Por razões legais o livro
JUIZ CASADO COM FILHOS PROCURA HOMEM PARA SEXO CASUAL
(contos)

saiu do ar. Pode ser encontrado na Editora Mundo Produções (mundoproducoes65@gmail.com) ou na Livraria Asabeça (livraria@asabeca.com.br)

 

Este livro também está disponível no Amazon e-books mediante download.

 

BASCOS, ESSES DESCONHECIDOS

A mídia é tão leviana quanto tendenciosa – pertencendo a grandes grupos, ela jamais poderia ser realmente imparcial e independente. A ponto, por exemplo, de qualificar os distúrbios de 2011 na Grã-Bretanha de atos de vandalismo. Quando na realidade eram nitidamente distúrbios sociais, logo políticos. Aliás, qualquer violência, seja no Brasil, no México ou nos EUA é social. E se é social, é política. E essa mídia superficial e parcial vive trocando as bolas – quando lhe interessa, claro. Usa e abusa do termo terrorismo a torto e direito. E existe terrorismo e… “terrorismo”. O atentado contra uma escola judaica em Toulouse, na França, foi um ato de puro terrorismo. Mas os ataques de determinados grupos armados contra o invasor não podem ser tachados de terrorismo.

Na França ocupada, os atentados da Resistência contra os alemães não eram atos de terrorismo, mas guerra contra o invasor. Assim como os dos partigiani, na Itália, tampouco o eram. E foi graças ao IRA (o primitivo) que a Irlanda se tornou independente do jugo do imperialismo britânico, e, mais especificamente inglês, em 1921. Senão ainda seria colônia. Embora a ilha da vaca neoliberal Thatcher não abra mão do Ulster. E a ETA, que em outubro do ano passado declarou o fim da luta armada, tinha motivos de sobra para lutar contra o franquismo que aboliu a autonomia dos bascos, que eram proibidos de falar sua própria língua sob pena de prisão. O franquismo que promoveu o bombardeio e a destruição completa da cidade basca de Gernika pelos amiguinhos de Franco, ou seja, pela aviação nazista. O que, aliás, foi o primeiro bombardeio contra um alvo civil da História.

Mas, deixemos de lado a visão bitolada da mídia de basco sinônimo de terrorista. As pessoas deveriam lavar as mãos antes de escrever sobre os bascos. Ou lavar a boca, antes de falar sobre eles. Pois esse povo, um dos mais antigos do mundo, é muito digno. Sim, tão resistente e digno quanto o povo judeu. Como não chamar de dignidade uma resistência de três mil anos (segundo alguns historiadores, seis mil)? Esse bravo povo sem nação (como os curdos) que não tinha rei nem chefe religioso (o que era extremamente louvável e avançado), mas que, na hora da invasão do inimigo, se unia e não se rendia. Grandes conquistadores, como os romanos e os árabes, não conseguiram vencê-lo. Esse povo que, enquanto no resto da Europa a mulher era um mero objeto reprodutor, concedia à mulher uns direitos e uma autonomia desconhecidos na época. Por exemplo, sem chegar a ser propriamente um matriarcado, o jovem que se casava adotava o nome da mulher e ia morar na casa paterna dela. E, na estação da transumância, longe dos maridos, quem cuidava das propriedades e representava o clã no conselho da comunidade, eram elas.

Vejamos alguns dados. O Euskal Herria (País Basco) tem 20.644 km2 (mais ou menos a extensão da Eslovênia) e uma população de três milhões de habitantes. Abrange o Eukadi (Comunidade Autônoma Basca), que compreende as províncias de Araba, Bizkaia e Gipuzkoa – capital Gasteiz (Vitoria); Nafarroa (Comunidade Foral de Navarra) – capital Iruinea (Pamplona); Iparralde (País Basco do Norte – os bascos não usam a denominação País Basco Francês – do qual fazem parte as províncias de Lapurdi (Labourd), Nafarroa-Behera (Basse-Navarre) e Züberoa (Soule). Cerca de um milhão de pessoas é bascófono.

O euskara (o idioma dos bascos) é uma língua-ilha que, não sendo indo-europeia, não se parece com nenhuma outra língua da Europa. Daí deduzir-se que todas as línguas com ela aparentadas desapareceram. Estudos realizados por lingüistas apontam certa semelhança com o georgiano, inclusive existe um centro de estudos bascos na universidade de Tbilisi, capital da Geórgia – assim como existe um departamento de estudos bascos em Reno, na universidade de Nevada (estado onde houve importante imigração basca no século XIX). Haveria algumas conexões linguísticas com o tronco uralo-altaico (finlandês, estoniano, húngaro, turco). No País Basco do Sul (espanhol) o ensino é bilíngüe (euskara e castelhano) e atinge dois terços das crianças da região. No ensino superior, cerca de 50% das disciplinas são ministradas em euskara. A língua eukara tem declinações, não tem gênero gramatical, os artigos são sufixados aos substantivos e possui uma sintaxe muito diferente dos idiomas europeus: o complemento precede sempre o substantivo e o verbo, que, via de regra, se coloca no fim da frase. Porém existem línguas asiáticas com a mesma estrutura sintática. O euskara é uma das línguas oficiais da Espanha. Mas não é reconhecida como tal na França.

Alguns bascos (ou cidadãos de origem basca) ilustres: Isaak Albeniz, músico; Pio Baroja, escritor; Simón Bolívar (da diáspora venezuelana), herói da independência de vários países sul-americanos; Jean Duvergier de Hauranne, pensador, um dos fundadores do jansenismo; Eneko Loiolakoa (Santo Ignácio de Loyola); Frantzisko Xabierrekoa (São Francisco Xavier); Dolores Ibarruri (La Pasionária), militante da luta antifranquista; Mikel Indurain, ciclista várias vezes campeão; Robert Laxalt (da diáspora norte-americana), escritor e divulgador da cultura basca nos EUA; Gabriela Mistral (da diáspora chilena), poetisa, prêmio Nobel; Maurice Ravel, músico; Miguel de Unamuno, filósofo e escritor; José Echegaray y Eizaguirre, dramaturgo, prêmio Nobel; Etienne de Zilhueta, cujas caricaturas de perfil estão na origem da palavra silhueta.

Ikusarte!

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

22-03-2012

Publicado no jornal Correio Popular de Campinas dia 3 de abril de 2012