O Paraíso Neoliberal

setembro 17, 2011

O Paraíso Neoliberal

         É surpreendente como o ser humano é conservador. Em todas as latitudes e épocas. Basta folhar a História para constatá-lo. O ser humano, como qualquer animal, tem medo. Medo irracional do novo. Do desconhecido. Daquilo que pode vir a alterar a rotina que lhe dá segurança. Mas, ao mesmo tempo, o Homem tem coragem. Tem a ânsia do conhecimento e da experimentação necessárias a toda renovação. O Homem sonha. Porque quer mais. E não me refiro a acumular riquezas. Não. Ele quer ampliar seus horizontes. Ir além do conhecido. E o sonho está intimamente ligado ao prazer. E, obviamente, é o prazer que nos impulsiona. Seja qual for. E que movimenta o mundo. Mas, voltando ao nosso espantoso Homem, ao nosso belo Animal, ou ao ser humano (como preferem os cretinos do politicamente correto), poderíamos afirmar que, se a grande maioria é acomodada, há os grandes inquietos que vêm a este mundo para transformá-lo.

Sim. Desafiar. Transformar. Tudo pode ser transformado. Basta querer. O pessimismo da inteligência e o otimismo da força de vontade, dizia Gramsci. Posto isto, não posso deixar de rebater aqueles deterministas que afirmam que a globalização, e o neoliberalismo especificamente, vieram para ficar e são irreversíveis. Os nazistas também diziam que o Terceiro Reich duraria um milênio. Durou apenas 12 anos. Não existe nada irreversível. Salvo a História. Ou a morte. Mesmo porque o capitalismo neoliberal está doente. E os sinais dessa doença são visíveis. A crise econômica da União Europeia e dos Estados Unidos são sintomas muito evidentes de um sistema decadente. Econômica, política e eticamente. Corroído internamente.

É uma incongruência que um sistema que tanto alardeia os direitos humanos e a liberdade – dos quais tanto se vangloria – os elimine ou os restrinja – como é o caso da invasão da privacidade. O sistema capitalista neoliberal tende cada vez mais ao fascismo, burlando de modo camuflado esses direitos humanos e essa liberdade que seriam a essência da democracia.  Como não considerar fascismo o poder quase absoluto que detêm as grandes corporações, incluindo os bancos? Como não considerar totalitarismo a fusão dessas grandes empresas que provoca desemprego e obriga o consumidor a ter de engolir o que a empresa compradora produz, eliminando qualquer opção? Exemplo: numa cidade há cinco supermercados. Esses supermercados vão abocanhando um ao outro até restar um só. E o consumidor é obrigado a comprar o que esse supermercado “vencedor” vende e aos preços que ele quer. Onde está a opção? A tão decantada opção de consumo capitalista? A fabulosa opção do que se costumava chamar de mundo livre? O capitalismo sempre criticou a falta de opção do comunismo, onde o consumidor era obrigado a comprar nas empresas estatais. Muito bem. Agora o neoliberalismo incorre, por vias diferentes, na mesma arbitrariedade, na mesma falta de opção. Ou, em outras palavras, na falta de liberdade. Ou, melhor ainda, liberdade para os grandes agirem. Em detrimento dos pequenos. E quando o Estado tenta controlar (ou regular) esses abusos, a primeira coisa que os grandes grupos invocam é a liberdade do sistema democrático. É preciso ser muito burro, ou cínico, para achar que esse faço-o-que-quero-porque-sou-dono-do dinheiro é democrático. Ou seja, um peso e duas medidas. Qualquer limite aos ganhos astronômicos e às especulações desses bancos (ou de qualquer corporação) para, em parte, evitar as crises econômicas e o aumento consequente de miséria no mundo é tachado de atentado à liberdade democrática. Mas que engodo! Que distorção! Parece piada, mas não é. E há gente que acha que está tudo muito bem. Claro, para os que mamam dos resultados dessas injustiças, o sistema é ideal. Ou para os pobres alienados que têm teto e que comem todos os dias. E esses alienados, via de regra, são fatalistas e dizem: não tem jeito, é assim mesmo e não vai mudar. Pode mudar, sim. O Homem tem garra. O Homem é criativo. O Homem ainda é capaz de sonhar.  A revolta dos países árabes é um belo exemplo. E os protestos na Espanha não eram dirigidos exatamente contra governo de Zapatero, mas contra um sistema que provoca desemprego e pobreza e que não oferece nenhuma garantia ao cidadão. Um sistema que, para apertar o cinto, a primeira coisa que faz é cortar ou restringir os benefícios sociais do cidadão, como a idade para aposentadoria (o que ocorreu na França) entre outros. E certamente ninguém está preconizando um sistema stalinista. Não. Mas existem opções. Basta ter boa vontade, consciência e peito para derrubar o que é injusto. Portanto, cidadãos, não sejam frouxos. Comecem a dizer chega.

 

21-07-2011

 

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado dia 3 de agosto de 2011 pelo jornal “Correio Popular” de Campinas

 

 

 

 

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2 Respostas to “O Paraíso Neoliberal”

  1. Pafúncio Says:

    Naquela manhã de 1990 e pouco eu já sabia quem era David (não o Ogilvy!). No viés de uma entrevista para trabalho, aquele olhar analítico já me mostrava um intelectual que cumpria apenas uma função de sobrevivência naquele posto. E responsavelmente ele a concluiu com retidão. Até o dia que pôde tirar a máscara e revelar o ser humano íntegro que habitava aquele corpo e hoje pode se apresentar como David Haize.
    Tuas análises, caro David, me guiam até hoje. E sempre que me desvio do caminho, recorro aos teus versos e lições.
    Obrigado pela clareza que nos passa e siga o caminho que escolheu (aquele mesmo que tento acompanhar!).

    Do amigo eterno,

    Pafúncio


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