ENTREVISTA AO JORNALISTA RODRIGO DE MORAES

julho 18, 2008

O que é viver?
Escrever.

E morrer?
Não escrever.

Qual é seu conceito de viver e existir?
Todos existem. Poucos vivem.

O que é então viver, além de escrever?
Ir aos extremos.

O que você admira no ser humano?
A generosidade. O desprendimento. A nobreza. A dignidade. A magnanimidade. O cosmopolitismo. A ousadia. A capacidade que ele tem de se reerguer depois da derrota.

O que você não suporta no ser humano?
A cobiça. A avareza. A mesquinhez. A hipocrisia. A mentira. O provincianismo. O conservadorismo. O chauvinismo. E o fanatismo decorrente da ignorância.

Você, cético, ainda acredita em algo?
Se continuo escrevendo é porque acredito em algo. Escrever é um ato de fé e de resistência.

O que é essencial para ser escritor?
Perseverança e disciplina. E entrega absoluta.

Mesmo para um libertário instintivo como você?
Sem dúvida.

Em que você deixou de acreditar?
Nunca acreditei nas instituições.

David Haize, seu alter ego, personagem de todos os seus romances, é um escritor sempre viajando. A viagem, claro, como metáfora da busca. Aonde leva essa busca?
A lugar nenhum.

É o absurdo então?
Não totalmente. A própria busca em si já é uma meta. A dinâmica da busca gera uma razão de viver.

Mas David Haize não parece procurar algo superior à vida?
David Haize talvez. Não eu. Às vezes os leitores me confundem com ele.

Você já afirmou que a arte é superior à vida. Em que sentido?
Na medida em que a arte transfigura e eleva a vida. E eu me transformo em um homem melhor graças a esses escritores, cineastas, músicos e pintores que tornam a minha vida mais rica, intensa e bela.

E a eternidade, que você nega?
Não sei o que é a eternidade. Eu não a sinto. Somos muito ínfimos para termos uma noção do que é eternidade. Além do mais o Planeta pode acabar, de um modo ou de outro, e aí adeus eternidade. Posso, eventualmente, encará-la como uma sucessão de imutáveis (sob o ponto de vista humano), de ciclos. Ou seja, o acumulo constante de perenidades.

E o mito?
É necessário. Mesmo que seja um objeto. Ainda mais agora que o Homem sente a falta de Deus.

E Deus?
Está fora de moda. Pelo menos no Ocidente, onde foi substituído pelo pragmatismo neoliberal.

Há um termo que está sempre presente em seus poemas: o silêncio. O que seria esse silêncio tão crucial para você?
É o estagio de limpidez, transparência e abstração que antecede o patamar mais elevado, o absoluto, com o qual se conecta pelo elo selvagem (no sentido de estado bruto, puro) perdido.

E o que seria o absoluto ao qual, aliás, você também se refere constantemente em sua poesia?
Uma alta dimensão que eventualmente pode ser atingida pelo homem superior por meio do culto da ética, do discernimento, do despojamento total e do não-querer na sua acepção mais profunda. Uma maneira de elevar-se ao mais alto grau ao qual pode aspirar o ser humano. É o ápice da integração com o Todo.

Isso não seria a busca de Deus?
Não sei o que é Deus. O que posso afirmar é que a espiritualidade não está necessariamente relacionada com Deus. E menos ainda com a religião que é uma codificação ou mero compêndio de preceitos, alguns dos quais absolutamente questionáveis, como qualquer pessoa lúcida pode constatar lendo a Bíblia ou o Alcorão, por exemplo.

Há algo de Nietsche e de budismo no que você está expondo?
Pode ser.Mas é algo intrinsecamente meu. Algo que brota naturalmente.

E do misticismo selvagem de Rimbaud?
Sim, é provável. No sentido de reintegração ancestral.

Além de suas “obsessões” como a busca, o absoluto, o sexo, a solidão e o exílio do qual você já falou tanto) existe um aspecto comum em todos os seus romances. Por que sempre encontramos personagens deficientes físicos ou mentais?
Porque sinto uma profunda compaixão pelos deficientes físicos e mentais e pelos pais que cuidam deles. Assim como tenho o mesmo sentimento pelos imigrantes, pelos perdedores, pelos excluídos de uma forma ou de outra.

Você parece afirmar que o diferente é superior. Por quê?
Por uma questão de lógica: a sobrevivência do diferente.

E os não-diferentes, ou seja, a maioria?
A maioria é burra, grossa e vulgar.

Qual é o significado do não-querer que também está presente com assiduidade em suas obras?
Há o não-querer metafísico que procuro para me desintegrar e reintegrar novamente com o Todo. E há o direito que tenho como cidadão e como ser humano de não querer nada. Mesmo que essa atitude ofenda os outros. Por que deveria eu estar sempre querendo o que os outros querem, se os valores dos outros me deixam absolutamente indiferente? É um direito que me assiste de não querer seguir o rebanho. Eu escolhi um caminho: aquele que se coaduna com o meu modo de pensar e sentir. E deixo claro que não tenho nenhuma vocação messiânica. Sou um animal solitário.

Isso teria algo a ver com a sociedade de consumo?
Sem dúvida. E com a ditadura da globalização. E com a competição que é algo perverso e degradante.

Por que a competição é algo perverso e degradante?
Porque estimula e promove a cobiça que é uma aberração.

Se você tivesse tido que escolher outra profissão, qual seria?
Talvez a de cineasta. Mas fico com a de escritor. Por um motivo muito simples: sou arredio e não gosto de trabalhar em equipe. Se fosse cineasta seria um “ditador” como Visconti, Fellini, Kubrick ou Lars von Trier. Eu gosto de trabalhar sozinho sem ter que me preocupar com outra coisa a não ser o meu trabalho. Nesse sentido não gosto de depender de ninguém e não quero que ninguém dependa da criação de minha obra. Posso me dar ao luxo de não fazer absolutamente nenhuma concessão quando escrevo. Essa liberdade de criação sem limites me deixa muito feliz. Sou, por exemplo, o dono absoluto do destino dos meus personagens. Sinto muito orgulho de ser um profissional das letras. O que não significa que esteja satisfeito com a minha literatura.

Como se faz um escritor?
Certamente não na faculdade – a faculdade só forma técnicos em literatura. E nem na vida – uma vida rica e intensa não transforma em escritor. O escritor já nasce feito. Como qualquer outro verdadeiro artista. Claro que sem garra,trabalho, disciplina, persistência e, sobretudo, paixão o escritor nunca será capaz de desenvolver o seu talento nato. Isso implica ler e estudar um livro para cada página escrita. E reescrever essa página cem vezes se for necessário. Além de livros, a leitura de boas críticas literárias é imprescindível.E, como dizia Rilke em relação à poesia, estar disposto a morrer pela literatura. Morrer mesmo. Como quem morre pela Revolução ou por Deus. O ser tomado pelo êxtase da Arte entende que a Arte é mais importante do que a sua própria vida. No caso, os extremos são necessários. Mesmo que seja obrigatório atravessar o inferno para atingir o paraíso da criação literária. A Arte não conhece a ponderação. A Arte não é moderada. A Arte não é prudente. A Arte é um impulso selvagem que deve ser intelectualmente domando. Artisticamente, os empreendimentos mornos não levam a lugar nenhum.

21-06-08

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: