R.Roldan-Roldan É Entrevistado Pelo Poeta Oleg Almeida

outubro 20, 2012

ENTREVISTA COM R. ROLDAN-ROLDAN (por Oleg Almeida*)

 

Era uma vez um escritor. Escritor com o “E” maiúsculo, como os leitores perceberão dentro em pouco. Nascido na Espanha, criado no Marrocos (na época, sob o domínio colonial da França), de formação francesa e radicado, enfim, no Brasil, ele tem prestado serviços inestimáveis às nossas letras. Vinte e sete livros que publicou não deixam sombra de dúvidas a respeito disso. Romances, contos, poemas, peças de teatro: obras marcadas pela argúcia e amargura de quem conhece o reverso da vida e não tem medo de explorá-lo, obras humanas, universais, ecumênicas e… todas distantes do grande público. Caso estranho e raro, possivelmente o único em toda a literatura brasileira; caso que traz à memória aqueles homens que, ao servir por mais de dez anos na Legião Estrangeira, tatuavam outrora em seus antebraços o título honorífico – Le grand inconnu

Sobre a sua vida dramática, sobre os seus escritos que permanecem no limbo, sobre a literatura, em geral, e a do Brasil, em particular, é que conversamos hoje com ele, o grande desconhecido que faz boa literatura – Rodolphe Roldan-Roldan.

 

Oleg Almeida: Antes de tudo, Roldan, eu gostaria de agradecer-lhe a disposição de gravar esta entrevista. Sei que leva uma vida discreta e aparentemente é avesso aos holofotes…  Pois bem. Conte-nos, por favor, um pouco de sua história. Como surgiu o escritor R. Roldan-Roldan, ou melhor, como foi, digamos, a fase pré-literária de sua vida?

Roldan-Roldan: Escrevo desde que era criança, o que me ajudava, na puberdade e adolescência a enfrentar uma realidade muito dura. Sou um escritor orgânico. Ou biológico. Instintivo. Um animal literário. Para mim, não existe outro caminho a não ser o da literatura.

OA: Muitos críticos e estudiosos de literatura tendem a atribuir a inspiração literária às raízes étnicas e socioculturais de determinado autor. O amigo concorda com essa opinião? Em outros termos, como a sua passagem por vários países do mundo se refletiu em sua criatividade?

R-R: A origem étnica é, claro, muito importante. Mas acredito que, mais do que a etnia, é o meio sociocultural que forma o escritor. No meu caso específico, a coisa é mais complexa. Sou produto de várias culturas. Isso enriquece o escritor. Mas cria, de certo modo, o desassossego do deslocamento, de, no fundo, não pertencer a nada.

OA: Sabemos que o amigo passou a infância no Marrocos, e que depois, já adulto, visitou outros países orientais, por exemplo, o Afeganistão. Qual foi a influência que o Oriente tem exercido sobre a sua obra literária?

R-R: O Oriente sempre me fascinou. Desde criança. Sobretudo a Ásia Central, que exerce em mim uma atração irresistível. Além do mais, fui criado no Marrocos, país islâmico que assombra toda a minha obra, talvez pelo fato de ali ter passado uma parte crucial, e muito difícil, de minha vida, ou seja, a infância e adolescência. De qualquer modo, a visão de mundo do Oriente é muito mais elástica do que a visão racionalista do Ocidente. Portanto, um modo mais sutil, mais sábio de captar o universo.

OA: E quais foram aqueles autores que mais o impressionaram e poderiam, em função disso, ser considerados seus precursores ou, sabe-se lá, professores? Quem lhe deu asas: Kafka, Gógol, Céline?

R-R: Não sei se tenho uma influência direta de algum autor. Mas há escritores que, de um modo ou de outro, me marcaram. Kafka, Khayyam, Nietzsche, Rimbaud, Baudelaire, Lautréamont, Villon, Sá-Carneiro, Neruda, Stendhal, Montherlant, Camus, Tolstoi, Pirandello, Italo Calvino, Dino Buzzati e Hermann Hesse, entre outros.

OA: Qual é o seu gênero predileto: romance, conto ou poesia? Faço-lhe esta pergunta por achar sua prosa explicitamente poética e sua poesia, pelo contrário, implicitamente prosaica.

R-R: Todos os gêneros me atraem. Cada um tem seu atrativo. Talvez me envolva mais com o romance, por ser de elaboração mais longa, mesmo porque o poema é uma ejaculação.

OA: O conteúdo de suas obras é muito rico e multiforme: há nelas traços oníricos e irônicos, filosóficos e eróticos, chocantes e fascinantes. Como o amigo definiria aquela vertente real ou hipotética a que pertencem seus livros: realismo fantástico, bem difundido aqui na América Latina; surrealismo em sua dimensão pós-moderna; ou, talvez, neonaturalismo?

R-R: A minha ficção, embora contenha elementos neonaturalistas, é essencialmente surrealista. O que não impede que haja nela considerações filosóficas e um determinado  engajamento político-social. E uma dose de ironia proporcionada por um certo distanciamento.

OA: O elemento erótico ocupa um lugar destacado em seus escritos. O que explica esse interesse pela sexualidade: sua visão freudiana do mundo, alguma convicção pessoal ou tão somente a intenção de “épater les bourgeois”?

R-R: Sim, tenho uma visão muito freudiana e racionalista sobre o sexo. Sexo é algo tão necessário quanto a alimentação para o bom funcionamento do corpo e da mente. Uma pessoa satisfeita sexualmente é sempre mais equilibrada, logo, melhor. Por outro lado, o sexo, na minha obra, é uma celebração da vida, em oposição à morte. E acaba adquirindo uma dimensão transcendente. Considero que a abstinência sexual é uma aberração decorrente de superstições milenares e uma violência contra o corpo e o espírito. Sinto uma verdadeira aversão pelo conceito judaico-cristão do sexo. E uma repulsa pelo enfoque fundamentalista do sexo, seja cristão, islâmico ou judeu. O fundamentalismo religioso é o suprassumo da ignorância, da pobreza de espírito, do atraso intelectual e se opõe à luz da Razão.  Gostaria de ressaltar que não escrevo sobre sexo para chocar ou para vender.  Não sou tão limitado. No meu entender, pornografia é a comercialização do sexo pelos meios de comunicação. E não, por exemplo, um filme com sexo explícito.

OA: O que liga entre si muitos dos seus livros é o protagonista deles, David Haize. Que nos conste, essa pessoa excede a condição de um personagem fictício, sendo seu alter ego e, de uns tempos para cá, seu heterônimo – algo que lembra a transformação de Romain Gary em Émile Ajar, uma das maiores mistificações que o meio literário já viu. Conte-nos sobre David Haize: como ele veio à luz e que papel tem desempenhado em sua vida?

R-R: David Haize (Haize significa vento em euskara, ou seja, língua basca – e o vento é sempre livre) sou eu, nem mais nem menos. Ou talvez mais. Já que ele, pelo fato de ser em parte ficção, pode se permitir ações que a vida prática me impede. Num clima onírico, David Haize é quase onipotente. Os jogos de identidade, por assim dizer, de Romain Gary são fascinantes.  Assim como os de Fernando Pessoa. Aliás, ser múltiplo é fascinante. Uma vida só não basta. Sobretudo para a imaginação de um escritor.

OA: Em resumo, podemos dizer que, feitas as contas, Roldan-Roldan e David Haize é a mesma pessoa, ou existe ainda certa fronteira que os separa?

R-R: Decidi assumir os excessos de David Haize como algo inerente à minha personalidade. Em certos casos, imito as ações dele por experimentação e prova de liberdade individual. Em outras palavras, imito a ficção na vida real. Esse aspecto lúdico da minha vida e minha obra me proporciona um prazer sofisticado. Em suma, eu vivo o que escrevo e escrevo o que vivo. Para mim, não existe fronteira entre a vida e a literatura.

OA: Três livros seus – Inidentidade, O bárbaro liberto e Boa viagem, Sheherazade ou A balada dos malditos – ganharam prêmios e menções honrosas na Itália. De certa forma, isso significa que suas obras são mais valorizadas fora do Brasil?

R-R: Sim. Acho que aqui os poucos que me leem me veem como um autor fora do tempo pelo fato de ser humanista. E ainda por cima surrealista, libertário e libertino, como se dizia no século XVIII. E ficam desconcertados quando lhes é impossível me catalogar. Ou me rotular, como eles gostam. Uma das características da imbecilidade é a necessidade premente de rotular. Quanto aos editores – que em verdade são meros comerciantes que mandam imprimir livros – cheguei à conclusão que, além de mercenários (como dizia Hilda Hilst), são burros e ignorantes.

OA: E, para terminar, como o amigo avaliaria a situação atual da literatura: tanto no Brasil, quanto no mundo inteiro? Dizem que a imagem é mais atraente para o ser humano do que o texto. Por isso costumo perguntar a todos os entrevistados da EisFluências se a literatura ainda está na ativa ou já sucumbiu ao vídeo e à Internet.

R-R: Vivemos na era da imagem, onde tudo é devidamente pasteurizado e edulcorado para uma digestão e uma defecação fáceis. O sistema vigente, o capitalismo neoliberal, como todo regime totalitário, tem obviamente interesse em que as pessoas consumam e não pensem. O neoliberalismo colocou o lucro no centro do mundo, lugar que cabia ao Homem, de acordo com o humanismo. Portanto, a literatura e todas as artes acabam prejudicadas, já que elas não se encaixam no conceito lucro do sistema. Daí o achatamento cultural. A produção de lixo cultural em massa. E a imbecilização do ser humano. Mas, como toda arte é resistência, acredito que sempre haverá homens e mulheres (superiores se comparados com a turba de frangos hormonados que nos cerca) que continuem a escrever com a alma (ou com as vísceras e os colhões, como eu), como testemunho de fé no ser humano.  E talvez também como um caminho para a elevação. Para atingir a espiritualidade laica.

OA: Obrigado pela sua polêmica e empolgante entrevista, Roldan! Espero que nossos leitores não a deixem despercebida. Gostaria de finalizá-la transcrevendo, na íntegra, um dos poemas seus… ou de David Haize?

*Oleg Almeida, poeta e tradutor, é autor, entre outros livros, de Memórias dum Hiperbóreo

Entrevista publicada pela revista EisFluências de outubro de 2012 (Número XIX – Caderno 1)

 

 

Anúncios

5 Respostas to “R.Roldan-Roldan É Entrevistado Pelo Poeta Oleg Almeida”

  1. Magali Says:

    Esta entrevista é impactante e nos facilita melhor conhecer a pessoa do escritor e melhor digerir sua obra, tão densa e multifacetada!

  2. RACHEL DOS SANTOS DIAS Says:

    Esse é o Roldan que eu conheço, admiro, prezo e respeito! Só uma palavra para ele – GENIAL!

  3. Pri olante Says:

    interessante


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: