Miséria Cultural

junho 17, 2012

Miséria Cultural

 

 

O achatamento cultural em tempos de pragmatismo neoliberal é um fato consumado, inegável em todo o mundo. E no Brasil se acentua. O gosto médio, em termos de arte em geral, declina vertiginosamente. Não só entre o grande público. Mas entre as chamadas elites intelectuais e entre a crítica. Essa tendência abrange desde a literatura até o cinema, passando pelo teatro, pela música e pelas artes visuais. Uma análise dessa decadência certamente apontaria como fatores responsáveis, não só a era da imagem, que reduz toda atividade intelectual a um grau próximo da imbecilidade, mas a boçalidade do neoliberalismo em relação à arte, assim como o descaso do governo com a educação num país que se gaba de ser a quinta potência econômica do mundo e que ostenta um dos piores níveis educacionais do Planeta.

Um exemplo do que acabo de expor encontra-se numa pesquisa da revista Monet, da TV a cabo Net, do mês de abril. A publicação apresenta uma lista que “não saiu da cabeça de críticos, jornalistas ou cineastas. Democraticamente, foram milhares de leitores de Monet que escolheram os longas-metragens que marcaram suas vidas por meio de uma enquete”, diz, textualmente, a revista. E assim surgiram os cem melhores filmes supostamente de todos os tempos. A relação é uma piada. Não só para um cinéfilo de carteirinha. Mas para qualquer pessoa que goste de bom cinema. Certo, admitamos que se trata de uma escolha “popular”. Entre aspas mesmo, já que não é tão popular assim, pois é uma determinada classe social – que não é povão – com acesso à TV paga que votou nos “melhores”.

Para início de conversa, não há nenhum filme asiático, com tantas obras-primas da Índia, China e, principalmente, do Japão. Com exceção de dois filmes brasileiros (Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Tropa de Elite 2, de José Padilha), não consta nenhum filme latino-americano de países, com importantes cinematografias, como a Argentina, o México e Cuba. Nenhum filme do Canadá, nem sequer de Denys Arcand. Da Europa há dez filmes. Mas nada de Bergman, Buñuel, Visconti (cujo O Leopardo é um dos melhores filmes de toda a história do cinema), Antonioni, Zurlini, Pasolini, Scola, Montaldo, Pontecorvo, Resnais, Saura, Tarkovki, Herzog, Angelopoulos, Manoel de Oliveira, Lars von Trier  e tantos outros grandes cineastas. Apenas um Fellini (Amacord) e um Almodóvar (Volver).

Ou seja, praticamente 90% da lista são filmes norte-americanos. Só que dessas 90 obras não há uma única do bom cinema independente (fora de Hollywood) dos EUA. Os longas selecionados ou são produtos edulcorados, pasteurizados, com todo o corretamente político devidamente mastigado para não incomodar a flacidez da classe média, ou são apenas e tão somente efeitos especiais para impressionar retardados mentais, como as séries de Guerra nas Estrelas, Kill Bill, Matrix, Batman e companhia. Todos eles com a devida dose de violência que exige o mercado. Alguns escolhidos são nitidamente medíocres ou francamente ruins, tais como o rebuscado Cisne Negro, o pretensioso A Origem ou o popularesco Quem Quer Ser um Milionário?.

E, para finalizar, também no campo da sétima arte, algo que ilustra a famigerada cultura atual. O excelente Shame, de Steve McQueen (homônimo do astro norte-americano), que até agora é o melhor filme do ano exibido em Campinas, ficou apenas uma semana no shopping D. Pedro. O filme, que, aliás, deveria ter sido exibido no Topázio do shopping Parque Prado, é de pasmar. Com ecos da angústia existencial de Bergman e da incomunicabilidade de Antonioni, mas com linguagem e narrativa modernas, o filme parte do individual para atingir o coletivo. Assim, focando a angústia de um obcecado por sexo, acaba retratando o desencanto, a deliquescência, a perplexidade, o absurdo e a falta de rumo da sociedade urbana atual. Sociedade onde o prazer sexual, o prazer pelo prazer, compulsivo e sem amanhã, tenta preencher a vertigem do vazio. E essa joia cinematográfica – que não é difícil nem experimental – passou quase em brancas nuvens, despercebida, sem público. Uma pena. Talvez seja exigir muito que as pessoas, hoje em dia, gostem de algo similar. Algo que não vem previamente digerido para não pensar. Shame subjuga. Sem fazer concessões.

18-04-2012

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado no jornal Correio Popular de Campinas a 1° de maio de 2012

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2 Respostas to “Miséria Cultural”


  1. Triste quadro! Vivemos tempos onde Bruna Surfistinha gera mais conversas (dinheiro até vá lá, embora não devesse) do que o filme Xingu, que apesar de não ser excelente, ao menos valoriza nossa cultura. Assim não dá! Boa dica do Shame, que ainda não consegui ver por estar focando um estudo em Fellini agora, mas lembrou-me do ótimo filme O Declinio do Império Americano. A maioria das pessoas dorme em filmes que realmente possam transformá-las. Obras que as façam ir além da mera catarse emocional. Essas estórias melodramáticas extremamente manipuladas que Hollywood impõe com mão pesada ao mercado são o sintoma de quem quer se esconder das sombras da civilização ao invés de enfrentá-las para sairmos dessa pré-história cultural em que nos metemos.

  2. Edu Says:

    David, minha conta foi invadida e bloqueada, a exemplo do que vem ocorrendo há anos. Escreva-me para aelskar@live.com (não tenho seu endereço de cabeça, nem acesso à conta, bloqueada como disse). Edu


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