Três Poetas Franco-uruguaios

fevereiro 8, 2014

 

Três Poetas Franco-uruguaios

 

 

            O Uruguai está na moda. Após chamar a atenção do mundo com a legalização do uso da maconha – o aborto e o casamento homossexual haviam sido previamente legalizados – agora pretende regular o álcool e a propaganda e limitar a compra de terras por empresas estrangeiras. Todas essas medidas tornam o país, sob certos aspectos sociais, o mais avançado das três Américas junto com o Canadá. E isso graças ao presidente Mujica, um grande homem que certamente não se guia pelos conceitos fascistas da déspota Margaret Thatcher.

            É curioso notar que o Uruguai foi, depois dos EUA, o país que mais imigrantes franceses recebeu nas três Américas na primeira metade do século XIX. Em 1842, 52% dos imigrantes no Uruguai eram franceses. Em 1843, havia 15 mil franceses no Uruguai, ou seja, um terço da população de Montevidéu, de acordo com algumas fontes. Portanto, não é de se estranhar a influência francesa no país: na política, nas artes e na arquitetura. E é interessante ressaltar que o Uruguai deu três grandes vultos da literatura francesa à França. Ou seja, os poetas Isidore Ducasse, Jules Laforgue e Jules Supervielle. Os três nasceram no Uruguai e escreveram suas obras em francês, na França.

            Isidore Ducasse (mais conhecido como Conde de Lautréamont) nasce em Montevidéu em 1846 e morre em Paris em 1870. Filho do chanceler do consulado francês em Montevidéu, Isidore perde a mãe (há suspeitas de que ela se suicidou) quando ele tinha vinte meses. Pouco se sabe sobre sua curta vida, que permanece um mistério até agora. Em 1859 o pai o manda para a França para estudar num colégio interno. Morre aos 24 anos, sozinho, em seu hotel. As causas da morte são desconhecidas – certos biógrafos alegam que ele estava tuberculoso, mas não há provas. Foi enterrado provisoriamente no Cimetière du Nord. Em 1871 seu corpo foi transferido para outro lugar, de novo provisoriamente. Foi exumado uma terceira vez e hoje não se sabe mais onde repousam seus restos mortais. É chamado de “o poeta sem rosto”, pois nada prova que as fotos a ele atribuídas sejam de fato dele. Se sua vida foi um mistério, sua obra é um enigma. Os Cantos de Maldoror, seu longo poema em prosa é inqualificável e foge a qualquer rótulo. Instigante e perturbador, é um assombro que desafia qualquer leitor. Lautréamont é considerado precursor do surrealismo e se insere na linhagem dos grandes poetas malditos franceses, como Villon e Rimbaud.

            Jules Laforgue nasce em Montevidéu em 1860 e morre em Paris em 1887. Em 1866 sua família retorna à França. Em 1882 vai para Alemanha como leitor da imperatriz Augusta, esposa de Guilherme I. Publica seu primeiro livro, às suas custas, em 1885. Em 1886 casa-se com a inglesa Leah Lee em Londres e passa a morar com ela em Paris. Falece de tuberculose aos 27 anos. Elementos dispares influenciaram sua obra: Schopenhaur, Taine, Heine e o budismo. Há uma ironia amarga em sua poesia. É autor, entre outros livros, de L´Imitation de Notre Dame de la Lune. Traduziu Walt Whitman e foi um dos primeiros poetas a escrever em verso livre. Influenciou Pound, Eliot e Drummond de Andrade.

            Jules Supervielle nasce em Montevidéu em 1884 e morre em Paris em 1960. Seus pais falecem quando ele tinha apenas meses de vida. É criado, como filho, pelo seu tio Bernard, irmão do pai. Em 1894 seus tios se instalam em Paris, onde Jules fará seus estudos secundários e universitários. Casa-se com Pilar Saavedra, uruguaia, e tem seis filhos. Durante a Segunda Guerra, exila-se no Uruguai onde vive de 1939 a 1946. Fica longe do movimento surrealista que imperava na primeira metade do século XX. Escreve em francês, mas na tradição espanhola. Em sua poesia há o sentimento do deslocamento, já que se sentia dividido entre duas pátrias. É autor, entre outros livros, de Le forçat inconnu. Ao contrário de seus conterrâneos Lautréamont e Laforgue, sua existência não foi curta e trágica, foi reconhecido e aclamado em vida, e se sentia tão francês quanto uruguaio.

23-01-2014

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado no jornal Correio Popular de Campinas/SP em 4 de fevereiro de 2014

 

 

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Uma resposta to “Três Poetas Franco-uruguaios”


  1. Adoro esse lugar. Uruguai é um lugar sorrindo para a alegria


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