BASCOS, ESSES DESCONHECIDOS

abril 5, 2012

BASCOS, ESSES DESCONHECIDOS

A mídia é tão leviana quanto tendenciosa – pertencendo a grandes grupos, ela jamais poderia ser realmente imparcial e independente. A ponto, por exemplo, de qualificar os distúrbios de 2011 na Grã-Bretanha de atos de vandalismo. Quando na realidade eram nitidamente distúrbios sociais, logo políticos. Aliás, qualquer violência, seja no Brasil, no México ou nos EUA é social. E se é social, é política. E essa mídia superficial e parcial vive trocando as bolas – quando lhe interessa, claro. Usa e abusa do termo terrorismo a torto e direito. E existe terrorismo e… “terrorismo”. O atentado contra uma escola judaica em Toulouse, na França, foi um ato de puro terrorismo. Mas os ataques de determinados grupos armados contra o invasor não podem ser tachados de terrorismo.

Na França ocupada, os atentados da Resistência contra os alemães não eram atos de terrorismo, mas guerra contra o invasor. Assim como os dos partigiani, na Itália, tampouco o eram. E foi graças ao IRA (o primitivo) que a Irlanda se tornou independente do jugo do imperialismo britânico, e, mais especificamente inglês, em 1921. Senão ainda seria colônia. Embora a ilha da vaca neoliberal Thatcher não abra mão do Ulster. E a ETA, que em outubro do ano passado declarou o fim da luta armada, tinha motivos de sobra para lutar contra o franquismo que aboliu a autonomia dos bascos, que eram proibidos de falar sua própria língua sob pena de prisão. O franquismo que promoveu o bombardeio e a destruição completa da cidade basca de Gernika pelos amiguinhos de Franco, ou seja, pela aviação nazista. O que, aliás, foi o primeiro bombardeio contra um alvo civil da História.

Mas, deixemos de lado a visão bitolada da mídia de basco sinônimo de terrorista. As pessoas deveriam lavar as mãos antes de escrever sobre os bascos. Ou lavar a boca, antes de falar sobre eles. Pois esse povo, um dos mais antigos do mundo, é muito digno. Sim, tão resistente e digno quanto o povo judeu. Como não chamar de dignidade uma resistência de três mil anos (segundo alguns historiadores, seis mil)? Esse bravo povo sem nação (como os curdos) que não tinha rei nem chefe religioso (o que era extremamente louvável e avançado), mas que, na hora da invasão do inimigo, se unia e não se rendia. Grandes conquistadores, como os romanos e os árabes, não conseguiram vencê-lo. Esse povo que, enquanto no resto da Europa a mulher era um mero objeto reprodutor, concedia à mulher uns direitos e uma autonomia desconhecidos na época. Por exemplo, sem chegar a ser propriamente um matriarcado, o jovem que se casava adotava o nome da mulher e ia morar na casa paterna dela. E, na estação da transumância, longe dos maridos, quem cuidava das propriedades e representava o clã no conselho da comunidade, eram elas.

Vejamos alguns dados. O Euskal Herria (País Basco) tem 20.644 km2 (mais ou menos a extensão da Eslovênia) e uma população de três milhões de habitantes. Abrange o Eukadi (Comunidade Autônoma Basca), que compreende as províncias de Araba, Bizkaia e Gipuzkoa – capital Gasteiz (Vitoria); Nafarroa (Comunidade Foral de Navarra) – capital Iruinea (Pamplona); Iparralde (País Basco do Norte – os bascos não usam a denominação País Basco Francês – do qual fazem parte as províncias de Lapurdi (Labourd), Nafarroa-Behera (Basse-Navarre) e Züberoa (Soule). Cerca de um milhão de pessoas é bascófono.

O euskara (o idioma dos bascos) é uma língua-ilha que, não sendo indo-europeia, não se parece com nenhuma outra língua da Europa. Daí deduzir-se que todas as línguas com ela aparentadas desapareceram. Estudos realizados por lingüistas apontam certa semelhança com o georgiano, inclusive existe um centro de estudos bascos na universidade de Tbilisi, capital da Geórgia – assim como existe um departamento de estudos bascos em Reno, na universidade de Nevada (estado onde houve importante imigração basca no século XIX). Haveria algumas conexões linguísticas com o tronco uralo-altaico (finlandês, estoniano, húngaro, turco). No País Basco do Sul (espanhol) o ensino é bilíngüe (euskara e castelhano) e atinge dois terços das crianças da região. No ensino superior, cerca de 50% das disciplinas são ministradas em euskara. A língua eukara tem declinações, não tem gênero gramatical, os artigos são sufixados aos substantivos e possui uma sintaxe muito diferente dos idiomas europeus: o complemento precede sempre o substantivo e o verbo, que, via de regra, se coloca no fim da frase. Porém existem línguas asiáticas com a mesma estrutura sintática. O euskara é uma das línguas oficiais da Espanha. Mas não é reconhecida como tal na França.

Alguns bascos (ou cidadãos de origem basca) ilustres: Isaak Albeniz, músico; Pio Baroja, escritor; Simón Bolívar (da diáspora venezuelana), herói da independência de vários países sul-americanos; Jean Duvergier de Hauranne, pensador, um dos fundadores do jansenismo; Eneko Loiolakoa (Santo Ignácio de Loyola); Frantzisko Xabierrekoa (São Francisco Xavier); Dolores Ibarruri (La Pasionária), militante da luta antifranquista; Mikel Indurain, ciclista várias vezes campeão; Robert Laxalt (da diáspora norte-americana), escritor e divulgador da cultura basca nos EUA; Gabriela Mistral (da diáspora chilena), poetisa, prêmio Nobel; Maurice Ravel, músico; Miguel de Unamuno, filósofo e escritor; José Echegaray y Eizaguirre, dramaturgo, prêmio Nobel; Etienne de Zilhueta, cujas caricaturas de perfil estão na origem da palavra silhueta.

Ikusarte!

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

22-03-2012

Publicado no jornal Correio Popular de Campinas dia 3 de abril de 2012

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7 Respostas to “BASCOS, ESSES DESCONHECIDOS”

  1. Solange Frealdo Says:

    Gostaria de agrader essa aula sobre os Bascos.Sou descendente de espanhois( do sul da Espanha),mas meu avô contava historias sobre os bascos,mas eu sabia pouca coisa e sempre tive curiosidade de saber mais. Fico muito agradecida pois esclareceu muitas dúvidas. Belo trabalho, o seu.Parabéns.

  2. davidhaize Says:

    Obrigado pelas suas palavras. Na internet você pode encontrar bastantes informações sobre a cultura do povo basco.

    Cordial abraço


  3. Parece que esse Zilhueta era um agente de governo que criticava as grandes despesas da nobreza francesa com retratos. Retratos eram feitos por pintores, e acho que nessa época os artistas já podiam fixar o preço de seu trabalho. Que possivelmente fosse sobrefaturado, não acham? O caso é que o desenho de perfil em preto, que seria um retrato popular na época (e que acho que deve ter origem na antiga China) acabou levando o nome Silouhette. Outrossim: Unamuno não foi Nobel, embora talvez o merecesse.

    • davidhaize Says:

      Obrigado pela correção. Lamento o erro – o que, como escritor e articulista, me deixa muito mal. De fato, Unamuno não foi agraciado com o Nobel. Eu tirei essa informão de “Parlons Euskara – La Langue des Basques”, de Txomin Peillen (doutor em euskara na universidade de Bayonne), Editions L´Harmattan (1995), livrro no qual me baseei, em parte, para escrever o artigo. Em verdade não me lembrava de que Unamuno tivesse obtido o Nobel. Mas como não podemos guardar tudo na memória, entrei na de Peillen. Ou seja, endossei o seu erro.

      Saudações
      .


  4. Agradecendo pelo artigo, comento a mais que os bascos são conhecidos popularmente por terem ideias fixas, não se deslocarem delas nem por evidências em contrário. Acredito exista algo de verdade nisso. Respeito do bombardeio de Guernica, realizado por Hitler para testar o bombardéio de cidades, o culpado não seria Hitler mais Franco. O franquismo nunca lamentou esse fato, nem tantos outros atos semelhantes, e ainda fuzilou aos padres bascos, todos extremamente católicos.


  5. Excelente poder saber mais sobre minhas raízes!


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