Prelúdio Para Sinfonia Inacabada

setembro 2, 2012

Prelúdio Para Sinfonia Inacabada

(Prefácio para “Engel – Sinfonia Inacabada Para Anjo e Poeta)

                                                         Como todo grande (e não digo grande por ele ser meu amigo, pois basta lê-lo para comprová-lo) escritor, Roldan-Roldan tem suas obsessões, por assim dizer, literárias. Quem leu (são poucos) sua obra, conhece-as: a identidade, o exílio, o deslocamento, o sexo, o tempo, o silêncio, o desprezo pelas convenções, e a infância triste são as principais. Porém, se todos os seus livros, de um modo ou de outro, refletem direta ou indiretamente essas obsessões, nenhum deles se repete. Ou seja, Roldan-Roldan se renova, se reinventa a cada nova obra. O Bárbaro Liberto (premiado na Itália), Boa Viagem Sheherazade ou A Balada dos Malditos (também premiado na Itália), Litterata ou O Doce Sorriso do Macho Satisfeito e Rapsódia Para um Viajante Solitário são romances de estrada tendo a viagem como metáfora iniciática ou périplo existencial. Mas em Matriochka ele rompe com a sua estrutura narrativa e nos apresenta um antirromance lúdico que se afasta totalmente do romance tradicional e desnorteia o leitor. Enquanto que com E-mails – Confissões Íntimas de Uma Socialite ele nos oferece um romance epistolar na melhor tradição francesa do gênero.

Em Engel – Sinfonia Inacabada Para Anjo e Poeta, Roldan-Roldan mergulha em seu elemento preferido: o fantástico, ou talvez mais especificamente, o surrealismo. E, nessas águas pouco plácidas, ele nada com a destreza de um delfim. Por mais que certos trechos de seus livros sejam abertamente naturalistas, principalmente no que se refere ao sexo, ele é essencialmente um escritor surrealista tanto na prosa como na poesia. E Engel… é um exemplo disso.

Engel – Sinfonia Inacabada Para Anjo e Poeta, um longo poema em prosa de mais de cem páginas (um tour de force de imagens subjugantes), tem a estrutura de uma sinfonia e se divide em movimentos, que acompanham os movimentos do coração e da mente do poeta (o narrador) cujo estado de espírito dita o ritmo, que vai do adágio ao alegro passando pelo andante. Esse poema de fôlego é, antes de tudo, uma apologia dos sentidos. Não é por acaso que cada movimento se inicia por uma cor, um odor e uma droga, ficando sugerido que o clima onírico que envolve o livro é decorrente de sucessivas alterações dos sentidos, embora a obra dê margem a inúmeras interpretações ou leituras subjacentes.

Engel… trata do encontro entre um poeta que, cansado do peso cotidiano do chão, busca o divino – no sentido de suprema elevação espiritual – e um anjo que, cansado da “insípida eternidade”, busca o humano. O poeta aspira aos altos voos do espírito, enquanto o anjo quer conhecer o amor e o sexo. A paixão explode entre os dois. Mas o anjo é instável, pois quer conhecer todos os prazeres que a vida terrena oferece. Enquanto o poeta, vivido e começando a envelhecer, anseia por uma estabilidade emocional que o anjo, como um adolescente volúvel, não é capaz de lhe oferecer. Mesmo assim a personalidade de um invadirá a do outro (ou estaríamos diante do desdobramento de um único ser?) – e temos aí, mais uma vez, o tema da identidade, tão caro ao autor. O anjo aceita a mortalidade em troca do amor humano. O poeta, no entanto, não pode se tornar imortal.

Nas andanças do insólito par desfilam imagens deslumbrantes, tais como as estátuas falantes; o interior de uma imensa árvore oca onde flutuam monstros de Hieronymus Bosch; a festa pagã na floresta, com ninfas e faunos; a cidade em chamas e o poeta se masturbando perante a beleza do espetáculo do fogo e a sugestiva sequência no fundo do mar, numa catedral ortodoxa submersa, numa clara referência a Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, sequência cuja graça e leveza se opõe em atmosfera e plasticidade à descrição do edifício em construção abandonado frequentado por mendigos, yunkies e bêbados que refletem a degeneração do ser humano e onde podemos vislumbrar a “beleza do horror” de Baudelaire. Todavia, para compensar, Roldan-Roldan nos brinda com os magníficos voos da dupla, numa alusão ao misticismo selvagem de Rimbaud. Aliás, curiosamente, o misticismo que impregna todas as aventuras dos dois personagens é laico, ou seja, o que emana de todo o relato é uma espiritualidade laica, pois em nenhum momento a palavra Deus é mencionada.

A ressaltar também a exacerbação, o desespero da carne. Há no poeta, que como já foi citado é o narrador, uma obsessão sexual pelo anjo, cujo desejo não parece tão premente e obsessivo. Esse conceito, essa visão do sexo, que tortura mais que satisfaz, é uma característica da obra de Roldan-Roldan. Em Engel… o anjo bebe o esperma do poeta para, deixando aos poucos sua condição divina, tornar-se cada vez mais humano. O que não anula seu poder mágico de ainda poder voar e fazer o poeta voar, literalmente falando.

Absolutamente original, perturbador, instigante, denso e melancólico, Engel – Sinfonia Inacabada Para Anjo e Poeta ultrapassa o mero conceito surrealista de inconsciente e insere uma “mensagem”, propondo ao leitor não só uma delirante viagem onírica, mas uma dimensão, visceral e metafísica ao mesmo tempo, da busca eterna do ser humano pelo Ideal ou, para usar uma palavra cara a Roldan-Roldan, o Absoluto que, para ele, tende a representar o mais alto grau de espiritualidade. O que pode significar esse Deus que o escritor parece procurar em toda a sua obra e não encontrar. Em suma, Engel – Sinfonia Inacabada Para Anjo e Poeta é um assombro de originalidade, estética e densidade dramática.

Pierre-Auguste Lanord

Escritor e jornalista

29 de agosto de 2012

             

  

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