Julgamento Político

dezembro 4, 2013

 

Julgamento Político

 

            Dirceu e Genoino autodenominam-se presos políticos. Não são presos políticos. São políticos presos. Mesmo porque são políticos que infringiram a lei. No entanto, o julgamento foi político. Não resta a menor dúvida: o julgamento e condenação do mensalão foi uma manobra política. Essa afirmação surge da pergunta: por que membros corruptos de outros partidos nunca foram condenados anteriormente e contaram com a benevolência das autoridades? A resposta (ou justificativa): sempre tem de haver um começo, e a consequente declaração de que se trata de um divisor de águas entre a tradicional impunidade brasileira e os novos tempos. Mas, sem condenar a condenação, essa condenação soa tendenciosa. Por que anteriormente peças como Maluf ou Sarney, entre tantos outros, não foram sentenciados? Porque não havia interesse, por parte das elites, que eles fossem condenados. As elites, para proteger seus interesses, sempre varrem a sujeira debaixo do tapete ou, como se costuma dizer, encerram o assunto com pizza, para que os privilégios dessa classe não sejam afetados. Logo, as falcatruas e corrupção dos tucanos do PSDB, por exemplo, foram e serão tacitamente esquecidas.

            Na realidade, as elites, ainda assombradas pelo fantasma do socialismo, nunca perdoaram a ascensão e o governo do PT. Isso é um fato. Exatamente como essas mesmas elites não perdoam Chávez, Maduro, Correa ou Morales e fazem tudo o que podem para desestabilizar os governos da Venezuela, do Equador e da Bolívia, o que também aconteceu no Chile de Allende. Não perdoam porque essas classes dominantes não querem perder os privilégios naturalmente ilegais que detém há séculos. Daí a campanha da mídia – que pertence às elites – para solapar esses governos, no fundo timidamente sociais e não propriamente socialistas. É significativo que essa mídia – tipo Globo no Brasil, absolutamente fascista – invoca tendenciosamente a liberdade de expressão. É de se perguntar se impingir a uma nação uma visão única e distorcida da realidade é uma forma de liberdade, ou de democracia, ou se trata de um velado totalitarismo mediático.

            Em verdade, não se trata de defender o PT. Mas apenas de ser objetivo e honesto. O PT, que se revelou uma decepção para milhões de brasileiros justamente pela falta de transparência e pelas tramoias idênticas às dos outros partidos (que só visam ao poder), acabou muito bem encaixado no sistema neoliberal. E o cidadão consciente não pode admitir que um sistema criminoso torne a economia déspota, totalitária e autocrata. A famigerada economia onipresente que rege a vida do cidadão como se ele fosse um fantoche. Que soca consumo no individuo goela abaixo como se faz (ou se fazia) com os gansos para estufar o fígado para a fabricação do foie gras. E, curiosamente, a religião, que supostamente deveria defender a ética e os valores humanos, é conivente com esse sistema onde a economia foi consagrada Deus todo-poderoso ou Santa Meretriz que rege nossa sociedade, ou seja, a vida das pessoas. A ponto de elas abandonarem os idosos nos asilos, porque essas pessoas só têm tempo para trabalhar e ganhar dinheiro e para consumir como porcos e competir como máquinas. Ou largar os bebês em mãos estranhas, porque essas pessoas só têm tempo para trabalhar e ganhar dinheiro para consumir como porcos e competir como máquinas. Ou não fazer filhos, porque os filhos requerem tempo e despesas e o tempo deve ser dedicado a ganhar dinheiro para consumir como porcos e competir como máquinas. Em suma, a economia virou um pesadelo na vida dos seres humanos. Mas eles estão tão narcotizados pela perversidade do sistema que eles nem percebem. Que é justamente o que o sistema econômico neoliberal quer. Isso sem contar que o neoliberalismo fomenta a miséria e, portanto, a violência. A miséria é um atentado aos direitos humanos. E quanto mais desigualdade social, mais miséria, logo, mais violência. Quanto à cultura de massa gerada pelo neoliberalismo, trata-se de lixo endereçado a débeis mentais e causa náusea ao cidadão de bom gosto. Que belo mundo de safados e de imbecis que dizem amém…

            Mas, retornando ao início deste texto, resta esperar, neste nosso País onde as mudanças são exasperadamente lentas, frouxas e tímidas, que o julgamento do mensalão do PT seja de fato o início de uma nova era realmente democrática na Justiça.

24-11-2013

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado pelo jornal Correio Popular de Campinas em 03/12/2013

             

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2 Respostas to “Julgamento Político”

  1. Robert de La Bucetière Says:

    É, meu caro. É triste mas é isso. A mesma máquina (e mecanismo) que mantém a roubalheira que interessa é aquela que grita contra a “ditadura” cubana mas negocia avidamente com a chinesa, que mantém duzentos e lá vai pedrada “centros de reeducação”, onde nego pode ser enfiado para 4 anos de trabalhos forçados. Onde são fabricados nossos lindos ipads por trabalhadores que se suicidam. Cada idiotinha de nós que compra um ipad está botando pilha na máquina de moer chinês (e eu, se não tenho um ipad, tenho um nokia e samsung e dell, que movem a mesma cadeia de chacinas por terras raras e congêneres).
    Cada filho da puta que compra um lindo colar de brilhantes bota pilha no mercado internacional infame de pedras preciosas, que mói africanos há uma centena de anos (e essa é só a ponta do iceberg da moenda diamantina, porque os caraminguás dedicados à sua aquisição são frutos de sua própria cadeia de voracidades). Ninguém tá nem aí, meu caro.
    Nós fomos transformados em mini-filhos-da-puta, porque ensinados a não prestar atenção. Ensinados a passar reto pelo pedinte na rua, vagabundo, como vagabundos são esses folgados do bolsa-família, fazendo filhos para receber a esmola governamental. Filhos da puta que comemos carne da Friboi, com o peludão Ramos anunciando suas virtudes enquanto se oculta a máquina facínora (de toda a grande cadeia industrializadora de cadáveres, não somente a Friboi) que massacra seus operários e tem um dos maiores índices de rotatividade funcional e de licenças/aposentadorias pelo SUS.
    Viramos pequenos filhos da puta, Roldan. Você, eu e grande parte dos bípedes ao redor, e não queremos nem saber. Porque queremos energia e não ouvimos os índios, os trabalhadores, as comunidades tradicionais, todos, gritando por socorro frente à barbárie perpetrada pelo grande poder econômico, que é o que importa e manda. Quero meu iogurte e foda-se o resto.
    Por isso, meu caro, repita pela manhã: Cuba é uma ditadura, só lá. Aqui não, aqui somos livres. Nos Estados Unidos há uma democracia, há igualdade. A fome, grassa na África e em alguns grotões do Brasil – mas cá, somente porque são uns vagabundos, porque nessa terra, plantando tudo dá. Famintos, nos USA? Doentes, aos milhões? Imagina, imprensa vermelha. Eu quero é o meu. Enquanto a máquina de moer gente não me pegar, vou levando. E, se me pegar, provavelmente será pela moenda psíquica, destroçando minha capacidade de ser humano, empurrando-me a comprar pílulas e pílulas que me ajudem – e aos meus filhos, Ritalina neles! – a continuar caminhando na estrada cheia de destroços, cadáveres humanos e inumanos, esperanças rotas, mentiras repetidas à exaustão, desejos fomentados à exaustão, ignorância fomentada à exaustão.
    Viramos, meu caro, todos, máquinas. Se tivermos asilo quando de nossa obsolescência, deo gratias. Porque nem isso podemos esperar, nós que somos mais jovens. Você, ainda pegou a época dos asilos. Nós, não. Ou nos viramos ou nem asilo teremos, é rua e vá comer merda. E torcer pra não ficar doente, porque aí vai estar cheio de neguinho defendendo a “ética”, a “moral” e o caralho a quatro que impede de um canceroso adulto lúcido de escolher a hora de sua morte, dentro de um processo que resguarde alguma dignidade e honradez a seus atores. Que gritam estupidez irmã desta quando chegam ao país médicos de Cuba (ah, comentei que lá é uma ditadura?) a atender nos fundões aos quais ninguém quer ir. Nos fundões não há platéia pra iphones, Basco, platéia que aprecie devidamente nosso sucesso nessa máquina de moer gente.

  2. Bruno Goudet Says:

    Aguardemos os próximos passos na investigação e punição do “Mensalão Tucano”. Em relação à cultura de massa atual, li recentemente “A Sociedade do Espetáculo” do Vagas Llosa e achei bem interessante seu ponto de vista. Abraço.


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