Honoráveis Torturadores

julho 31, 2009

Todos os países da América Latina fizeram a sua faxina histórica, por assim dizer. O Brasil ainda não. Todos os países da América Latina varreram o lixo da História e jogaram água com detergente, para uma limpeza mais eficiente. O Brasil ainda não. Ou digamos que os restos da pizza foram varridos para debaixo do tapete. O que não é uma limpeza, claro. Como manda a nossa vergonhosa tradição de impunidade. Todos os países da América Latina prenderam, julgaram e condenaram os seus seqüestradores, torturadores, estupradores e homicidas das suas respectivas ditaduras. O Brasil ainda não. Por que temos de ser política e sociamente, via de regra, mais atrasados do que os nossos vizinhos? Como, entre outras coisas, por exemplo, termos um dos piores salários mínimos do hemisfério, o que é um atraso social. Por que somos os únicos que ainda não limparam a sujeira da ditadura? Ou seja, por que ainda não resolvemos a questão dos crimes cometidos pela ditadura militar? Se a Argentina (que no dia 24 de julho sentenciou à prisão perpétua o general Luciano Benjamín Menéndez, acusado de seqüestro, tortura e desaparecimento de quatro civis), o Chile e o Peru reviram as suas legislações abolindo as normas que anistiaram os militares, por que nós não podemos ter mais dignidade e fazer a mesma coisa? Não. Nós sempre afrouxamos. Nós sempre colocamos panos quentes. Nós sempre buscamos uma conciliação que beira o indigno. Porque certamente essa atitude de omissão não é digna de um país que se diz democrático – embora não haja democracia dentro do neoliberalismo, mas isso é outra história. Nós proclamamos uma auto-anistia. E assim, os nossos seqüestradores, estupradores, torturadores e assassinos continuam à solta. Não foragidos. Não. Muito pelo contrário. Vivendo tranqüilamente, em paz. Livres e respeitados como honoráveis cidadãos. Como se não tivesse acontecido nada. Como se nenhuma atrocidade tivesse sido cometida. Que vergonha. Como é possível essa aberração judiciária? Aliás, para que serve a Justiça? Se não passa de uma farsa caduca, corrupta, decadente? Pois ignorar crimes de lesa humanidade e esquecê-los é um flagrante ato de injustiça e total degradação do Poder Judiciário. E não se trata de revanchismo. Em absoluto. Trata-se simplesmente, como já disse, de dignidade. E justiça. A impunidade (e não só dos crimes da ditadura militar) é uma mácula que o Brasil deve pensar em eliminar para ser mais respeitado no cenário mundial como país sério. Como país digno.

Outra coisa que deveríamos pensar em banir de uma vez por todas – será que ninguém pensou nisso até agora? – são todos os nomes de presidentes do regime ditatorial dados a logradouros. É simplesmente inconcebível – e ofensivo – que depois de mais de duas décadas ainda encontremos ruas, praças, avenidas, rodovias ou bairros com nomes como Castelo Branco, Costa e Silva, Médici e companhia. Quem são esses fulanos para merecer tal honra? Como é possível que um país perpetue o nome de um presidente da ditadura militar? Onde já se viu? Naquela época, obviamente, compreende-se. Mas agora? Soa ridículo. Grotesco. Esse ranço de totalitarismo que ainda persiste. Os países do Leste Europeu apagaram os vestígios do stanilismo. A Espanha, os do franquismo. O Chile, os do pinochetismo. Por que não fazemos a mesma coisa? Será que não basta ter o nome de Getúlio Vargas em tudo quanto é lugar?

27-07-08
R.Roldan-Roldan é escritor
http://roldan.vila.bol.com.br
davidhaize@ig.com.br

Artigo publicado pelo jornal “Correio Popular” de Campinas a 31 de julho de 2008

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