Comida Caseira
maio 19, 2012
Parte de
JUIZ CASADO COM FILHOS PROCURA HOMEM PARA SEXO CASUAL
(CONTOS)
Comida Caseira
Não. Assim não vai dar. Não vai dar mesmo. Desse jeito a vaca vai para o brejo. Vai acabar fodendo tudo. Porra, paciência tem limite. É uma questão de bom senso. Qualquer pessoa de bom senso vai perceber que a coisa vai feder. E vai feder feio. Falta de desconfiômetro. Falta de consideração. Eu diria que é até falta de respeito. Pois é uma invasão. É isso mesmo: uma verdadeira invasão. Puta que o pariu. Primeiro, a Freira. E, como se não bastasse, agora a Crente também. Que que é isso? A casa da madre Joana? Pau para toda obra? Pois é, é isso mesmo. Pau para toda obra literalmente falando: o pau do marido. Eu tenho que cuidar da família inteira da minha mulher. E tem mais. O outro dia fui ter uma conversa séria com a Mag sobre o assunto. E que é que ela me responde? Rando, você deveria se considerar satisfeito. Como assim, satisfeito? Querido, você não reclamava que precisava de mais sexo? Pois agora você tem o que você queria: sexo à vontade. Em vez de reclamar, você deveria me agradecer, a mim, Magnólia, sua mulher, de ter providenciado o que você precisava: mais sexo, sem ter que sair por aí atrás de sirigaita e trazer doenças para casa. E vou te dizer uma coisa: não é toda mulher que é capaz de fazer o que eu faço por você, meu marido. Não é toda mulher que é desprendida e abre mão da exclusividade sexual do marido para deixá-lo satisfeito e feliz. E tem mais: sem ciúme. Achei o cúmulo da argumentação e repliquei: só faltava você ter ciúme, né, Mag? Mas poderia ter, né, querido? Você não diz que mulher é muito complicada e contraditória? Homem é que é mal-agradecido mesmo. Eu, uma esposa fiel e trabalhadora, que trabalha fora, cuida da casa e dos filhos e que, por estar muito estressada para satisfazer o marido, providencia sexo regular e seguro para ele da maneira mais desprendida que se possa imaginar, sou obrigada a ouvir reclamações do meu marido que nunca está satisfeito com o que tem. Magnólia, não é por aí. Eu nunca fui de reclamar. Sempre aceitei tudo de você. Só que nem oito nem oitenta. Você passava semanas e semanas sem dar para mim. E agora praticamente sou obrigado a comer a Hortênsia (exagero meu porque eu estava gostando de comê-la) e, porra, a Begônia também vem morar conosco. Querido, você não é obrigado a comer a Tênsia e a Begô vai morar na edícula. E a conversa ficou por isso mesmo. Na realidade eu não me casei com a Maria Magnólia, casei com sua família inteira. Todo santo domingo era macarronada na casa dos sogros. Todo Natal era jantar e almoço na casa dos sogros. Todo domingo de Páscoa, almoço na casa dos sogros. Todo aniversário do sogro, festa na casa dos sogros. Todo aniversário da sogra, festa na casa dos sogros. Porra, haja saco para aguentar. Olha, eu sou um cara muito simples. Um homem caseiro. Boa índole. Pacato. De família humilde. Eu me formei engenheiro agrônomo porque um tio-avô, meu padrinho, me pagou os estudos. Se não fosse por ele, não teria tido meios para estudar. Tenho um bom emprego e ganho bem. Gosto muito da minha mulher e dos meus dois filhos. Sou corintiano. Gosto de bater uma bola. De um bom churrasco e de cerveja. E de meter. Não fumo. Não saio com mulher. Só tomo cerveja com os amigos depois da pelada. Minha vida seria um mar de rosas não fossem duas atitudes da Magnólia. A primeira é sua família. Mulher é bicho gozado. Casa e fica grudada nos pais. E isso acaba atrapalhando a relação com o marido. Mulher quando casa deveria se conscientizar de que formou um novo núcleo familiar e que tem que sair da barra da saia da mãe. Mas a Magnólia nunca entendeu isso. É boa esposa. Trabalha fora, cuida da casa e dos filhos – até aí, tudo bem – mas também cuida da família dela. E, a verdade seja dita, descuida do marido. Descuida do marido no sentido que não trepa comigo tanto quanto eu gostaria. Às vezes ela passa até dois meses sem abrir as pernas para mim. E, todo homem sabe disso, é foda ficar sem foda. Como diz o povo, a porra soube à cabeça e eu fico nervoso. Estou cansado de bater punheta. Para que tenho mulher então? Para ficar batendo bronha? Juro por Deus que na primeira oportunidade vou pular a cerca. Para falar a verdade, eu não traio minha mulher por preguiça. Dá muito trabalho procurar mulher por aí. E acaba dando problemas. A fulana acaba grudando e às vezes acaba com o casamento. Eu sei como é. Já aconteceu comigo. E tenho amigos nessa situação. O que não dá problema é puta. Meter, pagar e tchau. Mas eu não curto sair com puta. Não tem graça. O homem gosta da conquista. Pelo menos eu gosto. Mas com a Magnólia não dá. Não dá porque ela não me dá. Está sempre cansada. Com dor de cabeça. Ou com enxaqueca. Ou com muito sono. Ou menstruada. E eu acabo tendo que dar um trato no pau para sossegá-lo e poder dormir relaxado. Uma noite em que ela se recusou, eu fiquei tão puto que disse: olha aqui, Magnólia, é a última vez que eu peço para trepar comigo, mas pode ter certeza de que sem mulher eu não fico, pois eu não tenho pau só para mijar. Ela não respondeu nada. Mas deve ter pensado no assunto. Pois uns dais depois ela me veio com uma solução. Ou o que ela achou que era uma solução. É claro que na época eu não percebi que era uma “solução” (entre aspas mesmo). Ela chegou toda meiga e propôs; Randinho (meu nome é Randolfo, mas ela me chama de Rando ou Randinho), preciso falar com você. Fala, Mag. Sabe, minha irmã Maria Hortênsia? Sei, a Tênsia, a Freira. Ela não é mais freira faz muito tempo, pare de chamá-la de freira. Que é que há com ela? Ela está muito triste depois da morte dos meus pais e não quer mais ficar naquela casa sozinha. A casa poderia ser vendida e ela vir morar aqui conosco. Queria saber se você aceita a coitadinha, tão sozinha, sem marido, sem filhos, sem namorado e agora sem pais. Ela não vai atrapalhar nossa vida. Ela moraria na edícula – afinal de contas a edícula tem dois cômodos, cozinha e banheiro e está praticamente vazia. Puta que o pariu, pensei. E eu que achava que depois da morte recente dos meus sogros – morreu ela e uns meses depois ele – estava finalmente livre da família da minha mulher… Agora vou ter de aturar a irmã. A Tênsia. A ex-freira. A solteirona. Virgem, ao que parece, até agora. Fazer o quê? Ia falar que não? Tá bom, Mag, mas eu não quero a Tênsia na minha casa. Ela que fique na edícula sem invadir nosso espaço. E assim a Freira veio morar conosco. A mais velha das três irmãs, quase cinquentona, quieta e sem graça – a não ser a bunda, bastante apetitosa. Passou quase vinte anos num convento. Aí resolveu sair, depois dos quarenta. A Magnólia diz que ela nunca deu. Que está lacradinha da silva. Passaram-se umas semanas. A coitada da Tênsia era tão discreta que a gente esquecia que ela morava nos fundos. Até que um belo dia a Magnólia veio falar comigo. Sabe, Randinho, estou muito preocupada com a Tênsia. Que é que tem a Freira? Randinho, não a chame de Freira, faz tempo que ela deixou de ser freira. É, Mag, mas ela continua com jeito de freira. Que aconteceu com ela? Ela continua virgem com quase cinqüenta anos. E daí? E daí que a virgindade pode dar câncer. E daí? Ela que procure um macho para tirar o cabaço. Ai, meu bem, que jeito de falar. Que falta de sensibilidade da sua parte. Os homens são todos iguais. Você acha que é fácil para ela, uma mulher que sempre viveu reclusa e submersa na religião, sair com um homem? Para vocês, homens, tudo se resume a introduzir o membro. Você sabe muito bem que nós, mulheres, somos diferentes. E como eu sei, eu sei muito bem, que mulher é diferente e complicada. Randinho, não seja irônico. Eu estou falando sério: não é fácil para a coitada ir para a cama com um homem. Bom, Mag, o problema é dela. Ela que se vire. Que é que a gente pode fazer? Foi uma opção dela ser freira e agora não ser capaz de arranjar um macho e levar uma vida normal. Mas ela tem uma vida normal. Não, Mag, ela não tem uma vida normal. Ficar sem trepar a vida toda não é uma vida normal. Mas enfim, eu não tenho nada a ver com isso, o problema é dela. Mas ela é minha irmã, Randinho. E eu com isso? O que você quer que eu faça? Que tire a virgindade dela? Exatamente. O quê? Eu não acreditei no que estava ouvindo da minha própria mulher. Com os olhos arregalados, perguntei: Magnólia, você está me propondo que eu deite com tua irmã? Estou. A pobrezinha é virgem. Morre de medo de homem. Mas ela vai aceitar você. Como é que você sabe que ela vai me aceitar? Porque eu já falei com ela. Já a preparei. E ela aceita deitar com você. Só com você. Porque você é da família e ela te respeita muito. E para você é fácil, você é um homem. Não custa, né, meu amor? Magnólia, se eu, teu marido, comesse tua irmã, sem você saber, e um dia você viesse a descobrir, você diria que sou o maior cafajeste, o maior filho da puta na face da Terra. Mas, querido, ninguém está traindo ninguém. É simplesmente um acordo. Depois de deflorada, talvez a ela crie coragem para arrumar um namorado. Meu bem, é uma questão de generosidade. De generosidade, né, Magnólia? Sim, Randinho, de generosidade, de caridade cristã. Você vai apenas abrir o caminho. Tenho certeza de que ela vai gostar de sexo – você é um homem experiente na cama e será paciente com ela – e ela vai querer encontrar um companheiro. E se ela gostar de mim? Bem, querido, é um risco. A vida é feita de riscos. Ela pode vir a se apaixonar por você. Mas você não vai se apaixonar por ela. Como é que você sabe? Porque ela não é o tipo de mulher pela qual você se apaixonaria. Você está muito segura de si, de onde te vem tanta certeza? Porque eu te conheço, Randinho. E você não ficaria com ciúme? Não, não vou ficar com ciúme. Ficaria se você arrumasse uma mulher fora de casa, uma desconhecida. Mas minha irmã não é nenhuma ameaça, mesmo porque eu a conheço bem. É o desconhecido que assusta e que nos deixa inseguros. E foi assim que tirei o cabaço da Freira. Só que acabei gostando de comer a cinquentona. E passei a meter com ela toda semana, regularmente. Com o consentimento tácito da minha legítima esposa que, acho eu, se desincumbia em parte da obrigação de seus deveres conjugais na cama. Assim, Magnólia trepava comigo quando lhe apetecia. E eu não brigava mais com ela por falta de sexo. Já que minha cunhada Hortênsia mantinha minha libido apaziguada. Eu não estava apaixonado pela Tênsia. Mas a Freira era uma bela foda. Coitada, passou tantos anos sem sexo que quando o descobriu, ficou alucinada. E eu não precisei de muita paciência, não. A mulher virou uma fera na cama depois de algumas metidas. E ela gemia só de pegar no meu pau. E gritava tanto na hora de gozar que me via obrigado a tampar-lhe a boca para ela não acordar a casa inteira – mesmo estando na edícula. Na hora do orgasmo ela invocava Nossa Senhora e alguns santos dos quais era devota. Ai, minha Nossa Senhora, vou gozar! Ou ai, Virgem Santa, vou gozar! Ou ai, meu santo Antônio, não aguento mais! Ou ai, meu são Francisco, vou gozar! Ou ai, meu são Benedito, não aguento mais! Aos poucos fui vencendo todas as resistências. Sexo oral e anal. E assim ela chupava e era chupada. E passou também a gostar de ser enrabada – o que nunca fiz com minha mulher. Ensinei-a também a falar palavrão durante as metidas. E ela aprendeu bem a lição. Gosto do caralho do meu cunhado na minha boceta. Ou gosto do caralho do meu cunhado no meu cu. Ou enfia, meu macho, enfia tudo até os colhões. Ou me racha o cu, meu macho, que eu adoro. E assim por diante. E assim foi passando o tempo. A Freira foi de fato incorporada à família e ela passou a ficar mais tempo em nossa casa do que na edícula. Fui me acostumando à nova situação e não tinha nada a reclamar. Duas vezes por semana visitava a Tênsia no seu quarto, na edícula. Mas não passava a noite toda. Antes do amanhecer voltava para minha cama, com a Magnólia, por causa dos meus filhos, para não levantar nenhuma suspeita. Mas meu filho percebeu. E um dia, sem mais nem menos, tocou no assunto. Pai, você está comendo a tia Tênsia? Que que é isso, rapaz? Olha o respeito! Pai, tenho 18 anos, sou maior de idade. E daí? O fato de ser maior de idade não te dá o direito de desrespeitar teu pai. Mas que desrespeito, pai? Perguntar não é falta de respeito. Perguntar não ofende, pai. Estou falando de homem para homem, pai. Larga mão de me tratar como criança, pô. E pode ficar sossegado que não vou contar nada para a mãe. Sou homem e sei como são essas coisas. Faz tempo que estou comendo mulher. Desde os 14 anos. Para mim, facilitou, soco o nabo. Não perco tempo. Não penso duas vezes. Não vou deixar para outro comer. Essas garotas hoje em dia só pensam em meter. Dão que nem galinha. E se você não comer, te chamam de veado. Mas não tem nada, não, pai. Não quer falar, não fale. Pensei que você fosse meu amigo. Eu não estava bravo com meu filho Gustavo – um garotão saudável, mais alto e mais forte do que eu, que parecia um jovem de 25 anos. Estava apenas surpreso com a ousadia da pergunta. Uma pergunta que com certeza eu nunca teria feito ao meu pai. E ocorreu-me, com uma certa saudade, que eu não tinha mais um menino na minha frente, mas um homem. Durante uns segundos fiquei absorto, em silêncio. Gustavo perguntou: que foi, pai? ficou chateado com a pergunta? Teria gostado de lhe dizer: não estou chateado, não, mas vem dar um abraço ao teu pai. Mas eu sempre tive dificuldade de deixar aflorar certas emoções. Limitei-me a perguntar: o que te faz pensar que estou comendo a tia Tênsia? Pai, a tia Tênsia faz um barulhão quando está metendo. Aí pensei, a primeira vez que ouvi: caralho, a tia Tênsia parece que está fodendo. Aí pensei: ela deve ter arranjado um macho só para trepar – porque eu nunca vi a tia com namorado. Mas dá para ouvir o barulho desde teu quarto? Claro que dá, pai. A janela do meu quarto fica em frente da janela do quarto dela na edícula. E ela grita mesmo. Gustavo tinha razão: a Freira grita mesmo quando está gozando. Além do mais, pai, uma noite que cheguei de madrugada em casa, vi você saindo da edícula. Aí, pensei: o filho da puta (com todo meu respeito, pai) do safado do meu pai tá comendo a tia Tênsia. E ri, pai, ri e pensei: o velho faz muito bem, deve ter tirado o cabaço da solteirona. Pai, eu entendo, não estou censurando você. E sabe porque eu entendo? Porque tenho uma vara, como você, entre as pernas. E tem uma coisa, pai, eu posso ser muito jovem, mas não sou burro e tenho muita experiência com mulher. E descobri uma coisa, pai, é a vara que manda na cabeça do macho. Pode ter certeza. Gustavo não deixava de ter razão: é a pica que manda mesmo na cabeça do homem. E não só quando o homem é jovem. Antes de finalizar a conversa, meu filho fez uma observação pertinente: cá entre nós, pai, a tia Tênsia tem uma bunda que até eu comia. Ri. E terminei a conversa com: Gustavo, não comente nada com tua mãe. Nem precisa falar, pai, não sou moleque, sou um homem. Muito bem, Gustavo, é um pequeno segredo entre pai e filho. E ele aconselhou: pai, toma cuidado com minha irmã, ela tem só 12 anos, mas é muito viva e xereta e tagarela. Pode deixar, Gustavo. Eu poderia, para aliviar um certo mal-estar de pai pego pelo filho traindo a mãe, ter contado ao Gustavo que foi sua mãe que me empurro para a cama da Freira. E que na realidade, como não havia mentira, não havia engano, traição. Mas eu não sabia se meu filho, um rapaz de apenas 18 anos, embora bastante maduro para sua idade, seria capaz de entender isso. E deixei a coisa assim. De um modo que me pareceu mais natural. Ou mais normal. Digamos que o camuflado sempre choca menos que o cinismo. Assim se passaram alguns meses. Até a morte do marido da Begônia. A Begô, como as irmãs a chamam. Ou a Crente, como eu a chamava, que era a irmã do meio, sendo a Magnólia a caçula e a mais bonita das três. Maria Begônia virou a ovelha negra, pois ela se tornou evangélica no seio de uma família muito católica. Casou virgem com mais de 40 anos. O marido, evangélico como ela, contraiu aids poucos anos depois de casado – dizem que comia um travesti – e veio a falecer depois que o pastor – o imbecil, ignorante, burro e irresponsável do pastor (pastor só serve para tirar dinheiro dos incautos fieis e para falar asneiras) – lhe disse que ele não precisava tomar mais remédios, pois Deus ia curá-lo. E o cretino fanático do marido da Crente entrou nessa e se fodeu para eternidade. E assim a Begô, que não contraiu o vírus, ficou viúva e sem filhos. E entrou numa profunda depressão que nem Jesus era capaz de remediar. E a irmã, minha digníssima esposa Magnólia, sempre tão solidária em relação aos problemas de sua família (entenda-se pais e irmãs) resolveu convidá-la a ficar uns tempos morando em casa, ou seja, na edícula, com a Freira, onde ela iria se sentir menos sozinha, até passar a depressão. Dito e feito. Ou quase. Porque a Magnólia, claro, veio falar comigo primeiro, com o homem da casa. Porra, Magnólia, mais uma aqui! Randinho, não fica assim. A Begô não vai atrapalhar ninguém. Ela é uma pessoa quieta e discreta. E vai ficar com a Tênsia. Não se preocupe, ela não vai invadir nosso espaço. Caralho, Magnólia! O clã inteiro na minha casa! Meu bem, não é o clã, são apenas duas irmãs emocionalmente abaladas e carentes que precisam do apoio da família. É algo temporário. Pode ser que um dia a Tensia vá morar com a Begô. E assim a Crente fechou seu apartamento e veio morar conosco. Isso significava que eu não podia mais meter com a Tênsia. Não que eu morresse de amores por ela, mas a Freira era uma boa foda e eu já tinha me acostumado a molhar o ferrão com ela. Ou seja, sexualmente não me faltava nada. Duas vezes por semana com a cunhada e uma ou duas vezes por mês com a esposa. Curiosamente, me dei conta de que o fato de não poder mais meter com a Tênsia (pelo menos em seu quarto) me deixou irritado. Mas a irritação durou pouco. Como as duas dormiam no mesmo quarto, sugeri à Tênsia se encontrar comigo no escurinho do alpendre da lavanderia. E assim passamos a trepar em pé, encostados contra a parede. Mas não era bom. Nada como uma cama para foder à vontade. A Freira encontrou uma solução. Ela disse que contou à Crente que ela estava de caso comigo. E para surpresa da Freira, a Crente, generosamente, se ofereceu para dormir no sofá da sala da edícula, nos dias da minha visita. E deste modo deixei de ter tremedeira nas pernas e voltei a afogar o ganso na horizontal. Mas uma noite, eu estava com a vara dentro da bainha da Tênsia quando bateram na porta do quarto. Era a Begô – só podia ser ela – muito assustada com um pesadelo, que pedia para ficar no quarto com a gente, em sua cama, alegando que ela não iria atrapalhar. Para que a Begô se sentisse mais perto da gente, Tênsia sugeriu juntar as duas camas e assim dormiríamos os três juntinhos e o susto da Crente passaria. Como ainda eu não tinha gozado e estava excitado, a presença da Begô, que não era nada atraente, mas tinha duas belas tetas, aguçou meu tesão. Pensei: não tenho nada a perder. Sem falar nada, pulei por cima da Tênsia e fiquei no meio das duas. E comecei a acariciar as tetas da Begô que não demorou e colocou minha mão em sua xota. Daqui a pouco montei nela. E ela começou a gemer. E a falar. Ai, meu Jesus, vou gozar logo! Aí, meu Senhor, não vou aguentar mais! Ai, meu bom Jesus, isso que é foda (sic)! Enfia, meu bem, enfia tudo que vou gozar! Ai, meu Jesus divino, estou gozando! E foi assim que comi a Crente. Com o consentimento tácito da Freira – que ficou quieta o tempo todo. Para falar a verdade, tudo indica que a coisa estava previamente combinada entre as duas. Mas, claro, eu me fiz de bobo e cedi o cilindro à pobre viúva solitária que tanto parecia estar precisando. Não só devido a sua viuvez, mas provavelmente ao fato de o marido ser daqueles crentes – cambada de hipócritas – que depois de soltar o caldo grosso pedem perdão à “irmã”. E assim, sem forçar, sem pretender nada, passei a comer as duas irmãs. Um dia uma, no outro dia a outra. E a frequência passou de duas a três vezes por semana. O que, para um cara de 47 anos, era uma média respeitável. Levando em consideração que, uma ou duas vezes por mês, era obrigado a cumprir meus deveres conjugais com a digníssima cônjuge. Um dia, o filho da puta do meu filho Gustavo (com todo o respeito pela mãe), com um sorriso malicioso, chegou para mim e disse: e daí, pai, tá comendo a tia Begô também? E, para sua surpresa, fui direto: estou, filho, fazer o que, se não tinha outro jeito? Ele arregalou os olhos e começou a dar gargalhadas. Eta, paizão! Coroa comedor! Mas, filho, não vá comentar nada com tua mãe. Que que é isso, pai, pode ficar sossegado. Se bem que, pensei, a Magnólia já deve estar sabendo que ando também suprindo a carência da Crente. E assim vou levando a vida. A Freira e a Crente estão mais em casa do que na edícula. A edícula é só para dormir. E para meter, claro. O resto do dia estão em casa. As duas trabalham fora. Mas se revezam nos afazeres de casa. A empregada agora vem só meio período. E a faxineira uma vez por semana – antes vinha duas vezes. As duas irmãs sabem cozinhar muito bem. Tanto é que engordei. Minha mulher está mais descansada, pois são três mulheres cuidando da casa. Notei que a Magnólia está mais disponível sexualmente com a ajuda das irmãs, pois ultimamente tem mais vontade de trepar. Não sei quanto tempo vou aguentar metendo com as três. As três mulheres da minha vida: Maria Magnólia, minha mulher, e Maria Hortênsia e Maria Begônia, minhas cunhadas-amantes. Ou Mag, Tênsia e Begô. Não preciso mais bater punheta. Nunca estive tão satisfeito sexualmente – embora com carne uma pouco passada. Comida caseira. Na mesa e na cama. Estou me sentindo um muçulmano cuidado pelas suas três esposas. Randolfo e suas três flores. Eu nunca teria imaginado algo parecido. Uma vida a quatro. O macho e suas três fêmeas. Papai, mamãe, filhinho, filhinha e as duas titias. A harmonia da vida familiar. Sim brigas. Lar, doce lar. Com foda e comidas fartas. Nada como o pau e o estômago satisfeitos. Invasão da minha casa pela família da minha mulher? Sim, e daí? Sempre foi assim. São seis aniversários para comemorar por ano. Mais Natal. Páscoa. E macarronada deliciosa todos os domingos. Bola e churrasquinho e cerveja aos sábados, com os amigos. Que mais posso pedir? Para um homem simples, caseiro, que gosta antes de mais nada de carne, cerveja e sexo (mas tem preguiça de sair à caça de mulher), não está nada mal. Talvez a felicidade seja isso: meter tranquilamente em casa com três mulheres.
Continua…
- em 26/05… “Sax”
Pai, Quero Ser Mãe
maio 12, 2012
Parte de
JUIZ CASADO COM FILHOS PROCURA HOMEM PARA SEXO CASUAL
(CONTOS)
Pai, Quero Ser Mãe
Milagre. Sim, milagre. Milagre sentir a vida dentro de mim. Mas talvez a palavra milagre não signifique exatamente algo extraordinário que não tem explicação racional. Talvez milagre seja um encadear de superações. Mas ai seria reduzir algo maravilhoso a uma mera racionalização. Além do mais, para que dissecar? Quer saber de uma coisa? Não quero racionalizar. Não quero saber. A percepção do mundo me chega pela intuição. A minha compreensão se dá por via emocional. E isso me basta. Aliás, compreendi tanta coisa durante esses últimos três anos. Tanta coisa que eu não sabia. Tanta coisa que eu não via. Tanta coisa que eu não discernia. Tanta coisa que eu não suspeitava que existia. Tanta coisa oculta no silêncio. Escondida no deslizar das horas entregues totalmente ao pensamento. Tanta coisa aflorando dos longos dias de não-ação. Tanta coisa submersa na falta total de atividade, a não ser a mental. Devo ter envelhecido de tanto pensar. Devo, não. Tenho envelhecido mesmo. Não que o meu corpo tenha mudado. Aliás, mudou sim. E muito. Mas não por envelhecimento. Mas a alma mudou. O sofrimento físico e mental altera a alma e, consequentemente, sua visão do mundo. A captação do universo é outra. Foi me dado pelo destino, ou por Deus, a capacidade de queimar etapas. Bem, não sei se é capacidade. Queimar etapas foi um fato. Algo inexorável que não pedi. Que não projetei. Que não programei. Bom? Ruim? Não sei. É apenas um fato. Um fato que aprendi a aceitar – embora fosse difícil aceitar no começo. Mesmo porque queimar etapas pode assustar. Talvez queimar etapas requeira uma urgência de viver. O sentimento premente de que a vida pode acabar de um momento para outro. Assim, sem mais nem menos. E a vida cai fora. Sem ser usufruída. Na realidade, eu não tive muita opção. Quero dizer opção de viver. Opção de queimar avidamente as etapas. Queimar as etapas foi apenas uma decorrência de um fato concreto. E as etapas foram simplesmente queimadas nas profundezas do silêncio. Na imersão completa na solidão. A solidão dos longos dias, das longas semanas, dos longos meses. Dias, semanas e meses iguais uns aos outros. Tão desesperadamente iguais uns aos outros que era fundamental inventar-lhes algo que os distinguisse uns dos outros. Algo que os diferenciasse para eu poder sobreviver. Algo assim como se tivesse que dar forma, cor e som a cada dia, a cada semana, a cada mês para ressaltar sua existência. E, consequentemente, a minha. Sim, minha existência. Subitamente truncada como uma mensagem ininteligível. Não entender. Não entender porque razão a existência, de repente truncada, fica trancada na imobilidade. A imobilidade oscilando sobre o abismo do desespero. A imobilidade, essa prisão que faz desejar a morte. A imobilidade que restringe a vida. Que a limita. Essa imobilidade que se reverte em inapetência. Em gosto absoluto de vácuo. Em decisão de desistência. Desistir de viver. Meu Deus, existe algo mais terrível do que isso? Seria esse sentimento de desistência mais forte, mais intolerável do que a perda de um ser querido? Não sei. Nunca perdi um ente querido. Logo, não posso avaliar. Eu apenas… Eu quase me perdi. A mim. De mim. Para sempre. Mas sobrevivi. Fisicamente. E mentalmente. E para sobreviver mentalmente virei-me para algo tão distante quanto Deus – distante pelo menos antes de tudo acontecer, já que sou filha de pais agnósticos. E me virei para a poesia. E para a musica. A grande música. Deus, poesia e música. Um alimento para a alma quando ela não tem para onde se virar. As longas horas inertes com Beethoven, Bach, Mozart, Haendel, Vivaldi e outros. E depois, quando me foi possível ler, a companhia de grandes poetisas. Cecília Meirelles, Rosalía de Castro, Florbela Espanca, Emily Dickinson, Gabriela Mistral, Teresa de Ávila e até Safo. Procurei, primeiro e principalmente, as mulheres – por isso também afundei em Clarice Lispector, Hilda Hilst e Nélida Piñon. Talvez por eu ser mulher. E precisar muito me identificar com uma mulher. E entre os versos e as notas musicais inseria a presença – cada vez menos questionável – de Deus. Um Deus não identificado no sentido de religião e dogma. Mas que, como produto do Ocidente, eu o fazia oscilar entre o racionalismo protestante e a paixão católica. Presumo. Não sei muito bem. Não tive educação religiosa. É algo que não me é nítido. Mas enfim, um Deus de indagação. E de entrega, claro. Mesmo porque não havia ninguém para me entregar. Creio entender a paixão de santa Teresa de Ávila, substituindo o desejo por Deus. E pergunto-me: até que ponto o desejo, transfigurado, se insere na grande fé? Até que ponto esse vulcão da carne se transforma em enlevo místico? E, por extensão, até que ponto essa energia sexual é a mola propulsora da grande arte? Eu não sei. Eu vivi muito intensamente esses últimos três anos. Vivi pela mente. Mas de fato, vivi muito pouco. Mesmo porque só tenho 21 anos. Sou apenas uma garota. Uma garota velha. Velha de tanto ler e pensar. De tanto mergulhar dia e noite no âmago da alma. De tanto preencher a solidão com a mente. Com a imaginação. Com o fictício, tão consistente quanto o real. Vejo poucas pessoas: meus pais, o enfermeiro e a empregada. Meus pais são professores universitários e trabalham o dia inteiro. E eu fico o dia todo com Ciro, o enfermeiro. A emprega sai cedo, logo depois do almoço. Às vezes, no fim de semana, um amigo ou uma amiga vem me visitar. Mas isso não é frequente. Sábado e domingo fico com meu pai e minha mãe. E aí meu pai cuida de mim. Inclusive me dá banho. Gosto muito que ele me dê banho. É algo bastante perturbador. Porque me sinto excitada quando ele me ensaboa, me esfrega, tira o sabão com suas mãos grandes e me enxuga. Ele me dá banho de maneira lenta e delicada. Como se ele também tivesse prazer em me tocar. E acho que ele sente mesmo prazer. Há um misterioso relacionamento subjacente entre nós dois. Algo muito obscuro e inquietante entre pai e filha. Algo latente desde que era menina. Uma paixão recíproca desde a infância. Sempre achei meu pai um homem muito bonito, desde criança – aliás, ele é bonito mesmo. E lembro-me de que eu dizia que queria casar com ele. Ele se casou muito jovem. Quando eu nasci, ele tinha 21 anos – a idade que eu tenho agora. Minha mãe é quatro anos mais velha. Assim, quando eu estava entrando na adolescência, meu pai era um jovem com pouco mais de 30 anos. E era realmente de uma beleza de chamar a atenção. Aliás, ainda é. Um quarentão que faz suspirar as mulheres. Ele deve ter muita aluna apaixonada por ele. Não deve faltar mulher para ele. Mas tenho a impressão de que ele não costuma pular a cerca. Ele gosta muito da minha mãe. Eles se entendem bem. Mas eu me entendo melhor com meu pai do que com minha mãe. Minha mãe sempre falou que ele me mima muito. Quando era criança e agora que estou na cadeira de rodas. Não adianta eu me mentir: meu pai me atrai até hoje. Não superei isso. E se ele um dia insinuasse algo, eu seria a primeira a topar. Embora eu saiba que ele nunca faria isso. Sempre busquei, nos rapazes que namorei, uma projeção do meu pai, tanto no tipo físico quanto na maneira de ser. Flávio, meu último namorado, era fisicamente bastante parecido com ele, embora não tão bonito. Flávio e eu estávamos apaixonados. E, apesar de eu só ter 18 anos na época e ele 21, fazíamos projetos para o futuro. E um deles era casar, depois de formados. Mas não casei. Nem sequer cheguei a começar a faculdade, embora tivesse passado no vestibular. Veio o acidente. E todos os projetos foram por água abaixo. O acidente levou embora todos os sonhos: casamento, faculdade, os dois filhos que planejávamos ter – eu sou filha única e sinto falta de irmãos, por isso queria ter mais de um filho. E até o amor. Sim, o acidente acabou até com o amor. No fundo, restou tão pouco do que eu era e tinha antes do acidente. De alegre, extrovertida, efusiva, passei a ser uma moça introspectiva, silenciosa, taciturna, e embora não amarga, melancólica. Não sobrou nada do carro. Flávio só sofreu alguns arranhões. Eu, toda quebrada. Braços, pernas, bacia. Edema cerebral. Três meses em coma. Quatro meses no hospital. Sete cirurgias. Não ando. E só tenho a mão direita que funciona. Durante os quatro meses que fiquei hospitalizada, Flávio foi me visitar diariamente. Ele me amava mesmo, não tenho dúvida. Quando voltei para casa, ele continuou me visitando. Até que um dia eu pedi que ele não viesse mais. Que não queria mais vê-lo. Ele não entendeu. Disse que me amava. Que queria casar comigo. Eu, para cortar pela raiz, aleguei que não o amava mais. Que tudo tinha mudado. Que eu não era mais a mesma. Que a vida não era mais a mesma. Nunca vou esquecer a tristeza estampada em seu rosto quando eu lhe disse que não o amava mais. Não sei por que fiz isso. Acho que era desespero. Depressão. Falta de perspectiva na vida. Eu não queria que ele se casasse comigo para ser meu enfermeiro pelo resto da vida. Eu não queria que ele atrelasse sua vida a minha só por compaixão. Que homem ia querer casar com uma cadeirante? Foi assim que afastei de mim o homem que amava e que me amava. Hoje não faria a mesma coisa. Teria aguardado para ver o rumo que as coisas e a vida de modo geral iriam tomando. Hoje talvez não casasse. Mas lhe pediria que me fizesse um filho. O filho que agora carrego no ventre. E que não é dele. Mas que poderia ter sido. Mas estranha é a vida. E os caminhos tortuosos que ela nos faz percorrer. Somos as consequências dos nossos atos. Mas dificilmente podemos prever aonde esses nossos atos vão nos levar. No início da longa convalescença em casa, sentia-me perdida perante a incógnita do que seria minha vida. Depois, com paciência, persistência, fé e as palavras preciosas do meu pai – sempre tão carinhoso e tão presente – fui recompondo meu ser interior, assim como os médicos foram recompondo meu corpo. Até ter uma visão mais clara, mais lúcida do me aguardava dali para frente. E acabei fazendo um filho com um homem que eu não amava. Quando poderia tê-lo feito com Flávio, o homem que eu amava. Mas para que chorar sobre o leite derramado? O que foi, foi. O que fiz, feito está. Não me arrependo. Mesmo porque eram momentos diferentes. E hoje tenho acumulada toda uma experiência, ao longo desses três anos, que não tinha quando rompi com Flávio. Quando meu espírito se assentou e aceitei de fato a nova condição de cadeirante – e isso levou praticamente um ano – passei a pensar num filho. No início era um desejo meio irreal. Muito remoto. Algo como um devaneio para passar o tempo quando não estava lendo ou ouvindo música – não tenho paciência para assistir a televisão. Esse desejo vago se arrastou por mais de um ano. Foi só depois de dois anos do acidente que a vontade de ser mãe se tornou clara, objetiva, concreta. Precisava, portanto, de um homem para conceber esse meu filho. Sabia o que significava, no meu estado, trazer um filho ao mundo. Sabia que meus pais iam ter que criar esse neto, mesmo porque tudo o que eu poderia fazer para cuidar da criança era limitado, sendo eu mesma quase totalmente dependente. Mas, além de satisfazer minha necessidade natural de maternidade, necessidade acentuada pela solidão, havia meu futuro. Eu não podia deixar de pensar que depois que meus pais partissem, eu ficaria sozinha neste mundo, já que eu não tinha irmãos. Minha mãe era filha única. E meu pai tinha uma irmã que morava no exterior. Logo, eu não tinha nem sequer um tio ou uma tia por perto. É por isso que queria ter um filho. Ter alguém que me amasse e amparasse pelo resto da vida. Egoísmo meu? Sim, talvez. Mas eu não tinha muito a que me apegar. Comecei então a pensar no Ciro, o enfermeiro. Ciro me adorava – aliás, me adora – e isso não é forma de falar. Eu sinto claramente o amor que ele tem por mim. Meu pai queria contratar uma enfermeira. Mas minha mãe queria o Ciro, que cuidou durante os últimos cinco anos de vida de minha avó materna. Meu pai não gostou inicialmente da ideia de que um homem cuidasse da sua filha, uma jovem atraente. Mas minha mãe o convenceu alegando que ele (meu pai) podia ficar sossegado nesse sentido já que Ciro era homossexual, fato conhecido da família. Isso sem contar que ele era um excelente profissional, dedicado, paciente e carinhoso. Assim o Ciro voltou a trabalhar com a família. Eu já o conhecia de tê-lo visto em casa da minha falecida avó. Mas não tinha noção de como ele era. Porém, quando ele começou a cuidar de mim, houve uma empatia recíproca logo de cara. Ciro era homossexual assumido. Bem afeminado, com trejeitos de gay mesmo. Era gordinho, muito claro de pele e um pouco careca. Havia algo muito puro em sua fisionomia. Algo que iluminava seu olhar. Era um pouco mais jovem do que meu pai, mas não estava longe dos 40 anos. Não demorou muito e eu deixei de ser apenas sua paciente para me tornar sua confidente. Ciro me contava todos os seus casos. E, ingênuo, crédulo e generoso, sofria como uma heroína de dramalhão mexicano e vira e mexe era explorado pelos namorados pelos quais se apaixonava perdidamente. Ultimamente tinha um caso sério. Um fixo, como ele dizia. Um bombeiro com quem ele se encontrava sigilosamente, pois o apagador de fogo – em todos os sentidos – era casado e com filhos. E ele adorava o bombeiro porque, além de “homem de verdade” (palavras dele), forte e másculo, vestia uniforme e tinha bigode. E como Ciro e eu fomos ficando muito amigos, fui amadurecendo a ideia de ele, eventualmente, vir a ser o pai do filho que eu tanto queria. E um belo dia decidi me abrir e falar com ele. Tinha consciência de que era algo muito maluco. Mas eu tinha que tentar. Ciro, você faria por mim algo muito importante? Querida, você sabe que eu te adoro e faço qualquer coisa por você. Tem certeza, Ciro? Claro, meu amor. Sabe o que é, Ciro, eu quero um filho e quero que me ajude. Ele pareceu um pouco surpreso: um filho nesse estado, menina? Sim, Ciro, neste meu estado. Eu quero tentar. Quero ser mãe. Quero ter alguém para o resto da vida. Um dia meus pais irão embora e eu não quero ficar sozinha. Ele creu entender: eu já sei: você quer que eu te arrume um namorado. Não, Ciro, eu não quero um namorado, nenhum homem se aproxima de uma cadeirante. Eu apenas quero um homem que me faça um filho. Só isso. Querida, preciso pensar e ver se me lembro de alguém disposto a fazer isso. Mas acho difícil, porque todos os meus amigos são gays e não transam com mulher. Só se eu pedir ao meu bombeiro. Mas ele não vai querer. Ele é casado e tem três filhos. Não vai aceitar, não. Se meu bombeiro topasse, ia sair um filho muito bonito, porque ele é lindo e você é linda. Antes que ele disparasse sua verborragia costumeira, fui direto ao ponto. Ciro, eu pensei em você para me fazer esse filho. Ele fez um gesto de espanto, bem teatral, arregalou os olhos e exclamou: credo, menina, que que é isso! Já tive muitas propostas na minha vida sexual. Mas nenhuma como essa. Eu te fazer um filho? Cruz credo! Mas nem morta! Sinto muito, querida, mas isso é uma coisa que eu não posso fazer por você. Senti-me muito decepcionada. Não sei por que eu tinha uma estranha convicção de que o Ciro aceitaria minha proposta. Por que você não quer, Ciro? Menina, porque é impossível. Primeiro, eu respeito muito teus pais, e o que é que eles vão pensar de mim? Que além de bicha, abusei sexualmente da pobre filha deficiente. Ciro, não se preocupe com meus pais, eles vão aceitar minha decisão. Olhou-me mais desconfiado ainda. Ciro, meus pais fariam qualquer coisa para me ver feliz. E se a maternidade é algo que vai fazer a filha feliz, eu não tenho dúvida que eles vão me apoiar. Aos olhos de Ciro, parecia algo bastante estranho pais apoiarem a maternidade de filha solteira deficiente. E então, Ciro, o que você acha? Ele sorriu, de modo condescendente, e quis encerrar: querida, mesmo que eu topasse, eu não poderia te fazer um filho. Por que, Ciro, por quê? Meu amor, porque eu não sou homem. Como assim, você não é homem? Menina, será que você não sabe disso? Meu negócio não levanta com mulher. Só levanta com homem. Fiquei sem argumento. A tristeza, uma imensa tristeza, me invadiu. Eu nunca seria mãe. Nenhum homem ia querer me fecundar. Só com inseminação artificial. E comecei a chorar. Ciro me abraçou. Não chore, não, querida, senão vou acabar chorando também, pois eu gosto muito de você. E percebi que ele tinha lágrimas nos olhos. Não chore, não, querida, que eu sou teu amigo do coração e vou achar uma solução, tudo tem jeito quando Deus quer. Você acha, Ciro? Acho sim, querida. Meu bombeiro nunca iria topar te fazer um filho, mas talvez ele aceite me ajudar. Como, assim, Ciro? Querida… bem, vou ter que te explicar alguns detalhes técnicos. Se eu deitar com você de um lado e meu bombeiro do outro lado me acariciando, a coisa vai se levantar e aí vou poder te penetrar. Sorri. Sequei as lagrimas. Achei a ideia excelente. Ficou combinado que ele falaria com seu amor. Dois dias depois veio a resposta. Negativa. O bombeiro não aceitou de jeito nenhum. Tem mais, ele ficou enfurecido alegando que Ciro não respeitava o sigilo combinado, já que ele era casado e pais de três filhos. E que ele, o bombeiro, jamais iria se expor desse jeito. E achou que Ciro era um desmiolado. Fiquei profundamente decepcionada. Pois eu continuava acreditando que Ciro seria o homem que me fecundaria, o pai do meu filho. Entrei numa apatia total. O Ciro tentou me animar. Ciro, quando meus pais morrerem, eu não vou ter ninguém no mundo. Fiquei assim durante dois dias. Eu ia continuar à procura de um pai para o filho desejado. E se não o encontrasse ou não pudesse engravidar, adotaria uma criança. Aí, não sei porque me lembrei do meu pai. Se eu tivesse a certeza de que meu pai aceitaria, eu ia lhe propor a paternidade do meu filho, mesmo consciente dos riscos genéticos. Mas sabia que meu pai não ia aceitar. Logo, eu não queria correr o risco de me expor desse jeito e de ouvir um não. Mas o que eu podia pedir ao meu pai era ele deitar perto do Ciro e lhe fazer algumas carícias para excitá-lo. Dito e feito. Falei com meu pai. Comecei pelo desejo de maternidade. Filha, surpreendeu-se ele, acho que não é hora de pensar em ser mãe no estado em que você se contra, você é jovem e… Pai, não existe praticamente esperança de eu voltar a andar e quando vocês morrerem eu não quero ficar sozinha no mundo. Uma profunda compaixão apareceu na hora na expressão triste do meu pai. Passaram-se uns segundos. E ele respondeu: tudo bem, que assim seja, mas, se é que você pode conceber, com quem você vai fazer o filho? Deu-me vontade de dizer: com você, meu pai querido e desejado. E acrescentou: você não tem namorado. Pai, tenho alguém que aceita me fazer um filho. Quem? O Ciro. O quê? O Ciro é homossexual, ou você não percebeu até agora? Como é que ele vai te fazer um filho? Com sua ajuda, pai. O quê? O que você quer dizer, com minha ajuda? Ouça, pai, ouça o que vou dizer. E por favor, não fique bravo comigo. Pai, eu te amo tanto… Eu também te amo muito, filha, mas fale logo o que você tem a dizer. Pai, a ajuda é… A ajuda é a seguinte: você estimular o Ciro enquanto ela está comigo na cama. O quê? Você está maluca! Será que você se dá conta do que está me pedindo? Você está me pedindo que excite o Ciro para ele ter ereção e poder te penetrar? É isso? Sim, pai, é isso. Filha, você está doida! Eu não acredito no que estou ouvindo da minha própria filha. Pai, não exagere, bastam apenas umas carícias nele. Filha, objetivamente, você está me pedindo para deitar com um homem. Exatamente, pai, apenas deitar com um homem. Lamento, filha, eu não sou gay. Larga mão de ter preconceitos, pai, ninguém está insinuando que você é gay. Você vai deitar com um homem, mas não vai fazer sexo com ele. Vai apenas tocá-lo, acariciá-lo. Não vai ter que beijá-lo, não. Sabe, pai, é algo tão importante, tão crucial para minha vida, ter esse filho. E eu não tenho dúvida quanto a engravidar. Sei que posso engravidar. Passaram-se uns segundos, em silêncio. Você acha que vai dar certo, que o Ciro vai funcionar? perguntou meu pai cuja fisionomia deixava transparecer que ele estava cedendo. Sim, pai, eu tenho certeza absoluta de que tudo vai dar certo: que o Ciro vai funcionar e que ele vai me engravidar. E de onde te vem tanta certeza, filha? Da fé, pai, da fé. Transcorreram mais uns segundos em silêncio. Aí, meu pai me abraçou. Tinha os olhos, esses seus belos olhos de mirada tão profunda, marejados. Vou fazer, pelo meu amor por você, o que você me pede. E eu comecei a chorar. E o beijei na boca. Como quando era criança. E ele se deixou beijar. A primeira parte estava encerrada. Faltava a segunda: convencer o Ciro a deitar com meu pai. Quando falei com ele, a reação foi de espanto: menina, você é louca varrida! Onde já se viu pedir uma coisa dessas ao teu pai! Uma filha pedir ao pai para deitar com uma bicha para excitar a bicha para a bicha fazer um filho na filha. Credo, menina, eu não posso acreditar no que estou ouvindo. Ciro, pare de dramatizar e diga logo se você aceita ou não e se você acha que vai dar certo. Bem, querida, aceitar, eu aceito, mas precisa ver se teu pai, um senhor tão sério, vai topar uma coisa dessas. Não se preocupe com meu pai. Já falei com ele e ele topa. Credo, menina, ele topa? Nunca pensei que um homem tão sério, tão sisudo, com cara de professor bravo, fosse topar uma coisa dessas. Bem, já que é assim, por que não? Ter um homem tão bonito passando a mão na bunda da gente não é coisa que se despreze, né querida? E já que estamos falando como pessoas adultas, vou te contar um segredo: eu tenho um tesão doido pelo teu pai. Desculpe falar isso do teu pai. Mas é o homem mais lindo que já vi na minha vida. Tudo é bonito nele: rosto, cabelo, pele, corpo. Isso sem contar o que a roupa esconde. Minha Nossa Senhora, que tesão! Que sorte tem tua mãe. Se ele topasse, eu dava para ele até ele me rachar. Nem que tivesse que apanhar. Nem que tivesse que te fazer meia dúzia de filhos. Já pensou, meu amor, ele me comendo e eu comendo você. Eu ria. Não tinha como não rir. Quando Ciro falava, fazia caras e bocas, gesticulava, teatral e caricato e eu morria de rir. Não sei o que levou o Ciro a aceitar me fazer um filho. Certamente não era o desejo de paternidade. Talvez fosse o carinho que ele sentia por mim acrescido da novidade, um tanto leviana, de vir a se tornar pai. Mas isso aí era um detalhe que pouco interessava. A segunda etapa estava concluída. E chegou o dia. Meu pai avisara minha mãe e ela aceitou tudo numa boa. Fomos ao quarto de hóspede onde a cama era de casal. Ciro me despiu e me deitou na cama. Aí ele tirou a roupa e deitou. E meu pai deitou de bermuda e camiseta. Ciro solicitou: desculpe, mas é melhor o senhor tirar a roupa. E meu pai, bastante constrangido, ficou nu. Ciro lhe deu as costas e meu pai começou a tocá-lo. Aí Ciro pediu: seria melhor o senhor encostar suas partes no meu traseiro. Meu pai, a contragosto, obedeceu: encostou e continuou acariciando Ciro. Ciro teve ereção e me penetrou. Eu não sentia nada. Mesmo porque não tinha tesão por Ciro. Além do mais, estava tensa. Poucos minutos depois Ciro ejaculou. Enquanto ele me penetrava, eu pensava em meu pai, que estava ao meu lado, nu. E isso me excitava até um certo ponto. Como se meu pai estivesse me possuindo por intermédio do Ciro. E quando Ciro gozou, espalhafatosamente, meu pai se levantou. E antes que ele enfiasse cuecas e bermuda, vi que estava de membro ereto. Vira meu pai pelado muitas vezes, desde menina. Mas nunca o vira de pinto duro. E isso me perturbou. E me excitou. E imaginei que o pinto do Ciro, que ainda estava dentro de mim, fosse o do meu pai. Será que meu pai se imaginou possuindo-me ou sua ereção se deveu somente ao fato de ele ver um homem e uma mulher transando ao seu lado? Nunca o saberei. Meu pai saiu do quarto. E Ciro saiu do meu corpo. Embora eu não tivesse gozado, sentia-me em paz e realizada. Sabia que tinha sido fecundada. Era uma fêmea prenhe. Era uma mulher normal, como qualquer mulher, que dentro de move meses seria mãe. Passaram-se seis meses. A barriga cresceu muito. Sinto os chutes do bebê – um menino. Ciro continua cuidando de mim. Diz que vai reconhecer o filho e vai me ajudar a criá-lo. Meus pais estão contentes. Sou uma mulher feliz. E agradeço a Deus, todo dia, por essa felicidade.
Continua…
- em 19/05… “Comida Caseira”
- em 26/05… “Sax”
Maitezaitut/Anee ohev otakh
maio 6, 2012
Parte de
JUIZ CASADO COM FILHOS PROCURA HOMEM PARA SEXO CASUAL
(CONTOS)
Maitezaitut/Anee ohev otakh
Eu, Aitor Haritz, filho de Iñaki e Arantxa, bascos exilados, escrevo este livro. Não para glorificar os deuses, porque não acredito em deuses. Nem para louvar os homens, porque não acredito em homens. Eu, que pintei centenas de telas. Eu, que comi centenas de mulheres – não, não fica bem usar a expressão comer mulher logo no prólogo do livro. Eu, que deitei com centenas de mulheres – isso, assim não espanto a burguesada, que é justamente quem vai comprar o livro. Então: eu, que deitei com centenas de mulheres e mesmo com alguns homens – aí vão pensar que sou giletão (como se dizia antigamente); mas não faz mal, está na moda ser bi e eu preciso fortalecer meu mito, que já está praticamente criado. Vamos lá: eu, que deitei com centenas de mulheres e mesmo com alguns homens. Eu, que sou militante e que, como ativista coloquei bombas, literalmente falando, na minha juventude. Eu, que larguei tudo para me dedicar à arte – e que passei fome. Eu, que experimentei todo tipo de drogas. Eu, que casei oficialmente duas vezes e amiguei quatro. Eu, que fiz cinco filhos de mães diferentes. Eu, anarquista da alma aos colhões. Anarquista, pela graça de Deus, imerso na mais desvairada liberdade. Eu, que bebo. E cheiro – quando tenho grana. E fumo. Eu, que amo as cores loucas de Van Gogh, de Goya e de Delacroix. Eu, que quando entro no cio da criação, afundo no frenesi do sonho feito pintura e passo dias e noites na frente de várias telas trabalhando simultaneamente, até cair de cansaço, exausto e feliz. Eu, que nunca sustentei meus filhos e que mal tenho para sustentar meus dois cachorros, meus dois gatos, meu peru, meu papagaio e minha tartaruga. Eu, que não acredito em nada, a não ser na pintura e numa boa foda – não, foda não é um termo adequado; a burguesada gosta de foder (no sentido literal e no sentido figurado), mas não gosta de dizer que fode. Então fica assim: eu, que não acredito em nada a não ser na pintura e no sexo. Eu, pavio curto, briguento, estourado, impulsivo, impaciente, mas generoso, amoroso, caloroso. Eu, desorganizado, indisciplinado, desregrado, caótico, mas excelente pintor, segundo dizem. Eu, de pau grosso e avantajado – que que é isso, rapaz! tira essa bosta de pau daí, isso não interessa ao leitor. Então vamos tirar. Pronto. Eu, de pênis sempre firme – caralho! Tira essa merda de pênis firme. Tá bom. Pronto. Sem pau nem pênis. Eu, machista, falocrático, obcecado por sexo. Eu, cinquentão cético, desiludido, que vive em função de pintar e meter – não, cara, o verbo meter é chulo. Certo, então: eu cinquentão cético, desiludido, que vive em função da pintura e do sexo. Eu, que vivo com urgência porque tenho medo de morrer e de não pintar mais e de não trepar mais – não, sem o termo trepar. Então: eu que vivo com urgência porque tenho medo de morrer e deixar de pintar e fornicar – caralho! fornicar é fresco demais, põe transar. Tá bom: transar. Eu, que mesmo quando não tenho o que comer, não tenho coragem de matar meu velho peru e comê-lo, porque gosto muito dele – porra, deixa o peru de fora, nada a ver. Tá bom, vamos tirar. Eu, que mal limpo a casa, onde tudo está quebrado, onde não há mais espaço para quadros. Eu, que não uso cuecas para não ter que lavá-las e que no verão vivo completamente pelado em casa. Eu, que tomo banho quando lembro, por causa do fedor. Eu, que vivo duro, mais duro que meu pau – nada de pau, tira. Mais duro do quê? Não põe nada: eu, que vivo duro – e pronto. Eu, cuja única renda é o aluguel do apartamento que herdei dos meus pais, junto com a velha casa onde moro e que está caindo aos pedaços. Eu, que fico sem telefone e sem luz e às vezes até sem água, porque não paguei a conta, por esquecimento ou por falta de dinheiro. Eu, que, quando a galeria vende uma das minhas telas, fico tão feliz, tão entusiasmado, tão confiante no futuro, que praticamente torro todo o dinheiro em presentes para os meus cinco filhos e em bebedeiras com os amigos, meus convidados. Eu, que não compro nada para mim – pois vivo de bermudas (sem cuecas), camiseta e havaianas, ou pelado e descalço – a não ser tintas. Eu, que choro como criança quando penso nela – não, não põe isso agora, deixa essa frase para mais para frente. Tá bom. Vamos riscar. Eu, meninão mal crescido, carente, que só se sente amado quando afoga o ganso – qual é, cara? tira afoga o ganso. Então: quando faço amor? Pode ser. Eu, meninão mal crescido, carente, que só se sente amado quando faz amor. Eu, dependente de sexo, que precisa ter sempre uma boceta por perto – porra! tira boceta. Certo:… que precisa ter sempre uma mulher por perto para não se sentir como cão sem dono. Eu, que choro quando leio a biografia de Modigliani, ou de Toulouse-Lautrec, ou de Van Gogh, ou quando assisto a uma cinebiografia sobre eles, meus queridos irmãos, tão grandes e de vidas tão curtas e tão tristes. Eu, que fico horas contemplando as obras de Bosch e de Bruegel, o Velho e o Jovem, e que sonho com os monstros de Bosch e com a solidão de De Chirico e de Hopper e de Munch. Eu, sempre perseguido por essa angustiante solidão ao longo de minha vida, embora com cinco filhos e tantas mulheres e a pintura. Eu, que não sei de onde me vem essa solidão atroz – talvez seja do deslocamento, do não-pertencer a nada, senão à embriaguez solitária da arte. Eu, extasiado pela epifania, mergulho em nuvens e sóis e trigo de Van Gogh, iluminado pela luz de Caravaggio. Eu, que em fugas alucinadas, me irmano com a busca do transcendente bruto de Gauguin nos mares do Sul. Eu, que às vezes piro no caleidoscópio de luzes e cores dos sentidos desregrados pela revelação. Eu, que, solidário, contemplo os solitários, os deserdados, os miseráveis de Steinlen sob a chuva, ou os da noite densa de Goeldi. Eu, ateu convicto, que me arrepio perante as figuras místicas de El Greco. Eu, de sangue feito tinta, justifico minha existência pela pintura e a sustento pela energia do esperma. Eu, eterno deslocado que vive para pintar e foder – foder, não, cara. Foder, sim. Foda-se quem se espantar. Vai ficar assim mesmo: eu, eterno deslocado que vive para pintar e foder. Eu, que pinto a Nona de Beethoven e o Messias de Haendel e o Toreador da Carmen de Bizet e o Rubaiyat de Khayyam. Eu, que vivo caoticamente, porque só penso em pintar e meter – meter, não, cara. Meter, sim, cara. Fica assim mesmo. Ou, melhor:… porque só sei pintar e meter e porque o resto pouco me interessa. Eu, Aitor Haritz (Aitor, que é o pai do povo basco e Haritz que significa carvalho, árvore sagrada) escrevo este livro para louvar uma boceta – não cara, boceta não fica bem no prólogo do livro; você vai ter muitas páginas para usar o termo no decorrer da redação do livro. Então:… para louvar minha amada. Isso, fica bonito. Ou melhor, a mulher amada. Mesmo porque você não amava só sua boceta, né? Você a amava – ou a ama – por inteiro, né? Mas o que mais amo nela é sua boceta. Judia safada. Me largou para voltar com o marido – que na realidade nunca deixou. Filha da puta. Tinha que ser psicóloga. Todas as psicólogas que comi eram iguais. Completamente burguesas. As acadêmicas eram um pouco melhor. Mas as clínicas, Deus me livre! Pronto. Perdi o tesão de escrever. Não vou escrever mais. Nem acabei o prólogo. Aliás, nem sei se vou escrever esse livro. Quis começá-lo parodiando o início de O Egípcio, de Mika Waltari. Mas não sei se vou ter paciência de escrever um livro autobiográfico. Sei lá. Talvez peça conselhos ao meu amigo David Haize, que é um bom escritor. Filha da puta de psicóloga lazarenta. Cadela do politicamente correto. Ela representa tudo o que eu não suporto. Mas é tão doloroso ser abandonado pela pessoa amada. Lembro-me neste momento de Maysa cantando Ne me quitte pas, de Jacques Brel. E meus olhos se enchem de lágrimas. Rebeca filha da puta. Às vezes fico puto de raiva por você ter me deixado. E por eu te amar tanto. Deve estar metendo com o corno do marido. Aquelas trepadinhas pausterizadas de marido e mulher cansados um do outro. Tomar no cu. Nem sei como fui me enroscar com essa fulana. É, sozinho, carente, sabe como é. Conheci numa exposição. E a coisa foi logo pegando fogo. Mas as fodas com ela, nunca tive com outra mulher. Nem sei explicar. Era a química entre os dois. Essa pele branquíssima, suave como veludo. Esses olhos pretos como jabuticaba. E esse cabelo preto, comprido, que a tornava mais felina ainda. E umas tetas! E uma bunda! E essa santa boceta! No esplendor dos 40 anos. Mas era algo realmente inexplicável que emanava de sua pessoa. A sensualidade em estado bruto. E olha que ela não tinha uma beleza agressiva. Era um frescor e uma espontaneidade extremamente insinuantes. Existem mulheres que transpiram sensualidade. Marilyn Monroe, talvez a atriz mais sensual da história do cinema (vi quase todos os filmes dela na TV) era uma delas. A mulher não precisa ser bonita para ser sensual. Algumas feias são muito atraentes. Em contrapartida, algumas muito belas parecem frígidas. Não, minha amada não era apenas uma boceta – embora eu ficasse alucinado quando mexia com os dedos ou com o pau ou com a língua na sua esplendorosa boceta. Era um conjunto de coisas. Um não-sei-o-quê indefinível que me deixava doido. Quando estava com ela, eu só pensava em meter. O mundo se reduzia a meter. O mundo se reduzia ao meu pau e a sua boceta. Eu esquecia até o que mais amo: a pintura. Meter. Meter. E meter. E olha que não sou mais garoto. Estou com 52 anos. Mas o pau está bem firme. Que a sagrada natureza assim o converse por muito tempo – quero morrer de pau duro. Esse meu pau que era tão grato a sua divina boceta. Quando ela ia embora, depois de uma boa matinê de foda, eu ficava triste como um menino abandonado. E esperava ansiosamente pelo próximo encontro, sempre em minha casa. Ela vinha uma ou duas vezes por semana. Sempre à tarde. Largava o consultório e vinha me ver. Ela trabalhava muitas horas. E a noite era para o marido e os filhos. Logo, ela nunca passou uma noite comigo. Eu entendia. Mas tinha ciúme do marido. Uma vez cobrei. Ela respondeu que passar uma noite comigo era algo impossível. Então eu sugeri: largue seu marido e venha morar comigo. Ela poderia ter respondido: posso largar meu marido, mas meus filhos jamais – tinha dois filhos, um menino e uma menina. Mas ela queria me ofender e retrucou: largar minha família para morar nesta pocilga? Você não acha que é muita pretensão sua? Isso me machucou. E depois de um silêncio soltei: você só gosta de meu pau, né? Ué, replicou ela, você não gosta só da minha boceta? Eu poderia ter dito que a amava, que precisava terrivelmente dela. Mas limitei-me a mandá-la embora: dá o fora, vá embora judia filha da puta, vá para Auschwitz. E ela ficou puta e gritou: basco nazista, filho da puta! E caiu fora. Puta que pariu! Se ela era linda quando sorria, quando ficava enfurecida era um tesão enlouquecedor. Porra, mas eu falo só no passado. Como se fizesse dez anos que não a visse. E faz apenas dois meses que não a vejo. Dois meses batendo punheta pensando nela. Dois meses sem a minha querida judia. A mulher que mais amei até hoje. A mulher mais linda do mundo. A mulher que quero para o resto da minha vida. Volte para mim, sua filha da puta. Volte para teu basco filho da puta. Volte. Volte, meu amor. Não aguento mais viver sem você. Será que você não percebeu que te amo tanto quanto a pintura? Será que você não percebeu que depois que te conheci, minha vida passou a girar em torno de você? Volte, meu amor, eu te suplico. Olha, estou chorando. Chorando por você. Chorando como uma criança desamparada. Minha Rebeca. Minha Rebeca Laredo Sachs. Judia sefardi. Temos algo em comum: nossos antepassados eram da península ibérica. Sabe, minha querida, quando um macho chora por uma mulher, pode crer que ele é sincero. Lágrimas de macho são duras, mas sempre sinceras. Posso nunca ter te falado que te amo. Mas eu te amo profundamente. Não só com a pica. Eu te amo com meu coração, minha alma, minha mente. Sempre houve um antagonismo entre nós. Curiosamente ambos detestávamos a “fraqueza” de amar tão intensamente um ao outro. Ambos não queríamos admitir a dependência assustadora que tínhamos um do outro. E ambos expressávamos toda a força do nosso sentimento por meio do sexo. O sexo como diálogo. O sexo como comunicação. O sexo como confissão. O sexo como entrega total. O sexo como meio e fim. Tudo reduzido a sexo. Porque as palavras de amor, banidas, só brotavam, mudas, através do sexo. O sexo que nos matinha unidos. Mesmo porque sabíamos que, além do sexo, não havia nada a esperar. Porque tínhamos consciência de que uma vida em comum era praticamente (praticamente no sentido literal) impossível. Nossos valores eram muito diferentes. Você, a burguesa bem comportada, disciplinada, correta, limpinha – doida só na cama. E eu, o anarquista esculachado, indisciplinado, incorreto, sem higiene pessoal. O basco e a judia. O pintor e a psicóloga. Em comum só tínhamos o gosto pelas artes e pela cultura de modo geral. Mas, curiosamente, a cultura e a arte não motivavam nosso diálogo. Só conectávamos mesmo via pênis e vagina. Ou seja, pau e boceta. Ah, minha amada boceta judaica! E quando uso a palavra judia não o faço com nenhuma conotação racista. Como poderia eu, um anarquista, internacionalista, que abomina o nacionalismo, ter preconceitos raciais? Pois saiba – já que não consigo esquecer aquela vez que te ofendi mandando-te para Auschwitz – que entre as mulheres do mundo que mais admiro, há várias judias. Mulheres fascinantes, cada uma a seu modo, como as grandes atrizes francesas Simone Signoret e Anouk Aimée e a cantora, também francesa, Barbara. E a atriz brasileira Dina Sfat. Ou as ativistas Rosa Luxemburg e Olga Benario. Ou a filósofa Hannah Arendt. Ah, minha querida, se você ficasse comigo, era capaz de casar legalmente com você – eu que não acredito na instituição do casamento e que só fui casado oficialmente duas vezes. E tem mais, se você me pedisse para me converter ao judaísmo, mandaria cortar a pele do prepúcio e, circunciso como David, o grande herói bíblico sacana, te ofereceria um pau judaico para o resto da vida. Meu pau para você fazer com ele o que você quisesse. Menos cortá-lo, claro. E faria até o Bar Mitzvah – se é que adulto faz. E comemoraríamos o Rosh Hashanah e o Yom Kippur. Ah, minha querida Rebequinha, volta para o filho da puta do teu basco. Eu prometo que vou tomar banho todo dia. E trocar de bermuda e camiseta. E usar as cuecas que você me comprou. O banho era motivo de briga. Você exigia: não dou para você se você não tomar banho. E eu ficava puto. Porque eu gosto de cheiro natural. De cheiro animal. Eu sou um animal, você sabe disso. Sou um animal que pinta e mete. E gosto de uma boa boceta com odor natural – o que os outros chamam de fedida. Eu fico com muito tesão quando enfio o nariz numa boceta com cheiro forte. Você vivia me chamando de porco. Que a minha roupa fedia. Que os lençóis fediam. Que a casa inteira fedia. Eu prometo trocar os lençóis e limpar a casa. E recolher o cocô dos cachorros do quintal. Você implicava com tudo. Mulher implica mesmo com tudo. Você implicava até com meus bichos. Você alegava que detestava cachorro pulando na cama quando estávamos trepando. Às vezes eram os gatos que subiam na cama. Uma vez foi o peru – que andava por todos dos cômodos da casa – que pulou na cama e você se assustou. Você me fazia levantar e colocar os bichos fora do quarto e fechar a porta. Se não você se recusava a dar para mim. Mas às vezes um dos cachorros abria a porta – o danado sabe abrir – e o zoológico entrava de novo no quarto. Eu gosto muito dos meus bichos. E os gatos e os cachorros dormem na minha cama. Você dizia que a casa inteira fedia a cachorro e cigarro. E que tinha merda de peru em todos os cômodos. Eu prometo deixar todos os animais fora do quarto e trancar a porta na hora de meter. Tudo era motivo para brigar. Até meu cabelo e minha barba compridos e sujos. Brigas feias, até de tapas. Mas na realidade era uma briga de poder. De um querer dominar o outro. De um querer ouvir do outro: eu te amo e te aceito como você é. Mas eu, sem querer, acabava bancando o durão e não apelava para as palavras de ternura porque não tinha muita certeza de como ela as receberia. E, ao que tudo indica, ela receava a mesma coisa. E assim nos fechávamos numa espécie de mutismo. Mas se o sexo era selvagem, até brutal – e ela gostava disso tanto quanto eu – havia também gestos de extrema ternura onde o toque do rosto e o olhar substituíam as palavras que não conseguíamos pronunciar. As piores brigas era quando ela não vinha me ver. Eu ficava uma vara. E ficava inseguro. Ciumento. E fazia um escândalo, como um adolescente. E, imaturo, sem levar em consideração que ela era casada e trabalhava o dia todo, cobrava feio: por que você não veio anteontem? Eu já te expliquei que tive um paciente urgente não agendado que não podia deixar de atender. Às vezes ela tinha que levar um dos filhos ao médico. Ou tinha reunião de pais na escola. Coisas normais de qualquer mãe. Mas eu não controlava os impulsos, alimentados pela ansiedade e, até certo ponto, pelo ciúme. Quando brigávamos feio, aos berros e às vezes com tapas, era um verdadeiro pandemônio em casa. Aos nossos gritos se juntavam os latidos dos cachorros que ficavam agitados, o glu-glu-glu do peru e a voz do papagaio que repetia sem parar: filho da puta, filho da puta, filho da puta… Era a invariável sinfonia pastoral (ou bucólica) como fundo das nossas disputas. Mas como era bom depois da turbulência. O sexo rugia ávido. Voraz. Urgente. Desesperado. Avassalador. E fodíamos como dois condenados à morte. Como se fosse a última vez. Como se o mundo fosse acabar de uma hora para outra. E era uma barulheira do diabo, os dois metendo. Mais barulhentos do que gatos quando cruzam. E era chupar e meter por tudo quanto era buraco. E quando estávamos próximos do orgasmo, parávamos, para recomeçar e prolongar o prazer. Até não aguentarmos mais e gozar como feras. Aí ela gritava. Não gemia, gritava mesmo. E eu grunhia como um animal. Quando ela gozava, antes de mim, pedia para eu gozar na sua boca. E eu gozava com prazer como ela pedia. E ela engolia meu esperma. E quando estávamos no auge da excitação, eu falava palavrões e frases chulas – com as quais ela foi se habituando e foi adotando. E assim saía: fala que você gosta do caralho do teu macho/gosto do caralho do meu macho/fala que você gosta de ser enrabada como uma puta pelo teu macho/gosto de ser enrabada como uma puta pelo meu macho/fala que você é uma judia filha da puta que gosta de dar para um basco filho da puta/sou uma judia filha da puta que gosta de dar para um basco filho da puta/fala que você é uma burguesa que gosta de foder com um anarquista/sou uma burguesa que gosta de foder com um anarquista. E quando eu ia gozar, eu dizia: goza comigo sua puta; goza comigo sua vaca; goza comigo sua cadela; goza com teu macho, sua biscate. E ela respondia: gozo, sim, meu gigolô; gozo, sim, meu touro; gozo, sim, meu cachorrão; gozo, sim, meu macho. Não, o sexo não pode ser civilizado. Mas muitas vezes, em acessos de ternura sem limites, eu teria gostado de murmurar: goza comigo meu amor, goza querida com o homem que tanto te ama. E certamente, ela esperava essas palavras de mim, do homem amado. Mas eu não proferia essas palavras mágicas. Nunca as proferi. Eu, um imbecil. Um ordinário. Um grosso. Sim, um grosso. Por mais sensibilidade artística que tenha. E ela se cansou. Não aguentou essa barra de sexo bruto. Sexo selvagem sem permitir que o amor se manifestasse. Sexo feroz. Sexo pelo sexo – que em realidade não era. Às vezes, quando brigávamos – e isso sempre acontecia antes do sexo –, ela ameaçava ir embora. Mas eu não a deixava e apelava para o que sabia que era infalível: não vá embora, não, não vá embora sem transar comigo, eu não posso ficar mais de uma semana sem você, faça com meu corpo o que quiser, sou teu. Assim, fazendo-me humilde pela premente necessidade de sexo com ela, eu a desarmava. E ela cedia. Céus! Que fúria sexual havia entre nós. Que furor de existir quando um corpo se juntava e se unia ao outro. Quando os dois corpos se fundiam num só. Nada neste mundo é mais forte que o sexo. Só a morte. Não, ela não suportou a barra e caiu fora. Mesmo porque ela sabia que não podia esperar outra coisa de nosso relacionamento. Mesmo porque ela compreendia que essa relação se esgotava em si e fechava qualquer saída para o futuro. Mas eu a amo e a quero de volta. Eu a quero de volta sob as condições que ela impor. Estou sozinho. E a solidão dói. Dói desde criança. E, agora, na maturidade, mais ainda. Só tenho meus dois cachorros, meus dois gatos, meu peru, meu papagaio e minha tartaruga. Vivo praticamente recluso. Meus filhos raramente vêm me ver – não devo ter sido um bom pai. Só vejo os amigos quando vendo uma tela – e passo meses e meses sem vender nada – e pago cerveja para eles, até a gente ficar bêbado, até amanhecer. E meus filhos, a mesma coisa. Só os vejo quando vendo uma tela e compro presentes para eles e vou visitá-los. A única pessoa que vem me visitar é David Haize, meu amigo escritor. Um bom escritor. Gosto de sua literatura. Tem uns vinte livros publicados. Li quase todos. Seus romances são muito loucos. Aliás, como ele. Só podia ser meio doido para gostar de mim. Gente certinha não gosta de mim. Como meu irmão. Que vem me ver um Natal sim, outro não. Ou seja, a cada dois anos. É um cara corretíssimo. Certinho. Engenheiro. Bem sucedido na vida. Com dois filhos. A mulher dele é uma porca consumista. Uma vaca que vive fazendo compras nos shoppings. Só pensa nisso, em consumir. Aposto que quando ela está metendo com meu irmão deve estar pensando nas compras do dia seguinte. Vai ver que meu irmão não a trabalha bem na cama, não lhe dá uma boa surra de vara. Essa burguesada que só pensa em trabalhar e em consumir acaba brochando. Não gosto dela. E ela não gosta de mim. É recíproco. Uma vez – uma das raras vezes – que ela veio aqui com meu irmão, falou, depois de uma discussão que eu provoquei porque não vou com a cara dela, que minha casa era um chiqueiro. E nunca mais voltou. Nem quero. Perua metida a grã-fina. Burguês não gosta mesmo de mim. Nem poderia. Além de anarquista, gosto de viver com meus bichos e não ligou muito para essa frescura de limpeza e higiene. Que mania de limpeza e higiene. Parece coisa de norte-americano que vive obcecado pela higiene. Lá tudo é esterilizado. Devem esterilizar também até o pau e a boceta antes de foder. Tá louco. Eu, hein! Eu gosto é de uma boceta cheirosa como queijo camembert. E não me incomodo com o cheiro do meu pau no dia seguinte de ter metido. Mas então, como estava dizendo, o David – por sinal Haize, seu sobrenome, significa vento em euskara (língua basca), ele tem uma antiga ascendência basca – vem regularmente me visitar. Ele costuma passar em casa a cada dois meses mais ou menos. E sempre aparece com uma dúzia de latas de cerveja e uma pizza ou um monte de pasteis ou vários pedaços de queijo. Ele sabe que eu ando sempre duro. Não é que ele nade em dinheiro. Mas ele dá aulas à noite e uma ou outra palestra – de dia ele escreve. E vive disso. Porque ganha menos com os livros do que eu com a pintura. Temos muita coisa em comum. Sangue basco. Curtimos, alem da arte, uma boa boceta, uma boa comida e uma boa bebida. E, claro, somos anarquistas, hedonistas e racionalistas. Mas ele é disciplinado. Coisa que eu não sou. O filho da puta é disciplinado mesmo. Ele, por exemplo, estabelece um prazo para terminar um livro. E acaba dentro do prazo previsto. Diz que sem disciplina ele se perde completamente. O cara é doido pela literatura. Como eu sou pela pintura. Ele diz que as três melhores coisas da vida são escrever, meter e comer. Eu substituo escrever por pintar e acrescento beber. Ele é metódico. Eu já como quando dá fome, durmo quando estou com sono e pinto quando dá vontade. Não tenho horário para comer, deitar ou pintar. A Rebeca não conseguia entender meu modo de viver. Mas que ela gostava de meter comigo, isso não se discute. Uma vez ela disse que eu era a melhor foda que ela conheceu na vida, mas que era impossível viver comigo. Rebeca, minha santa boceta, minha boceta bíblica, minha sagrada boceta de Jerusalém como você faz falta na casa deste basco abandonado. Mas não vou pensar na Rebeca. Não quero ficar mais triste que já estou. Voltando ao David – por sinal ele está enrolado com uma garota que poderia ser sua neta –, ele me lembra o Henry Miller porque, como o escritor norte-americano, ele escreve muito sobre sexo e com muito palavrão e o que ele escreve é quase sempre autobiográfico. E ele fala que eu sou o Bukowski da pintura. O filho da puta entende mesmo de pintura. Temos, em termos de pintores, mais ou menos os mesmos gostos. Além de Bosch, Goya e Van Gogh, é fissurado em Giotto, Vermeer, De Chirico e Edward Hopper. Ele não curte Dali, que acha muito acadêmico. Aprecia muito meu abstracionismo e sempre quer que lhe mostre meus últimos trabalhos. Sempre que aparece, ele traz algum texto inédito dele e o lê para mim. Foi com ele que aprendi a gostar de Omar Khayyam, o grande poeta persa, fodedor e beberrão, que, como David e eu, não acreditava em nada, a não ser numa boa boceta e num bom vinho. Ele diz que Khayyam é o maior poeta da humanidade. A última vez que ele esteve em casa, chorei muito, pois fazia apenas uns dias que a Rebeca tinha me largado. Ele me ouviu, sem julgar, sem cobrar nada de mim. Um puta amigão. Ele me aceita como eu sou. Se ele fosse mulher, eu comia. Ou se eu fosse bicha dava para ele. O filho da puta foi também um grande comedor na sua mocidade, Às vezes ele me conta casos antigos. Alguns muito engraçados. E eu conto os meus. E damos boas risadas. Felizmente ele fuma, como eu. E dá-lhe cigarro e cerveja e bocetas do passado. Fumar era outro motivo de briga com a Rebeca. Ela detesta cheiro de cigarro. Minha amada Rebeca é todo o oposto de mim: não fuma, não bebe, é séria e correta, mas gostava muito de meter comigo. Mas deixa para lá. Não quero pensar nela. Além da pintura e dos pintores, da literatura e dos escritores, das mulheres e suas fodas fantásticas, há outro tema sempre presente nas nossas conversas: a política. David e eu concordamos que as bombas devem voltar. Como na nossa juventude. Bombas nos bancos. Os bancos roubam descaradamente e devem ser assaltados e destruídos de modo sistemático. Bombas nas bolsas de valores. As bolsas especulam e arruínam a economia. Bombas nas multinacionais que exploram vergonhosamente os países pobres. Bombas nas instituições religiosas que exploram e alienam o povo. Bombas na mídia que está nas mãos dos poderosos e, consequentemente, defende os interesses dos poderosos. Bombas nos supermercados. O povo faminto tem o direito de saquear os supermercados. Bombas nas indústrias que poluem e que estão destruindo o Planeta. David odeia visceralmente o neoliberalismo, a globalização e a religião. E assim ficamos entusiasmados colocando bombas em tudo quanto é lugar. Como bons anarquistas. E quando David Haize vai embora e leva consigo pintura, literatura, mulheres e bombas, fico sozinho. Como agora. Pensando nela. Com a saudade me oprimindo o peito. Rebeca, meu amor, minha bocetona angelical, ligue para mim. Diga que você me quer de volta. De volta para sempre. Pode ficar com o marido. Não vou exigir exclusividade. Não vou nunca mais brigar por ciúme do teu macho oficial. Pode viver com ele. Pode até meter com ele. Mas não me deixe. Venha me ver em casa. Nem que seja uma vez por semana. Eu gosto tanto do que você me faz na cama. Gosto demais dos teus beijos. Das tuas chupadas. Das tuas mordidas. Dos teus arranhões. Gosto das marcas roxas que você me deixa no pescoço e nos ombros. E que eu não posso deixar por causa do teu marido. Eu vou mudar, meu amor. Eu prometo que nunca mais vou fazer cenas de ciúme. Que nunca mais vou dar tapas em você – embora você sempre batia primeiro. Que vou deixar de fumar. Que vou limpar a casa e trocar os lençóis. Que vou tomar banho todo dia. Que vou dar banho nos cachorros, nos gatos e até no peru – no papagaio e na tartaruga não precisa, né? Eu estudo o ladino dos teus antepassados. E até o hebraico. E mando cortar a pele do prepúcio para te oferecer um pau circunciso, judaico. Embora você não seja uma judia ortodoxa e não ligue muito para o judaísmo. Mas é apenas para te dar uma prova do meu amor, reverenciando tudo o que vem da tua cultura e tradição. E vou ler o Talmud todo dia. E o Torah. E depois de gozarmos, vou te murmurar, como o amante mais carinhoso do mundo, maitezaitut, ou seja, eu te amo em euskara (língua basca) ou anee ohev otakh, ou seja, eu te amo em hebraico. Rebeca, não me largue sozinho. Pela coisa mais sagrada do mundo, não me deixe. Você sabe que eu te amo mesmo. E não vou poder te substituir. Mesmo porque nenhuma mulher quer ficar comigo. Com esse temperamento explosivo. Com essa casa bagunçada onde tudo está quebrado. Com todos esses bichos pulando na cama. Só puta mesmo para meter, ser paga e cair fora. Rebeca, volte, meu amor. Me dê uma chance. Uma única chance. Vamos deixar de ser apenas um pau e uma boceta para a gente se tornar um homem e uma mulher que se amam. E que são capazes de falar. E, por que não, até de serem felizes.
Continua…
- em 12/05… “Pai, Quero Ser Mãe”
- em 19/05… “Comida Caseira”
- em 26/05… “Sax”
Juiz, Casado, com Filhos, Procura Homem para Sexo Casual
abril 29, 2012
Este conto é parte de (e dá nome ao livro)
JUIZ CASADO COM FILHOS PROCURA HOMEM PARA SEXO CASUAL
(CONTOS)
Que fria! Puta que pariu! Como é que fui entrar nessa fria? Onde é que eu estava com a cabeça? Isso é coisa de adolescente. Com a agravante que faz muito tempo que deixei de ser adolescente. Pois é, seu juiz, que cagada. Me deixa em paz, Carlinhos. Eu não te chamei. E menos ainda para dar palpites. Não adianta, cara, eu, Carlinhos, sou tua consciência. Que consciência porra nenhuma. Você está presente só para me encher o saco. Então digamos que sou teu alter ego. Dá o fora, Carlinhos. Quero ficar sozinho e pensar na decisão que vou tomar. Aliás, a decisão já está tomada. Eu já decidi o que vou fazer. Eu não vou testemunhar a favor dele. Foda-se. Bem, não é que eu queira que ele se foda, não. Eu não sou filho da puta. Mesmo porque eu não tenho bronca dele. Em absoluto. Eu gosto dele. Simplesmente eu não posso fazer o que ele está me pedindo. É muito arriscado. Aliás, não é o que se poderia chamar de risco. É um desastre. Isso mesmo. Se eu testemunhasse seria uma catástrofe. Seria o fim da minha vida. Um suicídio. Sim, o fim da minha vida profissional. Da minha vida social. O fim da minha vida familiar. O fim de tudo. Eu não posso fazer o que ele está me pedindo. Ele que me desculpe, mas ele vai ter que entender que eu não posso testemunhar. Ele que procure outro álibi. É a minha carreira e a minha família que estão em jogo. Eu não sou um mequetrefe qualquer. Eu não sou um joão-ninguém que nada tem a perder. Eu não sou um nego sem eira nem beira. Mas você está sendo filho da puta, seu juiz. Por que estou sendo filho da puta, Carlinhos? Eu estou apenas me defendendo, ou, melhor, me preservando, evitando me expor. E, desse jeito, você vai deixar um inocente ser condenado, não é isso? Se ele é inocente – e eu acredito que ele é –, ele não vai ser condenado. Um inocente não é condenado. Às vezes inocentes são condenados, seu juiz. Sim, às vezes, mas é raro. Nada vai acontecer com ele. Não existem provas. Ele saiu de casa e o colega de apartamento dançou. Ele não estava em casa quando a coisa ocorreu. Justamente, seu juiz, ele estava metendo com você num motel quando o amigo que dividia o apartamento com ele se fodeu. Você é um covarde, seu juiz. Carlinhos, pára de me encher o saco. Eu não sou covarde. Eu tenho família, carreira e posição social. Sou um homem respeitável e respeitado. Pai de família. E juiz. E juiz, socialmente falando, é algo importante. Juiz representa o que há de mais sagrado. Ou seja, a família, a tradição, a religião, a pátria e, claro, a justiça. E, francamente, eu não posso destruir tudo isso de uma hora para outra. Você tem que entender isso, Carlinhos. Você é uma bosta de homem, senhor Carlos Alberto Schneider de Castro Alencar. Uma merda de juiz. Além de veado, você é covarde. Carlinhos, eu não sou nem veado, nem covarde. Você é covarde, sim. Tão covarde que vai deixar um inocente ser condenado por um crime que não cometeu. Só para você não se expor. Que lazarento, filho da puta. Juiz sem ética. Juiz de merda. Que não assume nada. Nem a veadice, claro. Pára, Carlinhos! Não paro, não. Você é um veado. Eu não sou veado! Ah, não? O venerável senhor juiz dá o cu e não é veado. É o quê? Bicha? Homossexual? Gay? Eu não sou gay, Carlinhos. Sou um homem de bem. Ah, é? Quer dizer que gay é um homem de mal, não é isso? Honorável juiz, que chupa uma rola que dá gosto antes de ser enrabado e que gosta de leitinho de macho no rosto. Carlinhos, você está extrapolando! Extrapolando, um cacete! Estou apenas falando a verdade, meu caro juiz. Carlinhos, não seja filho da puta comigo. Você sabe que não é bem assim. Houve, eu reconheço, algumas incursões, digamos assim, homossexuais. Mas isso não quer dizer que eu seja gay. Mesmo porque não gosto de gays. Não gosto de jeito nenhum de gays. Não gosto do mundo dos gays. Acho um absurdo, um disparate, querer legalizar o casamento entre gays. E eu não tenho amigos gays. Mesmo porque não fica bem um juiz ter amigos gays. Ah, é? Incursões homossexuais? Que mentira deslavada! Que cínico! Que hipócrita! O senhor juiz tem suas incursões veadáticas e não se considera gay. Escapadas ultrassecretas. Discretíssimas. Bem sigilosas. Bem camufladas. Bem disfarçadas. A vida sexual secreta de um juiz. Carlinhos, por que você me atormenta? O que você quer de mim? Você sabe que dá para contar com os dedos de uma mão as vezes que eu sai com homem. Eu não saio à procura de homem. Eu não caço homem. Eu sou um homem caseiro. Que gosta de ficar em casa. De curtir a esposa e os filhos. Eu gosto do que é certo, correto. As vezes que aconteceu foi por acaso. Porque tinha de acontecer. Coisa do destino. Do destino, seu juiz, do destino? Não me venha com essa, seu juiz, não me faça rir. Não ria de mim, Carlinhos, não ria de mim. Eu me sinto mal depois que saio com homem. Me sinto sujo. Indecente. Vil. Culpado. Culpado em relação a minha esposa e aos meus filhos. Mas na hora de gozar com macho, é uma delícia, não é, seu juiz? Carlinhos, é você que está sendo cínico comigo. Sabe o que você parece, caro juiz, sabe o que você parece, honorável juiz? O que eu pareço, Carlinhos? Você parece aqueles crentes nojentos e hipócritas que pedem perdão à parceira depois que gozam. É isso o que você parece, seu juiz apreciador de rola. Adicto de um bom cilindro de macho desde a adolescência, não é, seu juiz? Aquele negrão que tirou teu cabaço, que te comeu com um pau de vinte centímetros, você não esquece, né, seu juiz? Não esqueço não, Carlinhos. Isso me marcou para o resto da vida. Foi ele que me iniciou. Era negro como azeviche. Mas muito bonito. Filho da empregada. Uma empregada de muitos anos em casa. Brincávamos desde a infância. E um dia, já éramos adolescentes, a coisa rolou. Naturalmente. Sem forçar. Estávamos em casa. Sozinhos. Acho que era um feriado. Estávamos em meu quarto. Vendo revistas de sacanagem. Os pintos endureceram, claro. Começamos a nos masturbar. Aí ele fez a proposta: você me bate uma e eu te bato uma. E assim começamos a nos masturbar um ao outro. Depois ele pediu para chupar. E eu chupei. E ele me chupou. Depois ele perguntou se eu deixava pôr. E eu deixei. E ele me penetrou. E gozou dentro de mim. E eu gostei, embora doendo. Gostei porque eu me sentia muito atraído por ele. Mas só aconteceu uma vez – embora ele quisesse mais. Mas eu não queria. Tinha vergonha. Uns tempos depois a mãe dele encontrou outro emprego e saiu de casa. E eu nunca mais o vi. Ele ainda me ligou algumas vezes. Uma dessas vezes ele me disse que tinha muita saudade daquilo que tínhamos feito aquele dia, no meu quarto. Senti uma vontade tremenda de voltar a vê-lo e transar com ele outra vez. Mesmo porque tinha lido naquela época, depois de transar com ele, o Bom Crioulo. Foi justamente o fato de ter feito sexo com ele que me fez procurar o romance de Adolfo Caminha. Mas eu, adolescente bobão, não aceitei mais sair com ele. Sufoquei aquele desejo tão forte por ele e não quis mais saber. Eu me sentia muito culpado. Por causa da educação tradicional católica que tive. Ele foi muito importante para mim. E durante muitos anos me masturbei pensando nele. Nunca mais soube dele. Mas nunca o esquecerei. Deve estar casado e com filhos. Como eu. Ele não era gay. Pelo menos não levava jeito. Mas gostava de mim. Gostaria de voltar a vê-lo. É, seu magistrado, amor de pica fica. Pelo menos é o que dizem. Juiz marcado pela pica avantajada de um crioulo. Parece título de história gay pornô. É, seu juiz, o tesão não satisfeito ficou para o resto da vida, né? Embutido. Enrustido. Indelével. Mas o senhor não é homo, não. E apenas um respeitável juiz hetero, casado e com filhos, que sente uma necessidade premente de chupar uma boa rola de negrão antes de dar o cu. Mas é só de vez em quando, né, seu juiz? Não chega a ser um hábito. É como quem bebe socialmente. Quem bebe de vez em quando não é alcoólatra. Uma boa sentada no chouriço não mata ninguém. Um bom cremezinho de pau na boca não é nenhuma infração. O senhor é um homem de bem, um homem da lei que, vez por outra, cai na tentação de uma matinê com um bom macho. Mas isso não quer dizer nada. Mesmo porque o senhor não gosta de gay. Aliás, quem não tiver algum pequeno pecado que atire a primeira pedra. E, afinal de contas, que mal o senhor está fazendo? Fora a traição a sua digníssima esposa, nenhum. Nenhum mal. Dois machos metendo um com o outro não fazem mal a ninguém. É uma questão de liberdade individual. De opção sexual. De gosto pessoal. Né, seu juiz? Não é isso? E o senhor gosta mais de ser comido do que de comer. Passivo. Ativo só com a esposa. Também, não há outro jeito. A esposa nunca poderia comê-lo. A menos que amarrasse um pinto de borracha na cintura, como fazem as lésbicas na hora de comer a parceira. Ah, venerável magistrado, quanta mentira, quanto disfarce, quanta hipocrisia. Bom juiz. Bom pai. Bom marido. Tão bom e tão fiel que nunca traiu a esposa. Com mulher, claro. Só com homem. Mas homem não conta. É apenas para satisfação sexual. Não dá para viver só comendo a esposa. De vez em quando é bom ser comido por um negrão de ferramenta generosa. Um negrão forte, daqueles meio violentos na hora de afundar o croquete. Daqueles que, quando vão gozar, parecem querer arrebentar o cu. Daqueles que dizem: vem cá, branco filho da puta, que vou te rasgar com meu caralho. Ou então: chupa, branquelão, chupa o pau gostoso do teu amo negro. Você é um veado sem-vergonha, seu juiz. E aquele advogado negro que você papou? Ou, melhor, que papou você. Lembra? Lembro, sim, Carlinhos. Um advogado negro. Um dos homens mais bonitos que já conheci. E não me refiro só a homens com os quais transei, que foram poucos, por sinal. Durante meses fantasiei sexo com ele. Mas em nenhum momento me ocorreu cantá-lo – coisa que nunca faço. Mesmo porque ele era casado, másculo e nada indicava que ele fosse, eventualmente, gay. Mas presumo que devia olhá-lo, sem querer, de um modo que, embora discreto, traia o que sentia por ele. Talvez, durante todos esses contatos profissionais, ele captasse a essência do meu olhar. Talvez ele conseguisse ler esse meu olhar, onde, não havia dúvida, aflorava, embora sutilmente, o meu desejo. E um dia se convenceu de que ele não estava enganado em relação ao que eu sentia por ele e arriscou: o senhor é o juiz mais bonito que já vi na minha vida. Fiquei perturbado. Enrubesci. Mas eu não podia deixar escapar a oportunidade. Criei coragem e respondi: e o senhor é o advogado mais bonito que já vi na minha vida. É mesmo? retrucou como se estivesse surpreso. E eu repliquei, sério, olhando-o bem nos olhos: não estou apenas devolvendo o elogio. E aí, ele foi direto e propôs: nesse caso posso lhe revelar o resto do meu físico, já que o senhor me acha bonito e assim também conhecer a beleza que as suas roupas escondem. E aí veio o encontro. E foi a glória. Uma vez. Uma única vez. Ele quis marcar um novo encontro. Mas eu recusei. Recusei porque ele me agradou tanto que sabia com certeza que ia me apaixonar perdidamente por ele. E eu não podia me permitir esse luxo. Não, por mais que meu corpo e meu coração estivessem prontos para se entregar totalmente. Não, eu, um juiz casado e com filhos, não podia me dar ao luxo de me apaixonar por um homem. Foi muito duro não ceder ao desejo. Mesmo porque eu cruzava com ele com uma certa frequencia. Eu o via e me derretia. E, pior, sabia que ele me queria, pelo seu olhar. E quando transava com a minha mulher, pensava nele. Tínhamos trinta e poucos anos naquela época. Mais ou menos a mesma idade. E não o esqueço. É, seu juiz, mas não é só de pica de negrão que vive o cu de um juiz. O que você quer dizer, Carlinhos? Quero dizer que aquele cara da festa era um branquelo. Mas aí o seu juiz tem desculpas: cu de bêbado não tem dono, não é isso? É, Carlinhos. É mesmo. Eu estava bêbado mesmo. Não sei onde estava a minha cabeça. Mas a cabeça do pau do cara, você sabia onde estava: no fiofó do senhor magistrado. Carlinhos, pára de me gozar! Eu, gozar o senhor? Sim, você, você vive tirando sarro de mim. Você sabe que são coisas que acontecem. Claro, seu juiz, pau entrando no cu de macho é coisa que acontece desde o alvor da humanidade. Nada mais natural, até os macacos gostam disso. É, o problema é que isso aconteceu na minha casa. Com a minha mulher dormindo no quarto. E o senhor sendo enrabado num canto da churrasqueira. Pois é. Era o meu aniversário. Dei um churrasco. Carne e cerveja em abundância. A festa se prolongou até de madrugada. Comeu-se muito. Bebeu-se muito. Contou-se muita piada. E rui-se muito. Um dos meus amigos, um professor universitário, trouxe um colega – que eu não conhecia – também professor. Embora esse cara não tivesse trejeitos de gay, reparei que ele me olhava, de vez em quando, de modo um tanto significativo. Compreendi que eu o atraia. Mas eu não sentia nada por ele. E, francamente, eu não estava pensando em homem numa festa, familiar por assim dizer, na minha casa. Numa hora entabulamos uma conversa sobre o ensino no País, um pouco afastados do resto dos convidados. A conversa declinou e, de repente, ele baixou o tom de voz e me disse: você é um tesão. Surpreso, ri. Ele interpretou o meu riso como um sinal de que ele tinha alguma chance. E emendou: você já transou com homem? Por que você me pergunta isso? Porque quer transar comigo? E ele apressou-se em responder: porque estou taradão por você. Ri novamente. E assim foi passando o tempo. Entre cerveja e mais cerveja. Eu, como dono da festa, ia conversando com uns e com outros. E vez por outra, me aproximava dele e ele não perdia a oportunidade de soltar baixinho frases como: tesão de homem, gostosão da noite, delícia de macho. Ou fazia perguntas do tipo: você tem pau grande? você é peludo? você é ativo ou passivo? quer dar para mim ou quer me comer? E eu me divertia. Mas o cara, sério ou na brincadeira, estava conseguindo o seu objetivo. Ou seja, eu estava me excitando, mesmo sem me sentir realmente atraído por ele. Os convidados começaram a ir embora. Os meus filhos já estavam dormindo. A minha mulher se retirou. Ficamos sozinhos os dois. Falando e bebendo. Na churrasqueira, no fundo do jardim. Já não aguentávamos mais de tanta cerveja. De repente ele me agarrou. Me amassou. Me beijou. Parecia estar mesmo louco de tesão a julgar pelo jeito de grudar em mim. E eu fiquei muito excitado. E de repente ele abaixou as minhas calças e cuecas e… O carro entrou gostoso na garagem, né, seu juiz. É, Carlinhos, ele me penetrou. E gozamos. Foi assim que aconteceu. Mas nunca mais o vi. É, seu juiz, cu de bêbado não tem dono. Mas o senhor não é veado, não. É algo que pode acontecer com qualquer homem. Desde que tenha uma pequena tendência a ceder a rosca, né, seu juiz? O que não impede que esse homem seja um bom marido e um bom pai e um juiz respeitável, como o senhor. Coisas que podem ocorrer com qualquer cidadão honesto. Como o que lhe aconteceu em Nova York, né, seu juiz. Se bem que nos EUA não foi o cu que levou a descarga, mas a boca. Pois é, Carlinhos, aquilo também foi algo totalmente inesperado. Foi em Nova York. No hotel. Entrei no elevar. E um homem comigo. De uns 40 anos – da minha idade mais ou menos – de terno e gravata, elegante, jeito de executivo, negro, muito boa pinta. No curto trajeto, olhou-me com insistência. Encarei-o. Ou seja, encorajei-o com os olhos. Antes de o elevador parar no seu andar, ele perguntou: would you like to come to my room? Aceite e fui ao quarto dele. A coisa rolou rápida e objetivamente. Sem beijos nem penetração – como ele pediu. Apenas felação. Um ao outro. Simultaneamente. Gozou na minha boca. Eu não gozei. Vesti-me e voltei para o meu quarto, onde a minha mulher estava me esperando. Eu descera apenas para comprar um jornal enquanto ela se aprontava para sairmos. É claro que nunca mais o vi. Nem perguntei o seu nome. Nem ele o meu. É, seu juiz, isso é algo que também pode acontecer com qualquer homem. Desde que seja adicto de uma boa rola na boca. Como você pode constatar, Carlinhos, eu não sou propriamente um gay. Tive casos esporádicos. Encontros de uma vez só. Que nunca se repetiram. Além do mais, eu amo a minha mulher. E transo com ela regularmente. Está certo que o prazer com ela não é tão intenso quanto com um homem, mas… vou tocando a vida com ela. Eu nunca a deixaria por um homem. Sob nenhuma hipótese. Mesmo porque a família é uma instituição sagrada, sem a qual a sociedade não se sustenta. Toda essa decadência que vemos hoje em dia é por causa da desagregação da família. Tive muito prazer com esses quatro homens – três negros e um branco. Mas não passou de prazer sexual. Mesmo porque o senhor não se permitiu mais nada, né, seu juiz? Você é um hipócrita, seu juiz. Carlinhos, se eu tivesse me permitido algo mais do que prazer, poderia ter acabado com o meu casamento. E acabar com o meu casamento é algo que eu não posso admitir. Mesmo ao custo da sua felicidade, seu juiz? Mas, Carlinhos, eu sou feliz com a vida que levo. O senhor mente, seu juiz. Você é um enrustido. Um veado que não assume. Um homossexual que usa o casamento para ocultar um fato que você não admite. Um reprimido torturado pelo desejo insatisfeito de macho. Hipócrita! Covarde! Frouxo! Fariseu! Carlinhos, vá tomar no cu antes que me esqueça. Tomar no cu é o que você adora, seu juiz. Pare de me azucrinar a vida, Carlinhos. Onde você quer chegar? O que você quer de mim? Que largue mulher e filhos para viver com um homem? Eu nunca faria isso. Jamais. Mas, seu juiz filho da puta, bem que o senhor vacilou com o último. Com o quinto homem. Com o quinto macho. Com o quinto cacete de sua vida. Bem que a linguiça – desta vez não foi chouriço – que completa o quinteto abalou os alicerces inabaláveis das suas convicções em relação à família. Bem que o senhor cogitou largar tudo para viver seu grande amor com ele. Sim, Carlinhos, eu pensei nisso. Mas pensamento é uma coisa e ação é outra. Fraquejei e aceitei vê-lo uma segunda vez. Infringi, portanto, a norma de uma única vez. Para não me acostumar. E depois da segunda vez, quis vê-lo novamente. E foi a terceira. E a quarta. E a quinta. E fui me envolvendo. Afundando numa paixão. Uma loucura. E veio a sexta vez. A fatídica. Mas, seu juiz, toda essa paixão não é suficiente para o senhor tirar o rapaz de uma enroscada, né? Eu já lhe disse que não posso testemunhar. Não, Carlinhos, eu não posso testemunhar que estava com ele num motel (com peruca e bigode postiço e óculos escuros para ninguém me reconhecer) na hora em que o homicídio foi cometido no apartamento dele. Eu não posso acabar com a minha vida. Ele não vai ser condenado porque não existem provas. Quem ia me dizer que o que começou por um anúncio na internet (homem de 48 anos, casado, com filhos, procura homem para sexo casual), uma brincadeira virtual, ia acabar assim. Uma brincadeira, uma ova, seu juiz. Você andava sequinho por um macho. Quando ele lhe mandou uma foto pela internet, você logo se apaixonou. E depois, quando ele lhe enviou uma foto, de corpo inteiro, pelado, com o pau duro, você ficou alucinado e bateu uma. E não via a hora de se encontrar com ele. O senhor, tão comedido, tão circunspeto, com nome de guerra para responder aos e-mails, não via a hora de traçar esse jovem médico de 28 anos. Ou melhor, de ser traçado por ele, belo rapaz que diz gostar de coroas. E o senhor, do alto dos seus 48 anos, despencou, depois de anos sem macho, no abismo do desejo. E quando se deu o encontro, foi a paixão fulminante. A paixão avassaladora, irreprimível, da maturidade. Da longa espera pelo amor de um homem. A ponto de querer repetir, erro fatal seu. E, ao que tudo indica, a paixão foi recíproca. Pois ele parecia também doido. Louco pelo senhor juiz. E ele começou a mandar e-mails apaixonados insistindo em mais encontros. E ligava para o seu celular dizendo que não aguentava mais. Que queria ver você de qualquer jeito. Que batia punhetas pensando em você. E o senhor, o sisudo senhor juiz, ficava perturbado. Sem saber o que fazer. E mais perturbado ainda quando, um dia, ele disse claramente que o amava. Que era de fato amor o que ele sentia. E você ficou ainda mais perturbado. Desnorteado. Sem saber mesmo o que fazer. Debatendo-se pateticamente entre o desejo e a razão. Ou entre o amor e o dever familiar e social. Ou entre coração e mente. Ou entre a rotina insípida de uma velha vagina e a novidade flamejante de um pênis em flor. E inventando um monte de pretextos para afastar seu amado do seu coração, do seu pensamento. Pretextos como a consciência, que você, seu juiz, tinha de que sua paixão era mais devido a sua falta de homem, a sua premente falta de homem, do que ao próprio objeto do desejo. Pretextos como a diferença de idade: biologicamente você podia ser o pai dele. O que significava que um dia ele o largaria por outro mais jovem. Ou até por uma mulher com quem ele poderia vir a se casar. Em suma, você não podia esperar nada dele a longo prazo. Logo, largar a família era algo totalmente fora de cogitação. Era melhor viver intensamente aquela relação, sem pensar no futuro. Sem tomar nenhuma decisão. Sem romper com nada. Mas você o ama, né, seu juiz? Ou o senhor vai mentir mais uma vez, logo para mim, e afirmar que é só tesão, que não o ama? E então, o que o senhor me diz? Sim, Carlinhos, eu o amo. Não posso negá-lo. E mesmo amando-o, você não vai depor a seu favor, testemunhando que estava com ele num motel na hora do assassinato do colega? Você seria tão frio, tão calculista, tão vil que, em nome das aparências, o deixaria ser, eventualmente, condenado por um crime que ele não cometeu? Você teria a desfaçatez de sacrificar o rapaz para preservar a fachada social? Pense, seu juiz. Pense e seja honesto, seu juiz. Pense e seja homem, seu juiz. É uma questão de consciência. Afinal de contas, meritíssimo, o senhor sabe o que significa a palavra ética. Não sei, Carlinhos, não sei. A minha vida não é mais a mesma. Eu não sou mais o mesmo. Estou dividido. E não sei mais o que devo fazer. Eu o amo. Mas não tenho a coragem de assumir a magnitude desse amor perante a sociedade.
Continua…
- em 05/05… “Maitezaitut/Anee Ohev Otakh”
- em 12/05… “Pai, Quero Ser Mãe”
- em 19/05… “Comida Caseira”
- em 26/05… “Sax”
Pau na Horizontal
abril 21, 2012
Parte de
JUIZ CASADO COM FILHOS PROCURA HOMEM PARA SEXO CASUAL
(CONTOS)
Pau na Horizontal
Não vem mais. Se fosse para vir, já teria vindo. Não seria a primeira vez que fico esperando. E ela não vem. E a soirée termina em punheta. Às vezes encho a cara. E aí, nem sequer uma punheta. Mas geralmente bato a punheta primeiro. Para apaziguar a frustração do corpo. E depois bebo. Até ficar de pileque. E aí, atordoado pelo álcool, suporto melhor a sua ausência. E a solidão decorrente dessa ausência. Em verdade, é uma constante ausência. Salpicada de esporádicas presenças. Sim, magras presenças. Na hora do almoço. Ou no fim da tarde. Breves presenças. Apenas o tempo de uma rápida metida. Porque ela está sempre com pressa. Trabalho e faculdade. E o namorado. E o que sobra, quando sobra, para mim. Ela nunca passou uma noite comigo. Nunca. Pedi várias vezes. Mas ela nunca pode. Muita coisa a fazer. Quando não é o emprego, são os estudos. Ou o seu macho. Eu sou apenas um amante ocasional. O velho com quem ela trepa quando lhe apetece. Ou quando o namorado viaja. Mas, geralmente, quando ele viaja, ela assume algum compromisso com os amigos. E eu fico chupando o dedo. Já que não posso chupar o meu próprio pau: não sou contorcionista. Sim, pouco sobra para mim, o amante sessentão. Migalhas de amor. Sexo espremido entre dois tempos. Gozo casual nos intervalos. Nos intervalos entre as obrigações cotidianas. Algo tão reduzido para a amplidão da minha necessidade. Algo tão escasso para o meu desejo. Tão pobre, tão limitado, tão restrito para o que eu sinto. Mas que importância pode ter, para ela, o que eu sinto? Para uma jovem de 23 anos? Uma garota que poderia ser a minha neta. Que importância pode ter o meu sentimento perante a insolência dos 20 anos? Perante a sensação embriagante de ter toda uma vida pela frente? E eu já não tenho toda uma vida pela frente. O que reduz as minhas chances de continuar vivendo a vida vorazmente – embora seja cada vez mais livre com a aproximação da morte. Mesmo porque para viver a vida vorazmente, é preciso devorar integralmente aqueles que desejamos. E o passar dos anos reduz as possibilidades de devorar e ser devorado. O que leva a uma certa humildade. Uma humildade diante da qual a arrogância do intelectual se curva. E essa humildade implica não ter ciúme do namorado. Não exigir nada dela. Aceitar as condições implícitas de um relacionamento irregular, para se dizer o mínimo. Ou pouco convencional. Ou estranho. Sempre que ela aparece em casa para trepar, penso: é a última vez. Não porque posso vir a morrer de uma hora para outra. Mas porque ela pode se cansar de mim. Sim, o tesão que sente por mim pode acabar. Acabar como tudo acaba. Sem exceção. Não acredito em nada. Estou convicto de que tudo, absolutamente tudo, acaba. Logo, o tesão, o seu tesão por mim, pode acabar. Que eu tenha tesão por ela, uma jovem bonita e sensual, é compreensível. Mas ela por mim? Ela alega que se sente fortemente atraída por homens maduros. Bem maduros, diria eu. E o namorado, que é da sua idade? O namorado dever ser para sair, para se divertir. E para trepar também, claro. E, quem sabe, para um futuro casamento. Pois ela diz amá-lo. Na realidade eu não sei o que ela sente por mim. Tesão e admiração, afirma ela. E eu me pergunto: tesão mais admiração não é igual a amor? Não, diz ela, não é. Ela não me ama – ama o namorado. Mas quer trepar comigo e falar de livros e discutir o que escrevo. Até aí, tudo bem. O namorado é para uma coisa. E eu sou para outra. Mas o problema é que ela simplesmente se esquece de mim por longos períodos. Às vezes até três meses. E depois volta. Com visível tesão. Ela volta para trepar comigo. Como se fosse absolutamente natural me procurar para sexo depois de meses. Meses sem sequer um simples telefonema. Nada. E eu fico quieto. Esperando. Como um idiota. Um imbecil. Será que sou mesmo um idiota, um imbecil? Que poderia eu fazer? Cobrar? Brigar? Dizer que desse jeito não dá? Que eu não sou palhaço? Cobrar o quê? Nada tenho a cobrar. Brigar por quê? Nada tenho a exigir. Exigir o quê? Ela não tem nenhum compromisso comigo. Palhaço de quem? Ela não está me traindo. Talvez esteja traindo o namorado. Mas ela diz que não. Que ele sabe que somos amigos. Que já trepamos. Mas que ela não tem nenhum envolvimento comigo. Eu não sei muito bem como ele vê a coisa. Ela diz que tranquilamente. O fato é que não sei se essa história de o namorado estar sabendo é verdade ou não. Sei o que sinto por ela: paixão. Uma paixão avassaladora. Que não consigo dominar. Controlar. Controlar, talvez eu controle. Mas só externamente. Por dentro é um desassossego permanente. Sem saída. Sem solução. Tentei, duas vezes, colocar um ponto final nesta relação que me causa mais amargura do que prazer. E rompi. Um dia que ela veio em casa, antes de eu cair na fraqueza do sexo, vomitei tudo o que estava represado. Eu: não vou mais te ver. Ela: por quê? Eu: será que você é tão burra ou tão insensível que não percebeu? Ela: o que foi que a minha burrice, ou a minha insensibilidade, não me deixou perceber? Eu: eu te amo e não posso esperar nada de você; é isso aí; e agora pode ir embora; não quero mais te ver; suma da minha frente; você tem um jeito muito filho da puta de vir aqui, meter comigo, cair fora e ignorar-me durante semanas e às vezes até meses; é muito fácil para você, muito cômodo: gozo com o velho sem me envolver; vá foder com teu namorado e desapareça da minha vida. E saiu de casa com lágrimas nos olhos, sem dizer nada. Trato de me convencer de que não a amo. De que isso não passa de tesão de velho solitário por mocinha. De paixão carnal de terceira idade. Tento me convencer de que, por mais que eu a queira, ela não passa de uma moça comum. Ordinária – não no sentido de vulgar, mas apenas de uma garota como tantas outras, sem nada de especial que a destaque. Sem nada de extraordinário. Sim, é inteligente e sensível. E tem um verniz de cultura. E, justiça seja feita, costuma ler bem mais do que a média. Mas não deixa de ser uma burguesinha. Com os valores de uma burguesinha. Com as aspirações de uma burguesinha. Com a contenção de uma burguesinha. Politicamente correta, como uma burguesinha. E, coitada, totalmente alienada social e politicamente, como uma burguesinha. Algo para meter e descartar. O problema é que eu não meto o suficiente com ela, como gostaria. Eu gostaria de meter até me saciar. Até o pau não levantar mais. Mas é invariavelmente uma vez só. Sem direito a bis. Pois ela está sempre com pressa. Com a agravante de que eu não tenho outra pessoa. Se eu tivesse outra pessoa – como ela tem – o deseja não seria tão intenso. Eu não precisaria tanto dela. Simplesmente porque me desafogaria com a outra pessoa. Mas eu não tenho ninguém. Só tenho a literatura. A que leio. E a que escrevo. Tinha uma namorada sessentona, como eu. Uma velha relação, já gasta. E quando comecei a transar com a jovem, deixei a velha para trás. Não me apetecia mais deitar com a velha companheira que conheci um ano depois da minha separação. Sou um velho solitário obcecado pelo desejo de uma jovem. Uma jovem um tanto inconsequente que não se entrega a mim como eu desejaria. Valha-me punheta. Às vezes duas no mesmo dia. Como um adolescente. Não consigo deixar de pensar nela. E quando me masturbo, quando estou a ponto de gozar, murmuro o seu nome. Ou às vezes falou em voz alta: goza comigo, goza sua filha da puta, goza que eu quero encher tua boceta de porra, goza com teu macho. Que gozado, quando estou trepando com ela, eu não uso palavrão – como costumava fazer com outras mulheres com que me relacionei sexualmente. Não uso o verbo meter. Nem trepar. Nem foder. Digo transar. Ou fazer sexo. Ou fazer amor. Por que será? Porque ela me transmite uma sensação de pureza? Também, não é nenhuma santa, porque vai para cama comigo e com o namorado. E não sei se com um ou outro avulso que o acaso pode ocasionalmente pôr em seu caminho. Só usei termos chulos as duas vezes que briguei com ela. Mas quando estou dentro dela, quase gozando, só digo: vem meu amor, vem comigo, vamos gozar juntos. De onde vem esse meu pudor? Será que é porque ela é muito jovem? Muito menina? E, até um certo ponto, recatada? Por que será? Porque a amo? Mas não é realmente amor o que sinto por ela. Então é o quê, caralho? Só tesão. Um desejo que não acaba. Que não sai da minha cabeça. Que me atormenta. Que me agonia. E esse tormento do tesão às vezes me leva a acessos de raiva. E sinto vontade de lhe dar uns tapas na cara. E de lhe rasgar a roupa. E de trepar com ela como um animal enfurecido. Esses acessos de ira se apossam de mim quando espero por ela e ela não aparece. Como hoje. O dia vai acabar com álcool. Ou com maconha. E com a inevitável masturbação para aliviar a tensão. Não só do tesão, mas da bronca. Que loucura! Como pode um homem de 65 anos depender emocionalmente – ou sexualmente, o que no fundo dá na mesma – de uma garota de 23 anos? Como posso ter criado esses laços tão fortes se eu sabia desde o início que era uma relação sem futuro? Talvez porque no fundo sempre alimentei a esperança de que ela largasse o namorado e ficasse comigo. E mantivesse comigo uma relação estável e regular – mesmo admitindo que ela pulasse a cerca de vez em quando. Uma relação séria com uma jovem de 23 anos, ou seja, bem mais jovem do que meu filho caçula. Uma relação firme, mas cada um morando em sua casa. Para falar a verdade, o que é que vi nessa moça? O frescor de uma boceta primaveril? Não é isso? Bem, não é bem isso. Ou pelo menos não é só isso. Como não? Não é uma forma de se sentir jovem de novo? De renascer sexualmente? Sim, claro. Talvez seja isso mesmo. Ou apenas isso. Mesmo porque ela não tem o que sempre procurei numa mulher. Sempre gostei de mulher forte. Decidida. Independente. Ousada. Guerreira. Despojada. Como Vanessa Redgrave. Ou Jane Fonda. Ou Mercedes Sosa. Ou George Sand. Ou Rosa Luxemburg. Ou Anita Garibaldi. Ou La Pasionaria. Talvez porque seja um homem que nunca se encaixou nos moldes tradicionais. Talvez porque seja, além de um animal literário, um animal político. E é claro que não se poderia esperar uma atitude de La Pasionaria ou Rosa Luxemburg numa garota de 23 anos do século 21. Acho que vi beleza física nela. Não que seja uma beldade deslumbrante. Mas tem um rosto muito atraente. Com esse nariz longo e reto, à grega. Esses lábios grossos. E esses olhos negros, levemente distantes um do outro. Uns traços que, embora não harmônicos, lhe conferem, no entanto, algo muito sedutor. Um corpo magro, mas muito sensual. Uns seios pequenos, mas perfeitos. E uma bunda africana mais do que perfeita – pena que ela não me deixe comer a sua bunda. Pele muito branca e cabelo longo, liso, preto, completam o conjunto dessa fêmea que tanto perturba o meu sono. Às vezes penso que se ela fosse minha, minha para valer, a minha vida daria uma guinada de 180 graus. Nada mais normal. Estaria amando. E sendo amado. Existe maior plenitude emocional do que isso? Saber que sou tudo para ela. E ela tudo para mim. Que coisa esplêndida. Maravilhosa. Mas é muito sonhar. Que futuro tem uma jovem de 23 anos com um velho de 65? Nenhum. Mas quem está falando em futuro? Seria apenas viver esse amor enquanto durasse. Mesmo porque posso morrer a qualquer momento. E morrer é deixar de usufruir a existência. Meter e gozar. Comer e arrotar. Aliviar o intestino com uma boa cagada. Ou a bexiga com uma boa mijada. Ou chorar com a Nona de Beethoven. Ou com o Messias de Haendel. Ou com os versos de Rimbaud. Ou de Khayyam. Ou de Neruda. Ou com as telas de Goya. Ou de De Chirico. Ou com os filmes de Visconti. Ou de Bergman. Ou de Angelopoulos. Morrer e não tê-la integralmente para mim. Dia e noite. A qualquer hora. E sem dividi-la com ninguém. Até eu não aguentar mais de tanto trepar. Até esfolar o pau. Como quando era jovem, de tanto foder. Foder até enjoar. Até não aguentar mais uma boceta. Por falar em boceta, ela tem uma boceta tão gentil, tão meiga. E tão profunda. Que delícia, penetrá-la. Já lhe pedi que não a lavasse quando vai fazer sexo comigo. Ela deu risadas e me chamou de porco. Mas eu gosto demais desse cheiro forte, animal, de uma boa boceta sem lavar. É algo que me excita tremendamente. Esse cheiro é um tesão do diabo. Puta que pariu! É algo realmente perturbador. E chupar então! Gosto de chupar uma boceta sem lavar. Fico doidão. Minha barba fica toda impregnada desse odor telúrico. Desse aroma secular feito para levantar o pau. O pau. O meu caro pau. O meu caro pau que já conheceu tanto orifício neste mundo. E que os vermes vão comer. Logo? Sei lá. Sei lá quando vou morrer. Pode ser amanhã. Ou dentro de dez anos. Ou, quem sabe, até vinte. De qualquer modo preciso aproveitar ao máximo o tempo que me resta. Não exatamente o tempo que me resta de vida. Mas o tempo que me resta de pau duro. Ele já não endurece com a mesma facilidade. E quando está duro, não fica mais na vertical, mas na horizontal. É, os anos não passam em vão. O peso do tempo se sente no pau. Por isso que eu digo: não deixe para amanhã o que você pode gozar hoje. Mas a filha da puta não me deixa gozar tanto quanto eu gostaria com ela. Ela vem me visitar quando lhe dá na telha. Ou quando o namorado está viajando. E eu fico na base da punheta. E punheta é foda. Cansa. Cansar punhetar. Eu gosto é de meter. Às vezes fico com tanto ódio dela. Não, não é ódio. Apenas raiva. Raiva porque dependo dela. E ela não depende de mim. Ela não me ama como eu a amo. Embora ela diga que sentia tesão por mim antes de me conhecer pessoalmente, só pelas fotos minhas que via no jornal. Caralho! Eu a adoro na cama. É algo maluco. Diz que eu tenho um jeito de fazer amor que a excita muito. Pergunto o que é que eu faço que a excita tanto. Ela responde que tudo. Mas o seu namorado não faz isso? indago. E ela: faz, sim, mas não é a mesma coisa. Já lhe perguntei: por que você não namora comigo? E ela respondeu: porque tenho namorado. É só isso? insisto. Só isso, confirma ela. Mas e se você rompesse com o seu namorado, você me namoraria? Não sei, talvez, encerra ela. Às vezes penso que ela não quer se envolver comigo. Por causa da diferença de idade. É normal que ela queira um companheiro para sair. Para curtir a noite. Para se divertir. Eu sou um velho quase recluso que não curte nem bares, nem boates, nem festas – gozado, eu não me sinto velho, mas quando penso nela me acho velho. Gosto de meter, como Henry Miller. E de comer, como Balzac. E de escrever, como todo escritor. Acho que a compulsão da escrita e a voracidade na mesa têm uma conotação sexual. Escrevo compulsivamente e como exageradamente porque não trepo suficientemente. Ou seja, a insatisfação sexual me leva à necessidade da escrita e da comida de maneira desmedida. Em outras palavras: a fartura da cabeça e do estômago compensa a carência do pau. O que posso fazer? Procurar outra? Não é fácil a minha idade. Eu não sinto atração por mulheres com mais de 50 anos. Para me sentir atraído por uma mulher bem madura, entre 50 e 60 anos, ela precisa ser, intelectualmente, brilhante para me seduzir. Uma Susan Sontag resolveria o meu caso. Mesmo que ela tivesse 70 anos. Aliás, Susan Sontag era uma mulher, fisicamente, belíssima. Pelo menos para o meu gosto. Havia uma mescla intelectual e selvagem em seus traços que lhe concedia uma beleza excepcional. Quem me dera encontrar uma Susan Sontag na vida. Não deixa de ser contraditório que eu, um hedonista, sanguíneo e visceral, me ligue de modo surpreendente pela mente. Sim, não deixa de ser curioso o quanto o meu pau está intimamente ligado às intermitências, não do coração como diria Proust, mas aos batimentos (e não oscilações) da mente. E por falar em pau ligado, o meu pau se liga muito numa boa felação – e que homem não gosta? Ela diz que adora me chupar. E eu então, nem se fala. No começo ela não deixava. Mas agora ela me deixa gozar, de vez em quando, em sua boca. Que delícia! Quase tão bom quanto gozar na boceta. No seu cu nunca gozei. Ela não deixa. Deve ser bem apertado, bem gostoso. Ela diz que fez uma única vez com o namorado. E que não gostou. E nunca mais. Ela tem um cu lindo. Rosado, discreto e esteticamente perfeito. Que espero algum dia poder penetrar. Nem que seja só uma vez. Ah, se ela fosse minha! Ela vem trepar, em média, uma vez por mês. Talvez menos. Isso me atiça e me exaspera. E me deixa invariavelmente insatisfeito. Na espera e dependência da próxima vez. E quando a espero e ela dá mancada – e isso não foi só uma vez – eu fico mal. E bebo. Ou fumo um baseado. Para relaxar. E me masturbo assistindo a algum vídeo de sacanagem pela internet. E quando vou gozar, imagino que vou soltar o creme em sua boceta. A sua divina boceta. Não adianta, o amor, em última instância, se resume, para o homem, a uma boceta. E na mulher, a um pau. Não adianta mitificar. É isso e pronto. Algo indomável. Que move montanhas. E que dá um sentido à vida. Bem que ela podia me satisfazer. Bem que ela podia dar para mim pelo menos uma vez por semana. Mesmo sem nenhum compromisso comigo. Mesmo sem largar o namorado. E assim ela podia ter, regularmente, o vigor de um jovem e o requinte de um velho. E eu vibraria. E a minha vida teria outro sentido. Amando e sendo amando a vida sempre tem outro sentido. E a minha obra também agradeceria. Porque voltaria a produzir abundantemente. Quanto mais porra o cilindro expele, mais páginas escritas. E todos os meus projetos literários seriam realizados. Bastaria que ela me amasse como eu a amo. Ah, se ela me amasse como eu a amo, como a amaria. Mas eu não me permito criar expectativas. Como poderia se o nosso relacionamento se resume a uma ou outra trepada esporádica. E ela nem me telefona. Nem me manda um e-mail. Nem para saber como ando. Nada. É apenas tesão. Dá tesão, vem me ver, mete e vai embora. Só isso. Mas diz que me admira muito. E que não quer perder, por nada no mundo, essa nossa amizade. Que amizade? Que porra de amizade é essa? Ela não é a minha amiga. Ela é apenas… Ela é o quê? O que ela é para mim? Eu não sei. Eu só sei que a quero para mim. E que gostaria de ficar com ela pelo resto da minha vida. Estou ficando velho e quero prazer antes de morrer. A moça e o sessentão. Na época crucial em que a vara só fica na horizontal. E ainda bem que ainda fica na horizontal. Também, uma menina tão sensual levanta até pau de defunto. Às vezes, quando penso nela, pinta uma ternura tão grande, um desejo tão desesperado, que brotam poemas. Longos poemas de amor sem esperança. Longos poemas de um escritor sexagenário a uma jovem. Talvez um dia sejam publicados. Mas nunca lhe mostrei esses poemas. Não quero lhe dar essa satisfação. Se um dia ela ficar comigo para valer, aí eu vou mostrar. E vou escrever um livro inteiro para ela. Foi com a literatura que tudo começou. Eu estava no caixa do supermercado. E ela, atrás de mim, me abordou. O senhor é escritor, não é? Sou, por quê? Por nada, eu conheço o senhor pelo jornal. E começou um papo, depois de pagar a conta, na porta do supermercado. Era estudante. Fazia Letras. Tinha lido um livro meu. Queria ler outros. Convidei-a a passar em casa, tomar um café, bater um papo. E eu lhe arrumaria outro livro meu, de presente. E ela, cuja beleza me subjugou desde o início, apareceu em casa. E a coisa rolou. O que eu não esperava. Rolou de modo muito natural. Como se a gente se conhecesse de longa data. E eu não acreditava. Sim, depois que ela foi embora, fiquei absorto, pensando nela. Sem acreditar que uma mulher tão bonita e tão jovem tivesse transado com um sessentão como eu. E pensei: bem, é uma única vez, não é para esperar mais nada. Mas ela voltou. Na semana seguinte. E falamos outra vez de literatura. E trepamos. E eu me achei um cara de muita sorte. Eu tive muitas garotas bonitas quando jovem, mas depois de velho isso é difícil de acontecer. Eu era um homem bonito e agora não sou mais. E, da segunda vez, tive vontade de lhe dizer: quero te ver regularmente, pelo menos uma vez por semana. Mas não ousei pedir nada. Já sabia que tinha namorado. Jovem como ela. E bonito. E eu não tinha nenhum direito. Mas ela veio uma terceira vez. E uma quarta. E uma quinta. E assim até hoje. Faz três anos. Às vezes penso em romper. Definitivamente. Para não esperar mais nada. Para acabar com essa agonia de desejo insatisfeito. Mas, no fim, acabo aceitando a situação. Convencido de que é melhor tê-la de vez em quando do que nunca mais. E assim vou levando. Eu, escritor sessentão. Solitário e arredio. Tentando aceitar, do jeito que aparece, esse acaso que surge no ocaso. Mas acho que hoje ela não vem mais. Se fosse para vir, já teria vindo. E um gosto de morte, solitário e discreto, me invade.
Continua…
- em 28/04… “Juiz, Casado, com Filhos, Procura Homem para Sexo Casual”
- em 05/05… “Maitezaitut/Anee Ohev Otakh”
- em 12/05… “Pai, Quero Ser Mãe”
- em 19/05… “Comida Caseira”
- em 26/05… “Sax”
Juiz, Casado, Com Filhos, Procura Homem para Sexo Casual
abril 14, 2012
CONTOS
Ao mestre Guy de Maupassant
L´hypocrisie est um hommage que le vice rend à la vertu.
A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude.
La Rochefoucauld
(in Maximes et Reflexions)
Vó, Teu Amante É Gostoso?
Dane-se. Para não dizer outra coisa. Mas eu não falo palavrão. Sim, dane-se. Pois eu não estou fazendo nada errado. Sou adulta. Independente. E não devo satisfação a ninguém. Isso mesmo: nada errado. Nunca menti. E nunca enganei ninguém. Sempre vivi honestamente. Sou uma mulher honesta. Fogosa, certo. Mas honesta. E tenho o direito de viver a minha vida. Como qualquer outra pessoa. E não é a idade que vai me impedir de viver o que me resta de vida. Posso ter 77 anos, mas não sou velha, não. Outro dia, não sei onde, fui para a fila preferencial. E uma funcionária me perguntou: a senhora tem mais de 60 anos? Fiquei lisonjeada, claro. E, para brincar, respondi: tenho 61, minha filha. E ela: Nossa, ninguém diria. Pois é, estou bem conservada. Por fora e por dentro. E digo por dentro porque tenho o espírito jovem. E como tenho o espírito jovem, sinto necessidade de homem. De macho mesmo. Nossa, Leonor, que jeito de falar! Que é que tem? Não falei palavrão. Sinto vontade de macho em cima de mim. E a venerável fica molhadinha como se tivesse 20 anos. O próprio ginecologista falou que estou muito bem das partes. Que pareço uma jovem. E eu simplesmente acho que isso é uma bênção do céu. Se Deus me deu essa saúde e esse apetite sexual a minha idade, tenho a obrigação moral de respeitar essas dádivas e aproveitá-las. Deus é bom e sabe o que faz. E devemos respeitar o que ele nos dá. Comigo não tem essa história de pecado. Pecado é mentir. Trapacear. Trair. Fazer o próximo passar fome. Isso sim, é pecado. Agora, a minha satisfação sexual não é pecado. O pastor e a igreja que me perdoem. E sei muito bem separar o joio do trigo. E não admito que ninguém venha me dar lições de moral. É por isso que já troquei várias vezes de religião. Quando alguém começa a pegar no meu pé, caio fora. Na verdade, sou uma mulher que tem Deus dentro de si. E gosto muito de ir à igreja e rezar. Rezar com os outros. Mas gosto também de conservar a minha independência. Sempre fui assim. Desde garota. Eu era rebelde. Teimosa. Fogosa, como já disse. E muito bonita. E quando adolescente, fugi com o meu primeiro namorado. Que viria a se tornar o meu primeiro marido. Tinha 15 anos na época. E um fogo no rabo que ele mal conseguia apagar. Com 16 tinha o meu primeiro filho. Com 17, o segundo. E com 18, o terceiro. Parecia coelha. Também, era sexo dia e noite. Sexo que não acabava mais. Aí, ele morreu num acidente de ônibus. Eu estava com 19 e ele com 20. Meu Deus, que tragédia! Pensei que ia morrer de tanta dor. Como o amava. E que tesão sentia por ele. Tesão? Tesão, sim. Tesão não é palavrão. Posso falar tesão. Embora alguns fieis achem que não é coisa que se deva falar. Quer saber de uma coisa? A maioria desses fieis é hipócrita. Mas eu gosto de por os pingos nos is. E não deixo barato, não. Sou de boa índole. Educada. Calorosa. Compreensiva. Mas não venha por cima de mim que leva na hora. Por cima de mim, só o meu amor. Ai, com ele é gostoso, o meu Chicão. Aquele homão que parece um brutamontes é uma doçura. E da ferramenta, nem se fala. Minha Nossa Senhora, que maravilha! Nunca vi desse tamanho. Embora eu não seja muito experiente em membros. Não. Sou fogosa, mas não sou promíscua. Só tive três maridos e quatro namorados durante os períodos de viuvez. Mas enfim, sei o que é um bom membro. E o dele é uma beleza. Uma beleza que me deixa louca. Dá vontade de comê-lo. De tão apetitoso. De tão gostoso. Com exceção do membro do meu segundo marido, que era fenomenal em tamanho, cor e formato, o do meu Chicão é o melhor até hoje. Quem iria me dizer que depois de velha iria conhecer uma coisa tão deslumbrante quanto a sua ferramenta. Deus que me perdoe. Deus que me perdoe é apenas um modo de falar. Porque não faço nada errado. A natureza me dotou de muita fome de amor. E eu respeito muito a natureza e sigo os meus desejos. E pronto. É isso aí. Eu me sinto muito bem com Chicão, o meu amor. E não tenho que dar satisfação a ninguém. Outro dia, a Cidinha, a minha vizinha, entrou em casa quando ele estava saindo. E perguntou: quem é? E eu respondi: um amigo. Nossa, Leonor, que amigão bonito que você tem, comentou. E acrescentou, maliciosamente: é só… amigo, ou algo mais? E eu retruquei: é só amigo. E em verdade eu não estava mentindo. Pois ele é só um amigo. Um amigo jovem, bonito, forte, com quem transo sem nenhum compromisso. Primeiro, porque agora não quero mais compromisso com homem nenhum. E segundo, porque que compromisso poderia ter, mesmo que eu quisesse, com um homem 47 anos mais jovem do que eu? Estou velha. Mas não caduca. Sou lúcida. Além do mais, eu não estou apaixonada por ele. Nem poderia. Ele é um rapaz muito simples. Não é que eu não seja uma mulher simples. Sou, sim. Mais eu sempre gostei muito de ler. Desde criança. O meu pai comprava o jornal todo dia. E eu lia. E depois comecei a ler os livros da biblioteca da escola. E mesmo depois de casada, com aquela penca de filhos, continuei lendo. E tem mais. Eu gostava de escrever. Sempre gostei. Desde a adolescência até hoje. Devo ter mais de vinte cadernos de poesia escritos ao longo de décadas. E nunca joguei nada fora. O Israel, um dos meus filhos, diz que eu deveria publicar. Mas eu não tenho nenhuma pretensão de ser escritora. Gosto de escrever e pronto. Boto no papel tudo o que sinto. Talvez se eu tivesse estudado Letras quando jovem, teria me tornado uma professora de literatura. Ou, quem sabe, até uma escritora. Já pensou? Leonor de Souza (sobrenome de solteira) Meirelles (sobrenome do meu primeiro marido) Ferreira (sobrenome do meu segundo marido) Venturini (sobrenome do meu terceiro marido), escritora. Ou, melhor, poeta. Leonor de Souza Meirelles Ferreira Venturini, poeta pela graça de Deus. Eu não quis tirar os sobrenomes dos meus maridos falecidos. Amei muito os meus três maridos. E nunca trai nenhum deles. E fui uma boa esposa dentro e fora da cama. Estava sempre com disposição sexual. Comigo não tem essa história de cansada, com dor de cabeça, menstruada. Que nem homem, que sempre quer meter… opa! Falei palavrão. Que nem homem que quer sexo a toda hora. Por isso fiz questão de conservar todos os sobrenomes. Mas, para falar a verdade, nunca pensei em me tornar escritora. Eu sempre estive satisfeita com a minha vida de mãe e esposa. Adorava ficar grávida. Era uma delícia, esses nove meses de gravidez. E dava à luz com a maior facilidade. Todos os meus filhos nasceram de parto natural. Hoje em dia a mulherada só quer saber de cesárea. O fato é que sempre fui uma mulher feliz. Excetuando a morte dos meus maridos. Eu curtia a casa, os filhos, os maridos. E agradecia a Deus por tudo aquilo que ele me dava. E aceitava com resignação o que ele me tirava – no caso, os meus maridos. Já fui católica. Espírita. Seisho-no-ie. Batista. E adventista. Mas Deus é um só e sempre o tive no coração. Eu me entendo muito bem com ele. Não tenho nenhum conflito com ele. Quando mudo de religião, chego para ele e digo: meu bom Deus, mudei de local, mas meu dono é sempre o mesmo. E assim vou vivendo. Ah, eu vivi muito. E lutei muito. Sou mesmo uma lutadora. Entreguei a minha vida a minha família. Três maridos. Sete filhos. Quinze netos. Quatros bisnetos. O meu segundo marido me deu dois filhos. Eu tinha paixão por ele. Bonito. Gostoso. Bom pai e bom marido. E tratava os filhos do meu primeiro marido como se fossem dele. O meu terceiro marido não era bonito. Mas era uma fera na cama. Tinha um jeito de fazer amor que me deixava maluca. Com ele tive dois filhos. Ele não era ruim, mas não ligava muito para os filhos. Nem para os seus e menos ainda para os dos outros dois maridos. Eu era muito ligada a ele por causa do sexo louco que ele fazia. Inclusive fazia com ele coisas que nunca tinha feito na cama com os meus outros dois maridos. Mas ele era meio sacana e dava as suas escapadas com outras mulheres. E numa dessas escapadas nunca mais voltou. Deve ter se enroscado com um rabo de saia mais esperta do que eu. Simplesmente sumiu. E eu sabia que não estava morto porque algumas pessoas o viram numa outra cidade. Morreu muitos anos depois de ter saído de casa. Fui casada quatro anos com o primeiro. E ele morreu. Depois de dois anos viúva, casei com o segundo com quem vivi seis anos, até ele morrer num assalto. Aí fiquei três anos sem marido. Até casar com o terceiro. Com quem fiquei nove anos, até ele desaparecer. É isso aí. Dona Leonor e seus três maridos. Assim, com 40 anos, tinha dois esposos enterrados e um fugido. E aí passei um longo período sem homem. Nada. Nadinha. A venerável andava mais sequinha que a múmia de Nefertiti. Foi a caatinga da minha vida sexual. Cruz credo! Que coisa ruim, ficar sem homem. Que desespero. Apelava para os cinco dedinhos que Deus me deu. Era o jeito. Como é que ia encontrar homem com aquele monte de filhos? E olha que com 40 anos eu estava bem enxuta. Uma coroa enxuta, como dizem os homens. Por outro lado, eu não queria mais marido. Não queria mais homem em casa. Chega. Eu queria um namorado. Nem isso. Queria era um amante. Queria um homem só para sexo. Um companheiro com quem me encontrasse para satisfazer a necessidade e aliviar a tensão. Mas era muito difícil com tantos filhos. Não dava tempo para nada. E assim passei mais de dez anos. Com a venerável desesperada com essa seca pior que a do deserto do Saara. Até que encontrei alguém para irrigá-la. Um estudante de 22 anos. Abençoada irrigação. Foi assim. Já cinquentona, com os filhos crescidos e com vários deles com nível universitário, decidi fazer faculdade. Para que a minha prole tivesse uma mãe que, além de saber cozinhar e costurar bem, tivesse nível superior. E fiz Letras. Foi quando conheci o estudante. Minha Nossa! Tirei a barriga da miséria. Ele morava numa república e lá ia eu fazer a terra tremer de gozo. Foi assim que quebrei o jejum sexual. Com aquele jovem magrinho, franzino, mais que estava sempre de pinto – perdão, de membro – duro. Que era justamente o que eu precisava, depois de tão longa carência sexual. E depois que me formei, nunca mais o vi. Deve estar casado e com filhos. Ele queria ser professor de literatura. Nossa Senhora, que mergulho na memória. E tudo por causa do meu atual namorado. Depois do estudante, houve vários outros. Até chegar o Chicão, o meu atual amor. E chegamos ao ponto crítico. Não sei se é crítico. Digamos que é o cerne da questão. Eu sempre fui muito discreta com os meus amores fora dos casamentos. Mas a minha mãe dizia que amor e dinheiro são coisas que não podem ser ocultas. A minha mãe era uma pessoa maravilhosa. Muito simples, mulher do povo mesmo, mas inteligente, esperta e tão carinhosa. O meu pai também era uma pessoa muito simples, mas era muito inteligente. E bravo, embora tivesse um coração de ouro. Ai, que saudade dos meus pais. Mas deixa para lá. Chega de saudade. O negócio é viver o presente. Eu sou uma mulher do presente. E sou otimista. Por mais tragédia que haja neste mundo. Por isso estou sempre de bem com a vida. E como sou uma pessoa muito positiva, tenho como objetivo aproveitar o tempo que me resta de vida. De qualquer modo a terra vai comer tudo. Então que alguém coma enquanto estou viva. Eu, hein! Deixar para os vermes? Coisa nenhuma. Deus me livre dessas tentações de falsa santidade. Eu quero é viver. Gozar a vida. Eu não vou dar uma de Cidinha. Tem um velho bonitão que está afim dela. Bonito mesmo. Até eu papava se ele topasse. Pois ela não quer dar para ele. Alega que ela já está muito velha para isso. Imagina, velha! Ela é muito mais jovem do que eu. Só tem 69 anos. E hoje em dia, uma mulher com 69 anos ainda é jovem. Eu tenho 77 e ainda me sinto mais disposta do que égua no cio. Eu lhe digo: Cidinha, você é viúva, está sequinha não sei há quantos anos, o velho é bonitão e bem conservado, qual é o problema providenciar um pouco de irrigação para a sua venerável condenada ao ostracismo desde a morte do seu marido? Você não tem nada a perder. E ela morre de rir e diz: ai, Leonor, que horror! No fundo ela gosta de ouvir essas coisas. Por que eu não falo palavrão. Mas besteira para dar risadas, eu falo. Qual é o problema? Rir é bom para o fígado. E o bom Deus não acha ruim, não. Deus gosta de pessoas alegres. Ele não curte muito pessoas que estão sempre choramingando. E ela acrescenta: não sei como uma pessoa de igreja fala essas coisas. Pois fique sabendo de uma coisa, Cidinha, nem a igreja nem o pastor controlam as minhas atividades sexuais. Ninguém tem nada a ver com a minha xana, desculpe, a venerável. A venerável, a própria palavra já o indica, é algo que tem que ser respeitado. Desde a primeira menstruação até o fim desta vida. Olha, Cidinha, o bem-estar de toda mulher, jovem ou velha, depende de uma boa irrigação masculina. Nada como o creme de Adão para conservar a juventude. E, pode crer, eu sei o que estou falando. E ela, entre risadas: ai, Leonor, você é uma velha assanhada e não tem jeito mesmo. Justamente, Cidinha, o jeito é conectar o membro com a venerável. E você vai me prometer uma coisa: vai dar para o velho gostosão antes de morrer. Lembre-se de que na nossa idade não sobra muito tempo para lengalenga. Bem, isso é verdade, responde ela. Cidinha, agora falando sério, você não se sente sozinha, viúva, com os três filhos casados longe de casa? Sozinha eu me sinto, Leonor, mas fazer o quê? É só fazer o que estou lhe falando. Você acha, Leonor? Mas é claro, minha amiga. Mas, abreviando, até agora ela não deu para o velho. Eu, hein! Eu sou uma mulher decidida e vou atrás do que quero. Comigo não tem essa história de ficar vacilando. Vacilar por quê? Eu não tenho que dar satisfação a ninguém. Moro sozinha. A casa é minha, graças a Deus. Todos os meus filhos estão casados. E todos com nível superior. Alguns separaram e recasaram. Recebo a minha aposentadoria. Como eu não podia trabalhar com tantos filhos, sempre paguei o INSS e agora recebo um mínimo. E dois mínimos do meu terceiro marido. A sorte foi que fiquei sabendo de sua morte logo em seguida pela minha cunhada, a irmã dele, que sempre gostou muito de mim. E dei entrada na papelada. Agora, quando ele me largou, foi um Deus nos acuda. Minha Nossa Senhora! Nunca passei tão apertado na minha vida. Imagine eu e sete filhos sem sustento. Por sorte três dos meus filhos que já eram moços estavam trabalhando. E os que estavam na adolescência começaram a fazer bicos. E todos eles – louvado seja o Senhor por ter me dado filhos tão bons – me entregavam, no fim do mês, o salário. E os que faziam bicos me davam tudo o que ganhavam. Eu sou uma mulher de sorte. Abençoada por Deus. Hoje em dia não me falta nada. E não quero que eles me dêem dinheiro. Sou uma mulher independente em todos os sentidos. Mesmo assim o meu filho mais velho me paga o telefone e a TV a cabo. Outro me paga o plano médico. E uma filha me faz a compra do supermercado todo mês. E no Natal, no Dia das Mães e no meu aniversário, todos eles me enchem de presentes. Basta dizer que eu não preciso comprar nem roupa nem sapatos. Que mais posso pedir? Nada. Nada a não ser que me deixem em paz com o meu amor. Na realidade, eu não estou apaixonada. Nem ele. Mas é tão gostoso, tão revigorante, tão estimulante, uma boa noite de sexo com ele. E a venerável transborda de alegria e gratidão quando ele a irriga. Bem, na realidade, irrigação é um modo de falar. Porque eu exijo camisinha. Ele é muito jovem, na flor da idade, em pleno vigor sexual, e eu não posso exigir fidelidade num mundo de tentações. E ainda mais ele, um rapaz tão bonito. Tão forte. Tão gostoso. E toda esta falação – ou, melhor, pensação – é por causa dele. Sim, por causa dele. Imagine que o outro dia, a minha neta caçula, filha caçula do Ezequiel, meu filho caçula, me pergunta, sem mais nem menos: vó, teu amante é gostoso? Credo, menina! Que conversa é essa? respondi, sem ficar brava. Como poderia ter ficado brava com uma criança de oito anos? Eu escutei meu pai e minha mãe falando de você e do teu amante. Eu, de modo natural, respondi: sim, a vovó tem um namorado. E ela, que é muito viva, muito inteligente, acrescentou: meu pai disse que namorado que visita namorada só para transar é amante. Bem, querida, pode ser, o seu pai tem razão, digamos que é um amante. E é gostoso, vó? Sim, é gostoso e muito boa pessoa, respondi sem dar muita importância à conversa e tentando fazê-la compreender que tudo isso era algo absolutamente natural, mesmo em se tratando de uma mulher de 77 anos. Aí, claro, me lembrei na hora de uma conversa que tive com o meu filho Ezequiel, pai da minha neta, que é o mais apegado de todos a mim. De uma conversa e de um pequeno incidente, uns dias antes. Ele, o meu filho, sentiu saudade de mim e decidiu, sem avisar, me visitar de manhã cedo e tomar o café da manhã comigo, antes de ir trabalhar. Chegou e deu de cara com o Chicão que estava saindo, depois de ter passado a noite comigo. Apresentei um ao outro. E quando o meu amor saiu, o meu filho perguntou: quem é? Um amigo, respondi. Um amigo às seis e meia da manhã? quis saber. E eu, para encurtar a conversa, fui logo esclarecendo: passou a noite comigo. Ele ficou em silêncio. Fui preparando as torradas. E como ele não falava nada – e eu não gosto de gente que não desembucha o que está embutido –, soltei: qual é o problema, Ezequiel? É porque ele é negro? Não tenho nada contra negro, mãe. E então, qual é o problema? Mãe, ele poderia ser o seu neto; não fica bem uma senhora da sua idade saindo com um rapaz. Ué, você queria o quê? Que saísse com um velho? De velho chega eu. Ele ficou quieto, comendo torrada e tomando café. Depois de uns minutos, quis saber: o que ele faz? Limpeza pública, respondi. Pareceu espantado: lixeiro, a senhora quer dizer? Exatamente, confirmei. E acrescentei: algum problema pelo fato de ele ser lixeiro? Não, mãe, nada tenho contra lixeiro. Ainda bem, Ezequiel, porque eu ensinei os meus filhos a eles não terem preconceitos raciais, nem sociais, nem religiosos, disse eu. O que era verdade: os meus filhos foram criados com princípios, mas com a cabeça aberta. Terminou o café. Deu-me um abraço apertado e um beijo. E disse: eu amo muito a senhora. Eu sei filho, e eu também amo muito você. E foi embora. Sim, vó Leonor tem um amante gostoso. Chicão, negro de 30 anos, lixeiro. Que conheci na porta de casa, na hora da coleta do lixo. A quem ofereci um café. E que um dia, depois do serviço, veio tomar esse café. E… a coisa rolou, como dizem hoje em dia. Ele diz que gosta de “senhoras brancas de idade”. Um namorado só para a cama. Eu nunca saio com ele para passear. E nem pergunto se ele tem namorada. O certo é que, uma vez por semana, sem falta, ele vem em casa bater o ponto. Às vezes ele passa a noite. E bate várias vezes o ponto. Uma festa para mim. Quase mata a velha de tanto conectar. Me dá até palpitação de tanto gozo. Também, se tiver que morrer gozando, melhor do que de outro jeito. Eu compro cuecas, meias, camisetas, camisas e calças para ele. Por que não o faria? Ele ganha pouco, coitado, e ajuda os pais. E lixeiro trabalha duro. Trabalha literalmente correndo. Além do mais, eu gosto mesmo de dar. E não só a venerável. Gosto de dar presentes aos outros. Gosto da alegria daquele que recebe. E Chicão é muito agradecido. Um bom coração. Uma boa alma. E um bom pau – opa, escapou. Foda-se. Ninguém está me ouvindo. De vez em quando é bom encher a boca com a palavra pau. Exatamente como encho a boca com o pau do meu Chicão. Chega de palavrão, Leonor. É, quando penso nele, fico toda assanhada. Com a venerável piscando como uma estrela. Bom, e agora chega de pensação. Preciso dar um jeito nesta casa e preparar o almoço.
Continua…
- em 21/04… “Pau na Horizontal”
- em 28/04… “Juiz, Casado, com Filhos, Procura Homem para Sexo Casual”
- em 05/05… “Maitezaitut/Anee Ohev Otakh”
- em 12/05… “Pai, Quero Ser Mãe”
- em 19/05… “Comida Caseira”
- em 26/05… “Sax”
BASCOS, ESSES DESCONHECIDOS
abril 5, 2012
BASCOS, ESSES DESCONHECIDOS
A mídia é tão leviana quanto tendenciosa – pertencendo a grandes grupos, ela jamais poderia ser realmente imparcial e independente. A ponto, por exemplo, de qualificar os distúrbios de 2011 na Grã-Bretanha de atos de vandalismo. Quando na realidade eram nitidamente distúrbios sociais, logo políticos. Aliás, qualquer violência, seja no Brasil, no México ou nos EUA é social. E se é social, é política. E essa mídia superficial e parcial vive trocando as bolas – quando lhe interessa, claro. Usa e abusa do termo terrorismo a torto e direito. E existe terrorismo e… “terrorismo”. O atentado contra uma escola judaica em Toulouse, na França, foi um ato de puro terrorismo. Mas os ataques de determinados grupos armados contra o invasor não podem ser tachados de terrorismo.
Na França ocupada, os atentados da Resistência contra os alemães não eram atos de terrorismo, mas guerra contra o invasor. Assim como os dos partigiani, na Itália, tampouco o eram. E foi graças ao IRA (o primitivo) que a Irlanda se tornou independente do jugo do imperialismo britânico, e, mais especificamente inglês, em 1921. Senão ainda seria colônia. Embora a ilha da vaca neoliberal Thatcher não abra mão do Ulster. E a ETA, que em outubro do ano passado declarou o fim da luta armada, tinha motivos de sobra para lutar contra o franquismo que aboliu a autonomia dos bascos, que eram proibidos de falar sua própria língua sob pena de prisão. O franquismo que promoveu o bombardeio e a destruição completa da cidade basca de Gernika pelos amiguinhos de Franco, ou seja, pela aviação nazista. O que, aliás, foi o primeiro bombardeio contra um alvo civil da História.
Mas, deixemos de lado a visão bitolada da mídia de basco sinônimo de terrorista. As pessoas deveriam lavar as mãos antes de escrever sobre os bascos. Ou lavar a boca, antes de falar sobre eles. Pois esse povo, um dos mais antigos do mundo, é muito digno. Sim, tão resistente e digno quanto o povo judeu. Como não chamar de dignidade uma resistência de três mil anos (segundo alguns historiadores, seis mil)? Esse bravo povo sem nação (como os curdos) que não tinha rei nem chefe religioso (o que era extremamente louvável e avançado), mas que, na hora da invasão do inimigo, se unia e não se rendia. Grandes conquistadores, como os romanos e os árabes, não conseguiram vencê-lo. Esse povo que, enquanto no resto da Europa a mulher era um mero objeto reprodutor, concedia à mulher uns direitos e uma autonomia desconhecidos na época. Por exemplo, sem chegar a ser propriamente um matriarcado, o jovem que se casava adotava o nome da mulher e ia morar na casa paterna dela. E, na estação da transumância, longe dos maridos, quem cuidava das propriedades e representava o clã no conselho da comunidade, eram elas.
Vejamos alguns dados. O Euskal Herria (País Basco) tem 20.644 km2 (mais ou menos a extensão da Eslovênia) e uma população de três milhões de habitantes. Abrange o Eukadi (Comunidade Autônoma Basca), que compreende as províncias de Araba, Bizkaia e Gipuzkoa – capital Gasteiz (Vitoria); Nafarroa (Comunidade Foral de Navarra) – capital Iruinea (Pamplona); Iparralde (País Basco do Norte – os bascos não usam a denominação País Basco Francês – do qual fazem parte as províncias de Lapurdi (Labourd), Nafarroa-Behera (Basse-Navarre) e Züberoa (Soule). Cerca de um milhão de pessoas é bascófono.
O euskara (o idioma dos bascos) é uma língua-ilha que, não sendo indo-europeia, não se parece com nenhuma outra língua da Europa. Daí deduzir-se que todas as línguas com ela aparentadas desapareceram. Estudos realizados por lingüistas apontam certa semelhança com o georgiano, inclusive existe um centro de estudos bascos na universidade de Tbilisi, capital da Geórgia – assim com existe um departamento de estudos bascos em Reno, na universidade de Nevada (estado onde houve importante imigração basca no século XIX). Haveria algumas conexões linguísticas com o tronco uralo-altaico (finlandês, estoniano, húngaro, turco). No País Basco do Sul (espanhol) o ensino é bilíngüe (euskara e castelhano) e atinge dois terços das crianças da região. No ensino superior, cerca de 50% das disciplinas são ministradas em euskara. A língua eukara tem declinações, não tem gênero gramatical, os artigos são sufixados aos substantivos e possui uma sintaxe muito diferente dos idiomas europeus: o complemento precede sempre o substantivo e o verbo, que, via de regra, se coloca no fim da frase. Porém existem línguas asiáticas com a mesma estrutura sintática. O euskara é uma das línguas oficiais da Espanha. Mas não é reconhecida como tal na França.
Alguns bascos (ou cidadãos de origem basca) ilustres: Isaak Albeniz, músico; Pio Baroja, escritor; Simón Bolívar (da diáspora venezuelana), herói da independência de vários países sul-americanos; Jean Duvergier de Hauranne, pensador, um dos fundadores do jansenismo; Eneko Loiolakoa (Santo Ignácio de Loyola); Frantzisko Xabierrekoa (São Francisco Xavier); Dolores Ibarruri (La Pasionária), militante da luta antifranquista; Mikel Indurain, ciclista várias vezes campeão; Robert Laxalt (da diáspora norte-americana), escritor e divulgador da cultura basca nos EUA; Gabriela Mistral (da diáspora chilena), poetisa, prêmio Nobel; Maurice Ravel, músico; Miguel de Unamuno, filósofo e escritor; José Echegaray y Eizaguirre, dramaturgo, prêmio Nobel; Etienne de Zilhueta, cujas caricaturas de perfil estão na origem da palavra silhueta.
Ikusarte!
R.Roldan-Roldan é escritor
22-03-2012
Publicado no jornal Correio Popular de Campinas dia 3 de abril de 2012
Copulou? Agradeça a Deus
março 8, 2012
Copulou? Agradeça a Deus
Não se assuste leitor (devo escrever hypocrite lecteur, como dizia o grande Baudelaire?), não pretendo fazer a apologia do sexo à toa. Como faz a famigerada mídia. Para vender mais. Aliás, as pessoas confundem (ou, hipócritas, querem confundir) a comercialização do sexo e do corpo com a sacralidade do sexo e do corpo. E não querem distinguir a vulgaridade de tudo o que se comercializa (logo, se degrada) daquilo que, superior, se liberta de séculos de ignorância, superstições e repressão. E, aproveitando, repito mais uma vez a “mensagem”: só é digno aquele que se liberta em todos os sentidos. De cordeirinhos e marionetes a serviço de déspotas o mundo está cheio. Aquele que tem coragem de romper com a mesquinhez das convenções, de despojar-se das inutilidades grosseiras do consumo e tornar-se absolutamente livre, obedecendo unicamente a seus valores intrínsecos, esse é superior, logo, digno de respeito. O que, aos olhos da sociedade, pode ser algo pernicioso e até perigoso. A liberdade concede força e superioridade. E a sociedade teme aquele que tem força e superioridade. Cuidado: quando digo força me refiro ao poder da liberdade, não do dinheiro.
Foram o cineasta Werner Herzog, a caverna de Chauvet e o culto dos ancestrais que me levaram ao título deste artigo que, mais do que para a transgressão, tende para a veneração. Obviamente, quando digo veneração não me refiro a formulas explorando mitos, vociferadas por algum picareta, vigarista, charlatão, sacana (e frequentemente ladrão) para a massa ignorante e carente. Por algum bastardo impostor que usa em vão a palavra de Deus para extorquir dinheiro.
O último filme de Herzog, A Caverna dos Sonhos Perdidos, é um documentário que mostra as pinturas rupestres, descobertas em 1994, da caverna de Chauvet, na França. Essas pinturas, de 30 mil anos atrás, são de uma beleza estonteante, indescritível, de cortar o fôlego. De ver para acreditar. E é impossível, perante o deslumbramento causado por tão extraordinária beleza, não mergulhar na imensidão dos milênios. E, ao fio dos séculos, buscar a fonte (onde estaria essa indecifrável fonte?). A perturbadora origem. O ponto inicial no abismo do tempo. E é impossível deixar de pensar que, ao longo das centúrias, homens e mulheres se juntaram, segundo as leis sagradas da Natureza, copularam, procriaram e lutaram bravamente para viver. E assim, século após século, através da cópula, foram transmitindo vida após vida. Como não meditar sobre esses milhões de seres, nossos antepassados desde o alvor dos tempos, que foram engendrando vidas até chegar às nossas? Como não experimentar um profundo sentimento de gratidão e veneração por todos aqueles que operaram, através do coito, o milagre da vida? É, simplesmente, o profundo agradecimento que sinto pelos meus pais, que me deram a vida, extensivo a todos aqueles que os precederam até chegar a mim. O milagre da vida. O sentido metafísico, sagrado da vida. O milagre de ter nascido. O milagre de existir graças ao ato carnal entre um homem e uma mulher. E eu, humildemente, me inclino perante a vida e, consequentemente, perante o sexo. Certamente o que aqui estou expondo tem muito a ver com o culto dos ancestrais de algumas religiões (ou caberia neste caso melhor o termo culturas?) orientais como o xintoísmo. Apesar de que em mim esse sentimento – pois não há dúvida que é um sentimento e não uma crença ou uma tese – provêm do instinto, por assim dizer, embora me considere um homem racionalista. Cabe ressaltar que um místico não é necessariamente religioso. O deus Rimbaud era um místico a seu modo. Um místico selvagem, em estado bruto. E totalmente antirreligioso.
Isto posto, como posso eu, racionalmente, admitir que alguém obtuso, retrogrado, aproveitador, fascista ou fanático pregue a cretinice de que sexo é pecado? Como posso admitir que esse aberrante conceito judaico-cristão-islâmico ainda sobreviva no século 21 para promover a violência da abstinência sexual? Todos sabemos – ou deveríamos saber – que a sexualidade reprimida tende, via de regra, para a perversidade. As pessoas deveriam agradecer a Deus depois do ato sagrado da copula em vez de, como fazem cretinamente algumas seitas, pedir perdão ao parceiro, o que, além de ridículo, é hipócrita. Sim, agradecer como alguns ainda agradecem o alimento antes das refeições. É preciso ser muito burro, tapado, atrasado ou ignorante para não entender isso.
E, para finalizar, voltando à beleza das pinturas rupestres da caverna de Chauvet, é preciso, repetindo os mesmos adjetivos, ser muito burro, tapado, atrasado ou ignorante, além de mercenário, para afirmar que a arte não serve para nada. Esses cretinos, débeis mentais, esses pragmáticos que se acham avançadinhos se esquecem de que se o Homem já pintava na pedra há 30 mil anos, como o demonstram, além da caverna de Chauvet, as cavernas de Altamira, na Espanha, e de Lascaux, na França, é por algum motivo. A Arte (com maiúscula) é algo inerente ao ser humano, o único ser do planeta Terra que a pratica. A Arte emana do lado mais elevado, mais espritual do nosso ser. Assim como o Amor (com maiúscula) é também intrínseco do ser humano. E a Arte é tão sagrada quanto o Sexo (com maiúscula), que inclui a Natureza. O resto é atraso. Medievalismo. Mitos decadentes. Ou cegueira.
28-01-2012
R.Roldan-Roldan é escritor
Publicado no jornal Correio Popular de Campinas dia 6 de março de 2012
Adeus, Angelopoulos
fevereiro 13, 2012
Adeus, Angelopoulos
Mestre Theo Angelopoulos partiu. Morreu atropelado em Atenas, aos 76 anos. Mas estará sempre entre nós. Excepcional Angelopoulos. Grande entre os grandes. Um dos maiores da história do cinema mundial. Da estirpe genial de Bergman, Antonioni, Tarkovski. O cineasta grego, o último dos grandes humanistas em atividade junto com o mestre português Manoel de Oliveira, foi embora de modo um tanto absurdo e sua morte parece inserir-se no âmbito da busca de compreensão do caótico mundo contemporâneo. O legado humanista de sua obra permanecerá. Angelopoulos, como o centenário Manoel de Oliveira, era a encarnação da cultura ocidental. E não só pelo fato de ter sua Grécia natal direta ou indiretamente como pano de fundo de seus filmes, mas porque a sua obra, impregnada de humanismo pré-neoliberal, reflete a angústia, o desencanto, a busca intensa, dramática, do já clássico homem moderno, cuja perplexidade diante do que ele próprio erigiu se tornou a marca indelével de nossa época.
Angelopoulos foi premiado nos grandes festivais (Veneza, Cannes, Berlim) do mundo e aclamado pela crítica de modo geral. Embora os afetados e modernosos críticos dos Cahiers du Cinéma não lhe reconhecessem sua grandeza. Grandeza que ficará para sempre, como ficaram os antigos mitos da Grécia, o país culturalmente mais importante e influente da civilização ocidental. O berço do Ocidente. No século 20 e começo do 21, o autor dos notáveis Os Atores Ambulantes, O Apicultor e O Passo Suspenso da Cegonha deu um testemunho marcante da cultura helênica e, por extensão, universal. Cineasta dos imigrantes, das fronteiras, das paisagens nevadas ou brumosas, dos longos planos-sequência, do tempo esculpido (como fazia Tarkovski), do silêncio eloquente, da nostalgia atávica, ele ofusca, com sua intensidade e profundidade de pensamento, muitos cineastas que a crítica e a mídia consagraram apressadamente. Poderia citar muitos exemplos. Ocorre-me o de Spielberg (que Godard detesta) e o de Tarantino. Mesmo Truffaut (que tem filmes fraquíssimos), queridinho supervalorizado da revista Cahiers du Cinéma da qual foi crítico, endeusado pela crítica, se apaga totalmente perante a magnitude de Angelopoulos, o pensador da imagem, da memória, do tempo, da História. Talvez ele não fosse muito do gosto popular (nem poderia ser numa época de vulgar consumo light) já que a sua narrativa (plano-sequência e lento deslizar da câmera) o colocava na contramão do estúpido corta-corta da linguagem irritante de videoclipe que impera na produção cinematográfica atual e que parece coisa de retardado mental.
De seus 13 esplêndidos longas-metragens de ficção realizados, só três foram exibidos comercialmente no Brasil. Uma pena, se pensarmos no lixo hollywoodiano que nos impingem os distribuidores. Mas basta lembrar essas três obras-primas para aquilatar a dimensão superior de Paisagem na Neblina, Um Olhar a Cada Dia e A Eternidade e um Dia.
Morreste, Angelopoulos? Não. Apenas partiste. Para, talvez, compreender o sentido da eternidade. A eternidade que te espera. Kalimera, meu caro grande Theo.
27-01-2012
R.Roldan-Roldan é escritor
Publicado pelo jornal Correio Popular de Campinas dia 7 de fevereiro de 2012
FRAUDE NA BIBLIOTECA NACIONAL
janeiro 7, 2012
Fraude na Biblioteca Nacional
Existe ainda algo honesto e confiável no Brasil? Existe algum político, empresário, alguma fundação, instituição ou ONG pelos quais possamos por a mão no fogo? Digamos que, como não se deve generalizar, seja um tanto provável que ainda haja algo não contaminado e digno de respeito no País. O complexo de trapaça (ou fraude) não está no DNA do brasileiro, como se costuma dizer. Está numa instituição corrupta e falida (em todos os sentidos) como a Justiça. Ou seja, é a impunidade que gera e amplia a trapaça, quer dizer a fraude, a corrupção.
A trapaça que vou expor não tem, a bem da verdade, uma dimensão político-social de amplitude considerável. Mas, obviamente, não deixa de ser significativa. Trata-se da fraude do concurso Prêmios Literários da Fundação Biblioteca Nacional do Rio. Fraude que depõe contra a dignidade de tal fundação. E que leva qualquer cidadão honesto a constatar que a Fundação Biblioteca Nacional é mais um lixo dos inúmeros que proliferam no País. E ninguém protesta. Ninguém faz nada. Ou seja, novamente a inércia, a frouxidão, a alienação típicas nossas. Com a agravante que nem sequer os prejudicados pela fraude se manifestam.
O concurso, do qual podiam participar livros publicados de 01/09/10 a 31/08/11, escolheu uma comissão julgadora composta de três membros para cada categoria (romance, contos, poesia, infanto-juvenil, ensaio literário, ensaio social, tradução e projeto gráfico). Esses jurados, selecionados entre críticos literários, professores de literatura e (pasmem, não é piada, não!) profissionais do mercado editorial – eufemismo empregado no edital para designar os editores. Pergunta pertinente: o que tem a fazer um editor num concurso literário senão puxar a brasa para a sua sardinha? Esses carinhas da Fundação Biblioteca Nacional, esses picaretas, corruptos, que com certeza devem ter levado propina, pesam o quê? Que m… eles pensam que são?… Calma, meu caro fucking angry man, calma. Vamos por etapas.
Expliquemos. E provemos por números. Que os números não mentem. A Fundação deu o prazo de avaliação e seleção de um mês: de 04/11/11 a 05/12/11. Um mês para julgar 547 livros participantes do concurso! É mole? Peguemos, como demonstração, a categoria romance. Havia 80 romances inscritos no certame. Se dividirmos 80 livros por 30 dias, chegaremos a 2,66 livros por dia, que é o que cada membro do júri teria de ler. O que é praticamente impossível. Conclusão: marmelada. Pura marmelada. Ou seja, cartas marcadas. Ou seja, os resultados eram conhecidos de antemão. Em suma, trapaça. Ou, em outra palavra, fraude. Imoralidade. E a Fundação Biblioteca Nacional teve o topete, o cinismo de editar em seu site a relação completa dos participantes.
É extremamente sintomático que, além dos editores fazerem parte do jurado, as obras vencedoras, em sua grande maioria, foram publicadas por grandes ou importantes editoras que detêm o monopólio – por assim dizer – do mercado editorial. E é extremamente lamentável que, numa falta total de respeito e consideração, centenas, repito centenas, de escritores participantes tenham incauta e ingenuamente se inscrito no certame na esperança de, pelo menos, serem lidos, o que não ocorreu. Todo escritor, a menos que fosse conhecido ou recomendado, foi sistematicamente excluído. Uma palhaçada. Sim, esses salafrários fizeram de palhaços centenas de escritores. Salafrários ainda é assaz lenitivo para esses corruptos. E ladrões, pois, dependendo de onde provem o dinheiro pago aos “vencedores”, pode ser também um ato ilegal. Não teria sido mais honesto, mais transparente, menos sórdido, menos atrasado e fascista (toda fraude é fascista), “escolher” (mesmo considerando que a escolha fosse tendenciosa no sentido de favorecer determinados interesses) os “livros do ano” em vez de montar essa farsa, esse engodo de “concurso” para enganar centenas de participantes? Mas, claro que não, a honradez não rende. A honestidade não faz parte do sistema. E menos ainda no inefável paraíso moral em que vivemos.
Bravo Fundação Biblioteca Nacional pela sua proeza! Parabéns pela sua prova de honestidade e probidade. E pelo belo caminho da corrupção escolhido por tão insigne instituição.
15-12-2011
R.Roldan-Roldan é escritor
Publicado pelo jornal Correio Popular de Campinas no dia 3 de janeiro de 2012
