As Horas Selvagens

outubro 13, 2013

 

As Horas Selvagens

Do livro O Deslizar das Horas

Editora Komedi 2008

 

Sou momento

solto instante fugaz

anjo primitivo

da força bruta de ser

em luta ferrenha

entrega total de macho voraz

êxtase de existir

ancestral

dilacerado

com o morrer a cada segundo

antes de saber ter

o que dizer

*

*

*

Torre de Babel dos sentidos

exacerbados como fomes ancestrais

presas fincadas em vastas carnes

sem sopro de redenção nem perdão

de lutos instigando a urgência do agora

tigres expelindo a energia telúrica

e corcéis mortos no umbral da espera

não espero não

afundar em teu oco

antes que soe o tambor da morte

e desaguar mil vulcões

e descer

tal Orfeu descendo aos domínios de Hades

inferno de sangues e espermas

coagulados em anjos

de gritos feridas e beijos

calçando as botas mágicas

que reduzem as léguas

do não-existir

feito gozo

*

*

*

Onde estás

que não tocas o palpitar do meu desejo

terra grávida do furor de existir?

Onde estás

que não albergas o símbolo candente do querer

quando a lividez da solitude descora a vontade de ser?

Onde estás

que não ouço o canto do amor

no canto maciço que tanto quero florescer?

Onde estás

que me largo nas mãos glaciais de Tânatos

por um mero olhar de Eros não ter?

*

*

*

Cala-te

abre-te

receba-me

de esguichos ruge o prazer

que tua prece

não seja fardo

nem fragilidade

mas apenas gratidão existencial

do gozo

*

*

*

Nada de sentimentalismo novelesco

proponho-te o reino do meu cetro

cru

mastro imperial de veleiro do furor

faro que ofusca a hipocrisia

e o ranço de Cinderela

pois meu querer brota do pico fiel

que não queres receber

*

*

*

Por que preferes o estertor dos anjos

falsos anjos tísicos de não querer

se o júbilo dos demônios

ferve a glória da paixão

nos caldeirões de existir?

vem idiota

vamos foder

*

*

*

 Pegue minha mão

alcemos voo ao desconhecido

cruzemos as fronteiras proibidas

ao encontro do sempre

pois o amor torna-nos pássaros eleitos

de mítico sexo nas alturas

na conexão sagrada do superior

bocas selando o pacto divino

mãos guiando o faro do desejo

e percorremos o desafio do ilimitado

iluminado

pela vertigem

vem

curta é a vida e a liberdade mata

e grande é o júbilo que unta nossa pele

vem

entre milhões te achei

vem

contigo venço a morte

vem

põe tua cabeça no meu peito

e dorme

vem

que ainda sou selvagem

e não te conheço

*

*

*

Dar-te-ei

 

Eu te darei não di più como Vanoni

nem perolas de chuva de países onde não chove como Brel

nem rosas de Nishipur como Khayyam

não não

bem menos te darei

apenas vísceras do querer

quando chegues testando a entrega

fecharei o livro que escrevo

para reescrevê-lo em tua pele

largarei os paraísos artificiais

para voltar à humildade do macho

frágil senhor e escravo que ama

e serei chão bento como o alvor dos tempos

bruto como o amém do urso

e irei contigo onde sempre fui de ser

onde sempre estive só

porque carrego o infante que te darei

que fui que sou

e como água me derramarei em ti

sem pressa nem alvoroço

entre o nogal e o bambu

recompondo os fragmentos do silêncio

quebrado

e te darei o infinito perdão que me dás

entre a misteriosa serenidade da chuva

e a explosão espermática do sol

e te darei raízes perfumadas de tempestades ancestrais

e da cheia do séculos 

e me dirás morre para morar em mim

e morrerei em ti

e te darei a arfada do Navio Ébrio de Rimbaud

enquanto gozas

e serei espera do infinito à carne

e sem trégua te direi sou a energia que me dás

vem casar essa fúria

vem ousar fundir-te em mim no espasmo do segundo

e renascer na reinvenção dos milênios

a dois

uno

e como mago destronado do saber

anjo selvagem da vertigem inicial

iniciarei contigo a largada do acoplamento sem fim

entre a aspereza do caminho

e o veludo da violeta velada pele véu da sombra

e da terra ar água e fogo extrairei

a densidade silente de ser teu

claro-escuro do sonho a dois

vem que esguicho vida

quando me injetas o furor de existir

e delirante arribo ao porto do teu corpo

jogando a âncora do meu falo em tuas águas profundas

e tão abstrato quanto o pênis de minha alma

serás tangível

na ponta dos dedos do Tempo

vem entre o estupor da morte

e a translucidez da vida

transpiração da existência

transmigração

e deposita teu robusto sou de gritos e silêncio

vem nesta noite de fumo e cerveja

que enquadra meu uno partido

sem noção da remota metade

vem me acoplar no sideral do desejo

da carne ilimitada

de espasmos da referência

vem que o humano é divino

vem que só estou esta noite

véspera da véspera de Natal

num bar onde vomito no papel

a dilacerante necessidade de amar

no aguardo de renascer em ti

para me redimir

quando te darei em estado puro

a coisa tosca do sangue que não sabe ler

nem raciocinar

apenas amar

mas onde estás que não ouço o orvalho do teu fôlego?

onde estás que minha ânsia não se condensa em um único ser?

onde estás que sangro do pedaço perdido?

onde estás que não matas o anjo para torná-lo homem?

onde estás que não encontro meu nome?

vem

vem dissipar a luz

a luz que fere

a falsa luz

vem para que deixe de ser um simulacro

de ser

    

 

 

 

 

  

 

  

 

 

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