ENGEL

SINFONIA INACABADA PARA ANJO E POETA

 

 

R.Roldan-Roldan 

 

 

 

 

ENGEL

SINFONIA INACABADA PARA ANJO E POETA

Poema

 

 

 

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Não me deixei prender. Libertei-me e fui

em busca de volúpias que em parte eramreais,

em parte haviam sido forjadas por meu cérebro;

fui em busca da noite iluminada.

E bebi então vinhos fortes, como

bebem os destemidos no prazer.

Konstantinos Kaváfis (in Fui)

 

 


 

Primeiro Movimento (Largo)

Planando no Presente

Azul-néstor-almendros

Violeta

Haxixe

 

Do fundo dos séculos emerges

ao meu encontro

além do espaço

além do tempo

diamante esquecido no pó dos milênios

Engel é teu nome

peço perdão por te amar

desesperadamente

além do amor

sem restrição

como um animal

para te triturar entre os molares da paixão

além de Yerushalaim ani ohev otach

bebes minha essência

além de Malta inhobbok

repousas tua cabeça sobre meu peito

além de Santo André eu te amo

te recolhes em minha alma

Anjo é teu nome

à beira do caminho

solitário como uma prece nas dunas

entre a constelação do Destino

estendes a mão que beijo

já te vi

longe

bem longe

em Buenos Aires yo te quiero

ou Nova York I love you

ou talvez no gueto de Varsóvia ich han dich lib

e beijo tua ferida milenar

e me faço chaga tua porque te amo

muito além de mim

da razão

do perdão

da redenção

te amo

como a raiz ama a terra

vem meu amor

vem antes que eu parta

vem me viver na extensão total do meu desejo

na divisa do absoluto

vem me viver nos limites do humano

tu anjo no exílio

no irreversível?

sou em ti a razão de ser

és em mim o que esperavas

e te fazes criança em meus braços

querubim

Angel é teu nome

transmutam-se as horas

os corpos se encontram

oásis à sombra do infinito

que buscas em mim

senão saciar a sede do indizível?

que buscas em mim

senão saciar a fome do inominável?

em ti cessa a minha busca

em ti abdico

perante o amor

nada além desse sentir

eliminando tempo e espaço

esse impulso que nos precede

como o enigma precede o acaso

o fantástico acaso que nos alinhou

não sei de onde vens

não sabes aonde vou

queres fundir-te em meu corpo

como água absorvida pela terra

além das muralhas de Jericó

Ange é teu nome

e cobres minha pele com tuas asas

agora invisíveis

tu que sentes frio

tu anjo desterrado que buscas calor

vem meu doce querer

que meu sangue circula para te aquecer

nada temas

aqui estou para te proteger

com a energia de amar

nada há de te acontecer

a não ser

ser em mim

como sou em ti

longe do fragor da turba

que não entende tuas palavras

nem as minhas

que as minhas tuas são

na célere lentidão do tempo

plasmado na plenitude de existir

no cálido ninho suspenso na ponta de uma estrela

onde nossa carne se unifica

entre espasmos e olhares abissais

Angelo é teu nome

demiurgo que me queres gozo sem fim

só para ti

e eu velho guerreiro arribo no porto do teu desejo

e me dizes

– vou te contar um segredo

– qual é o segredo? pergunto

– ainda é cedo para falar

 

 

Segundo Movimento (Presto)

Inquietação no Passado

Azul-néstor-almendros

Rosa

Ópio

 

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Entrevista com o Poeta e Tradutor Oleg Almeida

Minha matéria de julho abordava a migração da arte, citando casos de escritores, cineastas, atores, cantores e artistas plásticos que deixaram seus países de origem para fincar raízes alhures. Neste artigo enfoco um desses casos de migração artística, entrevistando o poeta e tradutor Oleg Almeida, autor de Memórias dum Hiperbóreo e de Quarta-feira de Cinzas e Outros Poemas e tradutor (do francês para o português) de Os Cantos de Bilítis, de Pierre Louÿs, e de Canções Alexandrinas (do russo para o português), de Mikhail Kuzmin. Oleg Almeida nasceu na Bielorrússia, quando este país fazia parte da União Soviética, formou-se em Letras e pós-graduou-se em Administração Financeira na Rússia. Radicou-se no Brasil e se naturalizou brasileiro.

R.Roldan-Roldan – Toda língua está intrinsecamente ligada à cultura do país onde é falada. Para alguns escritores a mudança de língua como meio de expressão profissional pode ser um drama – como no caso trágico de Stefan Zweig, que não chegou a escrever em português. Nabokov, Ionesco e Beckett se deram melhor. Não é fácil deixar de lado toda uma herança linguística e cultural e adaptar-se a um novo mundo para se expressar como autor. Como se deu, intelectual e culturalmente, a sua integração no Brasil?

Oleg Almeida – A emigração é sempre o fim de uma vida e o início da outra. Como se sente uma pessoa que volta à estaca zero com mais de 30 anos de idade? Sente-se, digamos, como uma planta desarraigada e transferida do jardim para o campo: se não morrer logo, adapta-se, aos poucos, e continua crescendo… O choque cultural que vivi no Brasil foi imenso, mas, felizmente, passageiro. Espero ter aprendido a aceitar o Brasil tal como é.

RRR – A União Soviética, em que pesem os defeitos do regime, sempre zelou de modo exemplar pela cultura. O que não acontece no Brasil, onde a cultura é relegada a um plano lamentável. Isso o surpreendeu? O decepcionou?

OA – Não obstante todo o meu cosmopolitismo, identifico-me como escritor brasileiro e, desse modo, não me conformo com a situação de que está falando. Não digo, no entanto, que ela me deixa surpreso. De certa forma, já vim ao Brasil vacinado contra esse tipo de decepções. A Rússia pós-soviética atravessa semelhante período de decadência cultural, com o bestseller americano na livraria e o blockbuster da mesma origem no cinema, e o governo dali não parece preocupado com isso. Acho, aliás, que a produção artística está em processo de padronização pelo mundo afora.

RRR – O que é escrever para você?

OA – Uma das poucas alegrias que a vida me proporciona.

RRR – Você morreria pela poesia como sugeria Rilke?

OA – Oxalá tal sacrifício não se faça necessário (risos)! E, se falar sério, cada poeta de verdade morre um pouco em razão de sua arte: daqueles versos que jorram com sangue, no dizer de Pasternak, e daquelas indiferença e negação que rodeiam, desde sempre, a poesia… Em todo caso, é melhor morrer de versos que de drogas!

RRR – O humanismo colocou o Homem no centro do Mundo. O neoliberalismo colocou o lucro como centro do Planeta. Essa aberração se reflete não só na sociedade, mas também, claro, nas artes. O humanismo na literatura está de fato fora de moda?

OA – Minha resposta se esconde na sua pergunta. A questão é, antes de tudo, econômica. No mundo contemporâneo, o livro representa, na maioria das vezes, uma mercadoria que precisa ser vendida. É claro que a violência e o esoterismo, ambos de gosto duvidoso, lucram muito mais do que esses abstratos e angustiantes “valores humanos”, sejam eles clássicos ou cristãos.

RRR – A produção literária atual não só não é humanista, como é absolutamente alienada e, em grande parte, descartável. Você concorda?

OA – Em gênero, número e grau. Em que consiste a ideologia consumista aplicável, inclusive, à literatura? Em usufruir e jogar fora… É sorte nossa que as vendas de uma obra literária em si não garantam a imortalidade dela! Paul de Kock e Vsêvolod Krestóvski tiveram enorme sucesso comercial no século XIX (na França e na Rússia respectivamente), e quem se lembra deles agora? Tão só os especialistas e olhe lá. Suponho que o porvir da literatura vampiresca, que está em voga de uns anos para cá, seja o mesmo.

RRR – A literatura não é mais capaz de mudar algo num país como acontecia nos séculos XVIII, XIX e na primeira metade do século XX. Nesse sentido foi substituída pelos modernos meios de comunicação, como a internet?

OA – A meu ver, o papel da Internet é principalmente técnico. Ela fornece aos habitantes da “aldeia global” de McLuhan o meio de acessar e compartilhar informações de modo fácil, prático e irrestrito; os recentes acontecimentos no Oriente Médio comprovam a importância da rede nesse sentido. Ao mesmo tempo, não creio que a Internet esteja prestes a substituir o livro tradicional. Na vida de nossa geração isso seria quase improvável.

RRR – O existencialismo e o engajamento de Sartre estão datados?

OA – Como um sistema filosófico, o existencialismo é atemporal. Suas máximas, por exemplo, aquela frase de Camus de que, na impossibilidade de ser santo, o homem deve agir como médico, continuam significativas até hoje.

RRR – Quais são suas influências literárias?

OA – A lista dos autores que têm sido relevantes para mim (Horácio, Púchkin, Baudelaire…) seria extensa demais, portanto me limito a citar três vertentes, ou melhor, épocas literárias: a antiguidade greco-romana, a Rússia e a França dos séculos XIX e XX.

RRR – Quais são seus poetas lusófonos preferidos?

OA – Fernando Pessoa e Alexandre O’Neill em Portugal; Tomás Antônio Gonzaga e Carlos Drummond de Andrade no Brasil.

RRR – Você disse gostar de Baudelaire. O que o atrai nele?

OA – A universalidade. Baudelaire é tudo quanto um poeta poderia ser: lírico e épico, filósofo e satírico, homem apaixonado, desiludido, revoltado… afinal, simplesmente um homem vivo e pensante.

RRR – Por que traduzir para o português Pierre Louÿs e Mikhail Kuzmin, poetas pouco lidos hoje em dia?

OA – Exatamente por isso, a fim de apresentar suas obras ao leitor lusófono, e, mais ainda, devido à qualidade estética dessas obras. Pierre Louÿs e Mikhail Kuzmin com sua visão de mundo, corajosa e jovial à grega, merecem ser lidos nos dias atuais.

RRR – A Grécia clássica está presente em seus livros. De onde vem essa nostalgia helênica?

OA – Os gregos não tinham medo de viver: desconheciam o pecado, desrespeitavam o dogma, descuidavam da conveniência. Pragmática e neurótica ao extremo, a sociedade moderna só ganharia com um raio do sol heleno nesse céu turvo. Quanto a mim, evoco a grecidade em minhas obras, porque a vida real não deixa espaço para ela.

RRR – O escritor, o verdadeiro, aquele cuja necessidade de escrever é biológica, aquele que vive exclusivamente para a literatura, aquele que não faz concessões de nenhum tipo, tem uma missão específica?

OA – A figura de escritor vem sendo desvalorizada pela onipotência do consumismo. Como você mesmo acaba de notar, o homem de letras não pode mais mudar os rumos da humanidade que tem outros profetas a seguir. Contudo, se pelo menos conseguisse persuadir uma centena de leitores sensíveis de que a vida não se resume em rangar e fazer aquilo que rima com o “rangar”, sua missão algo quixotesca seria cumprida.

RRR – Algum novo livro em processo de elaboração?

OA – Tenho dois textos em cima de minha mesa: Crime e castigo de Dostoiévski, que traduzo para o português, e o meu próprio livro, uma espécie de romance experimental que gostaria de intitular A lua morena. A obra-prima de Dostoiévski prescinde de comentários, e meu romance… Bom, ainda é cedo falarmos nele: que seja uma surpresa para quem quiser lê-lo!                                        10-07-12

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado (parcialmente) no jornal Correio Popular de Campinas dia 7 de agosto de 2012