ENTREVISTA COM R. ROLDAN-ROLDAN (por Oleg Almeida*)

 

Era uma vez um escritor. Escritor com o “E” maiúsculo, como os leitores perceberão dentro em pouco. Nascido na Espanha, criado no Marrocos (na época, sob o domínio colonial da França), de formação francesa e radicado, enfim, no Brasil, ele tem prestado serviços inestimáveis às nossas letras. Vinte e sete livros que publicou não deixam sombra de dúvidas a respeito disso. Romances, contos, poemas, peças de teatro: obras marcadas pela argúcia e amargura de quem conhece o reverso da vida e não tem medo de explorá-lo, obras humanas, universais, ecumênicas e… todas distantes do grande público. Caso estranho e raro, possivelmente o único em toda a literatura brasileira; caso que traz à memória aqueles homens que, ao servir por mais de dez anos na Legião Estrangeira, tatuavam outrora em seus antebraços o título honorífico – Le grand inconnu

Sobre a sua vida dramática, sobre os seus escritos que permanecem no limbo, sobre a literatura, em geral, e a do Brasil, em particular, é que conversamos hoje com ele, o grande desconhecido que faz boa literatura – Rodolphe Roldan-Roldan.

 

Oleg Almeida: Antes de tudo, Roldan, eu gostaria de agradecer-lhe a disposição de gravar esta entrevista. Sei que leva uma vida discreta e aparentemente é avesso aos holofotes…  Pois bem. Conte-nos, por favor, um pouco de sua história. Como surgiu o escritor R. Roldan-Roldan, ou melhor, como foi, digamos, a fase pré-literária de sua vida?

Roldan-Roldan: Escrevo desde que era criança, o que me ajudava, na puberdade e adolescência a enfrentar uma realidade muito dura. Sou um escritor orgânico. Ou biológico. Instintivo. Um animal literário. Para mim, não existe outro caminho a não ser o da literatura.

OA: Muitos críticos e estudiosos de literatura tendem a atribuir a inspiração literária às raízes étnicas e socioculturais de determinado autor. O amigo concorda com essa opinião? Em outros termos, como a sua passagem por vários países do mundo se refletiu em sua criatividade?

R-R: A origem étnica é, claro, muito importante. Mas acredito que, mais do que a etnia, é o meio sociocultural que forma o escritor. No meu caso específico, a coisa é mais complexa. Sou produto de várias culturas. Isso enriquece o escritor. Mas cria, de certo modo, o desassossego do deslocamento, de, no fundo, não pertencer a nada.

OA: Sabemos que o amigo passou a infância no Marrocos, e que depois, já adulto, visitou outros países orientais, por exemplo, o Afeganistão. Qual foi a influência que o Oriente tem exercido sobre a sua obra literária?

R-R: O Oriente sempre me fascinou. Desde criança. Sobretudo a Ásia Central, que exerce em mim uma atração irresistível. Além do mais, fui criado no Marrocos, país islâmico que assombra toda a minha obra, talvez pelo fato de ali ter passado uma parte crucial, e muito difícil, de minha vida, ou seja, a infância e adolescência. De qualquer modo, a visão de mundo do Oriente é muito mais elástica do que a visão racionalista do Ocidente. Portanto, um modo mais sutil, mais sábio de captar o universo.

OA: E quais foram aqueles autores que mais o impressionaram e poderiam, em função disso, ser considerados seus precursores ou, sabe-se lá, professores? Quem lhe deu asas: Kafka, Gógol, Céline?

R-R: Não sei se tenho uma influência direta de algum autor. Mas há escritores que, de um modo ou de outro, me marcaram. Kafka, Khayyam, Nietzsche, Rimbaud, Baudelaire, Lautréamont, Villon, Sá-Carneiro, Neruda, Stendhal, Montherlant, Camus, Tolstoi, Pirandello, Italo Calvino, Dino Buzzati e Hermann Hesse, entre outros.

OA: Qual é o seu gênero predileto: romance, conto ou poesia? Faço-lhe esta pergunta por achar sua prosa explicitamente poética e sua poesia, pelo contrário, implicitamente prosaica.

R-R: Todos os gêneros me atraem. Cada um tem seu atrativo. Talvez me envolva mais com o romance, por ser de elaboração mais longa, mesmo porque o poema é uma ejaculação.

OA: O conteúdo de suas obras é muito rico e multiforme: há nelas traços oníricos e irônicos, filosóficos e eróticos, chocantes e fascinantes. Como o amigo definiria aquela vertente real ou hipotética a que pertencem seus livros: realismo fantástico, bem difundido aqui na América Latina; surrealismo em sua dimensão pós-moderna; ou, talvez, neonaturalismo?

R-R: A minha ficção, embora contenha elementos neonaturalistas, é essencialmente surrealista. O que não impede que haja nela considerações filosóficas e um determinado  engajamento político-social. E uma dose de ironia proporcionada por um certo distanciamento.

OA: O elemento erótico ocupa um lugar destacado em seus escritos. O que explica esse interesse pela sexualidade: sua visão freudiana do mundo, alguma convicção pessoal ou tão somente a intenção de “épater les bourgeois”?

R-R: Sim, tenho uma visão muito freudiana e racionalista sobre o sexo. Sexo é algo tão necessário quanto a alimentação para o bom funcionamento do corpo e da mente. Uma pessoa satisfeita sexualmente é sempre mais equilibrada, logo, melhor. Por outro lado, o sexo, na minha obra, é uma celebração da vida, em oposição à morte. E acaba adquirindo uma dimensão transcendente. Considero que a abstinência sexual é uma aberração decorrente de superstições milenares e uma violência contra o corpo e o espírito. Sinto uma verdadeira aversão pelo conceito judaico-cristão do sexo. E uma repulsa pelo enfoque fundamentalista do sexo, seja cristão, islâmico ou judeu. O fundamentalismo religioso é o suprassumo da ignorância, da pobreza de espírito, do atraso intelectual e se opõe à luz da Razão.  Gostaria de ressaltar que não escrevo sobre sexo para chocar ou para vender.  Não sou tão limitado. No meu entender, pornografia é a comercialização do sexo pelos meios de comunicação. E não, por exemplo, um filme com sexo explícito.

OA: O que liga entre si muitos dos seus livros é o protagonista deles, David Haize. Que nos conste, essa pessoa excede a condição de um personagem fictício, sendo seu alter ego e, de uns tempos para cá, seu heterônimo – algo que lembra a transformação de Romain Gary em Émile Ajar, uma das maiores mistificações que o meio literário já viu. Conte-nos sobre David Haize: como ele veio à luz e que papel tem desempenhado em sua vida?

R-R: David Haize (Haize significa vento em euskara, ou seja, língua basca – e o vento é sempre livre) sou eu, nem mais nem menos. Ou talvez mais. Já que ele, pelo fato de ser em parte ficção, pode se permitir ações que a vida prática me impede. Num clima onírico, David Haize é quase onipotente. Os jogos de identidade, por assim dizer, de Romain Gary são fascinantes.  Assim como os de Fernando Pessoa. Aliás, ser múltiplo é fascinante. Uma vida só não basta. Sobretudo para a imaginação de um escritor.

OA: Em resumo, podemos dizer que, feitas as contas, Roldan-Roldan e David Haize é a mesma pessoa, ou existe ainda certa fronteira que os separa?

R-R: Decidi assumir os excessos de David Haize como algo inerente à minha personalidade. Em certos casos, imito as ações dele por experimentação e prova de liberdade individual. Em outras palavras, imito a ficção na vida real. Esse aspecto lúdico da minha vida e minha obra me proporciona um prazer sofisticado. Em suma, eu vivo o que escrevo e escrevo o que vivo. Para mim, não existe fronteira entre a vida e a literatura.

OA: Três livros seus – Inidentidade, O bárbaro liberto e Boa viagem, Sheherazade ou A balada dos malditos – ganharam prêmios e menções honrosas na Itália. De certa forma, isso significa que suas obras são mais valorizadas fora do Brasil?

R-R: Sim. Acho que aqui os poucos que me leem me veem como um autor fora do tempo pelo fato de ser humanista. E ainda por cima surrealista, libertário e libertino, como se dizia no século XVIII. E ficam desconcertados quando lhes é impossível me catalogar. Ou me rotular, como eles gostam. Uma das características da imbecilidade é a necessidade premente de rotular. Quanto aos editores – que em verdade são meros comerciantes que mandam imprimir livros – cheguei à conclusão que, além de mercenários (como dizia Hilda Hilst), são burros e ignorantes.

OA: E, para terminar, como o amigo avaliaria a situação atual da literatura: tanto no Brasil, quanto no mundo inteiro? Dizem que a imagem é mais atraente para o ser humano do que o texto. Por isso costumo perguntar a todos os entrevistados da EisFluências se a literatura ainda está na ativa ou já sucumbiu ao vídeo e à Internet.

R-R: Vivemos na era da imagem, onde tudo é devidamente pasteurizado e edulcorado para uma digestão e uma defecação fáceis. O sistema vigente, o capitalismo neoliberal, como todo regime totalitário, tem obviamente interesse em que as pessoas consumam e não pensem. O neoliberalismo colocou o lucro no centro do mundo, lugar que cabia ao Homem, de acordo com o humanismo. Portanto, a literatura e todas as artes acabam prejudicadas, já que elas não se encaixam no conceito lucro do sistema. Daí o achatamento cultural. A produção de lixo cultural em massa. E a imbecilização do ser humano. Mas, como toda arte é resistência, acredito que sempre haverá homens e mulheres (superiores se comparados com a turba de frangos hormonados que nos cerca) que continuem a escrever com a alma (ou com as vísceras e os colhões, como eu), como testemunho de fé no ser humano.  E talvez também como um caminho para a elevação. Para atingir a espiritualidade laica.

OA: Obrigado pela sua polêmica e empolgante entrevista, Roldan! Espero que nossos leitores não a deixem despercebida. Gostaria de finalizá-la transcrevendo, na íntegra, um dos poemas seus… ou de David Haize?

*Oleg Almeida, poeta e tradutor, é autor, entre outros livros, de Memórias dum Hiperbóreo

Entrevista publicada pela revista EisFluências de outubro de 2012 (Número XIX – Caderno 1)

 

 

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Máximas

outubro 13, 2012

III

As Horas Nuas

(Máximas e Pensamentos)

 

 

 

 

 

 

La modération est la langueur et la paresse de l´âme.

(“A moderação é o langor e a preguiça da alma.”)

Les personnes faibles ne peuvent être sincères.

(“As pessoas fracas não podem ser sinceras.”)

 

La Rochefoucauld (in Maximes et réflexions)

 

 

 

 

1 – A Arte, como a honestidade, não faz concessões.

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2 – A competição é imoral.

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3 – A competição estimula a mais abjeta condição humana: a cobiça.

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4 – A flacidez da ética é a característica predominante do neoliberalismo.

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5 – A inteligência precede o desprendimento assim como a poesia precede a palavra.

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6 – A pureza não conhece a moral.

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7 – A razão só se torna superior quando filtrada pela emoção.

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8 – A religião é um obstáculo à religiosidade.

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9 – A transgressão é tão excitante quanto a revolução.

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10 – A violência de ser coagido a fazer parte da maioria supera em violência a opção pela margem.

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11 – Crer, como amar, é um estado emocional.

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12 – Degustamos a vida quando ela começa a se acabar.

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13 – De prudência em prudência esgota-se a existência sem ser vivida.

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14 – Deus, como o sexo, é a sagração da intimidade.

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15 – Deus é uma abstração.

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16 – É a partir do humano que atingimos o divino, e não o contrário.

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17 – É mais fácil negar Deus racionalmente do que admiti-lo emocionalmente.

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18 – Factualmente a religião é sinônimo de violência e intolerância.

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19 – Na brecha do imponderável se aninha o sonho.

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20 – Nada mais limitado do que uma receita de vida.

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21 – Nada seria a sabedoria sem a valsa da loucura do coração.

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22 – Não existe grandeza sem humildade

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23 – Nem todo místico é religioso e nem todo religioso é místico.

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24 – Nenhum mito, absolutamente nenhum, é superior à vida humana.

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25 – No caminho do retorno a renúncia é apenas cansaço, não desapego.

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26 – O Absoluto vem de baixo, nunca de cima.

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27 – O amor nos fragiliza na medida em que amamos e nos fortalece na medida em que somos amados.

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28 – O antiintelectualismo radical na literatura e no cinema é uma característica da boçalidade cultural do neoliberalismo.

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29 – O Brasil é um país deliqüescente: não tem consistência.

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30 – O coexistir precede o preexistir e fundamenta o ser.

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31 – O conceito de divino só se sustenta enquanto humano.

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32 – O contato com Deus deve ser secreto e sagrado como o contato com o corpo do outro.

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33 – O humanismo, ao contrário de Deus, não é uma abstração.

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34 – O inatingível da mente reduz ao coração.

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35 – O pragmatismo exclui o sagrado.

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36 – O sagrado está morto, o consumo religioso está vivo.

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37 – Os modismos fazem a História.

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38 – O socialismo é mais ética do que ideologia.

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39 – Pudor dos medíocres, os eufemismos enfeitam a hipocrisia.

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40 – Ser outsider liberta de preconceitos.

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41 – Somos apenas as circunstâncias do espaço e do tempo.

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42 – Somos na medida em que os outros nos permitem ser.

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43 – Todo e qualquer ato de violência praticado contra um sistema que destrói o meio ambiente é, não só justificável, mas legal, legítimo.

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44 – Um intelectual nunca é totalmente ateu nem totalmente crente.

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R.Roldan-Roldan

Do meu livro “O Deslizar das Horas” (2009)

Liberdade de Expressão e Fanatismo

 

            Até onde pode ir a liberdade de expressão? Ou seja, quais são os limites em termos de ética e responsabilidade na liberdade de expressão? Ou será que, sob o ponto de vista democrático, tudo é permitido a essa liberdade em nome da democracia? Perguntas. Sem respostas. Mas embora não haja respostas categóricas para a questão, pode-se adiantar que a liberdade de expressão pode ser relativizada quando, por sensacionalismo – ou, em outras palavras, por dinheiro – aborda temas de modo absolutamente irresponsável, esdrúxulo ou tendencioso que deixa transparecer claramente as intenções de lucro fácil disfarçado de liberdade. E, nesse sentido, tudo o que é feito visando apenas ao lucro, é desprezível. Obviamente, do momento em que se promulga uma censura para determinados lixos frutos da liberdade de expressão, está-se ferindo a democracia. Portanto é delicado e difícil estabelecer critérios sobre o que pode ou não pode ser dito e, principalmente, de como deve ser dito.

Pode-se ver um certo oportunismo no Wikileaks de Julian Assange – mesmo achando que é salutar para a democracia que esse tipo de notícias vazem – pessoalmente  simpatizo com ele. Mas o que dizer de um tal de Nakoula Basseley Nakoula, cristão copta naturalizado norte-americano, que, metido a cineasta, fez um filme com o intuito de ganhar fama e dinheiro imediatos. O filme, sobre Maomé, intitulado Inocência dos Muçulmanos, uma produção pobre do ponto de vista técnico (dizem ter custado cinco milhões de dólares), retrata o profeta como bissexual, pedófilo e sanguinário. O filme foi parar na internet e provocou a fúria do mundo islâmico com as consequências trágicas que já conhecemos.

Desmistificar (e desmitificar) é uma tendência do século XX que prossegue no século XXI. E que é um sintoma de liberdade. Livros, filmes, peças de teatro e artes plásticas continuam se encarregando disso. É válido. Pois se a humanidade ainda é tão atrasada que precisa de mitos, é muito salutar que pessoas realmente livres se desfaçam dos mitos e propaguem sua visão racionalista. Todo homem (ou mulher) que vira mito, principalmente mito religioso é, antes de tudo um homem (ou uma mulher). Cristo, Moisés, Maomé, Buda, Confúcio eram homens. Nada mais do que homens. Sacralizá-los é deformar a verdade histórica, criar superstições e induzir os pobres ignorantes a tomá-las por verdades absolutas. Bakunin disse : Abaixo todos os dogmas religiosos, eles não são nada além de mentiras; a verdade não é teórica, mas um fato. Aliás, quanto mais mergulhado em superstições, mais fanático, intolerante e atrasado é o povo. E isso não é teoria, mas um fato. Basta pegar os países islâmicos como exemplo, com seu altíssimo índice de analfabetismo. Por sinal, deveria ser obrigatório o ensino do racionalismo nas escolas primárias. Ou seja, ensinar às crianças apenas o que é provado pela ciência ou pelos fatos.

Dito isto, voltemos ao filme “herege” sobre Maomé. Podemos falar em irresponsabilidade por parte do realizador? Talvez. Por dois motivos. Primeiro, porque o que ele fez tinha como alvo o lucro imediato com o escândalo e a polêmica, pouco se importando em deflagrar a ira e violência de grupos islâmicos fanáticos. Segundo, e mormente, porque o que ele fez não é nada sério, é mais do que descartável, é lixo. Não se trata de uma contestação fundamentada. Mas de um enfoque gratuito além de tendencioso. Em suma, não se trata de arte. E só a arte pode se permitir tudo. Já que a arte está acima de tudo. Só a arte redime. É claro que os fundamentalistas (não só os maometanos, mas os cristãos e judeus igualmente) são tão cretinos que não têm senso de humor, logo, pobres imbecis, mordem facilmente a isca. Isso sem contar que, atrás de todas essas manifestações antiocidentais, está um profundo ressentimento dos povos árabes que amargaram o colonialismo ocidental no século XIX e primeira metade do século XX. Mas aí entramos em outra história.

21-09-2012

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado no jornal Correio Popular de Campinas dia 2 de outubro de 2012