Roubar Legalmente

fevereiro 26, 2011

ROUBAR LEGALMENTE

Aposentadoria de ex-governadores

Nietzsche, em “Assim Falava Zaratustra”, diz que o Estado rouba. Nada mais verdadeiro. E, claro, existem muitas maneiras de roubar. Uma delas, indireta, é o Estado permitir que salafrários da laia política se outorguem ilicitamente certos benefícios pagos pelo Estado, logo, em detrimento dos contribuintes. Que são os que pagam os impostos. Benefícios não só imorais, mas que ferem a Constituição. Assim, nove Estados (AM, PA, PI, SE, CE, MA, PR, SC e RS) ainda continuam privilegiando, de modo escandaloso, os ex-governadores. Antes da Constituição de 1988, os governadores e suas honoráveis viúvas (coitadinhas, tão pobrezinhas!) recebiam pensão vitalícia. Algo inconcebível numa democracia que se preze. Depois de 1988 esses privilégios foram abolidos. Em termos, porque os ex-governadores, egressos de uma abominável cultura de tirar proveito a todo custo, sentindo-se injustiçados, criaram leis estaduais específicas ou obtiveram vitórias nos Tribunais de Justiça locais para reaver a regalia medieval. Pode? Claro que pode. Num país com vícios do período colonial, tudo é possível. E precisou de uma bem-vinda e decente ação da OAB que vai contestar, no STF, as leis de pelo menos nove Estados que concedem aposentadorias vitalícias a ex-governadores e às suas desoladas viúvas, para tentar acabar com a pouca vergonha dessas pensões que variam de R$ 10,5 mil a R$ 24,1 mil por mês. Enfim, uma indecência. A ponto de que no Ceará os ex-governadores do Estado ganham de aposentaria vitalícia quase o dobro do que ganha o atual governador. Bandido não é só aquele que assalta banco.  A título de referência e de comparação, o salário líquido do premiê israelense, Binyamin Netanyahu, é de R$ 7 mil. Um exemplo para o Brasil.

Passaporte Diplomático

Os parlamentares e suas mulheres, maridos e filhos usam o passaporte diplomático para turismo. Por que não requerem esse privilégio também para os irmãos, primos, sogros e cunhados? A vaca leiteira governamental tudo pode. Cerca de 87% dos vistos internacionais emitidos para esses documentos foram como objetivo turístico. O negócio dessa laia é tirar vantagem de tudo e usar o patrimônio público em benefício próprio.

A Diplomacia do Governo Dilma

Mas falemos de algo positivo. É louvável e coerente a posição da presidente Dilma em relação aos direitos humanos. Nada mais coerente vindo de alguém que lutou pelos direitos humanos durante a ditadura. E ainda bem que temos no comando uma ex-militante e ativista. E não um representante dessas oligarquias caducas que fedem a podre de tão corruptas. Ou um pupilo, obediente e eunuco, do Tio Sam, tipo Uribe. Neste ponto Dilma é mais coerente do que Lula que, em nome do famigerado pragmatismo neoliberal, se aproximou de regimes totalitários, fechando os olhos para a violação dos direitos humanos desses regimes que assassinam opositores.

As Chinchilas morrem no Brasil

Sim, as chinchilas morrem no Brasil. Um roedor tão bonito, tão simpático, tão dócil. As chinchilas morrem no Brasil. Aos milhares. O Brasil, um dos grandes exportadores, produz 70 mil peles de chinchila por ano. Um casaco de chinchila, à altura dos joelhos, requer 200 chinchilas. E custa até US$ 70 mil. A rigor, matar animais para alimentar-se, vai lá. Mas matar esses adoráveis bichinhos para satisfazer a vaidade de madames totalmente inúteis para a sociedade? É o cúmulo. É algo inadmissível. Essas vacas bípedes que costumam comprar casacos de peles de animais deveriam ser expostas, como animais, em praça pública. Completamente nuas. Em jaulas. Durante 48 horas no mínimo. Refeições e necessidades fisiológicas na própria jaula. Para que o público as visse. Quanto às indústrias que produzem peles de animais, deveriam ser incendiadas. Assim como os ateliês dos estilistas que criam modelos com peles de animais. O supra-sumo da frivolidade assassinando inocentes criaturas. Onde foram parar os direitos dos animais?

22-01-11

R.Roldan-Roldan é escritor

http://roldan.vila.bol.com.br

Publicado no jornal “Correio Popular” de Campinas a 02-02-2011

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AFRONTA AO POVO BRASILEIRO

fevereiro 7, 2011

A consciência de um país se avalia pelo grau de aceitação do povo perante a arbitrariedade de certas medidas do governo. A França inteira, por exemplo, foi às ruas e ficou paralisada pelos protestos contra a decisão do governo Sarkozy de mudar a aposentadoria de 60 para 62 anos. A dignidade e maturidade de um país se medem pela capacidade do povo de dizer não aos governantes quando estes assumem posições contrariam ao bem da maioria. É assim que se faz a História de uma nação. Ou seja, com atos, radicais (a História é radical) se for o caso, que evitem a estagnação do sistema e eliminem os privilégios de determinadas classes.

Infelizmente o Brasil desconhece essa consciência e essa dignidade específicas. Um exemplo da ausência dessas virtudes políticas é a passividade com que o País recebeu a notícia do aumento arbitrário dos senadores e deputados federais que estão entre os mais caros do mundo, num país onde o salário mínimo é pouco mais de R$ 500,00, o mais baixo da América Latina depois do Haiti. Uma desfaçatez. Uma vergonha. Uma ofensa ao povo brasileiro. Como disse o bispo emérito de Limoeiro (CE) D. Manuel Edmilson da Cruz – que recusou a Comenda de Direitos Humanos D. Hélder Câmara que lhe foi concedida pelo Congresso – referindo-se ao aumento abusivo de 61,83% aos parlamentares aprovado pelo Congresso: “um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão, ao contribuinte e a todos aqueles que contribuem com o trabalho, a dignidade e o suor do rosto”.

Para se ter uma idéia da desproporção, e de acordo com artigo publicado pelo jornal “O Estado de São Paulo”, com o salário de R$ 26.723,13 de um parlamentar dá para pagar 29 porteiros, 32 padeiros, 33 carregadores, 34 recepcionistas, 36 cozinheiros, 37 lixeiros, 38 garçons, 40 faxineiros, 44 empregadas domésticas, 47 profissionais do sexo. Ou 3 engenheiros, 5 advogados, 6 médicos, 7 gerentes, 8 bancários, 9 dentistas, 10 professores de escola técnica, 11 operários de montadoras de carros, 14 mecânicos, 15 professores do ensino médio, 17 professores do ensino fundamental, 20 auxiliares de enfermagem. Isso sem contar que um parlamentar recebe 15 salários por ano. Em nome de quê? Será que esses caras não têm escrúpulos? Não. Lixo não tem escrúpulos. Nem ética. E eu, como contribuinte brasileiro, não sou obrigado a sustentar esses vagabundos. Nem você, leitor.

Em outras palavras: puro fisiologismo da famigerada classe política. Ou seja, os políticos não se elegem para promover o bem-estar do povo. Não se elegem para ter como objetivo o interesse público. Mas apenas tendo em vista os ganhos, regalias, privilégios e vantagens pessoas. Sem mencionar as falcatruas e roubalheiras, claro. Evidentemente existem exceções. Erundina, por exemplo, faz parte do grupo de 35 parlamentares que se opôs a esse reajuste salarial.

Lamentavelmente o Senado não vai ser incendiado. Nem a Câmara. E os sindicatos, que não servem para o que deveriam servir, não vão conseguir (e nem sequer vão tentar) paralisar o País em sinal de protesto contra esse abuso. Aliás, os sindicatos são um trampolim para a carreira política que é o que lhes interessa. E o povo, não liderado, nutrido de futebol, carnaval e consumo, certamente não vai promover um civilizado (ou devo dizer salutar?) quebra-quebra como advertência a essa corja que elegemos. E, com certeza, esse povo tão pouco respeitado não vai boicotar as próximas eleições legislativas. Aliás, o amor pelo Brasil está muito longe das chamadas paixões nacionais, a saber: futebol, carnaval, cerveja e traseiro de mulata. O conceito de verdadeiro patriotismo e cidadania é outro.

R.Roldan-Roldan é escritor
http://roldan.vila.bol.com.br
23-12-10

Publicado no jornal “Correio Popular” a 5 de janeiro de 2011