Matar É Divertido

setembro 7, 2012

Matar É Divertido

 

As recentes chacinas do Colorado e do Wisconsin não só reabrem o debate sobre controle de vendas de armas, como levam a indagações de ordem ética e moral mais profundas.

A violência se espalha. Contamina o Planeta. Eleva-se com o neoliberalismo que, além de contribuir para o aumento da corrupção, incita ao roubo e ao assassinato, já que toda ética foi eliminada no ringue do vale-tudo. Até um dos melhores países do mundo, a Noruega, “aderiu” à moda dos massacres, como é o caso de Anders Breivik que, em 2011, matou 77 pessoas. Estatisticamente, os EUA são menos violentos do que o Brasil e o México, dois dos países mais violentos do mundo. O que não impede a sólida tradição de violência norte-americana que data da época do início da colonização. Além do mais, os EUA, como país profundamente conservador e reacionário, para não dizer fascista, e que pomposamente se outorga os troféus de maior democracia do mundo (estranho conceito de democracia numa nação onde não há saúde pública [são tão perversos que alegam que saúde publica é coisa de comunismo] e onde ainda existe a pena de morte) e de paladino da liberdade (estranho conceito de liberdade numa nação que se caracteriza pela invasão dos países que contrariam seus interesses, pela caça às bruxas e pela ausência de mídia independente, já que a mídia existente faz parte das grandes corporações cujos interesses defende, portanto manipula a opinião pública), os EUA têm, como nenhum outro país, um poderoso lobby a favor da venda sem restrições de armas, que podem facilmente ser adquiridas até pela internet, como quem compra um livro ou um disco. Lobby, claro, ligado à industria de armas.

Mas, como mencionei acima, essa violência, além das considerações sócio-políticas (praticamente toda violência é sócio-política), induz a reflexões de teor ético e moral. Já que é inconcebível que o ser humano, sem distinção étnica, religiosa ou política, tenha chegado ao século XXI com pouquíssimo avanço moral. Pois hoje em dia mata-se como se matava na pré-história. Ou certamente mais. Pior: atualmente mata-se até por prazer (o que certamente o homem primitivo não fazia), por divertimento. Como nos games. Sim, como nos games. Os jogos. Matar se tornou um jogo. Matar é lúdico. Matar é divertido. Matar é normal. Virtualmente ou realmente. Que valor tem a vida hoje em dia? Mata-se para roubar, como no Brasil. Mate-se para tornar-se famoso, como nos EUA. Mata-se a torto e a direito por sectarismo, como no Iraque. Mata-se e pronto. Como quem mata um pernilongo ou uma barata. Porque não há mais respeito pela vida humana. Porque a vida do ser humano não tem nenhum valor, nenhuma importância. Porque Deus está morto, segundo dizem os pensadores. Porque todos os valores éticos e morais foram destruídos com o advento do neoliberalismo.

Será que o cidadão honesto e consciente não se dá conta (ou não quer se dar conta) que ainda continuamos a fabricar armas? Armas cada vez mais sofisticadas e letais? Será que o cidadão crente (seja qual for a religião) não percebe o horror, a aberração, a monstruosidade de produzir objetos destinados exclusivamente a matar o próximo? Será que ele não tem consciência de que a criação de aparelhos ou maquinas feitos para matar viola as leis da Criação, as leis sagradas da Natureza? Ao que tudo indica, a humanidade, atrasadíssima (ou devo dizer cega?) não tem noção da extensão dessa monstruosidade. Aparentemente o ser humano acha normal que um país ainda tenha exército, embora existam países muito dignos – que deveriam servir de exemplo – como a Costa Rica e a Islândia, que não têm forças armadas. Céus! Que atraso moral assola essa nossa humanidade.

Para concluir, gostaria de acrescentar algo pessoal. Meu pai, por uma questão de princípio, nunca me deu armas de brinquedo – e eu tenho muito orgulho do meu pai. Assim como eu, por princípio, nunca dei armas de brinquedo aos meus filhos.

22-08-2012

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado no jornal Correio Popular de Campinas, a 4-09-2012

 

Anúncios

2 Respostas to “Matar É Divertido”

  1. Ataulfo Says:

    Caro amigo, que cabeça lúcida! Que força a tua, que, mesmo passando pelo que passa nos últimos 20 anos, não se desvia do caminho. Caminho, este, que se justifica diariamente nas tuas posições e atitudes. Lutando contra o Establishment dia-a-dia e assumindo as consequências empunhando apenas a pena que enfrenta a espada. Bravo! Você escreve nossa história e a perpetua. Às vezes com sangue, às vezes com poesia. Mas sempre com lucidez.
    Te agradeço por ser uma referência em minha vida.

    Abraço sincero,

    Luis dal Colleto


  2. Concordo e acho valioso o artigo. E destaco a questão dos jogos com morte, que como a pornografia, foi permitido chegasse às crianças sem controle algum, desde que o controle está nas mãos dos EUA. Incluo também o fato de a Alemanha, grande vilão histórico, ser o terceio maior vendedor de armas do mundo (Wikipedia). Quer dizer que fabrica, mesmo tendo gerado as duas últimas guerras mundiais.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: