Presidente não Tem Religião

março 22, 2011

Cobrou-se da presidente Dilma Rousseff uma religião. Em palavras mais explícitas: qual é sua religião? Cobrança não só ridícula. Mas fascista. Um(a) presidente não tem religião. O Brasil é um país laico onde a religião é separada do Estado. Logo, Dilma Rousseff pode frequentar uma igreja católica. Ou ortodoxa – como a família do pai. Ou protestante. Ou evangélica. Ou uma sinagoga. Ou uma mesquita. Ou um centro espírita. Ou um terreiro de candomblé. Pode ter – como qualquer cidadão de um país democrático – a religião que quiser. Mas, claro, na privacidade. Mesmo porque não existe religião oficial no Brasil. E quem não estiver satisfeito com isso, que vá  morar no Irã que é um paraíso teocrático onde tudo é regido pela religião. A presidente pode até não ter religião. Um direito que ela tem de não ter religião. Pode até ser ateia. Um direito que ela tem num país livre. E que nenhum imbecil venha me dizer: ateia, que horror! Isso é coisa do Diabo! Mesmo porque um ateu – dialeticamente ateu – via de regra, para provar que ele não precisa de muletas teocráticas, tem uma ética, uma moral e um comportamento superiores à grande maioria daqueles que professam uma religião. O grande Saramago é um exemplo disso. E quero deixar claro que não estou fazendo a apologia do ateísmo. Como certamente não faria a do cristianismo. Nem do a judaísmo. Nem a do islamismo. Não suporto proselitismo. Seja religioso ou ideológico. Sou apenas um homem livre. Livre na acepção mais profunda do termo. Ou livre-pensador, como se dizia antigamente. E tenho um profundo orgulho de assim ter sido educado pelo meu pai. E como homem livre, ou livre-pensador, sou a favor do multipluralismo, do multiculturalismo e, claro, da tolerância em relação às minorias. Não fico em cima do muro. Como fica a maioria dos chamados intelectuais. Pronuncio-me. Que é o dever moral de todo escritor – em vez de ficar escrevendo baboseiras ou filigranas estilísticas alienadas. E não deixou de expressar a minha indignação contra aqueles que apontam com o dedo as minorias. Essas minorias pelas quais sinto solidariedade, simpatia, compaixão. Sejam negros. Índios. Judeus. Ciganos. Homossexuais. Ou deficientes. Ou a mulher – embora ela não seja uma minoria. Essas minorias que foram massacradas durante séculos. Porque incomodavam. Porque assustavam. Porque eram diferentes. Porque ameaçavam a suposta estabilidade da maioria. Essa maioria que borra as calças quando surge qualquer ser ou situação que desafie os pobres padrões estabelecidos pelos interesses. Sim, no fundo, apenas pelos interesses. Pois tudo é interesse neste mundo. E sempre foi. Historicamente falando, é um fato. E isso já foi dito em outras palavras. O ser humano é basicamente conservador porque se apega vorazmente aos interesses criados. Sim, essa maioria (ou suposta representante da maioria) que crucificou Cristo. Porque ele ousou. Que queimou Joana d´Arc. Porque ela ousou. Que esquartejou Tiradentes. Porque ele ousou. Que queimou Giordano Bruno. Porque ele ousou. Que eletrocutou Sacco e Vanzetti. Porque eles ousaram (apenas serem anarquistas). Essa maioria miserável – jamais aflorada pela magnanimidade – tão manipulada pela elite perversa detentora do poder.    
Mas, voltando à nossa presidente, deixemos, pois, a Dilma com seu Deus ou deuses, ou orixás, ou espíritos. O que importa certamente não é a quem ela dirige suas preces, como tampouco importa sua vida privada. O que importa é apenas seu desempenho como líder do País. E friso que ninguém tem nada a ver com a vida privada de um estadista porque, como temos a mania estúpida de imitar os norte-americanos, até nas coisas mais ridículas, somos capazes de estabelecer padrões sistemáticos de invasão da privacidade semelhantes aos que existem nos Estados Unidos. Um exemplo disso foi o “escândalo” Lewinsky. Que só interessava ao casal Clinton e à espertinha da Monica. E que uma sociedade de fariseus, de filisteus, provinciana, moralista e hipócrita, transformou em excelente negócio da mídia de modo absolutamente vulgar. Todo o oposto da lógica e da classe (repito: da classe) de Danielle Mitterand que convidou a amante (ligação de mais de vinte anos e que a França inteira conhecia) do marido para o funeral do mesmo. Cosmopolitismo está para classe assim com provincianismo está para vulgaridade.
17-02-2011

R.Roldan-Roldan é escritor – http://www.davidhaize.wordpress.com

Publicado no jornal “Correio Popular” de Campinas a 2 de março de 2011

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Uma resposta to “Presidente não Tem Religião”

  1. Lygia Says:

    Enquanto o senso comum apregoa que “religião não se discute”, o que há de mais comum é o desrespeito à escolha religiosa. Cada religião se coloca como o melhor e mais curto caminho para o criador, procurando simultaneamente evidenciar a inadequação das outras religiões, não raro de forma pejorativa.
    Em nome da fé e de dogmas religiosos, houve (e há) guerra, terrorismo, inquisição…
    As instituições religiosas que conhecemos, tão caras para o controle e manutenção da paz social e do status quo do Estado há milênios, são provas cabais de que vivemos na pré-história da inteligência humana. Não fosse assim, não haveria necessidade de intermediários entre a criatura e o seu criador.
    Sobre a sra. presidente (que se elegeu “graças a Deus”, engolindo sua própria posição pessoal na questão do aborto, por exemplo, para não bater de frente com certos aliados), não tenho nada a declarar.


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