A Violência da Abstinência Sexual

O recente debate (na realidade não houve debate) sobre o aborto durante as eleições não poderia deixar de fazer pensar em outro tabu, no fundo indiretamente relacionado com o mesmo tema: o sexo. Se, por um lado, determinados setores da sociedade brasileira são excessivamente permissivos (sobretudo quando há dinheiro em jogo), por outro lado, há os reacionários que parecem querer perpetuar a Idade Média ou, melhor, a época bíblica.  Refiro-me especificamente aqueles que pregam a aberrante e perniciosa prática da abstinência sexual. Esses líderes, falsamente espirituais, que pregam a abstinência sexual deveriam ser processados e condenados pela justiça por incitação à violência.  De fato, esses líderes, sejam evangélicos, católicos ou islâmicos não estão prestando nenhuma assistência espiritual à comunidade. Muito pelo contrário. Eles estão fomentando a violência – sem contar que promovem a ignorância e o fanatismo – por meio da repressão sexual. Porque  sexo reprimido faz mal à saúde psíquica, logo à física. E, por extensão, à espiritual. Exatamente como se privar de comer ou dormir. O ser que não satisfaz plenamente essa necessidade fisiológica se torna desequilibrado, agressivo, violento. A menos que, submetido à lobotomia da religião, se anule para virar um títere apto para a total manipulação. Há nessa indução à abstinência sexual algo mórbido.  Repulsivo, como tudo o que não é natural. Contaminado, que fede à degradação da mente. Algo decomposto que se opõe ao estado solar, salutar, equilibrado, generoso do sexo realizado. Neste sentido, os nossos índios eram infinitamente mais sábios e avançados, lúcidos e naturais, do que as hordas de brancos que aportaram nestas terras com sua morbidez de culpa judaico-cristã. Há uma profanação nessa pregação da abstinência sexual. Uma profanação contra as leis sagradas da Natureza. Uma violência contra o próprio corpo e contra a sociedade. É claro que a História prova que a repressão sexual é um modo de controle social. Já que, obviamente, o sexo liberta, o que não interessa a nenhum sistema totalitário. Com exceção do famigerado neoliberalismo, que conseguiu transformar essa libertação sexual em simples e pura comercialização do sexo. O que não deixa de ser uma atitude consumista (logo, fascista) disfarçada de tolerância democrática. As religiões, como instituições, visam ao poder e dinheiro (como qualquer corporação, já que elas não passam de imorais indústrias lucrativas de Deus) e sempre seguiram as pegadas dos regimes totalitários, impondo dogmas e cerceando a liberdade e o livre pensamento do indivíduo. Ou seja, o que elas querem, como qualquer sistema fascista, é: seja ignorante, seja gado, obedeça e não pense. Em outras palavras, impedem a dúvida (que é um sinal incontestável de inteligência) e o desenvolvimento intelectual do cidadão.

Mas, voltando ao sexo, as crianças deveriam receber educação sexual obrigatória desde o maternal. E, evidentemente, educação ética, política e social desde a primeira série. Isso seria mais lógico, saudável e inteligente do fomentar nos pequenos a pobreza intelectual das superstições. Em tempo: a religião nada tem a ver com Deus. É mister ser muito bitolado para associar uma coisa com a outra. A religião é um instrumento de domínio criado pelo homem. Deus é uma abstração que está – ou não – dentro da pessoa e que requer uma certa superioridade espiritual para detectá-lo. E, obviamente, a verdadeira religiosidade (ou elevação espiritual) não está em algo tão oportunista, manipulador e cínico quanto a religião, mas na espiritualidade. Ou, mais claramente, na espiritualização da existência. Para tornar essa existência vida.

12-10-10

R.Roldan-Roldan é escritor

 

Publicado no jornal “Correio Popular” de Campinas a

26 de outubro de 2010