Réquiem Pela Língua Portuguesa 2

julho 12, 2011

Réquiem pela Língua Portuguesa 2

 

         Pobre língua portuguesa do Brasil. Como se não bastasse a adoção pelo MEC da famigerada cartilha Por Uma Vida Melhor, da qual se deduz que o povo brasileiro deve permanecer na ignorância, temos, por parte de um determinado setor da sociedade, a invasão da língua portuguesa pela inglesa. Poderia dizer que à estupidez daqueles que preconizam a ignorância escrita e falada se soma a frescura irritante de outra parcela da sociedade que salpica “graciosamente” seu vocabulário de palavras inglesas (especificamente norte-americanas) para parecer chique, moderna, culta. Quando na realidade essa atitude é brega, atrasada historicamente e, em última instância, ignorante. Sem contar que fede a ranço colonialista com o devido verniz da globalização. E aí entra uma pequena ressalva. Sou, pelo meu histórico de vida, cosmopolita e internacionalista, ou seja, nada nacionalista. Logo, preservar a nossa língua não tem nada de xenofobia. É óbvio que a língua é dinâmica. Logo, é normal que um idioma incorpore vocábulos estrangeiros e neologismos. Senão estaríamos ainda falando latim. Mas chegar ao extremo aonde chegamos, é outra coisa. Em outras palavras, adotar termos estrangeiros que nossa língua não tem, tudo bem, enriquece o idioma. O que é inadmissível é simplesmente substituir palavras que existem em português pelas correspondentes em inglês. E isso para parecer atualizado. Em verdade, atualizado em cafonice.

São inúmeras as palavras que vemos diariamente em jornais, revistas, internet, cartazes ou que ouvimos na televisão. Palavras como mix, em vez de mistura ou mescla. Trip, em vez de viagem. Cool, em vez de frio. Light, em vez de leve. Sales, em vez de promoção. Off, em vez de desconto. Outdoor, em vez de cartaz.  Delivery, em vez de entrega. Fashion, em vez de moda. E assim por diante. É tão cretino esse afã de mostrar conhecimento de inglês que acaba distorcendo a gramática portuguesa. Os pronomes relativos são degolados. Por exemplo: a loja que eu compro, em lugar de a loja onde eu compro. As preposições então são enviadas às câmaras de gás. Exemplos. Voe TAM, em lugar de voe pela TAM – puro anglicismo. Assisti um filme, em lugar de assisti a um filme. O verbo captar aparentemente caiu em desuso. Já não se diz captar o sentido, a imagem, mas capturar o sentido, a imagem – puro anglicismo. Já não se diz ele se suicidou, mas ele cometeu suicídio – puro anglicismo. Isso sem falar do abuso do gerúndio: amanhã estarei enviando – puro anglicismo. Em breve, as subordinadas vão desaparecer porque é mais prático (o inglês, sem dúvida, é uma língua prática), e vamos passar a dizer: a mulher eu amo em vez de a mulher que eu amo. Em suma, tudo isso, além de deplorável, é ridículo. Grotesco. Caricatural. E, em última análise, vulgar. Já que toda imitação é vulgar. Tudo o que não seja autêntico é vulgar. Por mais fino que seja.

Mas existe também um aspecto perverso nessa invasão da língua portuguesa do Brasil pela língua inglesa norte-americana. É o lado social. Ou político – já que tudo é político.  O jornal “O Estado do São Paulo” vive publicando, na primeira página do Caderno 2, um anúncio do Haras Larissa que diz: Authentic, simple, elegant and exclusive. Além de publicado em inglês, repare no adjetivo exclusive, altamente significativo. Outro anúncio no mesmo jornal: Fashion Day no Shopping Center. Note que nesta frase de cinco palavras há quatro em inglês e uma só em português. Muito bem. O Cambuí, o bairro mais elegante de Campinas, parece uma cidade norte-americana. Repleta de day hospital, fitness, Sales, off, english school (com os dizeres suplementares de kids, teens, adults), etc… Pode-se dizer, parodiando o título da peça de Nelson Rodrigues, que o Cambuí é bonitinho, mas ordinário. Gente, onde é que nós estamos? O brasileiro não é obrigado a falar inglês. Nem sequer a conhecer todos esses estrangeirismos. Aliás, um morador da periferia se sente, não só deslocado, mas excluído do Cambuí e dos shoppings. E daí? – pode argumentar algum cínico – o Cambuí não é para morador da periferia. E chegamos aonde quero chegar. Há uma correlação entre a invasão do português pelo inglês norte-americano e a nossa desigualdade social, uma das piores do mundo. Talvez, já que somos dóceis lacaios do neoliberalismo, devêssemos propor que o Brasil adotasse o inglês como língua oficial. O MEC certamente aplaudiria a ideia.

 

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

21-06-2011

Publicado pelo jornal “Correio Popular” de Campinas a 6 de julho de 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Uma resposta to “Réquiem Pela Língua Portuguesa 2”

  1. Lygia Says:

    Estou me sentindo meio constrangida de ser a única a comentar nesse blog… E ainda mais agora, quando farei dois comentários:

    1 – No ano passado publiquei no meu fotoblog uma foto a respeito desse uso indevido de palavras estrangeiras. O caso, ou melhor, a foto que comento é ainda mais irritante porque usaram a palavra errada…
    http://lygianery.nafoto.net/photo20100604191635.html

    2 – No final de semana passado, esperando horas na fila para ver a exposição do Escher, passei em frente a uma loja em liquidação e vi a palavra brasileira mais curta e perfeita para substituir o “sale” – RAPA!
    A partir daquele dia, a loja em questão passa a figurar entre as mais prezadas e terá minha atenção preferencial.
    Criatividade faz diferença!


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