O Oscar e a Desfaçatez da Globo

julho 31, 2009

Um torcedor de futebol acompanha seu time. No campo. Na televisão. No jornal. Fala sobre seu time. Discute sobre seu time. Briga pelo seu time. E, quando pode, percorre longas distâncias para ver seu time jogar. Seu time faz parte de sua vida. Guardando as devidas proporções, um cinéfilo é algo semelhante: vive o cinema. Ele assiste aos filmes importantes – no cinema, em DVD só em último caso. Lê críticas e ensaios sobre cinema em jornais, revistas especializadas, livros. Acompanha pela imprensa os grandes festivais de cinema do mundo como Veneza, Cannes, Berlim. E outros não tão famosos, mas importantes, como o de San Sebastián, na Espanha, o de Locarno, na Suíça, o de Montreal, no Canadá ou o de Havana, em Cuba. E, obviamente – no caso de paulistas e paulistanos –, segue de perto tudo o que agita a Mostra de Cinema de São Paulo. Alguns cinéfilos de carteirinha programam suas férias no mês da Mostra para ver o maior número possível de filmes, principalmente os que não têm previsão de exibição comercial no País.  E, diga-se de passagem, a Mostra é um prato cheio para o mais exigente fã, com centenas de obras das mais variadas cinematografias do Planeta. Alguns cinéfilos abastados se dão ao luxo de pegar um avião para assistir aos filmes em competição nos grandes festivais, para julgar por si próprios os critérios das premiações. Outros, também radicais, são capazes de deslocar-se milhares de quilômetros, por um dia ou dois, para estar presente na estréia mundial em Paris, Londres, Madri ou Nova York, do último Almodóvar, Lars von Trier, Angelopoulos ou Manoel de Oliveira. Quando pode, o cinéfilo assiste pela TV à entrega dos prêmios César (francês), Goya (espanhol) ou Globo de Ouro (norte-americano) – sem mencionar os nacionais de Gramado ou Brasília. E, claro, embora o genuíno cinéfilo, não ligue para o mundanismo de Hollywood, ele gosta de assistir à cerimônia da entrega do   Oscar. Gosta mas, se estiver no Brasil, não pode ver a festa hollywoodiana de cabo a rabo. A menos que tenha TV a cabo em casa e sintonize o TNT. E por que não pode?  Simplesmente porque a famigerada TV Globo o impede, num flagrante e inadmissível desrespeito ao telespectador. Como assim?  Porque a Globo vende gato por lebre e oferece, enganosamente, um produto adulterado, por assim dizer. Ou seja, transmite a cerimônia do Oscar com uma hora a menos. Não uns minutos a menos. Não. Uma hora! E isso não acontecia quando o Oscar era transmitido pelo SBT. Mas a TV Globo, quintessência da voracidade da globalização por excelência, tem a desfaçatez, numa atitude não só fraudulenta, arbitrária e abusiva, mas sintomaticamente fascista, de cortar quase um terço da festa do Oscar, mutilando assim o espetáculo. Logo, seria mais honesto avisar o telespectador que ela vai transmitir parte da cerimônia de entrega do Oscar. Ou então, o que seria ainda mais honesto, deixar que outra emissora a transmitisse integralmente. E por que motivo a TV Globo faz isso? Porque até as 23 e 30 (o Oscar começa às 22 e 30 local) ela exibe o Big Brother Brasil (que deveria se chamar Big Bosta Brasil), esse lixo, esse miserável programazinho para retardados, de um mau gosto insuportável, de baixo nível e que nem sequer é engraçado, pois provoca um tédio de anestesiar um elefante. E a coisa fica por isso mesmo. Ou seja, ninguém diz nada. Ninguém reclama. O telespectador que se dane. Sim, o bobo do telespectador que engula o embuste e fique quieto. E quando o governo, timidamente, como tudo o que faz (com exceção da corrupção e da impunidade) tenta fazer algo para corrigir esses abusos e regulamentar os direitos de transmissão, a Globo é a primeira a protestar contra a “censura” e clama, cinicamente, pela liberdade de expressão. Liberdade de expressão, uma ova. Ganância, lucro, só. Parece piada, mas não é. Como se ela não tivesse, quando lhe interessa, a própria censura, ou seja, a autocensura que começa pelo enfoque dos noticiários. Alguém pode rebater que, de modo geral, o telespectador não está muito interessado na festa do Oscar. Certo. Mas é uma questão de princípios. De respeito ao telespectador. Se a Globo detém os direitos de transmissão da cerimônia do Oscar, ela tem a obrigação de transmiti-lo na íntegra. Mas, e isto tem tudo a ver com o que acabo de dizer, voltemos ao torcedor de futebol com quem iniciei este texto. O totalitarismo da Globo obriga o torcedor a ver o jogo, no campo, às 21 e 45, que é o horário de transmissão que lhe convém. E o torcedor, em sua grande maioria povão, acorda no dia seguinte às 5 ou 6 horas para trabalhar. E o torcedor não é cinéfilo, não é minoria, é massa. E ninguém faz nada. Pois o dinheiro compra tudo. E é essa frouxidão, essa inércia, esse deixa-pra-lá, que exaspera.

02-03-2008
R.Roldan-Roldan é escritor
davidhaize@ig.com.br

Artigo publicado pelo jornal “Correio Popular” de Campinas a 13 de março de 2008

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