Ao Japão, com Admiração

julho 4, 2011

 

         Há pessoas que nos cativam pela sua elegância ética. Pela sua classe moral. Pela sua postura digna. Há pessoas que nos impõem o reconhecimento do respeito. E perante as quais inclinamos a cabeça em sinal de admiração. Do mesmo modo, há paises que nos causam idêntico efeito. Ou, melhor dito, culturas – e deixo bem claro que não digo etnias, mas culturas. Já que não existem etnias superiores a outras. Mas existem culturas superiores a outras. Obviamente não me refiro a culturas de massa de nouveaux riches, com o que isso implica de vulgaridade. Ou seja, de culturas descartáveis, feitas de lixo com curto prazo de validade. Culturas provenientes de paises econômica e militarmente poderosos, como os E.U.A. Refiro-me a algo espiritualmente mais sofisticado. Ao Japão especificamente. E, como cinéfilo, não faço alusão aos cineastas Ozu, Mizoguchi, Shindo, Kurosawa, Kobayashi, Yamada ou Oshima. Ou seja, ao Japão que teve uma das melhores cinematografias do mundo nos anos 1950/60. Nem faço alusão aos escritores Kawabata, Oe ou Mishima. Nem às pinturas de Katsushika Hokusai, Mistsuoki Tosa ou Tsuguharu Fujita, e outros clássicos onde o espaço vazio sugere a vastidão do não dito, do metafísico, do Absoluto latente. Nem ao teatro kabuki. Nem ao teatro nô. Nem a uma grande atriz como Nobuko Otowa. Nem ao límpido despojamento dos interiores japoneses, em contraste com os interiores ocidentais, tão abarrotados de coisas inúteis. Nem ao jardim de areia, tão propício à contemplação, a mais bela, profunda e transcendente concepção de estética de paisagismo do Planeta. Como tampouco faço alusão à plasticidade do Monte Fuji, do Buda de Kamakura, do Pavilhão Dourado de Kyoto ou do templo Hoodo de Byodoin. Nem à deliciosa culinária japonesa.

Refiro-me a um pequeno (aliás, tão grande) detalhe que corrobora a minha admiração pelo país do Sol Nascente. Existe um grau tão elevado de honestidade, de ética, portanto de honra (e nisso se poderia dizer que é único no mundo), que depois da tragédia do terremoto e do tsunami não houve nenhum saque na nação nipônica. Que a ordem foi mantida na desgraça. Que nenhum caos foi provocado pelos sobreviventes. Que dignidade na dor. Não é de se surpreender que no Japão ninguém se aposse de um objeto esquecido numa estação de metrô, de trem ou num aeroporto. A não ser que alguém o pegue para entregá-lo à seção de achados e perdidos.

Sim, claro. Alguém pode alegar que este meu artigo é um tanto tendencioso. Que estou idealizando um povo que, como todos, tem seus defeitos. Que a minha visão é unilateral. Que o Japão cometeu atrocidades durante a 2ª Guerra Mundial. Mas que país não as cometeu ao longo da História? Os ingleses cometeram atrocidades. E os franceses. E os espanhóis. E os portugueses. E os russos. E os chineses. E os árabes. E os turcos. E os mongóis. Sem falar dos norte-americanos – que ainda cometem. Pode-se alegar que o Japão é racista. E que país não o é? Por acaso o Brasil não é racista em relação ao negro e ao nordestino? Pode-se alegar que o Japão ainda não pediu desculpas à China pelos massacres cometidos. Mas por acaso os E.U.A. pediram desculpas pelas bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki? Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra. Pode-se alegar que o Japão é terrivelmente consumista. Porventura o Brasil (o 2° país das Américas consumidor de produtos de luxo) não o é? Pode-se invocar a alta taxa de suicídios no Japão. Bem, o conceito de suicídio no hinduismo/budismo difere totalmente daquele do cristianismo. Além do mais, pena que essa taxa não aumente entre os nossos políticos corruptos quando ficam evidentes, expostas e confirmadas sua corrupção, suas fraudes, suas falcatruas. Um suicídio vez por outra não faria mal à classe parasita dos políticos para resgatar a honra (existe isso entre essa escória?). E então se poderia afirmar que a classe política, redimida, também vai ao paraíso. Pelo menos de vez em quando. Nem que seja para limpar as latrinas dos santos.

E por falar de políticos – esses tiradores de proveito de estatura moral raquítica – é de pasmar a proposta de dar o nome de Orestes Quércia ao aeroporto de Viracopos. O que é isso? Bajulação ou cretinice? Mas que absurdo! Que petulância! O que o iluminado autor da proposta pensa? Que o povo campineiro é idiota?

 

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

 

27-04-2011

 

Publicado dia 4 de maio de 2011 no jornal “Correio Popular” de Campinas

 

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Uma resposta to “Ao Japão, com Admiração”

  1. Lygia Says:

    Em diversas ocasiões e conversando com as mulheres japoneses, constatei que o machismo é um traço indelével daquela cultura.
    Me lembro que fotografava para um jornal nipobrasileiro. A matéria era sobre a construção das quadras de tenis do clube japones da cidade numa espécie de regime de mutirão (kaikan). Para conseguir um ângulo melhor, fui até um local mais alto. Quando me viu ali, a repórter do jornal quase enfartou! Eu estava na arena de sumô. Mulheres são consideradas impuras e o simples fato de tocarem com os pés na arena sagrada, implica em inutilizar o espaço. Teriam que purificar a arena com sal grosso e uma série de rituais…
    Há, sem dúvida, notas admiráveis na cultura japonesa. Contudo, é crescente a recusa das novas gerações em compactuar com certos valores tradicionais que limitam o indivíduo e o submetem a um destino massacrante e previsível.
    Com relação a mudar o nome do aeroporto de Viracopos, acho que faz sentido: o nome proposto combinaria em gênero, número e grau com o cenário de corrupção e oportunismo da política municipal! (E depois, quem sabe, mudar o nome do largo do Rosário para Praça Dr. Hélio de Oliveira Santos…)


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