Liberdade de Expressão e Fanatismo

outubro 6, 2012

Liberdade de Expressão e Fanatismo

 

            Até onde pode ir a liberdade de expressão? Ou seja, quais são os limites em termos de ética e responsabilidade na liberdade de expressão? Ou será que, sob o ponto de vista democrático, tudo é permitido a essa liberdade em nome da democracia? Perguntas. Sem respostas. Mas embora não haja respostas categóricas para a questão, pode-se adiantar que a liberdade de expressão pode ser relativizada quando, por sensacionalismo – ou, em outras palavras, por dinheiro – aborda temas de modo absolutamente irresponsável, esdrúxulo ou tendencioso que deixa transparecer claramente as intenções de lucro fácil disfarçado de liberdade. E, nesse sentido, tudo o que é feito visando apenas ao lucro, é desprezível. Obviamente, do momento em que se promulga uma censura para determinados lixos frutos da liberdade de expressão, está-se ferindo a democracia. Portanto é delicado e difícil estabelecer critérios sobre o que pode ou não pode ser dito e, principalmente, de como deve ser dito.

Pode-se ver um certo oportunismo no Wikileaks de Julian Assange – mesmo achando que é salutar para a democracia que esse tipo de notícias vazem – pessoalmente  simpatizo com ele. Mas o que dizer de um tal de Nakoula Basseley Nakoula, cristão copta naturalizado norte-americano, que, metido a cineasta, fez um filme com o intuito de ganhar fama e dinheiro imediatos. O filme, sobre Maomé, intitulado Inocência dos Muçulmanos, uma produção pobre do ponto de vista técnico (dizem ter custado cinco milhões de dólares), retrata o profeta como bissexual, pedófilo e sanguinário. O filme foi parar na internet e provocou a fúria do mundo islâmico com as consequências trágicas que já conhecemos.

Desmistificar (e desmitificar) é uma tendência do século XX que prossegue no século XXI. E que é um sintoma de liberdade. Livros, filmes, peças de teatro e artes plásticas continuam se encarregando disso. É válido. Pois se a humanidade ainda é tão atrasada que precisa de mitos, é muito salutar que pessoas realmente livres se desfaçam dos mitos e propaguem sua visão racionalista. Todo homem (ou mulher) que vira mito, principalmente mito religioso é, antes de tudo um homem (ou uma mulher). Cristo, Moisés, Maomé, Buda, Confúcio eram homens. Nada mais do que homens. Sacralizá-los é deformar a verdade histórica, criar superstições e induzir os pobres ignorantes a tomá-las por verdades absolutas. Bakunin disse : Abaixo todos os dogmas religiosos, eles não são nada além de mentiras; a verdade não é teórica, mas um fato. Aliás, quanto mais mergulhado em superstições, mais fanático, intolerante e atrasado é o povo. E isso não é teoria, mas um fato. Basta pegar os países islâmicos como exemplo, com seu altíssimo índice de analfabetismo. Por sinal, deveria ser obrigatório o ensino do racionalismo nas escolas primárias. Ou seja, ensinar às crianças apenas o que é provado pela ciência ou pelos fatos.

Dito isto, voltemos ao filme “herege” sobre Maomé. Podemos falar em irresponsabilidade por parte do realizador? Talvez. Por dois motivos. Primeiro, porque o que ele fez tinha como alvo o lucro imediato com o escândalo e a polêmica, pouco se importando em deflagrar a ira e violência de grupos islâmicos fanáticos. Segundo, e mormente, porque o que ele fez não é nada sério, é mais do que descartável, é lixo. Não se trata de uma contestação fundamentada. Mas de um enfoque gratuito além de tendencioso. Em suma, não se trata de arte. E só a arte pode se permitir tudo. Já que a arte está acima de tudo. Só a arte redime. É claro que os fundamentalistas (não só os maometanos, mas os cristãos e judeus igualmente) são tão cretinos que não têm senso de humor, logo, pobres imbecis, mordem facilmente a isca. Isso sem contar que, atrás de todas essas manifestações antiocidentais, está um profundo ressentimento dos povos árabes que amargaram o colonialismo ocidental no século XIX e primeira metade do século XX. Mas aí entramos em outra história.

21-09-2012

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado no jornal Correio Popular de Campinas dia 2 de outubro de 2012

 

  

 

 

 

 

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Uma resposta to “Liberdade de Expressão e Fanatismo”


  1. Aplaudo. Sua informação resume bem o problema. Deixariam nas igrejas ensinar ciência? Sabe a humanidade que a morte não é fatal, que a ciência encontrou o gene que indica quando o corpo deve morrer? E um animal imortal? Porque tanta ignorância?


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