A Caça, de Vinterberg

junho 11, 2013

A Caça, de Vinterberg

 

            Assistindo ao ótimo A Caça, de Thomas Vinterberg, diretor de Festa de Família, somos levados a lembrar-nos de As Virgens de Salém (1957), de Raymond Rouleau e de As Bruxas de Salém (1996), de Nicholas Hytner, ambos os filmes baseados na peça de Arthur Miller, que se inspirou num fato histórico ocorrido no povoado de Salém, Massachussets, em 1692. Miller usou a metáfora da perseguição às bruxas para denunciar a paranoia e a intolerância, tipicamente norte-americanas, do maccartismo. A versão de Rouleau, com Yves Montand e a grande Simone Signoret, era superior à versão de Hytner, que tinha no elenco Daniel Day-Lewis e Winona Ryder.

            Mas o que tem a ver a trama de A Caça com a caça às bruxas, literalmente falando, dos outros dois filmes acima mencionados? Tem muito a ver. O filme de Vinterberg narra um caso de denúncia de pedofilia contra um honesto cidadão numa pequena cidade dinamarquesa, nos dias de hoje – algo parecido com o que aconteceu em São Paulo há uns anos. Enquanto os filmes baseados na peça de Arthur Miller tratam da perseguição, julgamento, condenação e execução de pessoas acusadas de bruxaria. O que há em comum entre essas três obras é a histeria, a paranoia, a cegueira e a intolerância do ser humano, independentemente de raça, religião ou país. Espiritualmente, o Homem progrediu muito pouco.

            É de espantar a necessidade que a sociedade tem de crucificar. De ter sempre um bode expiatório. De apontar o dedo para condenar e, em certos casos, para sentenciar à morte. Principalmente aqueles seres que, menos ignorantes e mais rebeldes, não seguem o padrão vigente imposto pelas convenções. Convenções que muitas vezes beiram, não só a hipocrisia, mas a limitação intelectual e até a burrice, o grotesco e a vulgaridade. Basta folhar a História para confirmar que todo aquele que foge da suposta normalidade é um suspeito em potencial. A ignorância e a intolerância sempre andaram juntas. E isso desde Cristo, Espártaco, Giordano Bruno e Tiradentes, entre muitos outros. A sociedade é uma coisa amorfa, flácida e cruel que não gosta de ser incomodada com alterações de seu status quo. E que só admite determinadas modas ou modismos inócuos ou cretinos desde que eles não cheguem a abalar seus alicerces – sacrossanta estupidez, já que tudo, absolutamente tudo, acaba. Ou seja, desde que os privilégios estabelecidos para determinadas camadas sociais que regem a sociedade não sejam afetados. E qualquer cidadão com um mínimo de lucidez percebe isso. Portanto não seria exagero afirmar que existe algo perverso nesse conservadorismo que leva à estagnação social.

            Vinterberg, um crítico da sociedade, em outro exemplo do bom cinema da Dinamarca (por sinal, o belo O Amante da Rainha, de Nikolaj Arcel, também dinamarquês, era uma crítica à hipocrisia e corrupção da nobreza) nos expõe em A Caça essa necessidade premente de ter sempre um culpado disponível para descarregar o ódio atávico que ainda carregamos em nós e que aflora na primeira oportunidade, mesmo em sociedades avançadas como a dinamarquesa.

26-05-2013

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado no jornal Correio Popular de Campinas/SP em 4 de junho de 2013

 

 

 

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Uma resposta to “A Caça, de Vinterberg”

  1. Luis Says:

    Parabéns. E obrigado!
    Abraços,

    Luis Dal Colleto


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