A Angústia Segundo Lars von Trier

setembro 26, 2011

A Angústia Segundo Lars von Trier

 

         As declarações bombásticas do diretor dinamarquês Lars von Trier no último festival de cinema de Cannes – onde apresentou Melancolia em competição – afirmando sentir admiração pela estética nazista – até aí tudo bem, qualquer cinéfilo pode condenar o nazismo e, no entanto, pode admirar, por exemplo, a estética de Leni Riefenstahl, cineasta nazista. O pior foi von Trier acrescentar que entendia Hitler e que o ditador não deixava de ter um lado positivo. Resultado: von Trier foi banido do festival, embora ele pedisse desculpas. Uma pena, pois ele não precisava dessa promoção de escândalo. Ele é grande demais para apelar para esse tipo de publicidade de gosto duvidoso. Mesmo porque o efeito do escândalo foi o inverso do que costuma ocorrer nesses casos. Um escândalo geralmente promove e projeta para o grande público uma obra cinematográfica, teatral, literária ou plástica. Mas no caso de von Trier, o resultado foi o oposto. Ou seja, a polêmica das declarações ofuscou o brilho de Melancolia e desviou a atenção do valor intrínseco do filme. Que é ótimo e que merecia um prêmio mais importante do que o de melhor atriz – para Kirsten Dunst.

Demolidor. Provocador. Corrosivo. Apocalíptico. Lars von Trier se insere na tradição do pessimismo, ou melhor, niilismo nórdico. Como seu compatriota Carl Dreyer. Como seu colega escandinavo Bergman. E como o filósofo Kierkegaard. O silêncio de Deus de Bergman é substituído pela ausência de Deus de von Trier. Pior: a eternidade deixa de existir para dar lugar ao nada. Não há redenção no diretor de Ondas do Destino. Não há esperança. O seu niilismo apocalíptico provoca uma angústia sem par na sétima arte. Em Dogville, obra-prima, talvez o maior filme da década de 2000, além de uma estética absolutamente revolucionária em seu despojamento, ele anula o conceito cristão de bondade e nos diz implacavelmente: seja bom e os outros te devoram. Não há generosidade em von Trier. Seus personagens (os protagonistas são sempre mulheres, como em Bergman) certamente não conhecem a magnanimidade. Ainda em Dogville, ele denuncia o sistema neoliberal e nos exemplifica: peça emprestado e você será escravo, do seu credor, para o resto da vida. Que é nem mais nem menos o fundamento da exploração do capitalismo neoliberal. O que nos leva à famosa sentença de Sartre, na peça O Diabo e o Bom Deus: Mas àquele que dá sem que você possa devolver, ofereça todo o ódio do seu coração. Não há desprendimento. Nada se faz por generosidade. O mal inerente ao Homem se acentua com o fascismo neoliberal. Deus está morto. Assim como o sagrado. Assim como a ética. Assim como a eternidade. Só resta a cobiça. O imediatismo. O lucro. A morte.

Se com Anticristo o cineasta fez seu filme de terror, com Melancolia ele fez seu filme de ficção científica, que tem alguns pontos em comum com O Sacrifício, de Tarkovki. Claro que, em ambos os casos, estamos longe dos padrões estereotipados e digestivos de Hollywood. Von Trier  tem muito talento e originalidade para seguir estereótipos ou cânones comerciais. Com imagens suntuosas, deslumbrantes – algumas parecem recriar quadros do surrealista Delvaux – ele nos mostra o fim próximo do planeta Terra em meio à cegueira de uma instituição falida como o casamento e, por extensão, a família. O mundo vai acabar, mas a família, alienada, hipocritamente (ou estupidamente como o avestruz) ignora a iminência da catástrofe. Só que, mesmo que essa instituição deixasse sua alienação, já seria muito tarde. Lars von Trier usa muitas metáforas e alusões (a pintura Caçadores na Neve, de Brueghel, embora criada no começo da Renascença, parece fazer uma alusão ao terror medieval do fim do mundo, tão bem exposto pelo também flamengo Bosch) que têm a força e a pujança de um registro realista. Ele não faz concessões. Ele não perdoa. E ninguém fica imune ao impacto de sua devastação. E essa visão desesperançada, sem a menor brecha que deixe penetrar um pouco de luz, por menor que seja, sempre é apresentada por uma estética que veste a morte de luxo cerimonial.

Lars von Trier está, junto com o grego Angelopoulos, o português Manoel de Oliveira e o norte-americano Terrence Malick – cujo A Árvore da Vida é um espanto de plasticidade e de indagação metafísica  –  entre os maiores cineastas vivos do mundo. E, por sinal, todos eles são humanistas.

20-08-2011

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado dia 7 de setembro de 2011 no “Correio Popular” de Campinas

 

 

                   

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Uma resposta to “A Angústia Segundo Lars von Trier”

  1. Lygia Says:

    Melancolia retrata a angústia com requinte e elegância ímpares! Contudo, não pude mergulhar inteiramente na metáfora imagética porque alguns paradigmas físicos foram solenemente ignorados… Isso me fez pensar que os paises nórdicos são tão evoluídos que até o fim do mundo é ameno e tudo acaba eficientemente em um microsegundo!
    O filme continua sendo ótimo, mas faltou pesquisa no assunto.
    Menos Leni Riefenstahl e mais Stephen Hawking, Mr. Von Trier!


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