O Pó da Ausência

novembro 24, 2012

O PÓ DA AUSÊNCIA


R.Roldan-Roldan


 

 

O PÓ DA AUSÊNCIA

Poesia

Índice

Frêmitos

Cotidiano

Resistência

Interiores

Exteriores

Amor

Pai

Mãe

A Morte do Irmão

O Pó da Ausência

Aos amados ausentes

en ce lieu

où cède la parole

on se prend à vérifier l´absence

(nesse lugar

onde cede a palavra

surpreendemo-nos verificando a ausência)

Jean-Louis Bernard (in La calligraphie de l´ombre)

Frêmitos

Lúbrica seca a boca o silêncio

áspero

de fruto não consumido

e transbordam os excessos da carne

no remanso do olvido

sob o chorão contemplativo

na vã tentativa de renúncia

solitário é o nó que ata a palavra

tesa de aromas não vividos

de portas trancadas e tumbas lacradas

como se os mortos fossem vingar o furor

não exaurido do desejo em flor

treme a terra

semeada de anelos não florescidos

mas sob a pedra

ainda respira o broto

à espera da gota da lira

*

Ouça arauto dos anjos exilados

a sagrada transgressão

ouça meteco as cordas da exaltação

latentes no claustro

sob o pálido sol da paixão vencida

ouça ádvena o sopro rouco dos malditos

cobertos pela luz dos séculos

que ofusca a mentira da redenção

crucificados na visão dourada

da miséria sem perdão

ouça estrangeiro longínquo cavaleiro andante

o canto do deportado

trenodia daqueles que ousaram

sem medo nem mácula

suas ideias esculpir

na própria carne

*

E vestir a arcaica nudez do deus nubente

de guirlandas lúbricas

ao som da lira do desejo

distante do ermo exílio de Tânatos

sagrada celebração antes do ocaso

quando o acaso

lúdico mistério

se infiltra no mosaico do gozo

entre os interstícios dos gemidos

e a respiração do silêncio

e ainda sonha com oferendas lascivas

na distância juvenil do sangue

no circuito das lendas

ciclo ainda timidamente aberto

aos prados semeados de falos e seios

salpicados de papoulas

frágeis papoulas magrebinas

que o vento despetala

*

Ao mestre do gozo erguer o cálice

sagrado vinho de antanho

e implorando os pilares do sangue

e o furor de ser

abrindo o ventre da morte

e já lasso de espera

de guerra declarada e não travada

de constantes escaramuças lúbricas

de ciladas do desejo

reverter o triunfo negado da carne

nas veias da arte

na premente necessidade

de materializar a ânsia de viver no ápice

que poderosa determina insistência

como pedra de fogo de Sísifo

no eterno recomeçar de desesperança e esperança

vasta fúria cravada na jugular do ser amado

inexistente

*

A vida na voragem

como ninho ousado na parede do abismo

a noite fustiga a memória

que se quebra contra os recifes do olvido

o sonho apenas remenda lembranças

e seu olhar perdido se afunila

no que poderia ter sido e não foi

a palavra enferma reza o terço das ausências

mas o verbo não atinge a pedra

perene a matéria permanece

ditos ausentes flutuam sem encaixe

máscaras suspensas ocultam fomes atávicas

e o corpo desdobra aflito seu ritmo

múltiplo em seu desespero

para suprir os vácuos da ausência

e longe da paixão

ensaia uma oração

ingênua

em busca de paz

*

O eco da memória não mais acorda o sonho

a vertigem sem-teto recolhe seus trapos ambulantes

ainda salpicados de manchas de estrelas

sujos de civilização andam os horizontes

cidades esquizofrênicas os maculam

a moeda da memória foi abolida do aço e do vidro

há corporações de sopros castradores

verões sujos de calor

invernos emasculados de gestos brancos

e sóis antigos sonhando deslocados

na voragem de uma nova gênese

gravitando em torno de caos primitivos

enquanto eras fogem do apocalipse

como nuvens levadas pelo vento

na desolação do Tempo

até os confins tísicos onde Cibeles chora o oásis perdido

*

Cotidiano

Sangra-te o cotidiano

tão pesado banal

estrangulando o fluxo da alma

e o latejar do coração

sangra-te o cotidiano

totalitário e mesquinho

sob a náusea de existir

sem voar

*

Cotidiano

artrose da alma

dor ao pensar

amputado o êxtase do voo

rastejas

*

De barro não fostes feito

nada tens de cotidiano

és mármore ainda virgem

à espera da epifania

*

O céu range

abóbada abalada

sob o peso da lucidez

o céu cospe sangue

o inferno o lambe

nas cloacas clínicas do cotidiano

*

A náusea

em gala de fogo e sangue

clama pelo vômito do cotidiano

catarse

surge tímida a subversão

o infinito não-querer

esplêndido em sua transgressão

silente diamante cósmico

*

Resistência

Aquém do teu voo

aquém do teu sonho

aquém do teu desejo

aquém do teu furor

aquém da tua paixão

aquém da tua ética

aquém da tua dignidade

tudo fica miseravelmente aquém

e o paradoxo te crucifixa

uivas

vives no pináculo

choras

confinado no subterrâneo

*

Entre máscara e persona

inseres a leve maquiagem da ordem

subvertendo as regras

questão de sobrevivência

e mergulhas na desordem

prazer do caos

*

Dolorosa solitude da liberdade

só estás entre quatro paredes masturbatórias

rapsódia truncada

sonata inacabada

ádvena mergulhas no abismo

*

Macho de outra era

uivaste

como lobo faminto

calas-te agora

transmutando o uivo em silêncio

de Homem

*

No subsolo da palavra

cultivas

como derradeira dignidade

a honra da revolta

mesmo com o céu abortado

tingido de azul

virtualmente

*

Interiores

Teto de madeira

assoalho de ladrilhos

uma mesa de carvalho e seis cadeiras

uma arca

uma janela de vidros embaçados

uma lareira onde estalam os séculos

e um lustre de lamparinas com luz de antanho

*

Em cômodo recolhido no Tempo

as paredes se cobrem de silêncio

enchem-se de olhares

perplexos

de infância perdida

cinza

entre cores e sons revogados

se insere o dardo

à luz do candeeiro

*

Fim de tarde

indolência

uma réstia de luz

partículas de memória flutuando

recompondo imagens infiéis

sobre os tapetes tangerinos

que cobrem as paredes

*

Exteriores

Por estreitas ruas de pedra

onde plácidos repousam os séculos

sob a garoa

caminhar ao encontro da origem

essência da eternidade

por estreitas ruas de pedra

invadidas pela bruma

suspensas no tempo

deambular feliz ao encontro do âmago

*

Cal

gerânios nas sacadas

luz do Mediterrâneo

em ruela primorosa

largar os passos

lentos

senda dos antepassados

onde goteja o extrato da alma

*

Ruela

tortuosa solitária silenciosa

um muro alto de pedra de cada lado

a alma vaga sob o arco de folhagem

que se entrelaça ultrapassando os muros

verde abóbada

e um século vetusto quase rural

bucólico de tão profano sagrado

camuflado na hera que cobre esses muros

pisca

cúmplice

esquecido e nostálgico

*

Pelo caminho de pedras

no âmago do bosque

pelo caminho de pedras

coberto de outonais folhas vermelhas

desatar o devaneio

melancólico como a estação que se recolhe

e sob a ramagem

embalado pela brisa

atravessar o umbral do sonho

*

Chove minuciosamente

palpitante elo perdido

sibilino silêncio noturno

entre as árvores do pequeno jardim

sob a folhagem iluminada

uma calha encantada recolhe gotas

para a cisterna nostálgica do coração

*

Amor

Não

não esqueci aquela canção

que não mais se assemelha ao nosso amor

(o tempo separando sem alvoroço os amantes)

rolaram as estações

folhas verdes e amarelas foram se revezando

o vento varreu a ilusão

restou frieza

e o olhar gasto de indiferença

*

Venha

só estou com o ferrão do desejo cravado na carne do dia

só estou como sombra de fantasma no deserto

deslizando sobre a rampa do Tempo

em direção ao nada

só estou com a palavra

que já não fertiliza a alma

só como funâmbulo na corda bamba antes da queda

só como o sonho do Poeta

só como a busca do Homem

só como o moribundo no umbral do nada

só como cadáver na geladeira

à espera

desse turbulento amor sufocado

terrível amor de ânsia e desespero

venha

nem que seja para mentir

*

Volte

afaste-me da incompletude

preencha de pétalas de ternura a violência do furor de amar

sopre sobre a chama da moderação

para reaver o instante fugaz furtado à ausência

sugue-me o sangue azedo da prudência

e no turbilhão do gozo grite

agora e sempre o não dito

volte

que sou a ânsia dos 20 em carne madura

na virada do vazio

*

Onde te ocultas amor?

talvez num celeiro

entre trilhões de grãos à espera

talvez num prado luminoso

entre espigas de trigo papoulas e borboletas

talvez entre as sombras de um templo

entre mil estátuas imitando a perpetuidade

talvez numa bucólica estalagem de outro século

entre o mistério das chamas na lareira

talvez na multidão anônima do metrô

entre dois sorrisos apressados

talvez na velocidade neurótica da internet

entre duas mensagens objetivas

talvez num baile de máscaras

entre o déjà vu e o blasé

talvez num sonho adolescente

entre lençóis molhados

talvez num suspiro

entre as aspas do indizível

talvez no nunca-mais angustiante da urgência

entre céleres agoras sem amanhã

*

Pai

Pai onde estás?

ouço a lâmina ceifando tua barba

e teus lábios sorvendo o café

e preencho com lápis de cor

os espaços em branco da orfandade

pai onde estás?

*

Pai

tão límpido mas tão duro

“anda sozinho você já é grande”

e soltas minha mão

que seca as lágrimas

*

Pai

honra dignidade integridade

ninguém te alcança

és um monumento

que ainda esmaga a criança

*

Pai

o deus Anarquia

esconde-se no altar do teu ato

e eu tão pequeno

aprendo a prece de cor

liberdade

*

Mãe

Mãe onde estás?

perfume de jasmim

fragrância de gerânios

sinto no fundo do jardim

e entre distância e silêncio

recolho galhos secos

para o frio do menino órfão

mãe onde estás?

*

Mãe

doce sorriso

branca tez

negro coque

o odor de tua pele

e o som de tua voz

plácidos em teus séculos rurais

serenidade da compreensão

o amor herdado de longe te vem

e na árdua lida cotidiana

a prece antiga viva te mantém

mas há tanto tempo em filigrana

teia de aranha secular

os salmos da lua pousam sobre o silêncio

como neve em paisagem solitária

e as plantas secas sussurram sonhos calcinados

mãe

*

Como tempo fora do Tempo no irreal do espaço real

vejo-te mãe além das páginas da memória

a poeira cobre o sangue do dia ferido

aquietam-se as sombras

silenciosa avança a noite

alcança-me após longa viagem

do Afeganistão volto outro

estranho pressentimento

as janelas estão apagadas

entro

pó e silêncio na penumbra

a casa tem cheiro de ausências ressecadas

de perene embolorado

de sopros esquecidos

reprimidos sons isolados estalam saudando a volta do filho

– Mãe onde estás?

– Aqui no jardim

no jardinzinho recolhida sob o xale no escuro estás

surpreso digo

– Pensei que já tivesses morrido

– Morri filho mas voltei para esperar teu retorno de Cabul

*

A Morte do Irmão

Súbita ausência

dolorosa partida

um urro calado

um silêncio tenso

uma lágrima seca

um balanço do corpo

no abismo do oco

deixado pelo meu irmão

*

Não voltarei ao aroma dos souks do Magreb

contigo irmão

apaga-se a referência

bruxuleando como vela no fim

e a identidade sobressalta

frágil e trêmula

entre as garras do Tempo

*

Azrael deu o sinal

e o silêncio se abriu em papoula negra

dormes na eternidade do nada

irmão

e eu como fantasma sem paz

vago

pelos corredores mal iluminados

da referência manca

a identidade sangrando

*

Cheiro de terra têm as trevas

úmida é a morte

fria lividez exalando odor de flores murchas

as bandeirolas em noite solitária

balançam ao vento na rua deserta

onde ecoam passos da infância

e vejo-te sorrir

mas inerte estás

irmão

no fundo do nada

*

Na solidão da dor

quando a palavra se aninha no silêncio

quando o nada crava suas garras

dilacerando os que amando ficam

quando as sombras rodopiam e se abraçam

como se quisessem recompor a carne

quando a Morte arrasta seu tule negro

onde brilham estrelas de êxtases passados

quando a angústia do irreversível tritura os testículos da alma

e sufoca o sopro

alquebrado deixo escapar

entre os lábios silentes

teu nome

irmão

*

Irmão só estou irmão

só absolutamente só

perante a partida branca como o nada

com a única presença de tua ausência

ainda quente

na distância da morte

presente

*

Só estou só irmão

num planeta sem vida

de solidões irrespiráveis

que o vento sibilante arrasta de um lado para outro

como folhas mortas

só com os incisivos da morte

cravados na jugular da alma

só com o coração preso no torno do irreversível

só com a desolação do agnóstico

(procurei Deus a vida toda e não o encontrei)

que nos deuses não encontra alívio

só com o vasto peso do nada

esmagando a esperança

nas garras lúcidas da desesperança

só com a dor no abismo silente da perda

descrente frágil impotente apenas homem

para sempre seccionado do ser amado

já inexistente

e medonho é meu grito

sufocado no mutismo do absurdo

*

Opaca é a dor

densa a angústia

eclipsa-se o translúcido

turvo alvor

o peso do nada

sepulta o impulso da memória

*

Pálido entraste na casa dos ancestrais

sombras de reflexos brônzeos no nada

tremeluze a referência

Tânger aparece mítico

crepuscular

na inércia do sofá

vítreo olhar

soam 22 horas

mas já não toca o telefone

já não ouço tua voz dizer

“fala Zampa”

e falar de Angelopoulos

de Kieslowski

de tuas musas Romy Schneider e Juliette Binoche

de ética

de neoliberalismo

resta-me o silêncio do orgulho

pós-morte

que de ti me cobre de dignidade

e as lendas morrem de inanição perante a mudez

*

E Tânger retorna esfíngico

emerge perene a cidade-assombração

tons sépia granulados pela areia do chergui

nas mesquitas e casas art-decô

preto era teu uniforme italiano de gola branca

e eu irmão mais velho

te levava à escola pelo boulevard de Paris

antes de ir trabalhar ainda menino

sabor de Mediterrâneo

tem o sal de minhas lágrimas

dói a corda tensa da memória

soa o canhão do Ramadã

vamos comprar taharixas quentinhas tâmaras e chuparquias

e aos domingos eu te levava às matinês

de bangue-bangue ou capa e espada

mas longe estás agora irmão

na desolação do nada

que os frívolos deuses povoam de fantasias

para não abdicar

amigo Lanord amigo tangerino de infância fica comigo

que meu irmão morreu

*

Ninguém reflete tua ética irmão

nem teu despojamento

ingênuos para o cupim bípede

que nada tem a ver contigo asceta

coerente desprezo do material

vindo de ti materialista dialético

inocente

ninguém reverbera a liberdade de tua inteligência

nem a solidez humanista de teu intelecto

ímpares

íntegro percorreste o trajeto

com altivez de passo marcial

cabal como ser superior

abençoo a dignidade de tua militância

na luta contra a injustiça

coragem e desprendimento

amado paladino da justiça e da liberdade

*

O Pó da Ausência

Surdas imagens

ejetadas pela lividez do nada

brotam na lassidão póstuma da pedra

outrora fogo antes da palavra

ausente

*

Na encruzilhada

entre o pó do dia e o orvalho da noite

perto dos arames farpados do limite

surge a ausência

fantasmagórica

debulhando vetustos desejos como pérolas mortas

perene guardiã da fronteira

*

Lúcido é o sonho

desse fervor do silêncio

quando indolente vaga a lua

entre as nuvens da ausência

ancestral

*

Errante poema

de périplo vacilante

e estirpe antiga

entre improváveis luzes

revestidas de carne ausente

rastreando o eco da alma

*

Tomadas de vertigem

as sombras dissolvem o Tempo

inoculam nadas

e como espectros de putas

pacientes putas de anáguas e olheiras no sofá

aguardam as ausências do crepúsculo

na penumbra

*

Fatídico branco vindouro

ósseo som de ausências

o Tempo sorri

indiferente tricota a vida

no umbral do nada

*

Impassível madrugada

seus passos deslizando

entre tintas vetustas

e pincéis ausentes

esboçando a bruma da alma

ali onde o silêncio oculta o Absoluto

*

Ali onde se afoga a vertigem

no abismo da ausência

perto de horizontes feridos

e lúgubres noites escarpadas

freme o sentir sem presença

*

Estilete

um corte

na glande da alma

o sangue jorra

escorre

pelo ralo da ausência

*

Agosto/Novembro de 2012

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4 Respostas to “O Pó da Ausência”


  1. Para os que apreciam a leitura… abraços a todos!

  2. yeda siste Says:

    Sutil e comovente em alguns trechos , sutileza sempre foi marca de seus escritos e me sinto privilegiada em poder estar aqui deliciando minha alma com seus escritos!

  3. davidhaize Says:

    Muito obrigado, prima. Um beijo.


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