A VIOLÊNCIA DA ABSTINÊNCIA SEXUAL

novembro 6, 2010

A Violência da Abstinência Sexual

O recente debate (na realidade não houve debate) sobre o aborto durante as eleições não poderia deixar de fazer pensar em outro tabu, no fundo indiretamente relacionado com o mesmo tema: o sexo. Se, por um lado, determinados setores da sociedade brasileira são excessivamente permissivos (sobretudo quando há dinheiro em jogo), por outro lado, há os reacionários que parecem querer perpetuar a Idade Média ou, melhor, a época bíblica.  Refiro-me especificamente aqueles que pregam a aberrante e perniciosa prática da abstinência sexual. Esses líderes, falsamente espirituais, que pregam a abstinência sexual deveriam ser processados e condenados pela justiça por incitação à violência.  De fato, esses líderes, sejam evangélicos, católicos ou islâmicos não estão prestando nenhuma assistência espiritual à comunidade. Muito pelo contrário. Eles estão fomentando a violência – sem contar que promovem a ignorância e o fanatismo – por meio da repressão sexual. Porque  sexo reprimido faz mal à saúde psíquica, logo à física. E, por extensão, à espiritual. Exatamente como se privar de comer ou dormir. O ser que não satisfaz plenamente essa necessidade fisiológica se torna desequilibrado, agressivo, violento. A menos que, submetido à lobotomia da religião, se anule para virar um títere apto para a total manipulação. Há nessa indução à abstinência sexual algo mórbido.  Repulsivo, como tudo o que não é natural. Contaminado, que fede à degradação da mente. Algo decomposto que se opõe ao estado solar, salutar, equilibrado, generoso do sexo realizado. Neste sentido, os nossos índios eram infinitamente mais sábios e avançados, lúcidos e naturais, do que as hordas de brancos que aportaram nestas terras com sua morbidez de culpa judaico-cristã. Há uma profanação nessa pregação da abstinência sexual. Uma profanação contra as leis sagradas da Natureza. Uma violência contra o próprio corpo e contra a sociedade. É claro que a História prova que a repressão sexual é um modo de controle social. Já que, obviamente, o sexo liberta, o que não interessa a nenhum sistema totalitário. Com exceção do famigerado neoliberalismo, que conseguiu transformar essa libertação sexual em simples e pura comercialização do sexo. O que não deixa de ser uma atitude consumista (logo, fascista) disfarçada de tolerância democrática. As religiões, como instituições, visam ao poder e dinheiro (como qualquer corporação, já que elas não passam de imorais indústrias lucrativas de Deus) e sempre seguiram as pegadas dos regimes totalitários, impondo dogmas e cerceando a liberdade e o livre pensamento do indivíduo. Ou seja, o que elas querem, como qualquer sistema fascista, é: seja ignorante, seja gado, obedeça e não pense. Em outras palavras, impedem a dúvida (que é um sinal incontestável de inteligência) e o desenvolvimento intelectual do cidadão.

Mas, voltando ao sexo, as crianças deveriam receber educação sexual obrigatória desde o maternal. E, evidentemente, educação ética, política e social desde a primeira série. Isso seria mais lógico, saudável e inteligente do fomentar nos pequenos a pobreza intelectual das superstições. Em tempo: a religião nada tem a ver com Deus. É mister ser muito bitolado para associar uma coisa com a outra. A religião é um instrumento de domínio criado pelo homem. Deus é uma abstração que está – ou não – dentro da pessoa e que requer uma certa superioridade espiritual para detectá-lo. E, obviamente, a verdadeira religiosidade (ou elevação espiritual) não está em algo tão oportunista, manipulador e cínico quanto a religião, mas na espiritualidade. Ou, mais claramente, na espiritualização da existência. Para tornar essa existência vida.

12-10-10

R.Roldan-Roldan é escritor

 

Publicado no jornal “Correio Popular” de Campinas a

26 de outubro de 2010

 

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6 Respostas to “A VIOLÊNCIA DA ABSTINÊNCIA SEXUAL”

  1. Rafael Roldan Says:

    Quem deveria ser processada é a Natureza, que fez tanta gente feia, que não consegue sexo nem com guarda-chuva!!!!!

    Concordo. O lance é o caminho do meio: nem a repressão nem o consumo do sexo.

    Por outro lado, às vezes é importante uma certa economia da energia sexual para outras finalidades, por pura questão fisiológica. No entanto, trata-se de um exercício temporário de vontade e aplicável apenas em certos momentos e para certas pessoas. É algo que não aleija. Pelo contrário, torna mais apetitoso o sexo, findo o período de abstinência.

    Não há religião que não tenha inventado seus mecanismos de controle das massas. A questão é: está o ser humano (sic) pronto para se libertar? O que aconteceria se todos se libertassem??

  2. Silvia H Rigatto Says:

    Pois é… O debate sobre o aborto se perdeu. Num país hipócrita é assim: as pessoas que gritam “somos contra o aborto” são as que o fazem às escondidas em clínicas com toda a condição de saúde, basta pagar. Mas “eu” não posso assumir publicamente minha simpatia pelo aborto: “o que vão pensar de mim”?!…
    Em contrapartida, às mulheres pobres restam tentativas de morte com agulhas de crochê ou algo do tipo que totaliza um milhao de mortas/ano. E claro, comentários: apenas o sexo desregrado é que leva a mulher ao aborto. Socorro!!!! Eu é quem estou ficando louca???!!
    Será que ninguém vê que o fundo dos argumentos são sempre moral e repressivo??!! E claro, “não façam sexo?!”
    O que quer a Igreja? Nos tornar perversos como a seus membros “celibatários” para que a humanidade saia bolinando crianças?!! Sexo não pode, aborto não pode, mas e sobre a pedofilia? Qual é senhores deuses na terra a opinião da Igreja? E a punição aos seus membros que praticam o abuso sexual infantil?
    Vamos conversar?! Fala sério!!!


    • ”Será que ninguém vê que o fundo dos argumentos são sempre moral e repressivo??!! E claro, “não façam sexo?!”
      O correto é: Para não abortar, se previna com métodos anticoncepcionais! A camisinha éo mais baratinho deles sabe, e é de graça no postinho. Quero mais é que todas as abortadoras morram dolorosamente com suas agulhas de croshe mesmo. Que absurdo! Causar essa dor ao um bebe inocente. Pode-se fazer de tudo no mundo, é só ter em mente, que a sua liberdade termina quando a de outro começa.

  3. Lygia Says:

    Acho que a abstinência sexual é apenas mais uma das privações a que podemos ser submetidos.
    A obrigação de estar em um local “de trabalho” durante determinado período de tempo, dia após dia, mesmo quando não há absolutamente nada para fazer, é uma privação gravíssima do que temos de mais valioso – o tempo!
    Diante das incontáveis privações a que estamos sujeitos, como é que não acontece uma revolta massiva? O que segura essa monumental energia de frustração represada?
    Nada segura. Mas acontece que essa energia se dissipa… A válvula de escape é o que Freud chamava de sublimação.

    Você participa do movimento Zeitgeist?
    Em me filiei há algum tempo, mas achei o nível de discussão muito superficial e até ingênuo em muitos aspectos… Então me afastei, mas permaneço acreditando que é um primeiro passo em outra direção.
    Se você ainda não conhece, Roldan, acho que vai gostar de conhecer – http://www.thezeitgeistmovement.com/.

    Beijo!


  4. Adorei o post =)

    dá uma olhada lá no meu blog, sempre posto coisas sobre religião, filosofia, ciência, mitos.. um blog pra fazer as pessoas gostarem de ter opinião própria!

    http://www.filosofiaem3minutos.wordpress.com


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