A Angústia Segundo Lars von Trier

 

         As declarações bombásticas do diretor dinamarquês Lars von Trier no último festival de cinema de Cannes – onde apresentou Melancolia em competição – afirmando sentir admiração pela estética nazista – até aí tudo bem, qualquer cinéfilo pode condenar o nazismo e, no entanto, pode admirar, por exemplo, a estética de Leni Riefenstahl, cineasta nazista. O pior foi von Trier acrescentar que entendia Hitler e que o ditador não deixava de ter um lado positivo. Resultado: von Trier foi banido do festival, embora ele pedisse desculpas. Uma pena, pois ele não precisava dessa promoção de escândalo. Ele é grande demais para apelar para esse tipo de publicidade de gosto duvidoso. Mesmo porque o efeito do escândalo foi o inverso do que costuma ocorrer nesses casos. Um escândalo geralmente promove e projeta para o grande público uma obra cinematográfica, teatral, literária ou plástica. Mas no caso de von Trier, o resultado foi o oposto. Ou seja, a polêmica das declarações ofuscou o brilho de Melancolia e desviou a atenção do valor intrínseco do filme. Que é ótimo e que merecia um prêmio mais importante do que o de melhor atriz – para Kirsten Dunst.

Demolidor. Provocador. Corrosivo. Apocalíptico. Lars von Trier se insere na tradição do pessimismo, ou melhor, niilismo nórdico. Como seu compatriota Carl Dreyer. Como seu colega escandinavo Bergman. E como o filósofo Kierkegaard. O silêncio de Deus de Bergman é substituído pela ausência de Deus de von Trier. Pior: a eternidade deixa de existir para dar lugar ao nada. Não há redenção no diretor de Ondas do Destino. Não há esperança. O seu niilismo apocalíptico provoca uma angústia sem par na sétima arte. Em Dogville, obra-prima, talvez o maior filme da década de 2000, além de uma estética absolutamente revolucionária em seu despojamento, ele anula o conceito cristão de bondade e nos diz implacavelmente: seja bom e os outros te devoram. Não há generosidade em von Trier. Seus personagens (os protagonistas são sempre mulheres, como em Bergman) certamente não conhecem a magnanimidade. Ainda em Dogville, ele denuncia o sistema neoliberal e nos exemplifica: peça emprestado e você será escravo, do seu credor, para o resto da vida. Que é nem mais nem menos o fundamento da exploração do capitalismo neoliberal. O que nos leva à famosa sentença de Sartre, na peça O Diabo e o Bom Deus: Mas àquele que dá sem que você possa devolver, ofereça todo o ódio do seu coração. Não há desprendimento. Nada se faz por generosidade. O mal inerente ao Homem se acentua com o fascismo neoliberal. Deus está morto. Assim como o sagrado. Assim como a ética. Assim como a eternidade. Só resta a cobiça. O imediatismo. O lucro. A morte.

Se com Anticristo o cineasta fez seu filme de terror, com Melancolia ele fez seu filme de ficção científica, que tem alguns pontos em comum com O Sacrifício, de Tarkovki. Claro que, em ambos os casos, estamos longe dos padrões estereotipados e digestivos de Hollywood. Von Trier  tem muito talento e originalidade para seguir estereótipos ou cânones comerciais. Com imagens suntuosas, deslumbrantes – algumas parecem recriar quadros do surrealista Delvaux – ele nos mostra o fim próximo do planeta Terra em meio à cegueira de uma instituição falida como o casamento e, por extensão, a família. O mundo vai acabar, mas a família, alienada, hipocritamente (ou estupidamente como o avestruz) ignora a iminência da catástrofe. Só que, mesmo que essa instituição deixasse sua alienação, já seria muito tarde. Lars von Trier usa muitas metáforas e alusões (a pintura Caçadores na Neve, de Brueghel, embora criada no começo da Renascença, parece fazer uma alusão ao terror medieval do fim do mundo, tão bem exposto pelo também flamengo Bosch) que têm a força e a pujança de um registro realista. Ele não faz concessões. Ele não perdoa. E ninguém fica imune ao impacto de sua devastação. E essa visão desesperançada, sem a menor brecha que deixe penetrar um pouco de luz, por menor que seja, sempre é apresentada por uma estética que veste a morte de luxo cerimonial.

Lars von Trier está, junto com o grego Angelopoulos, o português Manoel de Oliveira e o norte-americano Terrence Malick – cujo A Árvore da Vida é um espanto de plasticidade e de indagação metafísica  –  entre os maiores cineastas vivos do mundo. E, por sinal, todos eles são humanistas.

20-08-2011

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado dia 7 de setembro de 2011 no “Correio Popular” de Campinas

 

 

                   

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O Paraíso Neoliberal

setembro 17, 2011

O Paraíso Neoliberal

         É surpreendente como o ser humano é conservador. Em todas as latitudes e épocas. Basta folhar a História para constatá-lo. O ser humano, como qualquer animal, tem medo. Medo irracional do novo. Do desconhecido. Daquilo que pode vir a alterar a rotina que lhe dá segurança. Mas, ao mesmo tempo, o Homem tem coragem. Tem a ânsia do conhecimento e da experimentação necessárias a toda renovação. O Homem sonha. Porque quer mais. E não me refiro a acumular riquezas. Não. Ele quer ampliar seus horizontes. Ir além do conhecido. E o sonho está intimamente ligado ao prazer. E, obviamente, é o prazer que nos impulsiona. Seja qual for. E que movimenta o mundo. Mas, voltando ao nosso espantoso Homem, ao nosso belo Animal, ou ao ser humano (como preferem os cretinos do politicamente correto), poderíamos afirmar que, se a grande maioria é acomodada, há os grandes inquietos que vêm a este mundo para transformá-lo.

Sim. Desafiar. Transformar. Tudo pode ser transformado. Basta querer. O pessimismo da inteligência e o otimismo da força de vontade, dizia Gramsci. Posto isto, não posso deixar de rebater aqueles deterministas que afirmam que a globalização, e o neoliberalismo especificamente, vieram para ficar e são irreversíveis. Os nazistas também diziam que o Terceiro Reich duraria um milênio. Durou apenas 12 anos. Não existe nada irreversível. Salvo a História. Ou a morte. Mesmo porque o capitalismo neoliberal está doente. E os sinais dessa doença são visíveis. A crise econômica da União Europeia e dos Estados Unidos são sintomas muito evidentes de um sistema decadente. Econômica, política e eticamente. Corroído internamente.

É uma incongruência que um sistema que tanto alardeia os direitos humanos e a liberdade – dos quais tanto se vangloria – os elimine ou os restrinja – como é o caso da invasão da privacidade. O sistema capitalista neoliberal tende cada vez mais ao fascismo, burlando de modo camuflado esses direitos humanos e essa liberdade que seriam a essência da democracia.  Como não considerar fascismo o poder quase absoluto que detêm as grandes corporações, incluindo os bancos? Como não considerar totalitarismo a fusão dessas grandes empresas que provoca desemprego e obriga o consumidor a ter de engolir o que a empresa compradora produz, eliminando qualquer opção? Exemplo: numa cidade há cinco supermercados. Esses supermercados vão abocanhando um ao outro até restar um só. E o consumidor é obrigado a comprar o que esse supermercado “vencedor” vende e aos preços que ele quer. Onde está a opção? A tão decantada opção de consumo capitalista? A fabulosa opção do que se costumava chamar de mundo livre? O capitalismo sempre criticou a falta de opção do comunismo, onde o consumidor era obrigado a comprar nas empresas estatais. Muito bem. Agora o neoliberalismo incorre, por vias diferentes, na mesma arbitrariedade, na mesma falta de opção. Ou, em outras palavras, na falta de liberdade. Ou, melhor ainda, liberdade para os grandes agirem. Em detrimento dos pequenos. E quando o Estado tenta controlar (ou regular) esses abusos, a primeira coisa que os grandes grupos invocam é a liberdade do sistema democrático. É preciso ser muito burro, ou cínico, para achar que esse faço-o-que-quero-porque-sou-dono-do dinheiro é democrático. Ou seja, um peso e duas medidas. Qualquer limite aos ganhos astronômicos e às especulações desses bancos (ou de qualquer corporação) para, em parte, evitar as crises econômicas e o aumento consequente de miséria no mundo é tachado de atentado à liberdade democrática. Mas que engodo! Que distorção! Parece piada, mas não é. E há gente que acha que está tudo muito bem. Claro, para os que mamam dos resultados dessas injustiças, o sistema é ideal. Ou para os pobres alienados que têm teto e que comem todos os dias. E esses alienados, via de regra, são fatalistas e dizem: não tem jeito, é assim mesmo e não vai mudar. Pode mudar, sim. O Homem tem garra. O Homem é criativo. O Homem ainda é capaz de sonhar.  A revolta dos países árabes é um belo exemplo. E os protestos na Espanha não eram dirigidos exatamente contra governo de Zapatero, mas contra um sistema que provoca desemprego e pobreza e que não oferece nenhuma garantia ao cidadão. Um sistema que, para apertar o cinto, a primeira coisa que faz é cortar ou restringir os benefícios sociais do cidadão, como a idade para aposentadoria (o que ocorreu na França) entre outros. E certamente ninguém está preconizando um sistema stalinista. Não. Mas existem opções. Basta ter boa vontade, consciência e peito para derrubar o que é injusto. Portanto, cidadãos, não sejam frouxos. Comecem a dizer chega.

 

21-07-2011

 

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado dia 3 de agosto de 2011 pelo jornal “Correio Popular” de Campinas