O Totalitarismo das Corporações

janeiro 14, 2013

O Totalitarismo das Corporações

 

            Os atritos entre o governo de Cristina Kirchner e a mídia ou, mais especificamente, entre o governo e o grupo do Clarín, analisados objetivamente fora do contexto (e conceito) atual de liberdade econômica do neoliberalismo, deixam os papéis de vilão e mocinho numa posição bastante ambígua.

Se por um lado regimes como o de Correa, do Equador, Morales, da Bolívia, Chávez, da Venezuela e Cristina Kirchner, da Argentina, parecem estar cerceando a liberdade de expressão, por outro lado, devemos levar em consideração que a mídia, no caso os grandes grupos corporativos, está a seu modo também cerceando, de maneira capciosa e inexorável a liberdade de opção do cidadão. Como assim? Deixemos de lado o populismo desses regimes (principalmente o lamentável populismo cultural, como ocorre no Brasil) – o que seria difícil, já que tudo faz parte do mesmo contexto socioeconômico. Em outras palavras, não se trata de uma luta pela liberdade de expressão e sim de uma luta pelo poder, pelo dinheiro. Expliquemo-nos.

Em realidade, os grandes grupos corporativos da mídia não estão em absoluto preocupados com a liberdade de expressão e sim com as suas finanças, cada vez mais sólidas com a ampliação do poder. Desde o advento do neoliberalismo em sua configuração atual, assistimos, com a troca de poder do governo pelo das corporações, a uma inversão do conceito de liberdade, ou, por assim dizer, de valores. Hoje em dia o fascismo camuflado do neoliberalismo e de sua consequente globalização não parte do governo, mas da empresa privada. Mesmo porque os grandes grupos corporativos são obviamente privados. Em suma, a tão decantada liberdade do famigerado capitalismo neoliberal é ilusória e limitada.

O grupo Clarín domina a mídia na Argentina e tem o poder de, “democraticamente” (entre aspas mesmo), desestabilizar e até derrubar o poder legalmente constituído do governo. O mesmo acontece com a Globo no Brasil. É absolutamente inconcebível, para salvaguardar a verdadeira democracia, que não haja uma lei que regulamente e detenha os abusos totalitários dessa mídia capitalista que manipula, não só o governo, mas a opinião pública. Pois essas empresas invocam perversamente a liberdade de expressão simplesmente para dar vazão a sua voracidade de lucro a qualquer preço e sem nenhum escrúpulo ético, o que equivale a afirmar: sem nenhum respeito pelos direitos do cidadão. E aí já não se trata de briga entre governo e empresas. Trata-se da liberdade de o cidadão escolher o que ele quer ler, ouvir e ver. Pois a tão enaltecida opção do capitalismo já não existe mais. O que existe é uma padronização, uma uniformização – que lembra em certos aspectos o stalinismo – que visa unicamente ao lucro desmedido. Por que o cidadão tem de engolir o que um determinado jornal ou emissora de TV impinge de modo arbitrário do momento em que sufoca e elimina, pelo poder do dinheiro, o direito de poder optar por outros jornais e emissoras de TV cujas opiniões políticas divergem dos grandes grupos corporativos? Por que temos de engolir o produto que determinada empresa nos impõe pela ação da propaganda, a ponto de não olharmos para nenhum outro produto?

Se levarmos em conta que esse estado de coisas não ocorre só com as empresas da mídia, mas com os bancos, supermercados e indústrias, perceberemos que, sutilmente, ou não de forma tão sutil, somos subjugados pelo fascismo, pelo totalitarismo, pelo poder sem limites dos grandes grupos corporativos, pela imposição ditatorial do consumismo. Em suma, vivemos sob um regime de fascismo disfarçado cujo objetivo é sevar-nos como porcos para atingir a alienação total. Em outras palavras, o lema, não declarado, é: seja burro, ignorante, alienado, consuma, cale-se e não pense. Isso sem contar a invasão da privacidade e a violação dos direitos humanos em nome da segurança, outra característica do neoliberalismo.

24-12-2012

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado no jornal “Correio Popular” de Campinas em 8/01/2013

 

 

 

 

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2 Respostas to “O Totalitarismo das Corporações”

  1. LCDC Says:

    Parabéns de novo Sr.Haize. Concordo com cada palavra escrita, como sempre. Só falta sugerir a ação. Digo, reação (se é que este povinho ainda tem alguma). Ultimamente, tenho sido alvo de inúmeras críticas e até mesmo agressões por afirmar que não assisto TV. As agressões começam quando digo (já com a intenção de provocar e talvez convencer) que só pessoas medíocres ou burras assistem TV.
    Geralmente, forço uma flatulência e me retiro. Mas se estou com uma gota de álcool no sangue, dou continuidade ao papo e cito casos como o da Argentina, família Bush com Sadam Husein, suicídio de mais de 20 SEALs que assassinaram o Bin Laden (esta é novíssima! O espanto começou ontem na imprensa britânica. Eles, os britânicos, acharam suspeito o fato de todos os soldados que efetivamente assassinaram Bin Laden terem “se suicidado ou morrido por doenças gravíssimas como gripe, tétano e outras”.), restituição de verbas (de caixa 2) de campanhas eleitorais do PSDB, PMDB, Democratas, PP, PDS e todos os outros (que no caso do PT chamou-se “mensalão”). Outro fato curioso que cala a boca dos telespectadores de Miriam Leitão, Eliana Lobo, William Bonner e o resto dos ditadores da informação é que muita gente quer saber de onde veio a “imensa fortuna” que o Lula tem hoje (tem mesmo?) e não sabem que ele mora no mesmo apartamento em São Bernardo até hoje. Como eu sei disso e o povão não sabe? Simples; não assisto TV e leio Carta Capital, Spiegel, The Economist, Caros Amigos, Piauí e outras que este povo de M. sequer ouviu falar. Por isso caro Haize, fazendo um “trocadalho do carilho”, sugeri a tua sugestão (no blog não tem itálico; perdoe) aos teus leitores. Sugira uma ação, uma reação.
    De minha parte, já constatei que democraticamente nada vai funcionar nem aqui no Brasil nem em qualquer outro lugar desta bolinha infestada de coliformes chamada Terra. Então, sejamos dignos de nossa condição (bípedes pensantes com condições de se organizar em sociedades) e passemos a agir. E não mais consumir BBBs, novelas, jornalecos, propagandas disfarçadas de campanhas sociais e todo aquele lixo que o povo adora engolir e em seguida vomitar em cima de mim com o argumento de que eu sou revoltado.
    Ah, os muçulmanos… que cultura adorável! Uma pequena parcela do nosso gênero que efetivamente reage às injustiças. Mas sempre depois de muito tentarem civilizadamente preservarem seus direitos.
    Abraço sincero de teu admirador e parabéns pelas lúcidas e coerentes palavras de sempre (porém, ainda insuficientes para promover uma mudança, mas louváveis pela intenção).

    Luis Carlos Dal Colleto


  2. Concordo com o texto e aplaudo, até porque leio diariamente notícias da Argentina pelo jornal Página 12, relativamente isento. Não há jornais independentes! E os dependentes, não se sustam de colocar mentiras alevosamente. O que não entendo é como você pode colocar seu texto na coluna do Correio Popular: É a exeção que confirma a regra?


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