Bruna, A P… Endeusada

abril 11, 2011

Bruna, a P… Endeusada

 

Nada tenho, em princípio, contra a prostituição do corpo. Porque bancaria eu o puritano debiloide se a sociedade é basicamente prostituta? Mercenária e prostituta, principalmente no paraíso neoliberal, com sua voracidade patológica, onde tudo se vende, desde o amigo até pai, mãe, filhos e mesmo Deus. Não existe diferença fundamental entre oferecer os serviços (ou favores) do corpo e outros tipos de serviços (ou favores) em troca de dinheiro. Inclusive é bom frisar que a prostituição profissional (os alpinistas sociais sem ética no afã de subir na vida), ideológica (a esquerda com discurso e comportamento divergentes, ou seja, usufruindo as delícias do neoliberalismo)  e religiosa (que ganha dinheiro com a palavra de Deus), são infinitamente mais graves, perniciosas e degradantes do que a prostituição do corpo. O corpo se lava. A alma não se lava. Durante séculos, a sociedade ocidental esvaziou todos os seus pecados no esgoto preparado pelo poder para o sexo. E até hoje continua tão atrasada que não percebeu (ou foi incapaz de romper tabus) que o crime sexual (seja estupro ou pedofilia) é absolutamente menos grave do que o crime ecológico que põe em risco o Planeta e toda a humanidade.

Mas em verdade não estou hoje aqui para condenar a prostituição. Mas para abordar não só a ignorância. Mas a perversidade generalizada de um sistema que faz questão de que seus cidadãos sejam alienados. E ignorantes, claro. Quanto menos pense o povo, quanto menos instruído, mais manipulado é. E chegamos onde quero. O recente lançamento do filme “Bruna Surfistinha”, de Marcus Baldini, baseado nos relatos intitulados “O Doce Veneno do Escorpião”, de Raquel Pacheco, nos (e digo nos porque nem todos somos alienados ou imbecis) leva a constatar, mais uma vez, o quanto uma sociedade cheia de tabus e preconceitos como a brasileira é permissiva. Uma contradição, sem dúvida. Mas é um fato. E esse fato se deve ao fenômeno da mídia que tão bem se dá com as diretrizes do sistema vigente, que nunca deixou de bajular. Ou seja, se lixo vende, vendamos lixo. Isso mesmo. Vamos impingir lixo. Que a massa devora lixo. O livro de Raquel Pacheco é um livrinho ameno, consumível, raso. Que não diz nada. E que se esquece facilmente. O livro, porém, não é moralista. Só faltava isso. Bruna/Raquel, filha de classe social alta, se prostitui porque gosta. Estamos longe da pobre garota do interior que chega à cidade grande e, pressionada pela falta de dinheiro e até pela fome, se “perde”. Bruna/Raquel se “perde” por optar por esse caminho. Uma opção. Como outra qualquer. O filme, fiel ao livro, segue a mesma linha. Não é ruim. Tem fluência narrativa e boas interpretações e prende a atenção. O diretor Marcus Baldini deixou claro que tinha como objetivo um produto comercial. Como o livro. Nada é contundente no filme. Não há grandes voos. Nem grandes mergulhos. Pasteurizado, hollywoodiano, diz que a prostituição pode dar certo. E torna a protagonista a grande meretriz nacional. E está tendo público. Muito. Até aí tudo bem. O que espanta, porém, é a máquina da mídia. Que transformou Bruna Surfistinha na mais famosa vagina pública da história do País. Em suma, numa deusa. E para alguns idiotas, numa heroína, numa sofredora. Que mistificação! Nada mais falso. A Surfistinha é, ante de tudo, uma excelente mulher de negócios. Como recomenda o sistema, matriz de prostitutas e prostitutos em todos os sentidos. Com senso inato de marketing. Seu “Doce Veneno…” vendeu 250 mil exemplares e foi traduzido para 15 idiomas. E o filme está virando um blockbuster. Mitos chulos. Pobres. Baratos. Mitos de botox e silicone. Excrementos com glacê. Sinal dos tempos. Destes tempos famélicos onde prevalece o mau gosto. O grotesco, como o BBB, suprassumo da cretinice (se pelo menos fosse divertido, mas é maçante ao extremo). Onde impera a vulgaridade da turba. O achatamento cultural. Onde se instaura oficialmente o lixo cultural. Onde os demagogos (no fundo fascistas) alegam que é isso o que o povo quer. Que fraude cultural! Como se o sistema, de modo sub-reptício, não impusesse ao povo o que ele (o sistema) quer que o povo consuma. Em outras palavras já ditas: seja ignorante, consuma m… e cale-se.

 

28-03-2011

 

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

 

Publicado no jornal “Correio Popular” de Campinas a 6 de abril de 2011

 

 

 

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