FRAUDE NA BIBLIOTECA NACIONAL

janeiro 7, 2012

Fraude na Biblioteca Nacional

 

Existe ainda algo honesto e confiável no Brasil? Existe algum político, empresário, alguma fundação, instituição ou ONG pelos quais possamos por a mão no fogo? Digamos que, como não se deve generalizar, seja um tanto provável que ainda haja algo não contaminado e digno de respeito no País. O complexo de trapaça (ou fraude) não está no DNA do brasileiro, como se costuma dizer. Está numa instituição corrupta e falida (em todos os sentidos) como a Justiça. Ou seja, é a impunidade que gera e amplia a trapaça, quer dizer a fraude, a corrupção.

A trapaça que vou expor não tem, a bem da verdade, uma dimensão político-social de amplitude considerável. Mas, obviamente, não deixa de ser significativa. Trata-se da fraude do concurso Prêmios Literários da Fundação Biblioteca Nacional do Rio. Fraude que depõe contra a dignidade de tal fundação. E que leva qualquer cidadão honesto a constatar que a Fundação Biblioteca Nacional é mais um lixo dos inúmeros que proliferam no País. E ninguém protesta. Ninguém faz nada. Ou seja, novamente a inércia, a frouxidão, a alienação típicas nossas. Com a agravante que nem sequer os prejudicados pela fraude se manifestam.

O concurso, do qual podiam participar livros publicados de 01/09/10 a 31/08/11, escolheu uma comissão julgadora composta de três membros para cada categoria (romance, contos, poesia, infanto-juvenil, ensaio literário, ensaio social, tradução e projeto gráfico). Esses jurados, selecionados entre críticos literários, professores de literatura e (pasmem, não é piada, não!) profissionais do mercado editorial – eufemismo empregado no edital para designar os editores. Pergunta pertinente: o que tem a fazer um editor num concurso literário senão puxar a brasa para a sua sardinha? Esses carinhas da Fundação Biblioteca Nacional, esses picaretas, corruptos, que com certeza devem ter levado propina, pesam o quê? Que m… eles pensam que são?… Calma, meu caro fucking angry man, calma. Vamos por etapas.

Expliquemos. E provemos por números. Que os números não mentem. A Fundação deu o prazo de avaliação e seleção de um mês: de 04/11/11 a 05/12/11. Um mês para julgar 547 livros participantes do concurso! É mole? Peguemos, como demonstração, a categoria romance. Havia 80 romances inscritos no certame. Se dividirmos 80 livros por 30 dias, chegaremos a 2,66 livros por dia, que é o que cada membro do júri teria de ler. O que é praticamente impossível. Conclusão: marmelada. Pura marmelada. Ou seja, cartas marcadas. Ou seja, os resultados eram conhecidos de antemão. Em suma, trapaça. Ou, em outra palavra, fraude. Imoralidade. E a Fundação Biblioteca Nacional teve o topete, o cinismo de editar em seu site a relação completa dos participantes.

É extremamente sintomático que, além dos editores fazerem parte do jurado, as obras vencedoras, em sua grande maioria, foram publicadas por grandes ou importantes editoras que detêm o monopólio – por assim dizer – do mercado editorial. E é extremamente lamentável que, numa falta total de respeito e consideração, centenas, repito centenas, de escritores participantes tenham incauta e ingenuamente se inscrito no certame na esperança de, pelo menos, serem lidos, o que não ocorreu. Todo escritor, a menos que fosse conhecido ou recomendado, foi sistematicamente excluído. Uma palhaçada. Sim, esses salafrários fizeram de palhaços centenas de escritores. Salafrários ainda é assaz lenitivo para esses corruptos.  E ladrões, pois, dependendo de onde provem o dinheiro pago aos “vencedores”, pode ser também um ato ilegal. Não teria sido mais honesto, mais transparente, menos sórdido, menos atrasado e fascista (toda fraude é fascista), “escolher” (mesmo considerando que a escolha fosse tendenciosa no sentido de favorecer determinados interesses) os “livros do ano” em vez de montar essa farsa, esse engodo de “concurso” para enganar centenas de participantes? Mas, claro que não, a honradez não rende. A honestidade não faz parte do sistema. E menos ainda no inefável paraíso moral em que vivemos.

Bravo Fundação Biblioteca Nacional pela sua proeza! Parabéns pela sua prova de honestidade e probidade. E pelo belo caminho da corrupção escolhido por tão insigne instituição.

15-12-2011

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado pelo jornal Correio Popular de Campinas no dia 3 de janeiro de 2012

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5 Respostas to “FRAUDE NA BIBLIOTECA NACIONAL”

  1. Pafúncio Says:

    De novo, na mosca!
    Parabéns pela lucidez.


  2. Cada día me vuelvo más anarquista a respeto de todo…

  3. Lygia Says:

    Independente do volume de livros em função do tempo para leitura ser absurdo, acho que não podemos nos iludir: isenção e neutralidade são abstrações utópicas. Sempre haverá algum favorecimento, ainda que o concurso seja anônimo e cuidadosamente pensado para minimizar distorções.
    Apenas participar de um concurso já implica necessariamente em endossar essa prática da competição em desigualdade de condições. Portanto, meu querido, esqueça o papel impresso, que é cada vez mais caro, e concentre suas forças no exercício da liberdade – escrever e ler na rede! Há algumas midias sociais dirigidas a escritores e leitores. De qual delas você participa?

    http://www.conhecaolivreiro.com.br/home/
    http://byliner.com/
    http://www.skoob.com.br/

    Faça seu nicho, encontre o seu público e construa sua presença virtual sem a interferência das editoras!

  4. tatella Says:

    Lamentável. Deprimente.
    Coragem! Continue na luta, é aquela história dos homens imprescindíveis.

  5. Edih Longo Says:

    Meu Deus!
    Agora me ocorreu mais uma dúvida: o que será que a “distinta” instituição faz com o dinheiro recolhido quando inscrevemos textos para a legitimidade de autoria?
    Fico cada vez mais triste por ver nosso gigante país em mãos tão sedentas!
    Parabéns e…o que podemos fazer?


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