A Hipocrisia da não Violência

abril 2, 2014

A Hipocrisia da não Violência

A hipocrisia da não violência. A julgar pelo título, dá a impressão de que o texto que segue é uma apologia da violência. Não. Em absoluto. Mesmo porque me considero pacifista. Mas não hipócrita. Ou alienado. Se se olhar de modo objetivo e imparcial, é insustentável a hipocrisia da não violência social pregada pela classe média. Repito: violência social e não violência gratuita – se bem que, com exceção dos crimes passionais, toda violência, como roubos e assaltos, por exemplo, é social, logo, decorrente de desequilíbrio social. E volto a frisar: não é minha pretensão incitar à violência. Não. Mas que moral tem essa classe média com veleidades gandhianas ou mandelianas de pregar a não violência social quando é justamente essa classe (que apóia o sistema vigente de desigualdade social no País) que causa a violência? Que direito tem essa classe social que não sabe o que é ralar para ganhar o pão nosso de cada dia de se erguer em abnegado paladino da não violência? Por acaso essa classe média sabe o que é ganhar um salário mínimo (ou mesmo dois), morar na periferia ou em favelas e passar de três a quatro horas diárias em transporte público e viver o mês inteiro com a corda no pescoço? Não, essa classe média, de uma frivolidade, de uma leviandade insuportáveis, não sabe de nada, pois é cega, burra, alienada e teima em não querer enxergar a realidade. Essa classe média que, paradoxalmente, é flácida e cruel, deveria ler um pouco de História para melhorar sua visão atrofiada. Mas é óbvio que essa classe média não quer ser incomodada, perturbada em sua vidinha egoísta. Essa classe média pelo jeito não sabe – ou não quer saber – que a moral é, em última instância, algo extremamente relativo. Ou seja, circunstancial. E que só merece respeito aquele que, em situação limite, é capaz de se manter íntegro e fiel a seus princípios. Em outras palavras: entre na lama, suje-se, para provar que você é limpo. Mas, como se diz popularmente, quando a água bate na bunda, todos os preceitos dos que vivem “pacificamente” (entre aspas mesmo) vão para a cucuia. Guarde, pois, seus panfletos “edificantes”, prezada classe média. Não, leitor, não me venha com a velha ladainha de asno neurótico que fede a falta de higiene mental. Não seja f.d.p. (flor do prado) a ponto de distorcer a verdade. Não sou comunista, sou apenas humanista, noblesse oblige. E levemente irônico. Está claro?
Kiev/Moscou/Washington. É difícil assumir uma posição definida em relação aos recentes acontecimentos na Ucrânia e na Crimeia. Principalmente quando se trata de ser imparcial, objetivo e… honesto. A Rússia – basta ler a História – tem um longo histórico de imperialismo, logo de anexionismo, desde a época dos czares até hoje, passando pela União Soviética. Por outro lado, Putin não é flor que se cheire e, apesar de muito astuto como político, tem estofo de ditador –embora ele seja necessário (paradoxo?) para manter um certo equilíbrio no mundo, no sentido de barrar a arrogância dos EUA. Mas daí a acusar a Rússia de invasão da Crimeia, é outra coisa. A Rússia não invadiu a Crimeia – foi suficientemente hábil para não fazê-lo. Houve um plebiscito e a maioria esmagadora (95%) votou pela anexação do território à Federação Russa. Logo, isso é democrático. Ou seja, foi a vontade do povo. Exatamente como foi a vontade do povo ucraniano de se revoltar e acabar com as oligarquias corruptas dos lacaios de Moscou. Portanto, que moral têm os EUA para acusar a Rússia de anexar a Crimeia? Que moral têm os EUA, um país de histórico beligerante e imperialista de protestar contra a anexação da Crimeia? Que moral tem uma nação que invadiu o Afeganistão e o Iraque? E, retrocedendo no tempo, que invadiu México, Vietnã, Honduras, Nicarágua, Panamá, Cuba, Porto Rico, Filipinas, China. Isso sem contar a anexação do Havaí, da ilha de Guam, de Porto Rico. Isso sem mencionar que ajudaram a derrubar os governos democráticos do Brasil, da Argentina, do Chile e do Uruguai para impor ditaduras vassalas de seus interesses. Em suma, e voltando ao início, se os habitantes da Crimeia querem ser cidadãos russos, é um direito que eles têm, por mais que a mídia tendenciosa diga o contrário.
23-03-2014
R.Roldan-Roldan é escritor
http://www.davidhaize.wordpress.com
Publicado pelo jornal Correio Popular de Campinas em 1° de abril de 2014

Anúncios

5 Respostas to “A Hipocrisia da não Violência”


  1. Apesar de você ter escrito essa crônica dia 1º de abril, em nenhuma linha há afirmações falsas! Como sempre, à medida que fui lendo, fui colocando meu – ok – mental em todas as suas assertivas… Disse – como sempre – porque em momento algum de nossas vidas, você falhou ou mentiu. Você só tem um defeito: fica ausente muito tempo da minha vida!


  2. Ótima reflexão, parabéns!

  3. Vagner Says:

    “Humanismo é o segredo”. Humanistas andam em falta há um bom tempo. Humanistas são confundidos, são criticados, são sufocados, são minorias… Algumas questões da “humanidade de cada dia” seriam resolvidas de forma mais fácil com uma pitada de humanismo. Roldan, excelente reflexão !


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: