Violência? Não, Defesa

novembro 5, 2011

Violência? Não, Defesa

 

         A nossa inércia, a nossa apatia, a nossa passividade, a nossa indolência, a nossa alienação ovina chegam a ser revoltantes. Tudo é frouxo no Brasil. Menos a corrupção, hereditária, vitalícia, que continua robusta, dinâmica, saudável, corada, enfim em plena forma e digna do melhor pedigree das famílias mais nobres do País. Massa de palhaços, sabemos imitar como macacos a imbecilidade do politicamente correto (como a neurose contra o cigarro) diretamente importado de um país tão atrasado política e socialmente quanto os EUA, agora em decadência, como, aliás, o famigerado neoliberalismo e a globalização. Mas certamente não importamos salutares protestos – a nível nacional – como os de Wall Street, os da Grécia, os da Espanha ou de outros países. Importamos, sim, diariamente, de modo jacu, brega, cafona, grotesco e vulgar vocábulos norte-americanos que desfiguram a nossa língua.  Sabemos embarcar no fanatismo das torcidas de futebol. Ou na alienação carnavalesca. Sabemos organizar marchas de demonstração de força, absolutamente inúteis, para enaltecer a fé evangélica ou católica, marchas dignas de países atrasados que em nada contribuem para o progresso político-social do Brasil. Mesmo porque o Brasil certamente não precisa dessas manadas bovinas que contribuem para facilitar o jogo sujo dos salafrários, dos corruptos, dos sem-vergonhas que estão no poder. Esses respeitáveis ladrões que detêm o poder com certeza ficam mais do que satisfeitos ao ver o gado bípede manifestando pacificamente sua fé e devem pensar: deixem o rebanho ocupar-se com a religião, pois enquanto fazem isso não reclamam da podridão oficial e não exigem seus direitos. E assim os f.d.p. da classe política deitam e rolam e enchem os bolsos com o dinheiro da Nação, ou seja, com o dinheiro extorquido do cidadão honesto. Marx tinha razão: a religião é o ópio do povo. Os povos mais atrasados da Terra são aqueles onde a religião tem mais poder. País culto e avançado é totalmente laico. Marchas como as dos evangélicos, católicos ou do Orgulho Gay só se justificam se reivindicaram reformas político-sociais. O resto é carnaval.

Mas abordemos outro aspecto coberto pela nossa indiferença (ou alienação, para repetir o termo). Perante o despotismo do sistema financeiro, perante o absolutismo do mundo corporativo e a crescente falta de empregos no mundo, perante o aumento constante das pessoas que morrem de fome no Planeta, perante a corrupção da classe política, seria de se esperar, num país como o Brasil onde os parlamentares são os mais bem pagos do mundo, onde ainda existe a ignomínia medieval da imunidade (algo absolutamente perverso, inconcebível: onde já se viu um cidadão ter privilégios que o outro não tem?), onde a impunidade é lei, e onde a corrupção é uma das maiores do mundo, seria de se esperar, pelo menos, que as propriedades dos políticos corruptos fossem depredadas, incendiadas, destruídas e que esses políticos fossem cassados pelo resto da vida – mesmo tendo renunciado ao cargo; seria de se esperar atos de violência contra bancos e grandes corporações que detêm um poder antidemocrático, totalitário que torna as nações meros títeres do sistema financeiro e corporativo; seria de se esperar que os especuladores, esses sanguessugas, esses improdutivos, esses vagabundos, esses cancros da sociedade que só servem para tirar proveito e semear o caos financeiro fossem condenados a pesadas penas de prisão; e seria de se esperar a paralisação do País para exigir reformas políticas e sociais. Essa é a demonstração de força que o povo brasileiro necessita. Questão de dignidade. Calar é ser conivente. Calar é ser cúmplice. Mesmo porque a violência é a única linguagem que esses abutres do sistema financeiro e corporativo, e da classe política, esses escorpiões da ganância desenfreada, do abuso do poder e do imediatismo são capazes de entender. Portanto, se não cedem, é guerra declarada. Talvez assim entendam. E não se trata de pregar a violência, não. E uma questão de defesa. De legítima defesa. Tolerância zero. É para ser radical em relação a esse estado de coisas vergonhoso, ofensivo, ultrajante. Se a sociedade não fizer pressão, o círculo vicioso continuará o mesmo e nunca haverá mudanças.

20-10-2011

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado dia 2 de novembro de 2011 no jornal Correio Popular de Campinas/SP