O Melhor Cinema do Mundo

março 8, 2014

 

O Melhor Cinema do Mundo

           

            Assistindo a A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, é impossível não se lembrar da grande fase do cinema da Itália dos anos 1960/70. A Grande Beleza bebe, por assim dizer, na rica tradição do cinema italiano. Remete-nos com seu esplendor visual e sua busca do tempo perdido a Visconti (que era profundamente proustiano) assim como nos remete à Roma de Fellini. Detentor de vários prêmios importantes, entre eles o Globo de Ouro e o Bafta britânico e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, A Grande Beleza, sem dúvida o melhor filme exibido em Campinas em 2013, também nos leva a uma nostálgica viagem, pela Roma atual, à procura da inocência perdida do primeiro amor, numa idade cínica em que o protagonista consome amor (ou sexo) como quem já não acredita mais nele.

            Assim, é inevitável não recordar uma época de ouro cinematográfica num país que teve uma plêiade de grandes talentos. A Suécia tinha um Bergman. A Espanha, um Buñuel e um Saura. A França, um Resnais e um Godard. A Rússia, um Tarkovsky. A Alemanha, um Werner Herzog. Portugal, um Manoel de Oliveira (ainda vivo – centenário – e em atividade e um dos maiores do mundo). A Índia, um Satyajit Ray. Os EUA, um Kubrick. O Japão, um Mizoguchi, um Ozu e um Kurosawa. Mas a Itália… Ah, a Itália e suas obras-primas da sétima arte!

            Havia deuses do celulóide como Visconti, o conde vermelho, o suprassumo do bom gosto, do requinte, da sofisticação estética emoldurando a angústia do tempo, do tempo que destrói tudo. Visconti, cujo O Leopardo é um dos cinco melhores filmes de toda a história do cinema. Visconti, único, insuperável, genial, entre os maiores do mundo. O Visconti de Rocco e Seus Irmãos. De Vagas Estrelas da Ursa Maior. De Ludwig. De Violência e Paixão. Havia o inquietante Antonioni, o cineasta da incomunicabilidade. Com obras-primas como A Noite, Blow up e Profissão: Repórter. E havia o poético Fellini – exuberante e dono de um estilo peculiar a tal ponto que se criou o adjetivo felliniano para definir determinados tipos humanos, situações ou enfoques líricos. Fellini e seu Amarcod. Mas essa trindade de monstros sagrados, como se dizia, não estava isolada. Havia um cortejo de outros grandes diretores que brilhavam esplendorosamente no firmamento cinematográfico como belas constelações. Alguns, talvez, um tanto ofuscados pelo fulgor dos três maiores citados. Mencionemos Zurlini e seu Dois Irmãos. Scola e seu inesquecível Nós Que Nos Amávamos Tanto. Bolognini – que a crítica considerava um Visconti menor – com seu O Belo Antonio. Olmi e seu belíssimo A Árvore dos Tamancos.  Maselli, com Os Delfins. O Marco Vicário de As Horas Nuas. Os irmãos Taviani com A Noite de São Lourenço. As comédias de Monicelli e Risi. O Bertolucci de Antes da Revolução e O Conformista. E, claro, o perturbador Pasolini que tanto incomodava os fascistas e que – o tempo provou – era um visionário que antecipou a consciência do horror edulcorado do neoliberalismo. Pasolini e Teorema, sua obra-prima. E não cito Rossellini e De Sica, os principais expoentes do neorrealismo, porque eles produziram suas obras mais importantes nos anos 1940/50.  

            Isso sem contar o cinema engajado. Que outro país teve mais filmes engajados do que a Itália nos anos 1970? Nenhum. Houve o importante Costa-Gavras, grego radicado na França. Mas a Itália nos deu Pontecorvo e seu Queimada, um dos maiores – se não for o maior – filme político feito até agora. Montaldo com seu tocante Sacco e Vanzetti sobre os mártires anarquistas assassinados pela justiça norte-americana. Bellochio (De Punhos Cerrados), vivo e ainda em atividade. Rosi (O Caso Mattei). Petri (A Classe Operário Vai ao Paraíso) e Lina Wertmüller (Pasqualino Sete Belezas).

            E com todos esses cineastas, grandes actores como Marcello Mastroiani, Gian Maria Volonté, Renato Salvatori, Gabriele Ferzetti e atrizes fascinantes como Anna Magnani, Giulietta Masina, Alida Valli, Silvana Mangano, Antonella Lualdi, Monica Vitti, Claudia Cardinale, Lea Massari, Virna Lisi. E os “importados” Burt Lancaster, Dirk Bogarde, Jeanne Moreau, Romy Schneider, Annie Girardot, Hanna Schygulla, entre outros. E grandes compositores, como Ennio Morricone e Nino Rota. E grandes roteiristas como Suso Cecchi D´Amico e Tonino Guerra. E grandes fotógrafos, como Vittorio Storaro.

            Sim, o ótimo A Grande Beleza nos fez lembrar desse pelotão de grandes cineastas que elevaram ao pináculo a arte da imagem em movimento e que fizeram jus a uma terra de arte por excelência. E hoje, como está o cinema da Itália? Longe, longe do que foi. Embora haja o talento de um Gianni Amelio, além do de Paolo Sorrentino.

22-02-2014

R.Roldan-Roldan é escritor

www.davidhaize.wordpress.com

Publicado no jornal Correio Popular de Campinas/SP em 4 de março de 2014

                           

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6 Respostas to “O Melhor Cinema do Mundo”


  1. É um clássico. Super bom de ler seus posts


  2. Muito bom. Mas esqueceu de comentar os filmes de humor, quem sabe até mais importantes. Os mesmos atores sérios, faziam humor, mostrando filosofia como ninguém (Que diria Sartre?). Mastroiani, Gassman (esse dois os maiores), Sordi. E Tognazzi e Manfredi, etc. etc. “Brancaleone alle crociate” e “I nuovi mostri”, p.ex.

    • davidhaize Says:

      José, obrigado pelo comentário. Não esqueci de incluir as comédias. Acontece que tenho um espaço limitado para a matéria no jornal e não dá para escrever tudo o que gostaria. Mesmo assim, citei “as comédias de Monicelli e Risi”. Cordial abraço

  3. paolo Says:

    Roldan, oggi non posso fare a meno di scrivere il mio commentario e diró semplicemente che il tuo articolo mi ha emozionato e riempito di orgoglio di essere italiano .
    Dei nuovi cineasti io citerei anche Paulo Virzí.
    Grazie e un abbraccio. Paolo


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