre l´arrivée et le départ
ou gît le rêve
amorphe flasque vieilli
sur le sofa
sans emploi
en face de la télévision
éructant le dégoût mal digéré
rêve obèse de fumée et d´alcool
pour tromper la chute de
l´absolu
et le masque incolore de l´inappétence
transpirant la mort en gouttes domestiques
là-bas où le cœur empile les fruits aigres de
l´indécision
et les épiphanies liquéfiées coulant par les trous de
la prudence
et les élans châtrés par la
raison
nuit sale d´images blafardes
se taire foncer
chaleur
le ventilateur
éparpillant l´odeur de rance de sueur et de mort
balayant la charogne
des cimes des sommets des pinacles
orgasmes
desséchés par l´oubli
ou rouillés par l´embrun du quotidien
glands jamais léchés par l´océan
recueillis dans le prépuce de la fausse humilité
au fond du grenier
où en grande tenue de fureur et désir
les mites épousent les mythes
en célébrant leur grand festin
ah tunique austère du non-vivre
trompée
comme une prière de commande
implorant des mouettes enfoncées dans les prés
ou des coquelicots survolant la mer
d´aimer
en exil
parmi les brumes lasses
d´espoirs fauchés
de paysages soûls
d´être le non-être
mots tus
ou tués
sans mémoire
accrochés aux barbelés des frontières
comme des loques de peau d´évadés
arrachées dans leur fuite
laissant de l´autre côté
la besace de l´âme
avec son fœtus fardeau fétiche ou foi
pourrir
sans devenir le diamant de la colère
sans la lumière d´être
le vers qui contient
ontologique
l´être dans le cloître
entre pierre et vent
dans les salines désolées du dépouillement
quand même la vérité sonne vanité
voyage au bout des sens
de ceux qui osent
voler
maudits
assoiffés de liens perdus
affamés de grâces ancestrales
plongés dans le resplendissement
redevenus essence
riches enfin du haut Néant
splendeur de la réintégration
absolu blanc sur blanc
du vaste Silence
si loin
(ou si près) de Jérusalem
Novembre 2005
TABLE
L´être impossible
La grâce d´antan
A l´ombre du Silence
Tanjah 79 retour
La ballade de David Haize
La banlieue de la mélancolie
Jovens, Limpem o Brasil
julho 14, 2011
Jovens, Limpem o Brasil
Manifesto
de
Jovens brasileiros, até quando vocês vão ser otários do governo?
Até quando vocês vão ser feitos de palhaços pelo governo?
Até quando vocês vão ser tratados como imbecis pelo governo?
Até quando vocês vão ser manipulados pelo governo?
Jovens, vocês não são marionetes, são pessoas.
Jovens, o Brasil é de vocês, não do governo.
Jovens, o Brasil decente depende de vocês.
O Brasil é do poder jovem, não dos velhos corruptos.
O BRASIL PERTENCE À RENOVAÇÃO
NÃO À PODRIDÃO
O BRASIL PERTENCE À RENOVAÇÃO
NÃO À PODRIDÃO
Jovens, a web é a arma de luta, usem-na para difundir, conscientizar, aglomerar, desfechar ataques virtuais e instigar a desobediência civil.
Jovens, o que vocês estão esperando? Reajam. Digam basta. Se houve uma primavera árabe, haverá uma primavera brasileira.
CIRANDA CIRANDINHA VAMOS CIRANDAR
CIRANDA CIRANDINHA O PAÍS VAMOS INCENDIAR
CIRANDA CIRANDINHA VAMOS CIRANDAR
CIRANDA CIRANDINHA O PAÍS VAMOS INCENDIAR
Portanto, ocupem ruas, avenidas, praças, escolas, universidades, aeroportos, prédios públicos. Bloqueiem estradas.
Jovens, vamos limpar o Brasil?
Então…
Derrubem a corrupção
Derrubem a injustiça
Derrubem o roubo legalizado
Derrubem a falta de transparência
Derrubem a imunidade
Derrubem a impunidade
Derrubem a discriminação social
Derrubem a Lei de Anistia
E vamos lá, que o mutirão da limpeza do Brasil é uma festa. Vamos nos divertir limpando a sujeira acumulada durante cinco séculos.
UMA TRANSADA, UMA TRAGADA
E A GRANDE LARGADA
UMA TRANSADA, UMA TRAGADA
E A GRANDE LARGADA
Derrubem os salários astronômicos dos parlamentares. Isso é roubo legalizado. Lugar de ladrão é na prisão.
Derrubem os salários ofensivos do Judiciário. Isso é roubo legalizado. Lugar de ladrão é na prisão.
Derrubem as aposentadorias exorbitantes acumuladas por um único cidadão. Isso é roubo legalizado. Lugar de ladrão é na prisão.
Derrubem o sigilo eterno de documentos secretos. Isso é puro fascismo para proteger falcatruas de ladrões.
Derrubem todos os privilégios da classe política. Os políticos são o câncer do Brasil. A imunidade dos políticos é uma ofensa aos princípios da democracia. Nenhum cidadão, absolutamente nenhum, está acima da lei. Somos todos iguais perante a lei.
Derrubem os vícios político-sociais que permitem a impunidade desde a época colonial.
Derrubem todas as leis obtusas, obsoletas ou tendenciosas que visam a privilegiar quem as cria.
BRASÍLIA INCENDIADA
A DECÊNCIA RESTAURADA
BRASÍLIA INCENDIADA
A DECÊNCIA RESTAURADA
Jovens, exijam…
Melhor ensino. O Brasil tem um dos piores ensinos do mundo.
Melhor salário mínimo. O Brasil tem um dos piores salários mínimos da América Latina.
Jovens, não deixem barato, protestem, insurjam-se.
Lembrem-se de que protestar é respeitar-se. É negar-se a ser conivente com a podridão. Protesto é sinônimo de dignidade.
Lembrem-se de que a História se faz com ações. Não com palavras.
Lembrem-se de que a prudência pode virar covardia.
Lembrem-se de que a ponderação pode virar frouxidão.
Lembrem-se de que a paciência pode virar letargia.
Lembrem-se de que o destino do País está nas mãos dos jovens. Logo, não façam concessões àqueles que se perpetuam no poder. E neguem-se a votar em criminosos. Boicotem as eleições.
BRASÍLIA É GOMORRA
BOTA FOGO NESSA ZORRA
BRASÍLIA É GOMORRA
BOTA FOGO NESSA ZORRA
Jovens, comuniquem-se, unam-se. A união faz a força. A internet é feita para isso. Paralisem o País para mostrar a força jovem. Exijam o que é justo. Exijam democracia de fato. Exijam um Brasil melhor para as futuras gerações.
Jovens, sejam dignos, não se omitam, não se calem. Ousem dizer chega. Sejam jovens. Rebelem-se. Alegremente e com fé. Os rumos do Brasil dependem de vocês. Usem a energia da sagrada revolta para manifestar-se.
Jovens brasileiros, amem o Brasil! Limpem-no!
25-06-2011
Réquiem Pela Língua Portuguesa 2
julho 12, 2011
Réquiem pela Língua Portuguesa 2
Pobre língua portuguesa do Brasil. Como se não bastasse a adoção pelo MEC da famigerada cartilha Por Uma Vida Melhor, da qual se deduz que o povo brasileiro deve permanecer na ignorância, temos, por parte de um determinado setor da sociedade, a invasão da língua portuguesa pela inglesa. Poderia dizer que à estupidez daqueles que preconizam a ignorância escrita e falada se soma a frescura irritante de outra parcela da sociedade que salpica “graciosamente” seu vocabulário de palavras inglesas (especificamente norte-americanas) para parecer chique, moderna, culta. Quando na realidade essa atitude é brega, atrasada historicamente e, em última instância, ignorante. Sem contar que fede a ranço colonialista com o devido verniz da globalização. E aí entra uma pequena ressalva. Sou, pelo meu histórico de vida, cosmopolita e internacionalista, ou seja, nada nacionalista. Logo, preservar a nossa língua não tem nada de xenofobia. É óbvio que a língua é dinâmica. Logo, é normal que um idioma incorpore vocábulos estrangeiros e neologismos. Senão estaríamos ainda falando latim. Mas chegar ao extremo aonde chegamos, é outra coisa. Em outras palavras, adotar termos estrangeiros que nossa língua não tem, tudo bem, enriquece o idioma. O que é inadmissível é simplesmente substituir palavras que existem em português pelas correspondentes em inglês. E isso para parecer atualizado. Em verdade, atualizado em cafonice.
São inúmeras as palavras que vemos diariamente em jornais, revistas, internet, cartazes ou que ouvimos na televisão. Palavras como mix, em vez de mistura ou mescla. Trip, em vez de viagem. Cool, em vez de frio. Light, em vez de leve. Sales, em vez de promoção. Off, em vez de desconto. Outdoor, em vez de cartaz. Delivery, em vez de entrega. Fashion, em vez de moda. E assim por diante. É tão cretino esse afã de mostrar conhecimento de inglês que acaba distorcendo a gramática portuguesa. Os pronomes relativos são degolados. Por exemplo: a loja que eu compro, em lugar de a loja onde eu compro. As preposições então são enviadas às câmaras de gás. Exemplos. Voe TAM, em lugar de voe pela TAM – puro anglicismo. Assisti um filme, em lugar de assisti a um filme. O verbo captar aparentemente caiu em desuso. Já não se diz captar o sentido, a imagem, mas capturar o sentido, a imagem – puro anglicismo. Já não se diz ele se suicidou, mas ele cometeu suicídio – puro anglicismo. Isso sem falar do abuso do gerúndio: amanhã estarei enviando – puro anglicismo. Em breve, as subordinadas vão desaparecer porque é mais prático (o inglês, sem dúvida, é uma língua prática), e vamos passar a dizer: a mulher eu amo em vez de a mulher que eu amo. Em suma, tudo isso, além de deplorável, é ridículo. Grotesco. Caricatural. E, em última análise, vulgar. Já que toda imitação é vulgar. Tudo o que não seja autêntico é vulgar. Por mais fino que seja.
Mas existe também um aspecto perverso nessa invasão da língua portuguesa do Brasil pela língua inglesa norte-americana. É o lado social. Ou político – já que tudo é político. O jornal “O Estado do São Paulo” vive publicando, na primeira página do Caderno 2, um anúncio do Haras Larissa que diz: Authentic, simple, elegant and exclusive. Além de publicado em inglês, repare no adjetivo exclusive, altamente significativo. Outro anúncio no mesmo jornal: Fashion Day no Shopping Center. Note que nesta frase de cinco palavras há quatro em inglês e uma só em português. Muito bem. O Cambuí, o bairro mais elegante de Campinas, parece uma cidade norte-americana. Repleta de day hospital, fitness, Sales, off, english school (com os dizeres suplementares de kids, teens, adults), etc… Pode-se dizer, parodiando o título da peça de Nelson Rodrigues, que o Cambuí é bonitinho, mas ordinário. Gente, onde é que nós estamos? O brasileiro não é obrigado a falar inglês. Nem sequer a conhecer todos esses estrangeirismos. Aliás, um morador da periferia se sente, não só deslocado, mas excluído do Cambuí e dos shoppings. E daí? – pode argumentar algum cínico – o Cambuí não é para morador da periferia. E chegamos aonde quero chegar. Há uma correlação entre a invasão do português pelo inglês norte-americano e a nossa desigualdade social, uma das piores do mundo. Talvez, já que somos dóceis lacaios do neoliberalismo, devêssemos propor que o Brasil adotasse o inglês como língua oficial. O MEC certamente aplaudiria a ideia.
R.Roldan-Roldan é escritor
21-06-2011
Publicado pelo jornal “Correio Popular” de Campinas a 6 de julho de 2011
Réquiem Pela Língua Portuguesa
julho 10, 2011
Para que serve o MEC? Para contribuir com a degradação de língua portuguesa ao longo dos anos? Para desembocar na total avacalhação do idioma português? Para levar o Brasil ao vexame de ter um dos piores ensinos do mundo no ranking mundial? Não é uma vergonha que uma potência emergente tenha 50% da população semianalfabeta? Porque os tão decantados 10% (aproximadamente) de analfabetos são estatística para inglês ver. Ou seja, consideram alfabetizados aqueles que conseguem assinar seu nome. Será que o governo (especificamente o MEC), não se dá conta que a língua portuguesa é, não só um patrimônio brasileiro, mas um símbolo nacional? Será que esses inúteis do Planalto que só visam a se enriquecer na carreira política não percebem que, como símbolo nacional, o português está no mesmo nível da bandeira e do hino nacionais? Logo, a cartilha “Por Uma Vida Melhor”, adotada pelo MEC e distribuída em mais de 4000 escolas, equivale a defecar em praça pública e a limpar-se o ânus com a bandeira nacional. Ou será que, já que tudo, absolutamente tudo (menos os genes) é político, devemos atribuir a adoção desse lixo de cartilha (supostamente para “integrar” o povo – não é assim que se elimina a desigualdade social), ao latente objetivo, de maquiavélica (literalmente) perversidade, de manter o povo ignorante para melhor subjugá-lo? Manter um país na ignorância é uma estratégia milenar de controlar, indiretamente, todo tipo de informação, de acesso ao conhecimento e, em última instância, de camuflar uma ditadura sob a aparência de democracia. Os países árabes, com alto índice de analfabetismo, são um exemplo desse procedimento. Só existe um único país árabe que não esteja sob uma ditadura: o Líbano – embora tenha uma democracia meio capenga. E quando digo árabe, não digo islâmico, que são coisas diferentes.
Mas, voltando à famigerada cartilha, o que mais deixa perplexo qualquer cidadão consciente e honesto, não é o fato de um bajulador (ou arrivista de esquerda, ou imbecil) ter escrito a cartilha, o que espanta é um órgão oficial ter adotado semelhante lixo. Como acreditar na idoneidade desses órgãos oficiais? Como crer na honestidade de tudo o que vem daqueles que detêm o poder? O Brasil não é um país sério, dizia De Gaulle 50 anos atrás. E continua não sendo sério. Mas, pensando bem, em última análise, não é só uma questão de seriedade. Mas uma questão de amor. Sim, de amor. De amor e respeito por aquilo que é nosso. E a língua portuguesa – embora trazida pelo colonizador – é genuinamente nossa, já que a Nação não fala tupi-guarani, como deveria. Nossa, como a bandeira e o hino nacionais. No fundo, essa falta de amor talvez esteja relacionada com o processo inconcluso de identidade nacional. E que não me venham argumentar, os aproveitadores ávidos de poder, que o bom português é algo de burguês. Não é por aí, não. Isso é coisa da esquerda oportunista, alpinista (ou festiva como se dizia antes) que nada tem a ver com a esquerda autêntica, honesta, íntegra e, principalmente, coerente. Um bom socialista não se vende. E o bom socialista não pode se esquecer de que as teorias de esquerda também devem ser renovadas – mesmo porque o mundo e a História são dinâmicos – sem que isso deva ser tachado de revisionismo. A cultura é um patrimônio da humanidade. E tem de ser preservada e levada até o povão. E não destruída sob pretexto de que pertence a uma elite. Em outras palavras: não se deve deixar que o povo permaneça estagnado na ignorância – o que é uma atitude absolutamente demagógica e fascista. Mas de elevar seu nível de cultura.
Em suma instaurar os “nós vai”, “dez real”, “cinco mulher” ou “dá pra eu” é uma absoluta regressão. Que só pode provir de retrógradas. Que cheira a resquício de revolução cultural maoísta barata. Que aprofunda definitivamente a nossa miséria cultural. E isso não quer dizer que eu esteja sugerindo usar verbalmente os “dá-mo”, “ver-te-ei” ou “diga-lho”. Ou a linguagem rançosa do Direito. Apenas creio que se deve falar um português correto. Claro. Limpo. Icástico.
Pobre língua de Sá-Carneiro, Pessoa, Quental, Bandeira, Murilo Mendes. Orides Fontela – para citar só poetas. Pobre língua nossa. Réquiem pela língua portuguesa do Brasil. Professores queimem a cartilha em praça pública e apedrejem o MEC!
R.Roldan-Roldan é escritor
23-05-2011
Publicado pelo jornal “Correio Popular” de Campinas a 1° de junho de 2011
