A Mercantilização de Deus

julho 2, 2014

A Mercantilização de Deus
Durante séculos convencionou-se que Deus faz parte da religião. Está, sim, inserido na religião. Mas no fundo, Deus nada tem a ver com a religião. Deus (o que é Deus? O inominável, o inominado, o absoluto da harmonia cósmica?) está muito além de regras de comportamento individual e social. Em outras palavras, Deus existe desde que existe o mundo. E a religião foi criada pelo Homem, variando conforme a latitude e a longitude. Foi criada e estabelecida em épocas remotas em que o ser humano, totalmente ignorante, precisava ser guiado e ter alguns limites de ética impostos como regra de conduta. E isso em religiões tanto “primitivas” como “sofisticadas”, por assim dizer.
Com o passar do tempo, a essência das religiões foi se transformando. O que é lógico e natural. Já que todo poder se degrada. Com o passar dos séculos, a religião se tornou instrumento de repressão (social e sexual – já que o sexo é libertação) e de intolerância, com tudo o que isso acarreta de invasões, guerras e massacres, bastando folhar a História – atualmente 75% dos conflitos mundiais são causados pela religião. E para se manter no poder, a religião sempre se alinhou com os poderosos, com a classe dominante, com aqueles que detinham o poder e controlavam o país. Refiro-me a fatos históricos – e nada como basear a verdade focando o factual. Convém também assinalar que a repressão inclui, obviamente, o controle da liberdade mental do individuo e seu consequente achatamento intelectual. Esse raquitismo intelectual induzido abrange, entre outras restrições, a proibição da leitura de determinadas obras. Que direito tem um líder religioso fanático (logo, imbecil), de dizer a seus fieis que não podem ler tal ou tal livro? Nenhum. A religião, como todo poder fascista, entendeu logo que o melhor modo de dominar as massas era mantê-las sob o jugo da ignorância e do medo.
Tudo leva a crer que o presente artigo seja uma apologia do ateísmo. Não é o caso. Em absoluto. Trata-se de separar o joio do trigo. Ateísmo, que os fariseus, pobres cretinos desertados pela Razão, ainda consideram coisa de demônio (o que é o demônio senão o próprio Homem?) e o agnosticismo são coisas totalmente diferentes. Do mesmo modo que muitos obtusos ligam a espiritualidade obrigatoriamente a Deus. A espiritualidade e a transcendência podem ser laicas, o que eleva a um nível superior aqueles que não precisam se apoiar nas muletas de Deus para atingir um alto grau de elevação espiritual. Tenho em casa a Bíblia, o Alcorão, o Talmude e o Dhammapada. Livros que devem ser lidos com distanciamento, filtrando seus ensinamentos para eliminar as escórias. Agora, como cidadão humanista e livre pensador (termo que já não se usa) não posso admitir os abusos, a desfaçatez e o cinismo de determinadas instituições religiosas tão coniventes com as injustiças do pragmatismo neoliberal do sistema mundial. Ou seja, a pouca vergonha da apologia do dinheiro em detrimento dos valores humanistas e éticos. Cabe aqui ressaltar, novamente separando o joio do trigo, que religião é uma coisa e instituição religiosa é outra.
A construção em São Paulo do (novo) templo de Salomão, da Igreja Universal, é um eloqüente exemplo dessa impostura. Em outras palavras, nada mais repelente do que essa ostentação (do Diabo, será?) faraônica. A comercialização de Deus e de Cristo pelas igrejas neopentecostais é uma aberração, uma degradação da essência do cristianismo. A mercantilização que promovem essas igrejas é a profanação de Cristo e de Deus. Isso sem contar que, socialmente, é uma afronta aos milhões de miseráveis do País. Será que esses pilantras, safados, charlatães, impostores, detentores dos lucros estratosféricos da indústria de Cristo, se esquecem de que Cristo era pobre e de que ele expulsou os mercadores do Templo?
Infelizmente o governo, que deveria taxar as instituições religiosas como taxa as outras corporações, que deveria promover a laicidade absoluta no País, vive, à cata de votos, bajulando algo que poderia muito bem ser erradicado com a educação. Quanto mais educação menos obscurantismo e menos manipulação do povo. E por falar em obscurantismo, o que forçosamente leva a superstição, não deixa de ser evidente o fato de os mitos religiosos terem seu tempo de vida. Em outras palavras, as religiões, como tudo, também declinam e desaparecem. A História o demonstra. Consequentemente, quando a religião passa de moda, seus mitos são mitologia. Mas quando a religião ainda está viva, seus mitos são verdades incontestáveis. Exemplos: a deusa Afrodite nasceu da espuma do mar e a Virgem Maria concebeu sem pecar. A profusão de mitos do hinduísmo pode parecer mitologia aos olhos de um cristão, um judeu ou um muçulmano, mas não para um hindu.
Em síntese, Deus é despojamento – e não riqueza. É silêncio – e não histerismo. E é a liberdade de pensamento e a Razão que dignificam o Homem.
25-06-2014
R.Roldan-Roldan é escritor
http://www.davidhaize.wordpress.com
Publicado no jornal “Correio Popular” de Campinas/SP em 1° de julho de 2014

Anúncios

10 Respostas to “A Mercantilização de Deus”

  1. RACHEL DOS SANTOS DIAS Says:

    Oi querido, ainda muito querido! Pelo artigo que escreveu sobre a Mercantilização de Deus, você está super hiper extra ativo e isso me deixa outro tanto feliz! Nem sei o que falar desse texto seu! Extraordinário/espetacular/pertinente/objetivo/corretíssimo etc etc etc etc etc Já o salvei e vou mandar aos meus filhos que também têm a mente aberta. Concordo em tudo. Tomara que esteja bem de saúde com seus demais… De lado de cá, vai tudo bem, graças a DEUS! rsrsrs Até de repente. Amo quando vejo você, viu? Sua sempre RACHEL bj e paz

  2. Robert de La B. Says:

    Basco, se esse seu texto não gerar sangue e porrada, será por causa da Copa.

    Uma observação e um complemento.

    A primeira, é o seguinte: pode rosnar e apontar os blasfemos que ninguém nem tá aí. Tem mil vídeos internet afora mostrando claramente a picaretagem por detrás de algumas dessas teleigrejas, e não dá nada. Cê mesmo tá falando do templo Macedônio (do indivíduo e não a região geográfica): é só procurar no Youtube para encontrar o safado dando aula de blá arrecadatório para uns asseclas, todos ao redor da piscina, tomando um uiscão e rindo dos fiéis que enrolariam no domingo seguinte. Alta técnica picaretal, comprovada e replicável.
    Freguês adepto vai defender o Edir Macedo com unhas e dentes, “ai, santo homem, blá blá blá, um apóstolo…” Os telessanguessugas não tão nem aí com isso porque os desesperados vão segurar a onda e a água não lhes bate sequer na cintura. Taí o Santo Templo construído com a grana miúda e graúda dos fiéis pra mostrar o poderio da galera. Nem os pastores nem as ovelhas dão a menor pelota pra esse tipo de rosnar aclaratório. Tá falando pro Muro das Lamentações, já era.

    Tem que bater é na tecla do PAGA IMPOSTO. Simplesmente isso. Ponto fundamental, porque não é admissível que uma organização que funciona com base no trabalho de um monte de gente, que gera negócios a torto e a direito, que essa organização não pague os mesmos impostos que o resto da sociedade. Queria muito que algum outro leitor seu, mais sabido que eu, dissesse como funciona isso na Suécia, no Japão, na Europa de um modo geral, enfim, noutros cantos, mais e menos religiosos do que nós. Mexer no bolso dos vendilhões é a jogada certeira, flecha com curare.

    O complemento é só pra te lembrar que a Igreja Católica, conquanto muito mais razoável do que os neoqualquercoisa, também faz bízines e tem que pagar imposto. A parada é menos eloquente, menos incisiva ali no cangote do fiel, mas rola bastante também. Vá assistir emissão dos caras: não é tão tosqueira (“A corrente da prosperidade do Sangue Rubro de Salomão”) mas rolam vários diferentes pedidos de “contribuição com a obra de Deus”. E muito produto, muita coisa: disquinho, estautinha, medalhinha, miuçalha. Perto dos Macedônios, uma negada amadora, porque não morde na veia. Mas a Santa Madre Igreja tá na fita, Mano Basco, olho vivo na Matriz. E, claro, tem malfeitorias da alta roda, com banco oficial e tudo o mais, o andar de cima faz das suas. Mas não era disso que falava você, certo? Ó cerne do teu discurso bate no rés do chão, onde a telecanalha ladra em busca de milhões de tostões.

    Fodeu, bro, os caras tão por cima da carne seca.
    Só o imposto salva.
    Ave César, os que vão morrer te saúdam…


  3. Ainda bem que me considero fora da leva de religiosos fanáticos e obtusos mencionados em sua crônica. Pena que seja grande a parte que continua dominada pelo medo do mergulho nas águas profundas da razão. Não leem senão futilidades e mesmo assim de tudo que é lido fazem descabidas interpretações. Porém, aí está sua crônica recheada de luzes convidativas à reflexão e assimiláveis pela clareza da exposição. Quiçá essas luzes alumiem muitos caminhos.


  4. Muito interessante e direto. Apenas gostaria de comentar que Jesus nunca foi pobre, esta é mais outra invenção da ocasião para vender uma imagem de pobre coitado, que aliás não cabia e não cabe, basta raciocinarmos e colocarmos a razão para funcionar, e não a emoção.
    Sucesso.
    Querendo apreciar uma leitura um tanto quanto diferente sobre histórias bíblicas:
    http://wallacecarlis.blogspot.com.br/
    Será um prazer.


  5. Rod, fabuloso artículo. Totalmente de acuerdo. En esa utilización que el hombre hace de Dios, pone las religiones a su servicio y a su conveniencia. Y cuando digo el “hombre”, me refiero al varón de la especie, pues ha utilizado las religiones para mantener a la mujer sometida.
    Y Dios dejaría de serlo si fuese injusto. Si no atribuyesen al Altísimo lo que solo son intereses de los hombres, Dios podría salir más airoso.
    Gracias por brindarnos tan magnífica reflexión. Saludos


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: