ABL, Lixo Comercial?

outubro 12, 2011

ABL, Lixo Comercial?

 

         A Academia Brasileira de Letras virou lixinho comercial? Ou é melhor dizer televisivo? Ou talvez escória intelectualóide? A coroação de uma série de “proezas”, nada literárias, áulicas, culminou com a entrega da medalha Machado de Assis a Ronaldinho Gaúcho. Ridículo. Nada, evidentemente, contra o jogador. Mas é necessário acrescentar algo? Como se não bastasse ter entre seus membros gente como Paulo Coelho, Sarney e Pitanguy (com todo o respeito devido por este último). A ABL deveria – peço desculpas pela minha arrogância – ler meus manifestos Os Dez Mandamentos do Escritor e Os Sete Pecados Capitais do Escritor que se encontram em meu site. Mas tudo isso fica ofuscado pelo brilho de uma das maiores “façanhas” da ABL. Refiro-me a uma mancha moral indelével: durante os anos de chumbo da ditadura, a Academia Brasileira de Letras, que deveria ser um baluarte da consciência do País, se omitiu – e omissão é conivência – e não foi nem sequer capaz de emitir um manifesto contra a violação dos direitos humanos pelos militares no poder. Pois é, a ABL, vergonhosamente, silenciou. Omitiu-se. Isso é uma mácula. Aí já não se trata mais de lixinho. Mas de lixão. Sim, claro, isso ocorreu há mais de quatro décadas. Mas a coisa não mudou muito. Para que servem essas múmias alienadas, reacionárias, retrógradas, cercadas pelo bolor nauseabundo do conservadorismo? Para que serve essa instituição? Para esclarecer se determinada palavra perdeu ou não o hífen que determinados acadêmicos mercenários resolveram estupidamente suprimir? Melhor fechá-la. Ou terceirizá-la. Como se faz com tudo hoje em dia no paraíso neoliberal.

Mas já que tocamos na ABL, falemos um pouco dos escritores, esses estranhos animais, quando são de fato escritores — e eu sou um deles. No maravilhoso mundo pós-pensante ou pós-ideias – hoje em dia as supostas ideias disseminadas pela mediocridade da mídia são engolidas sem um mínimo de processamento crítico –, no admirável mundo novo da imbecilidade oficializada, da burrice endeusada, há escritores consagrados que escrevem tão bem quanto os ditadores Kim Jong-il, da Coreia, Kadafi, da Líbia ou Saddam Hussein, do Iraque que, como todos sabem, são, ou eram, “escritores” (entre aspas mesmo). Sim, ideias. Faltam ideias. E passo a transcrever parte de um texto meu sobre o assunto.

“Porque hoje em dia o anti-intelectualismo está em voga. O anti-intelectualismo que mal dissimula a mediocridade, a ignorância e a burrice. Enfim uma distorção da inaptidão que se coaduna com a famigerada cultura de massa. Essa praga pegajosa que nos impinge a merda cultural oficial. Bem, além de alienados do doer, esses escritores de pacotilha que não têm ideias, tampouco possuem cultura. E um bom escritor se caracteriza pelas suas ideias e pela sua visão de mundo que o distingue dos outros escritores. E pela sua cultura, claro. Porém, não vemos nada disso. Esses escritorezinhos, quando retocados de um verniz acadêmico, escrevem umas bostinhas de contos, romances e poemas, mais frios do que lagartos no inverno, que não passam de meros exercícios literários absolutamente áridos, vazios, inócuos, chochos. E tomando-se por Joyce, Guimarães Rosa ou Clarice Lispector, mal disfarçam a falta total de imaginação – e um escritor que se preze tem que ter imaginação – com maçantes malabarismos estilísticos que lembram a leveza da dança de um paquiderme. É sempre a mesmice. E o pior é que, se às vezes há certas mediocridades divertidas, nesse caso, nem isso. É puro tédio. Enfim, descartável.”

O exposto inclui a ficção acadêmica (de universidade, não de academia). Embora aí não se veja o anti-intelectualismo, o panorama não muda muito. E encontramos ficcionistas ostensivamente estilosos, modernosos que fazem girar o mundo em torno do umbigo e que amiúde se tomam, como acima mencionado, por Joyce, Guimarães Rosa ou Lispector. Com maneirosos exercícios de estética que não levam senão à aridez da falta de talento. Exímios técnicos literários – há alguns elegantemente picaretas – “uspianos” ou “unicampianos”, sem absolutamente nenhuma originalidade. Totalmente ocos. E que nunca são capazes de ir além da linguagem, do aprendido e da moda. E, sobretudo, que certamente carecem de ideias em seus emaranhados malabarismos formais. Sim, ideias. Pois um escritor tem de ter ideias. Já que um escritor também é um pensador. Um escritor tem de ter também imaginação e, sem fazer concessões, o poder de enfeitiçar o leitor. E, para finalizar, repito o que disse e escrevi muitas vezes: um escritor não é apenas um homem (ou uma mulher) que escreve, um escritor é um posicionamento. Uma atitude perante a vida. Uma ação constante. Uma transgressão. Um desafio. Enfim, um escritor é um modo de viver.

 

20-09-2011

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado dia 5 de outubro de 2011 no jornal “Correio Popular” de Campinas.

 

 

 

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Uma resposta to “ABL, Lixo Comercial?”

  1. Pafúncio Says:

    À respeito da ABL… kein Kommentar!


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