A Mítica Tânger dos Anos 1940/50

novembro 6, 2013

A Mítica Tânger dos Anos 1940/50

            Diz a lenda que a cidade de Tânger (Tanjah em árabe), a mais velha do Marrocos, teria sido fundada por Sufax, neto de Zeus e filho de Héracles (o Hércules dos romanos) e Tinga ou Tingis,  viúva do gigante Anteu. Sufax chamou a cidade de Tingis em honra de sua mãe. Durante a luta entre Héracles e Anteu, um golpe de sabre do herói abriu o Estreito de Gibraltar e separou a África da Europa.

            A lendária Tânger, fundada no século IV A.C., pertenceu sucessivamente a fenícios, cartagineses, romanos, vândalos, árabes, portugueses, ingleses, franceses e espanhóis até tornar-se cidade de estatuto internacional, governada por vários países – experiência única no mundo – de 18 de dezembro de 1923 até 20 de outubro de 1956, quando foi incorporada ao resto do reino do Marrocos que acabara de obter a independência.            

            Não espere encontrar em Tânger, a Alhambra de Granada. Nem a Hagia Sophia de Istambul. Nem o Taj Mahal de Agra, por citar algumas grandezas arquitetônicas orientais. A cidade mais septentrional do Marrocos e do continente africano não chega a oferecer os esplendores históricos acima mencionados. Mas a antiga Tingis dos romanos tem uma peculiaridade, um mistério e uma identidade única no mundo. Ou, pelo menos, já a teve. Com uma população de mais de 800.000 habitantes (estimativa de 2012), separada por 14 km de mar do Estreito de Gibraltar da costa espanhola, embora se tenha tornado uma cidade grande (a quarta do Marrocos), a “Cidade dos Estrangeiros” (um quarto da população era constituído por estrangeiros), como era chamada, conserva um charme muito especial.

            Mas foi nos anos 1940/50, como Zona de Estatuto Internacional – embora sob soberania do sultão – que a mítica desta cidade-estado, por assim dizer, atingiu seu auge. Como cidade internacional única no mundo – Xangai e Trieste foram cidades internacionalizadas, mas não do mesmo modo – a chamada cidade mais europeia da África e a mais africana da Europa, tinha um selo de identidade que a diferenciava do resto do mundo.

            O fascínio do Oriente. O exotismo. A culinária típica, ainda não espalhada pela globalização. O mistério da espionagem e contraespionagem internacional. O contrabando de divisas. O cosmopolitismo – levem em conta que nos anos 40/50 Paris, Londres ou Roma, grandes metrópoles, eram cosmopolitas, mas eram urbes de milhões de habitantes enquanto Tânger não atingia os 200 mil. A tolerância tanto étnica (árabes, judeus, espanhóis, franceses, ingleses, italianos, portugueses, indianos e oriundos do Leste europeu conviviam em harmonia) e religiosa (islamismo, cristianismo, judaísmo e hinduísmo) quanto em relação ao sexo e às drogas (naquela época não eram pesadas como hoje em dia). O clima ameno e as belas praias. Tudo isso atraía um grande número de escritores, pintores e gente do jet set internacional em busca de algo diferente. Entre os numerosos escritores e pintores que ali moraram ou passaram longas temporadas, podemos citar alguns, tais como o norte-americano Paul Bowles, que viveu em Tânger de 1947 até sua morte, em 1999, e cujo romance O Céu Que Nos Protege foi levado às telas por Bertolucci. O francês Paul Morand. O espanhol Juan Goytisolo. O também espanhol, nascido em Tânger, Ángel Vázquez, autor do cativante La vida perra de Juanita Narboni, retrato social melancólico do estatuto internacional de Tânger que chegava ao fim. O marroquino Mohammed Choukri, que viveu a maior parte de sua vida na cidade tangerina. A princesa, escritora e egiptóloga francesa Marthe de Chambrun-Ruspoli. O francês Jean Genet, o argentino Roberto Arlt, o inglês Joe Orton e os norte-americanos Tennessee Williams, Truman Capote e Gore Vidal ali passaram temporadas. Também aportou por terras tangerinas a beat generation: Jack Kerouac, William Burroughs e Allen Grinsberg.

            Entre os pintores temos os franceses Delacroix, Matisse e Degas, e os britânicos Francis Bacon e George Apperley – este último residiu em Tânger de 1932 até sua morte em 1960.  A milionária norte-americana Barbara Hutton, uma das esposas do ator Cary Grant e uma das mulheres mais ricas do mundo na época, tinha o palácio de Sidi Hosni, na casbá, onde passava os verões e costumava dar festas para a alta sociedade internacional. Vale citar que Ibn Batouta, o lendário viajante, nasceu em Tânger em 1325 e, em plena Idade Média, percorreu mais de 40 países, iniciando sua viagem com o hadj, aos 21 anos.

            Talvez um dia o leitor queira tomar um chá verde com hortelã no Café Hafa (fundado em 1921), no bairro do Marshan…

25-10-2013

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado pelo jornal “Correio Popular” de Campinas/SP em 5 de novembro de 2013

 

 

 

 

 

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3 Respostas to “A Mítica Tânger dos Anos 1940/50”

  1. Robert de La Bucetière Says:

    Saudades do Marrocos, hein, Basco? Dá quase pra pegar com a mão 😉
    Saudações da Grande Umidade!


  2. Saudades de você meu amigo.abraços

  3. Priscila Olante Says:

    Eu quero!!!


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