Viva Maio de 68!

julho 31, 2009

Há 40 anos, em maio de 1968, Paris pegava fogo. Esplendidamente. Romanticamente. Historicamente. Algo de fazer inveja à história de qualquer nação. Os muros tomavam a palavra e lançavam slogans que atingiam o mundo inteiro, com repercussão política significativa na Alemanha, Itália, Tchecoslováquia, EUA, México e Japão. Sejam realistas, peçam o impossível. A imaginação no poder. Proibido proibir. Somos todos judeus alemães. Professores, vocês nos fazem envelhecer. A anarquia é a ordem. O sonho é realidade. Decreto o estado de felicidade permanente. Um homem não é estúpido ou inteligente: é ou não é livre. A ação não deve ser uma reação, mas uma criação. Gozem aqui e agora. A revolução deve deixar de ser para existir. Amem-se uns sobre os outros. Façam amor e recomecem. Exagerar é começar a inventar. E assim por diante. Mas era um sonho. Apenas um sonho adolescente. Um movimento estudantil e social misto de anarquia e ideais hippies. O fragor de uma bela utopia. Mesmo porque os comunistas – que com seu tradicional conservadorismo, nunca entenderam que a verdadeira revolução inclui a revolução comportamental – preferiram – para sorte do governo – a ordem burguesa à nova ordem dos revolucionários de Maio de 68. Sim, um sonho de primavera. Embora houvesse conquistas essenciais para a história do Ocidente, tais como, entre outras, a liberação sexual, as grandes reformas universitárias, os direitos da mulher, das minorias étnicas, religiosas e sexuais e um novo comportamento de todos os jovens do mundo. A esquerda ortodoxa achou pouco, politicamente falando, diante da proporção do que começou com greves e acabou com insurreição. Quarenta anos depois, com as conquistas consolidadas, restou mais do que nada nostalgia. Não só a nostalgia do tesão revolucionário para “nós que amávamos tanto a revolução”, mas a nostalgia de um ideal. Um ideal? Que coisa démodée, não é? Talvez tão ultrapassada quanto a dignidade. E eis a questão. Pois se, de certo modo, celebro Maio de 68, não é tanto pelo fato de algo que poderia ter sido, ter deixado logo de ser – ou, sob um determinado enfoque, não ter chegado a ser. Ou porque pertencendo à geração de Maio de 68, e como soixante-huitard (o equivalente, “sessenta-e-oiteiro”, não existe em português) convicto não poderia evitar de deixar pingar um pouco de saudade da juventude, não só rebelde, mas politicamente consciente. O motivo da celebração da primavera de 68 se deve ao vácuo que se instalou, depois, substituindo o ideal. Em verdade, o que me faz olhar para trás não é o tempo perdido em si. Mas o presente, esse horror cotidiano que nos é impingido, suavemente, de forma latente, mas, no fundo, perversa, sórdida e, sobretudo, com um brilho que ofusca os idiotas e que, para aqueles que têm consciência, causa náusea e revolta. Refiro-me à globalização e a seu séqüito de falsos valores e degradação. A globalização incentiva o mais abjeto, vil e escabroso aspecto da condição humana: a cobiça. Promovendo assim a corrupção, a miséria e a inevitável violência que dela decorre e desencadeando, no processo acumulativo de dinheiro e poder, todas as mazelas que assolam o Planeta e que o levam à destruição. E esse processo de destruição, incluindo a ambiental, é conduzido com o mais desbragado cinismo. Assim, já não se trata unicamente da ruína dos valores éticos, morais, intelectuais, humanistas que, com algumas variantes, guiaram todas as culturas da Terra. Não. Trata-se simplesmente de um sistema que, não só não traz nenhum benefício (a não ser às grandes corporações e a uma parcela ínfima da população), mas destrói, literalmente falando, a civilização. Logo, por que deveríamos ter qualquer tipo de escrúpulos quanto aos meios de eliminar a globalização? Metaforicamente falando, guerra é guerra. E se a guerra é deflagrada, é necessário defender-se do inimigo. Em suma, deve haver um modo de destruir esse fascismo disfarçado de consumo, esse totalitarismo adocicado para melhor engolir, essa violência que nos é imposta – em nome do dinheiro e da competição – diariamente, de maneira camuflada para que aceitemos pacificamente, como verdadeiros imbecis, uma total falta de opção, já que só temos uma ilusória liberdade de fachada. A globalização é a antítese da democracia. Acrescente-se a esse admirável sistema reacionário e decadente – que não hesita, como Hitler, a lançar suas hordas para invadir os paises cobiçados – a inércia, a flacidez, o conformismo ou a cegueira da maioria silenciosa que se limita a encolher os ombros e a dizer que não existe alternativa. Que não há remédio. E os famigerados defensores da globalização alegam que é um processo irreversível. E se esquecem, estupidamente, de que, sob certos aspectos, a História não conhece nenhum processo irreversível. E se esquecem também de que o Terceiro Reich afirmava mais ou menos a mesma coisa. Que era irreversível e que duraria mil anos. Durou apenas doze anos (1933-1945). O próprio império norte-americano já está dando sinais de esgotamento e desgaste. E a União Européia está questionando os efeitos colaterais da globalização e tentando reformulá-la. Logo, diante da sordidez, da perversão, da ditadura da globalização, não posso me impedir de sentir saudade das barricadas, dos milhões de pessoas nas ruas contestando a ordem estabelecida, da paralisação de uma nação. Em suma, de Maio de 68. Há sempre dignidade na postura do Não, Basta! Mesmo que seja necessário atingir o caos para recomeçar. Para renovar, o que equivale a dizer: para continuar. A aceitação pode ser válida, talvez, do ponto de vista de um inelutável drama pessoal. Mas nunca política e socialmente falando. Águas estagnadas fedem.

R. Roldan-Roldan é escritor
http:/roldan.vila.bol.com.br

Artigo publicado pelo jornal “Correio Popular” de Campinas a 4 de maio de 2008

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2 Respostas to “Viva Maio de 68!”


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