(do livro O Deslizar das Horas)

Talvez antes do Tempo
nos porões dos séculos
ou nos subterrâneos dos milênios
onde o sonho precede o sono uterino
ali onde a audácia gera a pergunta
refazer o caminho nunca percorrido
para desembocar no anterior
que sucede antes mesmo de anteceder
e voltar à plenitude do Nada
na serenidade placentária das centúrias
* 
Palavra ferida que corta
navalha cega que sujo fere
o existir
quando o falo suplanta o verbo
na urgência do mutismo
da vida
longe da supremacia do silêncio
de amar
*
Submersa memória
posterior e anterior
tal o mito
consciência vagando
em espaços inominados do Tempo
em espaços mentais que des-situam o Tempo
entre o sopro do fato
e a lenda do reflexo
* 
Ousar subverter o inominável
entre a memória do vento e a prece da terra
filtrando a impermanência
pelas frestas do silêncio
ferido
de tanto ecoar o insustentável impermanente
fugaz intrepidez do não-dito
envergando a palavra galharda
que decepa a hidra das convenções
e fulmina a impostura das verdades eternas
antes de elas emascularem a vertigem
de ser
*
Com a alma lívida
recolher os escombros do dia
e sobre o fragor da paixão
assentar o silêncio da poesia
e sem um pio
nem desvio
libertar o perdão

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