A Revolta dos 20 Centavos

 

            Já se disse muita coisa sobre a Revolta dos Vinte Centavos. Mas ainda é cedo para avaliar o que, historicamente, significa esse movimento. Toda revolta, rebelião, subversão ou revolução requer o distanciamento no tempo para ser analisada e avaliada. Mas as conquistas alcançadas atestam que o povo tem de sair mesmo às ruas e protestar: o aumento do transporte público foi revogado, a PEC 37 foi derrubada e o Congresso definiu a corrupção como crime hediondo.

            O que começou como um movimento popular, sem respaldo de partidos, contra o aumento da tarifa do transporte público transbordou. O que era apenas o estopim – ou a gota d´água – extrapolou. E se tornou pretexto para uma série de reivindicações de um povo insatisfeito com seu governo. Porém, na realidade, não é exatamente uma questão de governo. É uma questão de sistema falho e superado. E para que haja mudanças que beneficiem a população é necessário mudar o sistema.

            A corrupção não é o único problema do Brasil. E ficou claro que a campanha contra a presidente Dilma Rousseff é um tanto ingênua. Em verdade, ela não é a culpada pelo estado desastroso em que se encontra política e socialmente o País: criminalidade e violência geradas pela desigualdade social, carestia, inflação, total descaso com a saúde e a educação e, claro, a corrupção. Dilma representa um sistema. E é demasiado simplista culpá-la de todos os males que assolam o Brasil. Embora Dilma seja do PT, a presidente não é exatamente o partido e vice-versa. O mal é mais profundo. E mais antigo. Bem anterior à ascensão do PT.

            Sim, a raiz do mal está em outro lugar. Esse mal que se arrasta há, não décadas, mas séculos. O Brasil precisa se socializar. O que não equivale a dizer que o Brasil deva se tornar necessariamente um país de regime socialista. E socialização implica, antes de tudo, deixar de lado a bolha que virou o Brasil e os demagogos que alimentam essa bolha. De que serve ser a quinta potência econômica do mundo se ainda temos sessenta milhões de miseráveis? A China e a Índia certamente não são exemplos para o Brasil seguir. Em outras palavras, a economia não pode e não deve ser a prioridade número um do País. A prioridade número um é o bem-estar social.

            Vejamos alguns tópicos que devem ser radicalmente mudados ou abolidos se queremos melhorar as coisas. A começar pela classe política. É inadmissível – aliás, é inconcebível – que um parlamentar ganhe o salário que ganha, sem contar os benefícios e o disparate de sua aposentadoria. É simplesmente indecente. É um roubo. É coisa de mafioso. Toda essa parafernália de privilégios que lembram os dos nobres franceses antes da Revolução Francesa de 1789.  Isso é uma afronta ao povo brasileiro. Sim, é uma ofensa ver esses parasitas – como eram os nobres franceses antes de 1789 – serem os parlamentares melhor pagos do mundo. Por quê? Por que essa descriminação com o resto dos brasileiros? Um professor é infinitamente mais útil do que um deputado ou um senador. Um médico é infinitamente mais útil do que um deputado ou um senador. Portanto, é lógico, racional, óbvio, que deputados e senadores não possam, de jeito nenhum, ganhar mais do que médicos e professores. É o bom senso. A razão. Mas como mudar isso? Seria necessária uma revolução? Pois então que se faça uma revolução, começando pelo saque e destruição das propriedades da classe política.

            Outro aspecto revoltante e atrasadíssimo é a discriminação social. Sim, a discriminação social. Teoricamente todos os brasileiros são iguais perante a lei. Teoricamente. Mas não na prática. A imunidade da qual gozam os políticos é uma indecência, uma obscenidade. Nenhum brasileiro está acima da lei. Absolutamente nenhum. Nem sequer os ministros. Nem sequer o (ou a) presidente da República. Um deputado, um senador, um juiz, um ministro ou um presidente da República são cidadãos como os outros e não devem ter absolutamente nenhuma imunidade. Isso é democracia. O resto são resquícios do coronelismo. Há em todos esses privilégios uma perversidade medievalista.

            Temos ainda uma série de itens que devem ser revistos: educação, saúde pública, salário mínimo, taxação da indústria de Cristo. E por falar em abolição da imunidade tributária religiosa, a PEC 99, fundamentalista e teocrática, deve ser derrubada, pois o Brasil é um país laico. O Brasil não é o Irã. Enfim, o Brasil está acordando e já não se ilude mais com o futebol e o carnaval. Os dirigentes do País vão ter que inventar outros meios novos de massagear o ego nacionalista dos ignorantes. Protótipos de alienação como os de Pelé e Ronaldo não colam mais.

26-06-2013

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado no jornal Correio Popular de Campinas/SP a 2 de julho de 2013