De Heróis Desmistificados e Livros Queimados

julho 31, 2009

Não deixa de ser relevante que, no espaço de duas semanas, foram exibidos em Campinas três filmes de guerra. Até aí, tudo bem, normal. O interessante, e não tão comum, é que esses três filmes eram antibelicistas. E humanistas. O que, pela lógica, é um atributo decorrente do primeiro. Dois, norte-americanos, esplêndidos: A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, ambos de Clint Eastwood. O terceiro, embora sem atingir o nível dos dois citados, mas não menos humano e emocionante, é o francês Feliz Natal, de Christian Carion, que infelizmente pouca gente viu. Os três filmes questionam a guerra e o conceito de herói construído pelo poder estabelecido e deixam implícito que, quanto mais ignorante é o povo, obviamente mais fácil ser manipulado e servir de bucha de canhão para o fanatismo nacionalista ou religioso, o que, em outras palavras são os interesses criados. Estabelecendo parâmetros entre os dois filmes de Eastwood – que teve a honestidade de filmar a visão nipônica de Iwo Jima – e as atuais guerras do Iraque e Afeganistão, perceberemos que a atual bucha de canhão fornecida pelos pobres rapazes norte-americanos de classes sociais inferiores (sempre foi assim) é enviada para essas duas nações não para defender a pátria (o que até certo ponto justificaria uma guerra – se é que uma guerra pode ser justificável), mas para defender o interesse das grandes corporações.

Quanto a Feliz Natal, nada mais tocante que a confraternização, na noite de Natal, entre inimigos: alemães de um lado e franceses e escoceses do outro – fato verídico ocorrido durante a Primeira Guerra Mundial. E abafado durante longo tempo. E, continuando com a cinematografia antibelicista, como não lembrar, o mais poderoso libelo contra a guerra, a obra mais angustiante, opressiva, contundente, mais desesperadamente kafkiana, que é Johnny Vai à Guerra, único filme de Dalton Trumbo? Escritor e roteirista perseguido pelo macarthismo, seu filme foi na época (1971) proibido pela censura de vários países porque incomodava demais. E certamente não com um árido discurso político. Mas levando a mais dura emoção à consciência.

Mas deixemos as guerras e seus heróis – ou pseudo-heróis – e abordemos os livros, embora sempre no âmbito cinematográfico. Livros: material antifascista por excelência. Recentemente assisti, pela TV a cabo, a uma obra de Truffaut. Um belo filme de 1967, baseado num romance de Bradbury: Fahrenheit 451. Como ficção científica, o filme pode parecer um tanto datado hoje em dia, 40 anos depois. Mas paradoxal e curiosamente soa profético e permanece atual. Atual porque no século 21 não temos bombeiros especializados na busca e destruição de livros – numa sociedade onde estavam proibidos. Não. Já não se queimam mais livros de literatura. Pelo menos no Ocidente. Mas temos um sistema altamente interessado – embora não o exponha explicitamente – em desencorajar a leitura de livros. Um sistema em que a cultura, sua memória, o discernimento crítico, a lucidez e a desmistificação se opõem diametralmente aos objetivos mercantilistas que imperam em nossa sociedade imediatista. E ler, não lixinhos de auto-ajuda ou baboseiras edulcoradas, reativa a mente e faz pensar. Ler acaba inquietando. E todos sabemos que os que pensam não são bem vistos. Simplesmente porque, no mínimo, questionam a (suposta) ordem e podem, eventualmente, semear a discórdia. O que certamente não é… produtivo.

Bem, e o que têm a ver os dois filmes de Eastwood, o de Christian Carion e o de Truffaut? Qual é a relação entre belicismo e livros na fogueira? Tudo a ver. Sim. Tudo a ver. Já que é com livros – logo com educação, com cultura, erradicando a ignorância e as superstições – que se afastam os demônios do fanatismo nacionalista ou religioso. É com livros que a bucha de canhão é capaz de se sublevar e dizer não.  É com livros que uma nação pode ser paralisada para dizer não e enveredar pelo caminho da justiça social. É com livros que se atinge a razão na acepção mais profunda do termo. A do humanismo. Sim, com livros. E não com lixo televisivo, internáutico ou consumista.

21-02-07
R.Roldan-Roldan é escritor
davidhaize@ig.com.br

Artigo publicado pelo “Correio Popular” de Campinas a 14 de março de 2007

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Uma resposta to “De Heróis Desmistificados e Livros Queimados”

  1. Rafael Roldan Says:

    Estamos à beira do fim dessa raça pretensamente humana!


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