A Desonestidade da Funarte

julho 31, 2009

Toda avaliação crítica de uma obra de arte é relativa. Ou seja, subjetiva. Por mais objetivo e imparcial que o crítico tente ser. Os parâmetros estéticos sempre acabam cedendo – o que é absolutamente normal –, em maior ou menor grau, diante dos conceitos, preceitos, formação cultural e sentimentos daquele que elabora a crítica. A sua visão de mundo sempre influenciará o seu julgamento. Simplesmente porque a arte não é uma operação matemática: algo correto ou incorreto. Além do mais, a verdadeira obra de arte precisa, como o vinho, de um determinado tempo para florescer e ser assimilada. Mesmo porque, via de regra, está adiante de seu tempo. Logo, os prêmios outorgados por qualquer certame literário, cinematográfico, musical ou de artes plásticas são, no mínimo, senão suspeitos, pelo menos questionáveis. São inúmeros os casos de obras “perdedoras” que o tempo consagrou. E de obras “vencedoras” que o tempo apagou. A título de exemplo, três dos maiores escritores do século XX, Kafka, Proust e Joyce não receberam o Nobel. Greta Garbo, atriz fascinante e o maior mito do cinema mundial nunca ganhou o Oscar – outorgaram-lhe um Oscar honorário para compensar a injustiça. O clássico A Bela da Tarde, de Buñuel, foi recusado pelo comitê de seleção do Festival de Cannes – mas, em contrapartida, obteve o Leão de Ouro em Veneza.

Posto isto, ou seja, a relatividade dos prêmios, o que dizer quando o prêmio não é questionável ou tendencioso, mas suspeito, ou abertamente fraudulento? Vejamos, especificamente, os prêmios literários. Fora a picaretagem de numerosos pequenos concursos que visam extorquir dinheiro de incautos aspirantes a escritor, seja com altas taxas de inscrição ou com a participação financeira dos vencedores e finalistas para a publicação de uma antologia, existem concursos mais “sérios” que de modo algum provam que sejam, de fato, honestos. Geralmente, quando se trata de obra inédita, o trabalho deve ser remetido ao concurso sob pseudônimo. O que não quer dizer nada. No sentido de que não haja favoritismo. Ou, em outras palavras, que o procedimento ateste a imparcialidade e honestidade do prêmio – virtudes, a verdade seja dita, nada em voga, hoje em dia, entre cidadãos respeitáveis. Vamos supor que eu seja membro do júri de um concurso. De que adianta o pseudônimo se eu sei que a minha amiga Maria e o meu primo Pedro vão participar, sob o pseudônimo de Josefina e João respectivamente, do concurso e se eu estou disposto a favorecê-los?

O último concurso de literatura da Funarte é um exemplo ilustrativo da falta de transparência ou, mais explicitamente, de honestidade. Tratava-se de um concurso de projetos de obras literárias. Assim, venceria o melhor projeto de romance, novela, contos, crônicas ou poesia. As inscrições requeriam, além da ficha de inscrição devidamente preenchida, uma porção de documentos: cópia do RG, do CPF, comprovante de residência, certidão negativa de débitos de tributos e contribuições federais, declaração assinada pelo candidato confirmando que reside no município da região em que concorre há pelo menos dois anos, declaração devidamente assinada pelo candidato de que a obra é uma criação original, responsabilizando-se por não ferir direitos autorais de terceiros, mais cinco vias do currículo e cinco vias do projeto da obra a ser desenvolvida, incluindo trechos já produzidos ou em desenvolvimento dessa obra. Tais inscrições foram realizadas entre 26 de outubro e 10 de dezembro de 2007. E, pasmem, o resultado saiu publicado no Diário Oficial do dia 13 de dezembro. O que significa que os 495 trabalhos inscritos foram supostamente analisados e julgados em dois dias, já que no terceiro dia (13/12/2007) o resultado já estava publicado. É possível ler e avaliar 495 projetos literários em 48 horas? É óbvio que não. É uma evidência ululante que os vencedores (dois por região do País) tinham sido escolhidos de antemão. E é claro que toda essa encenação do concurso, com todas as suas exigências burocráticas era apenas uma farsa. Uma farsa que nem se deram ao trabalho de disfarçar. Enfim, uma palhaçada. Um embuste. Que tipo de gente manipula a Funarte? Gente desonesta. O que equivale a lixo. Não teria sido mais fácil, mais transparente, mais limpo, premiar por indicação? Mesmo levando em consideração que indicar alguém é algo muito relativo, pois apenas depende do lobby do candidato para vencer. Mas enfim, é uma indicação. E um direito que a Funarte tem de indicar alguém. Porém, o que é inadmissível é o modo como a coisa foi feita. Uma total falta de consideração, de respeito para com essas centenas de concorrentes que foram feitos de bobos. Que gastaram tempo e dinheiro para nem sequer participar do concurso. Prevalece a impressão de que, encerrando o concurso no dia 10 do 12 e publicando o resultado no dia 13 do 12, a Funarte estaria em tempo hábil para gastar essa verba antes que o ano se encerrasse. Nepotismo literário. Corrupção. Ainda existe algo honesto no País? Lamentável.

R.Roldan-Roldan é escritor, autor, entre outros livros, de Matriochka.
http://roldan.vila.bol.com.br
davidhaize@ig.com.br
31-08-2008

Artigo publicado pelo jornal “Correio Popular” de Campinas  a 12 de setembro de 2008

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