Migração da Arte

julho 14, 2012

Migração da Arte

São inúmeros os casos de escritores, cineastas, atores e artistas plásticos que, por motivos políticos ou por vontade própria, se exilaram e transmigram, por assim dizer, de uma cultura para outra.

No caso específico dos escritores, isso pode se tornar algo dramático, ou até trágico, como no caso do austríaco Stefan Zweig, escritor profundamente europeu que, por mais que admirasse o Brasil, era um peixe fora da água no País. Aliás, nem deu tempo de ele se aclimatar intelectualmente. Ou, melhor dito, ele não se deu esse tempo necessário para a adaptação, encurtando sua permanência neste mundo com o suicídio. Inútil frisar que toda língua está intimamente ligada à cultura do país onde é falada. E, para alguns escritores, a mudança de língua como meio de expressão profissional pode se tornar algo terrível.

Os exemplos dessa migração são numerosos. Citemos alguns. Temos o dramaturgo Ionesco, um dos pais do teatro do absurdo, que trocou a Romênia natal pela França e passou a escrever em francês, como seu compatriota, o filósofo Emil Cioran, que também deixou a Romênia e se fixou na França. O dramaturgo Beckett, que saiu de sua Irlanda natal para abraçar, em solo francês, o idioma de Rimbaud. O também dramaturgo (considerado o mais encenado do mundo) espanhol Arrabal, pai do teatro pânico, que, fugindo do franquismo, se estabeleceu na França, onde escreveu em francês a maior parte de sua obra. O romancista espanhol Jorge Semprún que, também fugindo de Franco, percorreu o mesmo itinerário e redigiu a maior parte de sua obra em francês. Nabokov, que abandonou sua Rússia, se instalou nos EUA e passou a escrever em inglês. No Brasil, temos Clarice Lispector, ucraniana de nascença. Samuel Rawet, que veio da Polônia. E Oleg Almeida, poeta e tradutor de Brasília, que trocou sua Bielorrússia natal e a segurança acadêmica ou burocrática pela insegurança, no Brasil, da tradução e, principalmente, da poesia – que ele escreve em português.

Nas artes plásticas, já no século XVI, temos El Greco (Domenikos Theotokopoulos), nascido na ilha de Creta, que trocou pela Espanha. Picasso, o maior artista plástico do século XX, que, fugindo da ditadura franquista, se estabeleceu na França, onde produziria praticamente toda a sua monumental obra e onde morreu sem jamais ter voltado à Espanha. Tsuguharu Fujita, pintor modernista, que deixou o Japão  instalando-se na França, onde se converteu ao catolicismo e se tornou cidadão francês com o nome de Léonard Foujita. No Brasil temos dois casos famosos de grandes artistas. O do pintor Lasar Segall, que veio da Lituânia e o escultor Frans Krajcberg, originário da Polônia.

No teatro temos a maior atriz do palco francês da primeira metade do século XX, Maria Casarès, nascida na Espanha, filha de Santiago Casares Quiroja, primeiro-ministro espanhol da Segunda República, exilado na França após o estouro da Guerra Civil. Elvire Popesco, outra grande atriz do teatro francês, nascida na Romênia. E, no Brasil, o ator e diretor Ziembinski, nascido na Polônia.

Na música, a figura lendária de Dalida, belíssima cantora nascida no Egito, filha de pais italianos, que se radicou na França onde teve estrondoso sucesso com sua bela voz e sua marcante presença cênica. E, aqui, a esfuziante e incomparável Carmen Miranda, portuguesa de nascença.

No cinema, então, nem se fala. Os cineastas William Wyler (nascido em Mulhouse, Alsácia, na época território alemão, hoje francês), Billy Wilder (nascido em Sucha, na época território do Império Austro-Húngaro, hoje polonês), Otto Preminger (nascido na Áustria), Douglas Sirk (nascido na Alemanha), todos radicados em Hollywood. O cineasta Costa-Gavras, grego de nascimento, que produziu toda a sua obra na França. Ferzan Özpetek, cineasta nascido na Turquia, naturalizado italiano, cujos filmes foram todos realizados na Itália. O cineasta Radu Mihaileanu, nascido na Romênia e cuja filmografia foi produzida na França. Atom Egoyan, cineasta canadense nascido no Egito, de ascendência armênia. O casal mais popular da França do século XX: Yves Montand e Simone Signoret, ele cantor e ator nascido na Itália, ela atriz nascida na Alemanha. A lista de atores e atrizes, principalmente europeus migrados para Hollywood é extensa, a começar pelos mitos Greta Garbo (Suécia) e Marlene Dietrich (Alemanha). No Brasil, temos o caso do comediante Oscarito, nascido na Espanha.

Toda essa migração da arte contribui, sem dúvida, para o enriquecimento artístico e cultural dos países que acolheram esses talentos.

20-06-2012

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado pelo jornal Correio Popular de Campinas a 3 de julho de 2012

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