Desencanto

outubro 8, 2006

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Desencanto (do livro Matriochka) 

Tão fundo azul
profundo Silêncio
frescor
avesso do presente silêncio
sujo de calor
de hóstia e foice
de perdão perdido
quando o existir agride o viver
inerte entre as pregas da solidão
como inseto aguardando a morte
madrugada adentro
sob o piscar publicitário do néon
do nada
noite tesa de nadas mergulhados em nadas
o estigma do vôo
sangrando
incandescência fulgor flamância
de antiga magnificência
dor langor
como se os deuses tivessem permitido
sangrar o mutismo de um deus rebelde
exilado
até locupletar o tacho de ciscos de palavras
resquícios da longa jornada
o coração endurecido
o pó cobrindo a pele
a lágrima secando
nos subúrbios da melancolia
onde deságuam as cavalgadas da mente
tísicas
no xadrez do dia-a-dia
e o amém
resignação ou prostituição
é pura hipocrisia
bajulando o Tempo que fia
fia guirlandas de esperança surrada
entre partida e chegada
onde jaz o sonho
amorfo flácido envelhecido
no sofá
sem função
frente à televisão
arrotando o asco mal digerido
sonho obeso de fumo e álcool
para amenizar a queda do
absoluto
e a máscara incolor da inapetência
transpirando morte em pingos domésticos
ali onde o âmago empilha os frutos azedos da
indecisão
e as epifanias liquefeitas escorrem pelos buracos da
prudência
e os ímpetos castrados pela
razão
noite suja de imagens pardas
calar cavar calor
o ventilador
espalhando odor de ranço suor e morte
a varrer a sucata
dos vértices cumes ápices píncaros
orgasmos
ressecados no olvido
ou enferrujados pela maresia do cotidiano
falos jamais lambidos pelo oceano
recolhidos no prepúcio da (falsa) humildade
entre vestes de furor e desejo
celebrando no sótão o festim das traças
túnica austera do não-viver
equivocada
como prece encomendada
implorando gaivotas fincadas em prados
ou papoulas sobrevoando o mar
de amar
no exílio
entre brumas lassas
e paisagens ébrias
de ser o não-ser
palavras caladas
matadas
sem memória
dependuradas nos arames farpados das fronteiras
como pedaços de pele de evadidos
arrancados na fuga
deixando no outro lado da divisa
o alforje da alma
com seu feto fardo fetiche ou fé
apodrecer
sem virar o diamante da ira
sem luz de ser
o verso que contém
ontológico
o ser
no claustro
entre pedra  e vento
nas desoladas salinas do despojamento
quando até a verdade soa vaidade
viagem dos que ousam
voar
malditos
sedentos de elos perdidos
famintos de graças ancestrais
em resplandecências submersos
tornados essência
ricos enfim do grande Nada
esplendor da reintegração
absoluto branco no branco
do vasto Silêncio
tão longe
(ou tão perto) de Jerusalém

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2 Respostas to “Desencanto”

  1. major barbarah Says:

    Belíssimo poema!
    Rico de sugestões na sua ambiguidade.
    Expressiva leitura!
    Ótima voz! (Ora!)

    marina becker

  2. Rosane Says:

    Oi, Roldan
    “Prece implorando gaivotas em prados” é de uma beleza ímpar e, na minha opinião, resume este seu lindo poema. Silêncio, gaivotas, nada, tudo branco, como o próprio desencanto…
    Um abraço,
    Rosane


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