ENTREVISTA A JORGE ROLDAN *

julho 18, 2008

O capitalismo em sua vertente mais atual, o liberalismo econômico e globalizado, é apresentado pela grande maioria dos meios de comunicação do mundo, como algo inexorável e insubstituível. Você concorda com essa premissa, ou um outro mundo é possível?
Não. O Capitalismo neoliberal não é nem insubstituível nem inexorável. O Terceiro Reich dizia que ia durar mil anos. Durou apenas doze (1933-1945). Quero acreditar que um outro mundo mais humano e mais justo é possível.

Os setores socialmente marginalizados da sociedade devem aceitar passivamente sua situação como uma designação divina, ou têm o direito de se rebelaram inclusive com o emprego de formas violentas de protesto.
Deus não designa nenhum tipo de governo. Isso é charlatanismo, oportunismo para continuar oprimindo os pobres ignorantes. Mugabe, ditador do Zimbábue, por exemplo, diz que foi Deus que lhe outorgou o poder. E os antigos reis da Europa se diziam reis pela graça de Deus. Sim, os setores socialmente marginalizados não só têm o direito de sublevar-se como têm o dever moral e cívico de dizer não e protestar, mesmo de formas violentas.

As religiões foram muitas vezes, ao longo da História, o componente principal da discórdia entre povos e das guerras entre nações. Na atualidade, os dogmas e as pregações religiosas (particularmente das religiões monoteístas, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo) contribuem para a paz mundial e a tolerância entre os homens?
As religiões nunca, ao longo da História, contribuíram para a paz. Muito pelo contrário, estimularam quando não provocaram guerras, massacres e todo tipo de atrocidades. Estou falando de fatos, que é o que me interessa. Basta folhar a História mundial. Atualmente 75% dos conflitos do Planeta são causados pelas religiões. Portanto, as religiões são sinônimo de sectarismo, intolerância, fanatismo, violência, beligerância. Como instituições visam unicamente o poder e o dinheiro. Logo, deveriam ser erradicadas com educação e cultura. Cada um que reze em sua casa e siga a sua consciência sem prender-se à ditadura dos dogmas – alguns deles abomináveis. O Estado deve ser absolutamente laico e deveria taxar, em nome da justiça e da igualdade, todas as instituições religiosas que, no fundo, não passam de corporações. É inconcebível que ainda existam Estados teocráticos como acontece em alguns paises islâmicos. A verdadeira espiritualidade não precisa em absoluto da religião. Aliás, não tem nada a ver com religião. Mesmo porque, em determinados casos, a religião se opõe à espiritualidade e à grandeza de espírito. O que deveria ser promovido, estimulado, cultuado e ensinado é a ética, a honra e a dignidade. E isso desde a escola maternal.

Os partidos chamados de esquerda (por exemplo, o Labour Party na Grã-Bretanha, o Parti Socialiste Français, o Partido Socialista Obrero Español, o Partido dos Trabalhadores, no Brasil), quando alcançam o poder político de Estado, aplicam a política social redistributiva que defendem em seus programas políticos ou desenvolvem um programa conservador com uma nova roupagem?
Hoje em dia não existe esquerda no sentido próprio da palavra. Esses partidos que você menciona estão a serviço do capitalismo neoliberal globalizado e em termos de política social redistributiva não fazem praticamente nada. Ou o que fazem é tão ínfimo que não altera o estado de injustiça social reinante. Pelo menos no caso especifico do PT brasileiro. Na prática são partidos tão conservadores quanto a direita moderada com a qual se confundem.

O Estado, nos mais diversos setores que o compõem, é uma instituição que paira acima do interesses de classe, ou está a serviço dos interesses de uma classe determinada?
O Estado é uma marionete nas mãos das grandes corporações. E segue, para manter-se, as diretrizes dessas grandes corporações. Portanto não existe Estado, mas grupos corporativos que manipulam o poder que supostamente deveria estar nas mãos do Estado. Não existem mais nações no sentido tradicional do termo. Conseqüentemente o Estado só pode estar a serviço da classe dominante. É mais do que óbvio.

A Justiça, nos mais diferentes níveis, é uma instituição que paira acima dos interesses de classe?
A Justiça, no Brasil, é como o Estado. Está a serviço dos interesses das elites. Basta abrir o jornal para confirmá-lo. Só é preso pé-de- chinelo. Os grandes bandidos respeitáveis – entenda-se os integrados na sociedade, como políticos e empresários ladrões, nunca são condenados. Além disso, a Justiça é uma instituição corrupta, caduca e decadente.

O tráfico internacional de drogas é um setor econômico que movimenta centenas de bilhões de dólares e sua atividade provoca dezenas, ou centenas de milhares de mortos anualmente. É amplamente sabido, o próprio FBI – o mais poderoso e eficiente corpo policial do mundo – reconhece que a luta contra o tráfico de drogas é uma guerra perdida. Há um setor minoritário da sociedade que defende que essa atividade seja legalizada em todas as suas fases, desde o plantio, passando pelo processamento, pela distribuição até a comercialização, o que levaria ao desaparecimento de todo o seu entorno criminoso e se tornaria uma atividade econômica como outra qualquer. Em sua opinião, isso não ocorre pela visão moralista que a sociedade confere a questão do consumo de drogas, ou porque com a legalização das drogas desapareceria toda a cadeia de corrupção policial e institucional que cerca o mundo das drogas?
A sociedade e o poder estabelecido são hipócritas, o que é normal. As drogas não são legalizadas simplesmente porque todas as instituições, incluindo políticos e governo, têm interesse em continuar ganhando bilhões com as drogas na clandestinidade. Estão todos com o rabo preso. Ou seja, em última instância, as instituições, o governo e a sociedade fomentam o crime organizado. Quanto à visão moralista, é mero pretexto, descaradamente cínico, para que a situação não seja alterada.

No filme Tempo da Inocência, de Denys Arcand, uma contundente e sarcástica crítica a sociedade moderna, há uma seqüência onde três personagens se escondem para fumar, pois se forem descobertos pela patrulha antitabagista estarão sujeitos a perder o emprego. Essa onda surgida nos Estados Unidos e que se espalha pelo mundo globalizado de restringir cada vez mais o uso do cigarro, parte de uma genuína campanha de defesa da saúde pública, ou seria uma manifestação moralista e discriminatória de restrição do direito individual do cidadão?
Essa onda de antitabagismo importada do EUA, tão na moda, é, além de ridícula, hipócrita (com perdão pela repetição da palavra) – e quero deixar claro que eu não sou fumante. É tapar o sol com a peneira. O usuário de carro polui infinitamente mais do que o fumante. Por que os EUA não se preocupam um pouco mais com a poluição ambiental diminuindo a emissão de gazes? Por que não assinam o Tratado de Kyoto? Mas isso não interessa ao lucro das grandes corporações, claro.

A influência da cultura norte-americana é cada vez mais presente e notória na cultura brasileira. Isso se reflete nos mais diferentes aspectos, na forma de se vestir, na moda e no comportamento feminino, na música, no cinema, no linguajar, na adoção de termos e expressões lingüísticas e um longo etcétera. Reagir contra essa avassaladora tendência não seria uma posição conservadora, e, portanto, reacionária?
Reagir contra uma imposição fascista não é uma atitude conservadora ou reacionária. Muito pelo contrário: é uma posição de recusa à alienação. Nós não somos macacos para viver imitando o que vem dos EUA. Essa influência norte-americana descaracteriza a cultura brasileira e dilui a sua identidade. Além do mais, essa cultura de massa que nos é imposta é grotesca, vulgar, de um mau gosto insuportável. É coisa de débil mental. Um verdadeiro lixo. Uma merda.

A criação artística em suas mais diferentes formas deve imiscuir-se nas questões políticas e sociais que afligem o ser humano, ou ao contrário, deve manter-se isenta dessas questões?
A arte é, antes de tudo, livre. E, como arte, pode se dar ao luxo de pairar acima de absolutamente tudo, incluindo o Bem e o Mal – quando se trata da grande Arte. Mas eu, pessoalmente, não consigo conceber um artista, principalmente um escritor, alienado política e socialmente falando. O artista engajado pode não refletir a sua consciência político-social em sua obra – embora isso me pareça um tanto improvável –, mas tem de ter na vida um posicionamento definido a favor da integração e da justiça sociais. Esse papo de ser apolítico se não é tendencioso é francamente imbecil. Pois todo ato é político. Logo, o ato de se dizer apolítico já é em si um ato eminentemente político.

Os filmes sociais de Ken Loach, irmãos Dardenne, Robert Guédiguian, Michael Moore, não seriam um cinema démodé, ultrapassado?
Loach, Guédiguian, os irmãos Dardenne e Michael Moore fazem um trabalho consciente, de denúncia e vão ficar na história do Cinema. Denunciar jamais será um ato ultrapassado. O que vai ser logo esquecido é o lixinho consumível que vem de Hollywood. E é evidente que quando digo Hollywood não me refiro ao bom cinema independente norte-americano que admiro muito e que, salvo raras exceções, concorre ao Oscar. É o caso de importantes diretores que começaram – ou que só fizeram – cinema independente como John Cassavetes, Abel Ferrara, John Thomas Anderson, Hal Hartley, Todd Solondz, os irmãos Coen, Tamara Jenkins (com seu ótimo A Família Savage).

Existe uma tendência, particularmente no cinema brasileiro, de realizar filmes que apresentam uma visão extremamente negativa da sociedade. Filmes como Cidade de Deus, Cidade dos Homens, Contra Todos, Tropa de Elite têm em comum apresentarem uma situação social explosiva e insustentável e personagens nada afirmativos. Isso não seria o reverso dos filmes cor-de-rosa, “happy end” hollywoodianos. Ou seja, não seria a outra face de uma visão humana e social maniqueísta?
Sim. De certo modo esses filmes brasileiros se opõem aos filmes hollywoodianos e não só aos happy end, mas a todos aqueles que dão tudo devidamente mastigado ao espectador para que ele não tenha que fazer o mínimo esforço para pensar. Em suma, cheios de clichês e concessões comerciais. Ou seja, caro público consuma e esqueça. Ou, em termos mais prosaicos, coma e cague. No entanto, no caso de Tropa de Elite, obra superestimada e comercial que não justifica em absoluto o Urso de Ouro do Festival de Berlim, trata-se de um filme totalmente hollywoodiano, tanto em sua concepção e condução da narrativa como na apologia da violência gratuita que tanto se critica no cinema de Hollywood. E um bom diretor não tem necessidade de apelar para a violência visual quando quer denunciar a violência, o que é uma forma de concessão ao gosto do público. Aí entra uma questão de talento. Se for para opor uma visão diferente à vertente do cinema main stream norte-americano, eu prefiro filmes como Amarelo Manga, O Cheiro do Ralo, O Céu de Suely, A Casa de Alice e O Ano em Que meus Pais Saíram de Férias ou os últimos trabalhos de Bressane.

* Jorge Roldan é curador e produtor de mostras cinematográficas

05-07-08

 

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Uma resposta to “ENTREVISTA A JORGE ROLDAN *”

  1. alexandre roldan Says:

    ESTOU PRESO NO BATALHÃO DA POLICA MILITAR INJUSTAMENTE E GOSTARIA DE TER INFORMAÇÕES DE COMO ESCREVER TODO O SOFRIMENTO QUE AGENTES DA LEI PASSAM AQUI TODO DIA LONGE DE SUA FAMILA E MOSTRAR PARA A SOCIEDADE COMO A JUSTIÇA E FALHA QUANDO SE TRATA DE POLICIAL, POIS AO LONGO DOS ANOS FOI MANCHADA PELOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO.
    EU GOSTARIA DE COMPARTILHAR ESSA EXPERIENCIA COM À SOCIEDADE E TENTAR MUDAR A OPINIÃO PUBLICA SOBRE ESSES PROFICIONAIS


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