Prefácio

junho 2, 2012

Parte de
JUIZ CASADO COM FILHOS PROCURA HOMEM PARA SEXO CASUAL
(CONTOS)

Prefácio

         Roldan-Roldan se reinventa e surpreende a cada novo livro. Depois do espanto estético do romance experimental Matriochka e do despojamento dos belos poemas de O Deslizar das Horas, ele volta aos contos. Quarto livro de contos,  Juiz, Casado, com Filhos, Procura Homem para Sexo Casual segue-se à trilogia Carta de Uma Mulher Separada (contos realistas), Kabul, Antes, Depois (contos fantásticos) e Ao Sul do Desejo (contos eróticos).

Há livros que seduzem pela coesão formal e temática, formando um todo compacto de coerência estética e dramática. Juiz, Casado, com Filhos… é um deles. São relatos que fluem saborosamente, concisos e exatos, sem descrições desnecessárias, sem altos nem baixos, num registro que vai do cômico ao dramático, do patético ao sarcástico, e que se encadeiam harmoniosamente, como se fossem capítulos de um romance  episódico (aliás, em três deles há interreferências), compondo um rico painel da sociedade urbana e, por extensão, da condição humana. Assim, desfilam perante os olhos do leitor o amor, o desejo, a solidão, o tempo, e a urgência de viver intensamente antes que a morte chegue.

Como contos tão diferentes entre si podem formar um bloco tão coeso? Simplesmente porque a unidade da obra reside no estilo, que acaba se tornando um elo entre as diversas narrativas. Os sete contos, narrados em primeira pessoa, logo, em tom confessional, têm em comum o monólogo interior, por assim dizer, monólogo que recua na memória para traçar o perfil dos personagens. E é por meio de uma linguagem informal, às vezes chula, que penetramos no mundo desses personagens que, embora de carne e osso, não vivem situações propriamente corriqueiras.  Personagens característicos do autor, esses seres vivem no limite da margem – e a marginalidade não significa necessariamente criminalidade –, mesmo porque determinadas margens estão muito próximas da “normalidade” ou da integração. Alguns deles são (ou estão) marginalizados, com o pintor de Maitezaitut…, o músico de  Sax e,  até um certo ponto, o escritor de Pau na Horizontal, assim como a garota de Pai, Quero Ser Mãe. Outros, embora bem encaixados no sistema, logo, não marginalizados, não deixam de viver situações à margem dos padrões vigentes de comportamento, situações não aceitas pelo modelo convencional de moral da sociedade burguesa, como é o caso da idosa de Vó, Teu Amante É Gostoso?, do juiz de Juiz, Casado, com Filhos… e do marido polígamo de Comida Caseira. Essas situações “anormais” dos personagens – outro traço que sublinha a unidade e coesão da obra – vão do incesto à prostituição masculina, passando pelo adultério e pela poligamia. Situações que podem ser hilárias, como em Vó, Teu Amante É Gostoso? e principalmente em Comida Caseira (com ecos de Maupassant), onde acaba se inserindo uma fina ironia em relação aos valores da classe média – aliás, classe cuja hipocrisia é aberta e sarcasticamente criticada em Juiz, Casado, com Filhos… Situações que também podem ser constrangedoras, como em Pai, Quero Ser Mãe, o conto mais ousado e perturbador – porém o mais delicado – do livro, ou profundamente melancólicas e desencantadas, como em Sax.

E, para finalizar, mais um elo entre os sete contos: o prazer. Não só o prazer sexual que praticamente todos os personagens buscam como afirmação da existência e forma, consciente ou inconsciente, de afastar a morte, mas o prazer que todos eles, de um modo ou de outro, proporcionam ao leitor. Pode-se discordar da visão de mundo, do universo abordado e descrito pelo autor de maneira incômoda e impertinente. Como pode-se não aceitar a crueza da linguagem a serviço do ceticismo, do hedonismo, do existencialismo do escritor. Mas o livro está todo impregnado de um humanismo, de uma generosidade (como não se contagiar pelo amor que o contista sente por suas criaturas?) e de uma fluência estilística que tornam a obra exemplar.

Pierre-Auguste Lanord
Jornalista e escritor

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