Réquiem Pela Língua Portuguesa

julho 10, 2011

Para que serve o MEC? Para contribuir com a degradação de língua portuguesa ao longo dos anos? Para desembocar na total avacalhação do idioma português? Para levar o Brasil ao vexame de ter um dos piores ensinos do mundo no ranking mundial? Não é uma vergonha que uma potência emergente tenha 50% da população semianalfabeta? Porque os tão decantados 10% (aproximadamente) de analfabetos são estatística para inglês ver. Ou seja, consideram alfabetizados aqueles que conseguem assinar seu nome. Será que o governo (especificamente o MEC), não se dá conta que a língua portuguesa é, não só um patrimônio brasileiro, mas um símbolo nacional? Será que esses inúteis do Planalto que só visam a se enriquecer na carreira política não percebem que, como símbolo nacional, o português está no mesmo nível da bandeira e do hino nacionais? Logo, a cartilha “Por Uma Vida Melhor”, adotada pelo MEC e distribuída em mais de 4000 escolas, equivale a defecar em praça pública e a limpar-se o ânus com a bandeira nacional. Ou será que, já que tudo, absolutamente tudo (menos os genes) é político, devemos atribuir a adoção desse lixo de cartilha (supostamente para “integrar” o povo – não é assim que se elimina a desigualdade social), ao latente objetivo, de maquiavélica (literalmente) perversidade, de manter o povo ignorante para melhor subjugá-lo? Manter um país na ignorância é uma estratégia milenar de controlar, indiretamente, todo tipo de informação, de acesso ao conhecimento e, em última instância, de camuflar uma ditadura sob a aparência de democracia. Os países árabes, com alto índice de analfabetismo, são um exemplo desse procedimento. Só existe um único país árabe que não esteja sob uma ditadura: o Líbano – embora tenha uma democracia meio capenga. E quando digo árabe, não digo islâmico, que são coisas diferentes.

Mas, voltando à famigerada cartilha, o que mais deixa perplexo qualquer cidadão consciente e honesto, não é o fato de um bajulador (ou arrivista de esquerda, ou imbecil) ter escrito a cartilha, o que espanta é um órgão oficial ter adotado semelhante lixo. Como acreditar na idoneidade desses órgãos oficiais? Como crer na honestidade de tudo o que vem daqueles que detêm o poder? O Brasil não é um país sério, dizia De Gaulle 50 anos atrás. E continua não sendo sério. Mas, pensando bem, em última análise, não é só uma questão de seriedade. Mas uma questão de amor. Sim, de amor. De amor e respeito por aquilo que é nosso. E a língua portuguesa – embora trazida pelo colonizador – é genuinamente nossa, já que a Nação não fala tupi-guarani, como deveria. Nossa, como a bandeira e o hino nacionais. No fundo, essa falta de amor talvez esteja relacionada com o processo inconcluso de identidade nacional. E que não me venham argumentar, os aproveitadores ávidos de poder, que o bom português é algo de burguês. Não é por aí, não. Isso é coisa da esquerda oportunista, alpinista (ou festiva como se dizia antes) que nada tem a ver com a esquerda autêntica, honesta, íntegra e, principalmente, coerente.  Um bom socialista não se vende. E o bom socialista não pode se esquecer de que as teorias de esquerda também devem ser renovadas – mesmo porque o mundo e a História são dinâmicos – sem que isso deva ser tachado de revisionismo. A cultura é um patrimônio da humanidade. E tem de ser preservada e levada até o povão. E não destruída sob pretexto de que pertence a uma elite. Em outras palavras: não se deve deixar que o povo permaneça estagnado na ignorância – o que é uma atitude absolutamente demagógica e fascista. Mas de elevar seu nível de cultura.

Em suma instaurar os “nós vai”, “dez real”, “cinco mulher” ou “dá pra eu” é uma absoluta regressão. Que só pode provir de retrógradas. Que cheira a resquício de revolução cultural maoísta barata. Que aprofunda definitivamente a nossa miséria cultural. E isso não quer dizer que eu esteja sugerindo usar verbalmente os “dá-mo”, “ver-te-ei” ou “diga-lho”. Ou a linguagem rançosa do Direito. Apenas creio que se deve falar um português correto. Claro. Limpo. Icástico.

Pobre língua de Sá-Carneiro, Pessoa, Quental, Bandeira, Murilo Mendes. Orides Fontela – para citar só poetas. Pobre língua nossa. Réquiem pela língua portuguesa do Brasil. Professores queimem a cartilha em praça pública e apedrejem o MEC!

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

23-05-2011

Publicado pelo jornal “Correio Popular” de Campinas a 1° de junho de 2011

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2 Respostas to “Réquiem Pela Língua Portuguesa”

  1. Lygia Says:

    Sim, Roldan, essa cartilha foi um equívoco. Uma coisa é o conceito corrente entre os linguistas de que o erro não existe – o idioma é dinâmico e incorpora as variações como evoluções na linguagem (tal como aconteceu com vossa mercê > vósmecê > você) ; outra coisa bem diferente é apresentar esse conceito antes de fixar muito bem as regras, dando a impressão de que vale tudo e causando no aluno a suspeita de que esforçar-se para aprender aquilo será inútil.
    Acho que as doutas cabeças que formularam essa cartilha não tem vivência no mundo real… Perderam a noção do quanto a educação de base precisa ser uma via para solução de problemas reais.
    Se me ouvissem dizendo isso, me acusariam de querer uma educação funcionalista. Pois acho que a educação tem que ser funcional e também lúdica o suficiente para que torne-se um prazer. Educação como mera obrigação é o caminho seguro para a mediocridade e a cultura rasa.

  2. tatella Says:

    Na tal cartilha, coisas como “dá pra mim fazer agora mesmo” e eu continuo com mim vai, mim veio… também está estabelecido como correto? E sair pra fora, entrar pra dentr, subir lá em cima e descer pra baixo – corretos também?


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