Shalom, Sefarad

maio 14, 2014

Shalom, Sefarad

Recentemente, o governo espanhol promulgou uma lei que concede a cidadania espanhola a todos os descendentes dos judeus ibéricos expulsos da Espanha em 1492. Uma maneira de reparar, cinco séculos depois, uma injustiça cometida contra os sefardins (sefarditas ou sefaraditas), ou seja, contra os judeus ibéricos. Antes tarde do que nunca.
Até 1492, a Espanha era o país com a maior comunidade judaica da Europa – e, talvez, do mundo. Coroando a chamada Reconquista, os Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, com a derrota e expulsão dos mouros – o último baluarte árabe foi o reino de Granada – e a unificação da península como Estado, promulgaram uma nova lei, fruto da intolerância e do fanatismo, que decretou a expulsão de todos os espanhóis que não fossem cristãos, a menos que eles (muçulmanos e judeus) se convertessem à religião dominante, o cristianismo.
Assim, calcula-se que entre 150 e 200 mil judeus estabelecidos em Sefarad (Espanha em hebraico) havia cerca de 1.400 anos (mil e quatrocentos anos!), tão espanhóis quanto os cristãos (os árabes chegaram à península ibérica sete séculos depois), integrados na cultura e sociedade hispânicas, tiveram que tomar o caminho do exílio. Esses sefardins, artesãos, comerciantes, professores, médicos, intelectuais (o filósofo e teólogo Maimônides foi um deles) e até ministros, foram forçados a renegar sua fé e a converter-se ao cristianismo ou a abandonar sua terra havia quase um milênio e meio. De nada adiantaram as súplicas do rabino Abravanel, ministro dos Reis Católicos, para que eles revogassem a nova lei e permitissem a permanência dos judeus em Sefarad. Fernando e Isabel se recusaram a revogar a lei, mas permitiram que Abravanel ficasse na Espanha. O ministro declinou o privilégio concedido pelo casal real e preferiu seguir seu povo no exílio.
Iniciou-se assim a diáspora dos sefardins. E os judeus espanhóis partiram para o exílio. Deixando para trás 1.400 anos de raízes, de referências, de cultura. Com tudo o que o desterro implica de ruptura, de doloroso, de trágico. Por que eles eram expulsos da própria pátria? Apenas porque eram judeus. E os sefardins partiram para sempre. Alguns tomaram o rumo de Portugal, de onde foram expulsos quatro anos depois, em 1496. Outros foram para o Magreb (Marrocos, Argélia e Tunísia) ou para o Egito. Outros foram para a Itália ou para a Holanda (país que sempre foi um exemplo de tolerância, terra do grande filosofo Baruch Spinoza, filho de sefardins). Mas a maioria foi para os países que formavam o Império Otomano, ou seja, para a antiga Iugoslávia, Bulgária, Grécia e Romênia, na época dominados pelos turcos, e até para a própria Turquia. Países para os quais levaram não só as tradições judaicas, mas as espanholas, como a língua, o ladino, o espanhol que se falava em Sefarad quando eles foram expulsos. O ladino, que alguns linguistas consideram espanhol arcaico (com elementos hebraicos), enquanto outros o consideram uma língua neolatina.
Hoje os judeus sefardins estão espalhados pelo mundo. O prêmio Nobel de Literatura de 1981, Elias Canetti, era búlgaro sefardim e a primeira língua que ele falou foi o ladino, com seus pais. No Brasil – que tem mais de 100 mil judeus (o país com mais judeus da América Latina é a Argentina, com 180 mil) – a maioria é esquenazi (ou ashkenazi), ou seja, judeus originários da Europa Central e Oriental. Alguns sefardins brasileiros são famosos, como Sílvio Santos (seu sobrenome é Abravanel), o pianista Arnaldo Cohen e o cineasta Jom Azulay, entre outros. Uma pequena dica: vale a pena ouvir as belíssimas canções judaico-espanholas, em ladino, de Fortuna, cantora paulista de origem judaica.
Uma curiosidade que muitos brasileiros desconhecem. Houve, no século XIX, uma imigração de judeus sefardins, provenientes do Marrocos (especificamente das cidades de Tânger e Tétouan), que se estabeleceram na Amazônia, onde podem ser encontradas famílias com sobrenomes como Benayon, Benchimol, Benzaken, Cohen, Ohana e outros.
Shalom, irmãos sefardins.
25-04-2014
R.Roldan-Roldan é escritor
http://www.davidhaize.wordpress.com
Publicado pelo jornal Correio Popular de Campinas/SP em 13 de maio de 2014

 

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9 Respostas to “Shalom, Sefarad”

  1. Reginaldo Says:

    Kerido Roldán,
    Meldi kon plazer el teksto sovre Sefarad i los Sefardim ke embiaré a mis amigos desendientes de los ekspulsados de Sefarad.
    Saludos
    Reginaldo


  2. Que o perdão seja sagrado


  3. Vamos ver se de fato a nacionalização é permitida: lei da época do primeiro ministro Zapatero dá a nacionalidade aos expulsos ou que fugiram da época de Franco, e aos filhos, mas os consulados pedem o absurdo de que toda a documentação seja nova de poucos meses. Toda, incluindo partidas de nascimento, etc.. Ou seja, uma trava para não deixar acontecer.


  4. Estimado Roldán. Me ha emocionado su artículo. La noticia de esta rectificación me alegró mucho cuando fue publicada, aunque, efectivamente, tarde, siempre tarde. No solo los judíos expulsados llevaron su nostalgia de Sefarad por los países donde fueron acogidos, somos también muchos los españoles que, después de tantos siglos, mantenemos la nostalgia por los que se fueron. Cuando no importaron las consecuencias que aquella expulsión acarrearían al país, económicas también, pero sobre todo culturales y espirituales, es porque actuó el fanatismo religioso.
    Quedan aún muchas rectificaciones pendientes, entre ellas que se adopte idéntica medida también para los moriscos desterrados, que fue así mismo una expulsión sangrante.
    Mi deseo ferviente es que sea verdad y se cumpla cuanto antes.
    Un afectuoso saludo de Carmen Panadero.


    • Creo que no se ha escrito lo bastante sobre lo nefasto que fueron los “Reyes Católicos”, deshaciendo la integración moro-judía-española. Se los celebra en América por haberla descubierto, cuando no fué más que una acción de conquista arriesgada por un italiano. Es que todavía en España siguen reinando sus descendientes.


  5. Artigos como este seu trazem à luz fatos até então desconhecidos pela maioria das pessoas. Graças aos meios de comunicação atuais difunde-se também por toda parte do mundo, muito da história da humanidade. E você contribui para isso. A propósito, entre meus colegas de trabalho havia um chamado Benayon e até este momento eu nem fazia ideia da origem do nome.

  6. nicolas i. roldan roldan Says:

    eu gostei da literatura
    biso
    nr


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