O Amor Partido

agosto 13, 2007

E partes amor
e parte-se o amar
metade vagando pelo sem-destino infinito
à deriva preenchendo o vazio com palavras
imaginárias não-ditas imaginadas
apenas escritas
e entrincheirado na medina do meu alvor
entre séculos de pedra onde a luz mal alumia
os meandros dos meus sentimentos
indago
que viste em meus extremos
para ousar acariciá-los
e logo deixá-los à beira da falésia
o gláuco tentando atraindo
como bálsamo da solidão
lá embaixo
onde jazem as panóplias enferrujadas da paixão?
que vislumbraste no gladiador da identidade?
no paladino dos mal-amados?
no peregrino sem hadj?
o tropel de existir
entre o furor da carne e o perdão do silêncio?
ah obsolescência da ternura embargada
paludes submergindo o sublime 
ah gândaras implorando o galopar do sangue
anoitecido quando a lua uiva sua solitude lupina
nos ergs hamadas regs da soledade maghrebina
estiam-se meus impulsos
calcinados pelo harmattan
quando rufa o tantã do meu coração
poderosa bateria anunciando tua deserção
para lurar-te nas casernas protetoras das convenções
e vais-te embora amor
claudicante amém
violando a liturgia do desejo
na contenção segura de estar antes de ser
longe dos arames farpados das fronteiras
inseguras distantes  perigosas fronteiras dos extremos
ali onde explode a dinamite do existir
ali onde as vísceras dialogam com as sílfides
ali onde o toque abissal se faz pureza
e o tocar que me justifica
o tocar razão de ser
bálano em estado de graça
se faz urgência urro clemência
de morte redimida
nos interstícios das galas lúbricas da paixão
onde meu corpo
que o silêncio torna impermeável à vaidade
aguarda a mão
a sagrada mão que afasta a desolação da orfandade

R.Roldan-Roldan
27/04/06

CONSCIÊNCIA

agosto 13, 2007


Porque não sou puta fascista lacaio
omisso bípede orgasmado pelo consumo e amo o Planeta
revolto-me e digo
NÃO à globalização
venha
veja o condor nas alturas desenhar a liberdade
e trançar os raios de
sol faço a minha prece
acaricie o clitóris da Terra que dilata suas rugas
de argila alguém me fez
pois o Silêncio me chama
Porque não sou filho da puta mercenário
imediatista oportunista nem  sórdido
levanto-me e digo
NÃO à globalização
venha
escute o bambu confidenciar seu segredo ao
remanso deixo o arrepio da água me saber ser
e transmigro a fome ancestral pelas sendas do não-querer
estar sem ser
pois do Silêncio de origem sou
Porque cabal múltiplo diverso plural Homem sou livre e democrático
e de irmandade e não putandade teço a minha relação
insurjo-me e digo
NÃO à globalização
venha
sinta os passos descalços rastreando o diálogo das carmelitas
no ocaso chovido da praia nua
onde a vaga na areia branca deposita
a  ondulante alma milenar do pescador
pois do Silêncio venho
Porque brasileiro sou consciente e íntegro e
há cinco séculos espero a independência soberania e dignidade do País
rebelo-me e digo
NÃO à globalização
venha
ouça o atávico fragor dos séculos rolando entre cacos de trovão
o nome que não tenho
e a dama-da-noite cravar a fragrância metálica dos
milênios trago o faro de pertencer
pois ao Silêncio me encaminho

Porque poeta sou da alma aos colhões em perene estado de prenhez
e não cevado frango corporativo ou anho do diabo
sublevo-me e digo
NÃO à globalização
venha
deguste o sabor telúrico das visões colorindo a mente
prados celestes a generosar ser antes de ter
eiras de lua derramando sua sinfonia pastoral
pelas trilhas litúrgicas do perceber
pois Silêncio volto a ser
Porque com altivez e furor escritor sou
e não fantoche padronizado massificado imbecilizado e putificado
radicalizo e digo
NÃO à globalização
venha
de pólvora e pregos é feito meu poema
de Vento e Fogo meu vôo-paixão
crie vergonha leitor
abrace-o
e na falta de poema uma granada é mais eficaz
pois Silêncio já sou

15-12-2005