A Ditadura dos Parlamentares

julho 31, 2009

Há uns dias estava almoçando e lendo o jornal. Como costumo fazer. E uma notícia travou os alimentos em minha garganta – não deveria ler enquanto como. E o sangue subiu. Como deve ter subido em milhões de brasileiros. Ou não? Será que a consciência da dignidade ainda faz subir o sangue nos habitantes do Brasil? Ou chegamos a tal ponto de indiferença ou passividade que nos torna desprezíveis? Um inadmissível estado de deixa-pra-lá onde tudo o que ocorre de abjeto neste País termina numa desconcertante frase: não adianta, é assim mesmo. Como se fosse absolutamente natural que o salário de um parlamentar seja de R$ 24.500 e o mínimo ainda seja 350,00 miseráveis reais. O que é uma afronta. Num país onde um terço da população vive, não na pobreza, mas na miséria. Neste caso a expressão da revolta é um ato de dignidade. E esse ato se resume, não em incendiar ônibus e carros e em destruir lojas (o que seria plenamente justificável e compreensível – e digno? – levando em consideração que seria o único “diálogo” que essa corja, eleita pelo povo, entenderia), mas em paralisar o País inteiro, como qualquer país decente, sério, justo, civilizado e digno faria. Sim, porque um povo digno se manifesta. Um povo digno sai às ruas. Um povo digno paralisa uma nação para mudar uma lei, como, por exemplo, fez o povo francês no primeiro semestre para obrigar o governo a revogar a lei do primeiro emprego – e a lei foi revogada como manda a verdadeira democracia. Já que toda lei é feita pelos homens, logo suspeita, ou seja, sujeita a parcialidade. E quando a lei não atua para o bem do país, seja qual for a lei, seja qual for o país, ela deve ser eliminada. Pois como podemos admitir a vergonha, a pilantragem, a rapinagem, a desfaçatez, o cinismo, o coronelismo, o totalitarismo, o roubo, o abuso de poder, a ditadura dos parlamentares melhor remunerados do mundo? Qual é a diferença entre um traficante e um parlamentar (salvo raras exceções)? Nenhuma. Já que o enriquecimento de ambos é ilícito. Minto: o dos parlamentares é acobertado pela lei. E tem mais: o salário dos traficantes não é pago pelo contribuinte, mas o dos parlamentares é. Logo, uma lei que permite essa aberração social deve ser revogada. Aliás, determinadas leis deveriam ser submetidas a um referendo popular como manda a verdadeira democracia. Um governo (ou o termo sistema seria mais adequado?) conivente com esse ultraje é indigno, logo não é aceitável e deve ser combatido. Um povo que silencia, que não se movimenta e promulga o seu Não em altos brados e aceita essa indecência, essa imoralidade, é indigno. E que fique explícito que não estou absolutamente pregando a violência – como os tendenciosos estariam inclinados a pensar – ou o discurso dialético, como os egoístas estariam propensos a concluir. Não. Nada de proselitismo: não faz o meu gênero. Falo de algo natural. Ou que deveria ser natural. Falo de consciência humana (redundância?) e de dignidade. E permitam-me lembrá-los de que a dignidade se obtém com a ação. Certamente não com o determinismo que trava a humanidade. Não existe determinismo histórico. Existe apenas a História. Mas… a Revolução Francesa de 1789 ainda não chegou ao Brasil. E nem sequer toquei na ética, porque aí entraria no capítulo da barbárie. Deixo-a para uma outra ocasião. E, como não sou demagogo, não aproveito a época natalina para invocar o famigerado espírito de Natal. Talvez apenas apele para um remoto sentimento cristão de generosidade.

17-12-2006
R.Roldan-Roldan é escritor
davidhaize@ig.com.br
http://roldan.vila.bol.com.br

Publicado no jornal “Correio Popular” de Campinas a 21 de dezembro de 2006

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