Maitezaitut/Anee ohev otakh

maio 6, 2012

Parte de
JUIZ CASADO COM FILHOS PROCURA HOMEM PARA SEXO CASUAL
(CONTOS)

Maitezaitut/Anee ohev otakh

Eu, Aitor  Haritz, filho de Iñaki e Arantxa, bascos exilados, escrevo este livro. Não para glorificar os deuses, porque não acredito em deuses. Nem para louvar os homens, porque não acredito em homens. Eu, que pintei centenas de telas. Eu, que comi centenas de mulheres – não, não fica bem usar a expressão comer mulher logo no prólogo do livro. Eu, que deitei com centenas de mulheres – isso, assim não espanto a burguesada, que é justamente quem vai comprar o livro. Então: eu, que deitei com centenas de mulheres e mesmo com alguns homens – aí vão pensar que sou giletão (como se dizia antigamente); mas não faz mal, está na moda ser bi e eu preciso fortalecer meu mito, que já está praticamente criado. Vamos lá: eu, que deitei com centenas de mulheres e mesmo com alguns homens. Eu, que sou militante e que, como ativista coloquei bombas, literalmente falando, na minha juventude. Eu, que larguei tudo para me dedicar à arte – e que passei fome. Eu, que experimentei todo tipo de drogas. Eu, que casei oficialmente duas vezes e amiguei quatro. Eu, que fiz cinco filhos de mães diferentes. Eu, anarquista da alma aos colhões. Anarquista, pela graça de Deus, imerso na mais desvairada liberdade. Eu, que bebo. E cheiro – quando tenho grana. E fumo. Eu, que amo as cores loucas de Van Gogh, de Goya e de Delacroix. Eu, que quando entro no cio da criação, afundo no frenesi do sonho feito pintura e passo dias e noites na frente de várias telas trabalhando simultaneamente, até cair de cansaço, exausto e feliz. Eu, que nunca sustentei meus filhos e que mal tenho para sustentar meus dois cachorros, meus dois gatos, meu peru, meu papagaio e minha tartaruga. Eu, que não acredito em nada, a não ser na pintura e numa boa foda – não, foda não é um termo adequado; a burguesada gosta de foder (no sentido literal e no sentido figurado), mas não gosta de dizer que fode. Então fica assim: eu, que não acredito em nada a não ser na pintura e no sexo. Eu, pavio curto, briguento, estourado, impulsivo, impaciente, mas generoso, amoroso, caloroso. Eu, desorganizado, indisciplinado, desregrado, caótico, mas excelente pintor, segundo dizem. Eu, de pau grosso e avantajado – que que é isso, rapaz! tira essa bosta de pau daí, isso não interessa ao leitor. Então vamos tirar. Pronto. Eu, de pênis sempre firme – caralho! Tira essa merda de pênis firme. Tá bom. Pronto. Sem pau nem pênis. Eu, machista, falocrático, obcecado por sexo. Eu, cinquentão cético, desiludido, que vive em função de pintar e meter – não, cara, o verbo meter é chulo. Certo, então: eu cinquentão cético, desiludido, que vive em função da pintura e do sexo. Eu, que vivo com urgência porque tenho medo de morrer e de não pintar mais e de não trepar mais – não, sem o termo trepar. Então: eu que vivo com urgência porque tenho medo de morrer e deixar de pintar e fornicar – caralho! fornicar é fresco demais, põe transar. Tá bom: transar. Eu, que mesmo quando não tenho o que comer, não tenho coragem de matar meu velho peru e comê-lo, porque gosto muito dele – porra, deixa o peru de fora, nada a ver. Tá bom, vamos tirar. Eu, que mal limpo a casa, onde tudo está quebrado, onde não há mais espaço para quadros. Eu, que não uso cuecas para não ter que lavá-las e que no verão vivo completamente pelado em casa. Eu, que tomo banho quando lembro, por causa do fedor. Eu, que vivo duro, mais duro que meu pau – nada de pau, tira. Mais duro do quê? Não põe nada: eu, que vivo duro – e pronto. Eu, cuja única renda é o aluguel do apartamento que herdei dos meus pais, junto com a velha casa onde moro e que está caindo aos pedaços. Eu, que fico sem telefone e sem luz e às vezes até sem água, porque não paguei a conta, por esquecimento ou por falta de dinheiro. Eu, que, quando a galeria vende uma das minhas telas, fico tão feliz, tão entusiasmado, tão confiante no futuro, que praticamente torro todo o dinheiro em presentes para os meus cinco filhos e em bebedeiras com os amigos, meus convidados. Eu, que não compro nada para mim – pois vivo de bermudas (sem cuecas), camiseta e havaianas, ou pelado e descalço – a não ser tintas. Eu, que choro como criança quando penso nela – não, não põe isso agora, deixa essa frase para mais para frente. Tá bom. Vamos riscar. Eu, meninão mal crescido, carente, que só se sente amado quando afoga o ganso – qual é, cara? tira afoga o ganso. Então: quando faço amor? Pode ser. Eu, meninão mal crescido, carente, que só se sente amado quando faz amor. Eu, dependente de sexo, que precisa ter sempre uma boceta por perto – porra! tira boceta. Certo:… que precisa ter sempre uma mulher por perto para não se sentir como cão sem dono. Eu, que choro quando leio a biografia de Modigliani, ou de Toulouse-Lautrec, ou de Van Gogh, ou quando assisto a uma cinebiografia sobre eles, meus queridos irmãos, tão grandes e de vidas tão curtas e tão tristes. Eu, que fico horas contemplando as obras de Bosch e de Bruegel, o Velho e o Jovem, e que sonho com os monstros de Bosch e com a solidão de De Chirico e de Hopper e de Munch. Eu, sempre perseguido por essa angustiante solidão ao longo de minha vida, embora com cinco filhos e tantas mulheres e a pintura. Eu, que não sei de onde me vem essa solidão atroz – talvez seja do deslocamento, do não-pertencer a nada, senão à embriaguez solitária da arte. Eu, extasiado pela epifania, mergulho em nuvens e sóis e trigo de Van Gogh, iluminado pela luz de Caravaggio. Eu, que em fugas alucinadas, me irmano com a busca do transcendente bruto de Gauguin nos mares do Sul. Eu, que às vezes piro no caleidoscópio de luzes e cores dos sentidos desregrados pela revelação. Eu, que, solidário, contemplo os solitários, os deserdados, os miseráveis de Steinlen sob a chuva, ou os da noite densa de Goeldi. Eu, ateu convicto, que me arrepio perante as figuras místicas de El Greco. Eu, de sangue feito tinta, justifico minha existência pela pintura e a sustento pela energia do esperma. Eu, eterno deslocado que vive para pintar e foder – foder, não, cara. Foder, sim. Foda-se quem se espantar. Vai ficar assim mesmo: eu, eterno deslocado que vive para pintar e foder. Eu, que pinto a Nona de Beethoven e o Messias de Haendel e o Toreador da Carmen de Bizet e o Rubaiyat de Khayyam. Eu, que vivo caoticamente, porque só penso em pintar e meter – meter, não, cara. Meter, sim, cara. Fica assim mesmo. Ou, melhor:… porque só sei pintar e meter e porque o resto pouco me interessa. Eu, Aitor Haritz (Aitor, que é o pai do povo basco e Haritz que significa carvalho, árvore sagrada) escrevo este livro para louvar uma boceta – não cara, boceta não fica bem no prólogo do livro; você vai ter muitas páginas para usar o termo no decorrer da redação do livro. Então:… para louvar minha amada. Isso, fica bonito. Ou melhor, a mulher amada. Mesmo porque você não amava só sua boceta, né? Você a amava – ou a ama – por inteiro, né? Mas o que mais amo nela é sua boceta. Judia safada. Me largou para voltar com o marido – que na realidade nunca deixou. Filha da puta. Tinha que ser psicóloga. Todas as psicólogas que comi eram iguais. Completamente burguesas. As acadêmicas eram um pouco melhor. Mas as clínicas, Deus me livre! Pronto. Perdi o tesão de escrever. Não vou escrever mais. Nem acabei o prólogo. Aliás, nem sei se vou escrever esse livro. Quis começá-lo parodiando o início de O Egípcio, de Mika Waltari. Mas não sei se vou ter paciência de escrever um livro autobiográfico. Sei lá. Talvez peça conselhos ao meu amigo David Haize, que é um bom escritor. Filha da puta de psicóloga lazarenta. Cadela do politicamente correto. Ela representa tudo o que eu não suporto. Mas é tão doloroso ser abandonado pela pessoa amada. Lembro-me neste momento de Maysa cantando Ne me quitte pas, de Jacques Brel. E meus olhos se enchem de lágrimas. Rebeca filha da puta. Às vezes fico puto de raiva por você ter me deixado. E por eu te amar tanto. Deve estar metendo com o corno do marido. Aquelas trepadinhas pausterizadas de marido e mulher cansados um do outro. Tomar no cu. Nem sei como fui me enroscar com essa fulana. É, sozinho, carente, sabe como é. Conheci numa exposição. E a coisa foi logo pegando fogo. Mas as fodas com ela, nunca tive com outra mulher. Nem sei explicar. Era a química entre os dois. Essa pele branquíssima, suave como veludo. Esses olhos pretos como jabuticaba. E esse cabelo preto, comprido, que a tornava mais felina ainda. E umas tetas! E uma bunda! E essa santa boceta! No esplendor dos 40 anos. Mas era algo realmente inexplicável que emanava de sua pessoa. A sensualidade em estado bruto. E olha que ela não tinha uma beleza agressiva. Era um frescor e uma espontaneidade extremamente insinuantes. Existem mulheres que transpiram sensualidade. Marilyn Monroe, talvez a atriz mais sensual da história do cinema (vi quase todos os filmes dela na TV) era uma delas. A mulher não precisa ser bonita para ser sensual. Algumas feias são muito atraentes. Em contrapartida, algumas muito belas parecem frígidas. Não, minha amada não era apenas uma boceta – embora eu ficasse alucinado quando mexia com os dedos ou com o pau ou com a língua na sua esplendorosa boceta. Era um conjunto de coisas. Um não-sei-o-quê indefinível que me deixava doido. Quando estava com ela, eu só pensava em meter. O mundo se reduzia a meter. O mundo se reduzia ao meu pau e a sua boceta. Eu esquecia até o que mais amo: a pintura. Meter. Meter. E meter. E olha que não sou mais garoto. Estou com 52 anos. Mas o pau está bem firme. Que a sagrada natureza assim o converse por muito tempo – quero morrer de pau duro. Esse meu pau que era tão grato a sua divina boceta. Quando ela ia embora, depois de uma boa matinê de foda, eu ficava triste como um menino abandonado. E esperava ansiosamente pelo próximo encontro, sempre em minha casa. Ela vinha uma ou duas vezes por semana. Sempre à tarde. Largava o consultório e vinha me ver. Ela trabalhava muitas horas. E a noite era para o marido e os filhos. Logo, ela nunca passou uma noite comigo. Eu entendia. Mas tinha ciúme do marido. Uma vez cobrei. Ela respondeu que passar uma noite comigo era algo impossível. Então eu sugeri: largue seu marido e venha morar comigo. Ela poderia ter respondido: posso largar meu marido, mas meus filhos jamais – tinha dois filhos, um menino e uma menina. Mas ela queria me ofender e retrucou: largar minha família para morar nesta pocilga? Você não acha que é muita pretensão sua? Isso me machucou. E depois de um silêncio soltei: você só gosta de meu pau, né? Ué, replicou ela, você não gosta só da minha boceta? Eu poderia ter dito que a amava, que precisava terrivelmente dela. Mas limitei-me a mandá-la embora: dá o fora, vá embora judia filha da puta, vá para Auschwitz. E ela ficou puta e gritou: basco nazista, filho da puta! E caiu fora. Puta que pariu! Se ela era linda quando sorria, quando ficava enfurecida era um tesão enlouquecedor. Porra, mas eu falo só no passado. Como se fizesse dez anos que não a visse. E faz apenas dois meses que não a vejo. Dois meses batendo punheta pensando nela. Dois meses sem a minha querida judia. A mulher que mais amei até hoje. A mulher mais linda do mundo. A mulher que quero para o resto da minha vida. Volte para mim, sua filha da puta. Volte para teu basco filho da puta. Volte. Volte, meu amor. Não aguento mais viver sem você. Será que você não percebeu que te amo tanto quanto a pintura? Será que você não percebeu que depois que te conheci, minha vida passou a girar em torno de você? Volte, meu amor, eu te suplico. Olha, estou chorando. Chorando por você. Chorando como uma criança desamparada. Minha Rebeca. Minha Rebeca Laredo Sachs. Judia sefardi. Temos algo em comum: nossos antepassados eram da península ibérica. Sabe, minha querida, quando um macho chora por uma mulher, pode crer que ele é sincero. Lágrimas de macho são duras, mas sempre sinceras. Posso nunca ter te falado que te amo. Mas eu te amo profundamente. Não só com a pica. Eu te amo com meu coração, minha alma, minha mente. Sempre houve um antagonismo entre nós. Curiosamente ambos detestávamos a “fraqueza” de amar tão intensamente um ao outro. Ambos não queríamos admitir a dependência assustadora que tínhamos um do outro. E ambos expressávamos toda a força do nosso sentimento por meio do sexo. O sexo como diálogo. O sexo como comunicação. O sexo como confissão. O sexo como entrega total. O sexo como meio e fim. Tudo reduzido a sexo. Porque as palavras de amor, banidas, só brotavam, mudas, através do sexo. O sexo que nos matinha unidos. Mesmo porque sabíamos que, além do sexo, não havia nada a esperar. Porque tínhamos consciência de que uma vida em comum era praticamente (praticamente no sentido literal) impossível. Nossos valores eram muito diferentes. Você, a burguesa bem comportada, disciplinada, correta, limpinha – doida só na cama. E eu, o anarquista esculachado, indisciplinado, incorreto, sem higiene pessoal. O basco e a judia. O pintor e a psicóloga. Em comum só tínhamos o gosto pelas artes e pela cultura de modo geral. Mas, curiosamente, a cultura e a arte não motivavam nosso diálogo. Só conectávamos mesmo via pênis e vagina. Ou seja, pau e boceta. Ah, minha amada boceta judaica! E quando uso a palavra judia não o faço com nenhuma conotação racista. Como poderia eu, um anarquista, internacionalista, que abomina o nacionalismo, ter preconceitos raciais? Pois saiba – já que não consigo esquecer aquela vez que te ofendi mandando-te para Auschwitz – que entre as mulheres do mundo que mais admiro, há várias judias. Mulheres fascinantes, cada uma a seu modo, como as grandes atrizes francesas Simone Signoret e Anouk Aimée e a cantora, também francesa, Barbara. E a atriz brasileira Dina Sfat. Ou as ativistas Rosa Luxemburg e Olga Benario. Ou a filósofa Hannah Arendt. Ah, minha querida, se você ficasse comigo, era capaz de casar legalmente com você – eu que não acredito na instituição do casamento e que só fui casado oficialmente duas vezes. E tem mais, se você me pedisse para me converter ao judaísmo, mandaria cortar a pele do prepúcio e, circunciso como David, o grande herói bíblico sacana, te ofereceria um pau judaico para o resto da vida. Meu pau para você fazer com ele o que você quisesse. Menos cortá-lo, claro. E faria até o Bar Mitzvah – se é que adulto faz. E comemoraríamos o Rosh Hashanah e o Yom Kippur. Ah, minha querida Rebequinha, volta para o filho da puta do teu basco. Eu prometo que vou tomar banho todo dia. E trocar de bermuda e camiseta. E usar as cuecas que você me comprou. O banho era motivo de briga. Você exigia: não dou para você se você não tomar banho. E eu ficava puto. Porque eu gosto de cheiro natural. De cheiro animal. Eu sou um animal, você sabe disso. Sou um animal que pinta e mete. E gosto de uma boa boceta com odor natural – o que os outros chamam de fedida. Eu fico com muito tesão quando enfio o nariz numa boceta com cheiro forte. Você vivia me chamando de porco. Que a minha roupa fedia. Que os lençóis fediam. Que a casa inteira fedia. Eu prometo trocar os lençóis e limpar a casa. E recolher o cocô dos cachorros do quintal. Você implicava com tudo. Mulher implica mesmo com tudo. Você implicava até com meus bichos. Você alegava que detestava cachorro pulando na cama quando estávamos trepando. Às vezes eram os gatos que subiam na cama. Uma vez foi o peru – que andava por todos dos cômodos da casa – que pulou na cama e você se assustou. Você me fazia levantar e colocar os bichos fora do quarto e fechar a porta. Se não você se recusava a dar para mim. Mas às vezes um dos cachorros abria a porta – o danado sabe abrir – e o zoológico entrava de novo no quarto. Eu gosto muito dos meus bichos. E os gatos e os cachorros dormem na minha cama. Você dizia que a casa inteira fedia a cachorro e cigarro. E que tinha merda de peru em todos os cômodos. Eu prometo deixar todos os animais fora do quarto e trancar a porta na hora de meter. Tudo era motivo para brigar. Até meu cabelo e minha barba compridos e sujos. Brigas feias, até de tapas. Mas na realidade era uma briga de poder. De um querer dominar o outro. De um querer ouvir do outro: eu te amo e te aceito como você é. Mas eu, sem querer, acabava bancando o durão e não apelava para as palavras de ternura porque não tinha muita certeza de como ela as receberia. E, ao que tudo indica, ela receava a mesma coisa. E assim nos fechávamos numa espécie de mutismo. Mas se o sexo era selvagem, até brutal – e ela gostava disso tanto quanto eu – havia também gestos de extrema ternura onde o toque do rosto e o olhar substituíam as palavras que não conseguíamos pronunciar. As piores brigas era quando ela não vinha me ver. Eu ficava uma vara. E ficava inseguro. Ciumento. E fazia um escândalo, como um adolescente. E, imaturo, sem levar em consideração que ela era casada e trabalhava o dia todo, cobrava feio: por que você não veio anteontem? Eu já te expliquei que tive um paciente urgente não agendado que não podia deixar de atender. Às vezes ela tinha que levar um dos filhos ao médico. Ou tinha reunião de pais na escola. Coisas normais de qualquer mãe. Mas eu não controlava os impulsos, alimentados pela ansiedade e, até certo ponto, pelo ciúme. Quando brigávamos feio, aos berros e às vezes com tapas, era um verdadeiro pandemônio em casa. Aos nossos gritos se juntavam os latidos dos cachorros que ficavam agitados, o glu-glu-glu do peru e a voz do papagaio que repetia sem parar: filho da puta, filho da puta, filho da puta… Era a invariável sinfonia pastoral (ou bucólica) como fundo das nossas disputas. Mas como era bom depois da turbulência. O sexo rugia ávido. Voraz. Urgente. Desesperado. Avassalador. E fodíamos como dois condenados à morte. Como se fosse a última vez. Como se o mundo fosse acabar de uma hora para outra. E era uma barulheira do diabo, os dois metendo. Mais barulhentos do que gatos quando cruzam. E era chupar e meter por tudo quanto era buraco. E quando estávamos próximos do orgasmo, parávamos, para recomeçar e prolongar o prazer. Até não aguentarmos mais e gozar como feras. Aí ela gritava. Não gemia, gritava mesmo. E eu grunhia como um animal. Quando ela gozava, antes de mim, pedia para eu gozar na sua boca. E eu gozava com prazer como ela pedia. E ela engolia meu esperma. E quando estávamos no auge da excitação, eu falava palavrões e frases chulas – com as quais ela foi se habituando e foi adotando. E assim saía: fala que você gosta do caralho do teu macho/gosto do caralho do meu macho/fala que você gosta de ser enrabada como uma puta pelo teu macho/gosto de ser enrabada como uma puta pelo meu macho/fala que você é uma judia filha da puta que gosta de dar para um basco filho da puta/sou uma judia filha da puta que gosta de dar para um basco filho da puta/fala que você é uma burguesa que gosta de foder com um anarquista/sou uma burguesa que gosta de foder com um anarquista. E quando eu ia gozar, eu dizia: goza comigo sua puta; goza comigo sua vaca; goza comigo sua cadela; goza com teu macho, sua biscate. E ela respondia: gozo, sim, meu gigolô; gozo, sim, meu touro; gozo, sim, meu cachorrão; gozo, sim, meu macho. Não, o sexo não pode ser civilizado. Mas muitas vezes, em acessos de ternura sem limites, eu teria gostado de murmurar: goza comigo meu amor, goza querida com o homem que tanto te ama. E certamente, ela esperava essas palavras de mim, do homem amado. Mas eu não proferia essas palavras mágicas.  Nunca as proferi. Eu, um imbecil. Um ordinário. Um grosso. Sim, um grosso. Por mais sensibilidade artística que tenha. E ela se cansou. Não aguentou essa barra de sexo bruto. Sexo selvagem sem permitir que o amor se manifestasse. Sexo feroz. Sexo pelo sexo – que em realidade não era. Às vezes, quando brigávamos – e isso sempre acontecia antes do sexo –, ela ameaçava ir embora. Mas eu não a deixava e apelava para o que sabia que era infalível: não vá embora, não, não vá embora sem transar comigo, eu não posso ficar mais de uma semana sem você, faça com meu corpo o que quiser, sou teu. Assim, fazendo-me humilde pela premente necessidade de sexo com ela, eu a desarmava. E ela cedia. Céus! Que fúria sexual havia entre nós. Que furor de existir quando um corpo se juntava e se unia ao outro. Quando os dois corpos se fundiam num só. Nada neste mundo é mais forte que o sexo. Só a morte. Não, ela não suportou a barra e caiu fora. Mesmo porque ela sabia que não podia esperar outra coisa de nosso relacionamento. Mesmo porque ela compreendia que essa relação se esgotava em si e fechava qualquer saída para o futuro. Mas eu a amo e a quero de volta. Eu a quero de volta sob as condições que ela impor.  Estou sozinho. E a solidão dói. Dói desde criança. E, agora, na maturidade, mais ainda. Só tenho meus dois cachorros, meus dois gatos, meu peru, meu papagaio e minha tartaruga. Vivo praticamente recluso. Meus filhos raramente vêm me ver – não devo ter sido um bom pai. Só vejo os amigos quando vendo uma tela – e passo meses e meses sem vender nada – e pago cerveja para eles, até a gente ficar bêbado, até amanhecer. E meus filhos, a mesma coisa. Só os vejo quando vendo uma tela e compro presentes para eles e vou visitá-los. A única pessoa que vem me visitar é David Haize, meu amigo escritor. Um bom escritor. Gosto de sua literatura. Tem uns vinte livros publicados. Li quase todos. Seus romances são muito loucos. Aliás, como ele. Só podia ser meio doido para gostar de mim. Gente certinha não gosta de mim. Como meu irmão. Que vem me ver um Natal sim, outro não. Ou seja, a cada dois anos. É um cara corretíssimo. Certinho. Engenheiro. Bem sucedido na vida. Com dois filhos. A mulher dele é uma porca consumista. Uma vaca que vive fazendo compras nos shoppings. Só pensa nisso, em consumir. Aposto que quando ela está metendo com meu irmão deve estar pensando nas compras do dia seguinte. Vai ver que meu irmão não a trabalha bem na cama, não lhe dá uma boa surra de vara. Essa burguesada que só pensa em trabalhar e em consumir acaba brochando. Não gosto dela. E ela não gosta de mim. É recíproco. Uma vez – uma das raras vezes – que ela veio aqui com meu irmão, falou, depois de uma discussão que eu provoquei porque não vou com a cara dela, que minha casa era um chiqueiro. E nunca mais voltou. Nem quero. Perua metida a grã-fina. Burguês não gosta mesmo de mim. Nem poderia. Além de anarquista, gosto de viver com meus bichos e não ligou muito para essa frescura de limpeza e higiene. Que mania de limpeza e higiene. Parece coisa de norte-americano que vive obcecado pela higiene. Lá tudo é esterilizado. Devem esterilizar também até o pau e a boceta antes de foder. Tá louco. Eu, hein!  Eu gosto é de uma boceta cheirosa como queijo camembert. E não me incomodo com o cheiro do meu pau no dia seguinte de ter metido. Mas então, como estava dizendo, o David – por sinal Haize, seu sobrenome, significa vento em euskara (língua basca), ele tem uma antiga ascendência basca – vem regularmente me visitar. Ele costuma passar em casa a cada dois meses mais ou menos. E sempre aparece com uma dúzia de latas de cerveja e uma pizza ou um monte de pasteis ou vários pedaços de queijo. Ele sabe que eu ando sempre duro. Não é que ele nade em dinheiro. Mas ele dá aulas à noite e uma ou outra palestra – de dia ele escreve. E vive disso. Porque ganha menos com os livros do que eu com a pintura. Temos muita coisa em comum. Sangue basco. Curtimos, alem da arte, uma boa boceta, uma boa comida e uma boa bebida. E, claro, somos anarquistas, hedonistas e racionalistas. Mas ele é disciplinado. Coisa que eu não sou. O filho da puta é disciplinado mesmo. Ele, por exemplo, estabelece um prazo para terminar um livro. E acaba dentro do prazo previsto. Diz que sem disciplina ele se perde completamente. O cara é doido pela literatura. Como eu sou pela pintura. Ele diz que as três melhores coisas da vida são escrever, meter e comer. Eu substituo escrever por pintar e acrescento beber. Ele é metódico. Eu já como quando dá fome, durmo quando estou com sono e pinto quando dá vontade. Não tenho horário para comer, deitar ou pintar. A Rebeca não conseguia entender meu modo de viver. Mas que ela gostava de meter comigo, isso não se discute. Uma vez ela disse que eu era a melhor foda que ela conheceu na vida, mas que era impossível viver comigo. Rebeca, minha santa boceta, minha boceta bíblica, minha sagrada boceta de Jerusalém como você faz falta na casa deste basco abandonado. Mas não vou pensar na Rebeca. Não quero ficar mais triste que já estou. Voltando ao David – por sinal ele está enrolado com uma garota que poderia ser sua neta –, ele me lembra o Henry Miller porque, como o escritor norte-americano, ele escreve muito sobre sexo e com muito palavrão e o que ele escreve é quase sempre autobiográfico. E ele fala que eu sou o Bukowski da pintura. O filho da puta entende mesmo de pintura. Temos, em termos de pintores, mais ou menos os mesmos gostos. Além de Bosch, Goya e Van Gogh, é fissurado em Giotto, Vermeer, De Chirico e Edward Hopper. Ele não curte Dalí, que acha muito acadêmico. Aprecia muito meu abstracionismo e sempre quer que lhe mostre meus últimos trabalhos. Sempre que aparece, ele traz algum texto inédito dele e o lê para mim. Foi com ele que aprendi a gostar de Omar Khayyam, o grande poeta persa, fodedor e beberrão, que, como David e eu, não acreditava em nada, a não ser numa boa boceta e num bom vinho. Ele diz que Khayyam é o maior poeta da humanidade. A última vez que ele esteve em casa, chorei muito, pois fazia apenas uns dias que a Rebeca tinha me largado. Ele me ouviu, sem julgar, sem cobrar nada de mim. Um puta amigão. Ele me aceita como eu sou. Se ele fosse mulher, eu comia. Ou se eu fosse bicha, dava para ele. O filho da puta foi também um grande comedor na sua mocidade, Às vezes ele me conta casos antigos. Alguns muito engraçados. E eu conto os meus. E damos boas risadas. Felizmente ele fuma, como eu. E dá-lhe cigarro e cerveja e bocetas do passado. Fumar era outro motivo de briga com a Rebeca. Ela detesta cheiro de cigarro. Minha amada Rebeca é todo o oposto de mim: não fuma, não bebe, é séria e correta, mas gostava muito de meter comigo. Mas deixa para lá. Não quero pensar nela. Além da pintura e dos pintores, da literatura e dos escritores, das mulheres e suas fodas fantásticas, há outro tema sempre presente nas nossas conversas: a política. David e eu concordamos que as bombas devem voltar. Como na nossa juventude. Bombas nos bancos. Os bancos roubam descaradamente e devem ser assaltados e destruídos de modo sistemático. Bombas nas bolsas de valores. As bolsas especulam e arruínam a economia. Bombas nas multinacionais que exploram vergonhosamente os países pobres. Bombas nas instituições religiosas que exploram e alienam o povo. Bombas na mídia que está nas mãos dos poderosos e, consequentemente, defende os interesses dos poderosos. Bombas nos supermercados. O povo faminto tem o direito de saquear os supermercados. Bombas nas indústrias que poluem e que estão destruindo o Planeta. David odeia visceralmente o neoliberalismo, a globalização e a religião. E assim ficamos entusiasmados colocando bombas em tudo quanto é lugar. Como bons anarquistas. E quando David Haize vai embora e leva consigo pintura, literatura, mulheres e bombas, fico sozinho. Como agora. Pensando nela. Com a saudade me oprimindo o peito. Rebeca, meu amor, minha bocetona angelical, ligue para mim. Diga que você me quer de volta. De volta para sempre. Pode ficar com o marido. Não vou exigir exclusividade. Não vou nunca mais brigar por ciúme do teu macho oficial. Pode viver com ele. Pode até meter com ele. Mas não me deixe. Venha me ver em casa. Nem que seja uma vez por semana. Eu gosto tanto do que você me faz na cama. Gosto demais dos teus beijos. Das tuas chupadas. Das tuas mordidas. Dos teus arranhões. Gosto das marcas roxas que você me deixa no pescoço e nos ombros. E que eu não posso deixar por causa do teu marido. Eu vou mudar, meu amor. Eu prometo que nunca mais vou fazer cenas de ciúme. Que nunca mais vou dar tapas em você – embora você sempre batia primeiro. Que vou deixar de fumar. Que vou limpar a casa e trocar os lençóis. Que vou tomar banho todo dia. Que vou dar banho nos cachorros, nos gatos e até no peru – no papagaio e na tartaruga não precisa, né? Eu estudo o ladino dos teus antepassados. E até o hebraico. E mando cortar a pele do prepúcio para te oferecer um pau circunciso, judaico. Embora você não seja uma judia ortodoxa e não ligue muito para o judaísmo. Mas é apenas para te dar uma prova do meu amor, reverenciando tudo o que vem da tua cultura e tradição. E vou ler o Talmud todo dia. E o Torah. E depois de gozarmos, vou te murmurar, como o amante mais carinhoso do mundo, maitezaitut, ou seja, eu te amo em euskara (língua basca) ou anee ohev otakh, ou seja, eu te amo em hebraico. Rebeca, não me largue sozinho. Pela coisa mais sagrada do mundo, não me deixe. Você sabe que eu te amo mesmo. E não vou poder te substituir. Mesmo porque nenhuma mulher quer ficar comigo. Com esse temperamento explosivo. Com essa casa bagunçada onde tudo está quebrado. Com todos esses bichos pulando na cama. Só puta mesmo para meter, ser paga e cair fora. Rebeca, volte, meu amor. Me dê uma chance. Uma única chance. Vamos deixar de ser apenas um pau e uma boceta para a gente se tornar um homem e uma mulher que se amam. E que são capazes de falar. E, por que não, até de serem felizes.

Continua…

  • em 12/05…      “Pai, Quero Ser Mãe”
  • em 19/05…      “Comida Caseira”
  • em 26/05…      “Sax”
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